Amarga Distração
5 O silêncio do teu abraço
Notas iniciais
Enjoy it!! :D
Jane chegou com sua mãe, a quem havia dado uma carona, e resolveu primeiro tomar um banho antes de ir jantar com Maura. Tal banho era mais para se preparar para a conversa que vinha pela frente, apesar do calor que fazia em Boston naquele dia.
Já embaixo do chuveiro, a detetive tentava montar a possível conversa em sua mente enquanto se ensaboava. Já prevendo o que Maura iria lhe dizer, procurava aprontar suas respostas, pensava em conselhos que poderia dar à legista e também em possíveis “indiretas” para fazer sua cabeça (o que seria praticamente impossível) e tentar fazê-la esquecer Charlie Miranda. Só de pensar que sua amiga estava apaixonada por aquela mulher lhe dava arrepios de raiva e, confessava, ciúmes também. A detetive ficou mais de quarenta minutos perdida nesses pensamentos, o que fez com que Angela batesse à porta:
- Jane Clementine Rizzoli, saia já desse banho! Tommy está aqui com T.J e precisa usar o banheiro!
- Não me diga que ele vai tentar afogar, digo, dar banho sozinho no T.J. de novo?!! – gritou Jane.
- Como é que é?? – Angela pergunta assustada, pois não sabia nada dessa história de Tommy ter quase afogado o filho quando tentou dar banho nele sozinho há alguns dias. Se não fosse Jane ter chegado na hora, o pobre T.J. seria mais um anjinho no céu!
- Nada não mãe, tô saindo!
Enquanto se arrumava, Jane praguejava mentalmente contra Charlie e, sem perceber pegou um frasco de perfume antigo que havia ganho da mãe (que por sinal nunca tinha usado) e espirrou no pescoço e nos pulsos. Ao se dar conta do que tinha feito, sussurrou consigo mesma: “Ok Jane, estou começando a desconfiar que a pirada aqui é você, não Maura. Primeiro repara na boca dela, depois finge consertar um fecho de gargantilha só para tocá-la, e agora passa perfume, coisa que há séculos você não faz! E ainda deu de falar sozinha...”.
A morena passou pela sala, cumprimentou Tommy e brincou um pouquinho com o sobrinho. Não era fã de crianças, mas T.J era o bebê mais fofo que já vira. Dispensou o chamado de Angela para jantar, avisando que comeria junto com Maura, e saiu. Após apenas alguns passos estava em frente à porta da cozinha da amiga. “É, chegou a hora!”- pensou — e abriu a porta.
O cheiro de comida invadia o ambiente e fez com que o estômago de Jane roncasse alto. Maura preparava um simples macarrão ao molho sugo e bebericava uma taça de seu vinho preferido, Pinot Noir, ao som de música clássica. A detetive parou logo ao entrar e se pôs a observar a mulher à sua frente. Maura estava com um vestido azul, simples, e os cabelos soltos muito bem penteados, que a deixava, como dizia Jane, “parecendo estar sempre pronta para uma sessão de fotos”. O vestido valorizava bastante o bumbum da loira, coisa que Rizzoli reparou quase que instantaneamente. “Oh God, como ela é linda! Miranda certamente não merece uma mulher como esta!” – Pensou antes de se aproximar de mansinho por trás da legista e sussurrar em seu ouvido:
- Quero só ver se o gosto desse macarrão está tão bom quanto o cheiro!
Já se preparou para segurar a taça de vinho, achando que Maura se assustaria como aquele dia na varanda, mas a loira apenas se virou e riu, apontando para a porta de um dos armários.
- Não funcionou desta vez Jane, te vi chegando pelo reflexo no vidro. E a propósito, o macarrão não estará bom como o cheiro. Estará melhor!
- Humildade mandou lembranças viu?!! – Jane provocou já abrindo a geladeira em busca de cerveja. Precisaria disso antes da temida conversa.
- Vai encontrar alguém mais tarde? – Maura perguntou de supetão.
- Não, por quê? – a morena estranhou a pergunta.
- Você passou perfume!
- Ah... é que eu... minha mãe derrubou... vai demorar muito pra ficar pronto? A Suze já está reclamando! – Jane mudou rapidamente de assunto, tentando evitar mais explicações.
- Suze??
- Sim, minha solitária! – a morena aponta para sua barriga.
- Hahaha – Maura ri ironicamente — Está quase pronto! Pode, por favor, colocar a mesa enquanto termino aqui?
- Sim senhora!
- A propósito, gostei do perfume...
O jantar transcorreu sem maiores problemas. As duas relembravam casos antigos e riam de uma coisa ou outra. Maura parecia mais alegre agora do que nos últimos dias, mas Jane achou ser apenas efeito do vinho.
- Lembra daquela vez em que te emprestei meu vestido e fiquei com sua roupa? Me perguntava como seria se me vestisse assim sempre. Se em apenas algumas horas fui cantada por duas mulheres, imagino como deve ser com você todos os dias. As mulheres caem aos teus pés! Tanto que você não resistiu e resolveu experimentar esse outro lado da vida. – A loira deu uma piscadela enquanto ria.
Jane havia sido cantada por uma estagiária do departamento, durante o caso em que ela teve que se passar por lésbica. Irritada com o grudento Jorge, das aulas de Ioga, a morena trombou com a garota num corredor após apagar praticamente bufando o enésimo e-mail recebido dele. No clima do caso, Jane não tirava da cabeça as palavras daquela loira, dona do bar e suspeita do caso: “Se você se sentir aventureira...”. E se sentiu. Horas depois Maura flagrou a detetive e a estagiária aos beijos em um canto do estacionamento enquanto retocava o batom pelo retrovisor de seu carro. Viu a garota puxar Jane para dentro de um carro e sair, deixando a legista na certeza de que a aventura da morena continuaria em outro lugar. Talvez numa cama, ou no carro mesmo.
- Hey mocinha, não se esqueça que você também ficou toda empolgada com aquele caso do bar. Lembra que você esqueceu aberto e eu vi seu perfil naquele site de relacionamentos gay? Aproveitou que estava fazendo o meu pra poder se inscrever também. Mal sabia eu que a recatada Srta. Legista Maura “Wikipédia” Isles já tinha experiência nesse “outro lado da vida”! – Jane zombou imitando a fala anterior da loira fazendo aspas com os dedos
Maura havia tido sua primeira experiência com uma mulher ainda na faculdade. Era daquele tipo de aluna nerd que corrigia até os professores, por vezes acabava afastando os colegas por conta de sua inteligência e também os atraía, principalmente em época de provas, pelo mesmo motivo. Sempre envolvida com os estudos, namorava pouco e era apelidada por alguns de “Hermione”, clássica referência à bruxa brilhante de Harry Potter, saga que começava a fazer sucesso na época. Numa tarde, após uma aula de revisão para a prova de Anatomia, a professora chamou Maura e lhe disse para passar em sua sala mais tarde, pois tinha algo que certamente a ajudaria na prova. A loira estranhou, pois a Srta. Lisbell não era do tipo que gostava de ajudar os alunos, muito pelo contrário, costumava ferrar muitos deles em suas dificílimas provas. Algumas horas depois, Maura adentrou a sala da professora e a encontrou sem seu habitual jaleco, apenas de jeans e uma regata, roupa que também não era comum vê-la usando e que, apesar de simples, a deixava sexy. Ao indaga-la sobre o que havia lhe dito na sala, Maura recebeu como resposta um beijo. Surpresa e principalmente assustada, tentou se desvencilhar e disse que estava ali somente para saber sobre a prova, mas se arrepiou involuntariamente quando Lisbell tocou seu ponto fraco, a nuca.
- Ora Maura, relaxe! Em anatomia, nada melhor para a aprendizagem do que a prática! – disse a professora agora passando a mão descaradamente pela coxa da loira.
A até então toda certinha Maura Isles resolveu não resistir mais, e simplesmente se deixou levar. Havia aprendido que sexo libera Imunoglobulina A, evitando resfriados. É, professora, isto certamente a ajudaria muito na prova. Não podia arriscar ficar doente no dia, não é?
- Ah minha cara Jane, e você acha que eu não percebi você olhando para os meus seios naquela noite?
- Mas o quê...? Foi você quem debruçou em cima de mim daquela maneira, naquele uniforme de garçonete que mostrava mais do que cobria. Eu apenas virei a cabeça para falar com você e de repente eles estavam ali, bem na minha frente! – disse a morena indignada.
- Ok Jane, vou fingir que acredito! Mas fique sabendo que fiquei decepcionada por você ter apenas olhado. Sim, eu debrucei de propósito, porque naquela época, confesso, eu estava a fim de você! Foi por isso que me empolguei com aquele caso. Fiquei com ciúmes daquela estagiária atrevida dando em cima de você, e quase saí do carro para acabar com a festa quando vi vocês duas no estacionamento. Cheguei até a dizer ao chato do Jorge que você era gay pra ele também sair do meu caminho, e deixei de propósito meu perfil aberto pra você vê-lo e quem sabe ligar os pontos. Mas pelo visto você não percebeu, ou fingiu que não, e eu com medo de falar e estragar nossa amizade, acabei me conformando.
A Detetive ficou sem reação e não respondeu. Como assim Maura estava a fim dela? Como não havia percebido isso? E por que diabos estava sentindo aquilo que achava que sentia pela legista só agora? Damn it Jane, você não dá certo no amor nunca, hein?!
Maura se levantou e começou a retirar os pratos da mesa. A tensão tomou conta do ambiente, e pelo visto aquele era o começo da conversa. Jane, ainda chocada com a confissão da legista, torcia mentalmente para que estivesse errada sobre Charlie e repassava o “roteiro” que havia criado no banho para tentar fazer a amiga acreditar que aquilo era apenas uma paixonite passageira.
- Mas isso é passado! – continuou Maura sentando no sofá e fazendo sinal para a morena sentar-se ao seu lado. – E chegou a hora de você saber o porquê de tudo que vem ocorrendo nas últimas semanas. Saber não, apenas obter a confirmação, pois mesmo na brincadeira você acabou acertando. Sendo minha melhor amiga eu já deveria ter contado há mais tempo, mas resolvi esperar e ter certeza absoluta do que está acontecendo, do que estou sentindo.
Jane já sabia o que vinha pela frente, mas mesmo assim começou a ficar apreensiva. Insistiu tanto com Maura para que ela lhe contasse, mas agora já não tinha certeza se queria mesmo ouvir aquilo.
- Vou direto ao ponto, não quero e nem posso mais enrolar. Sim, eu estou apaixonada. Apaixonada por uma mulher linda, uma detetive que, mesmo durona e mal-humorada às vezes, conseguiu me conquistar com seu olhar, com seu sorriso, com sua personalidade. – Maura segurou a mãos de Jane entre as suas, as acariciou e sorriu – Eu me apaixonei por Charlie Miranda, Jane.
A cada palavra da legista a morena nutria a falsa esperança de que não fosse Charlie a quem a amiga se referia, mas sim ela, Jane. Queria que fosse tudo um mal-entendido, e Maura ainda gostasse dela.
- Uau, eu... não esperava por isso. – Jane decidiu não contar que já sabia que era Charlie. – Mas você vai contar a ela? Digo, essa Carmem Miranda exibida deve ser comprometida, ou não querer nada com você. – A morena estava nervosa, e não conseguiu evitar usar o apelido que dera à outra, um trocadilho com o nome da famosa cantora.
- Nossa Jane, precisa falar assim? Parece até que está rogando praga! — Maura sabia que essa seria a possível reação da amiga, já que esta não ia com a cara de Miranda, e tentou escolher bem as palavras para continuar. — E... não precisarei contar à ela. Bom, depois do que fez hoje no estacionamento do Departamento, é bem provável que ela já saiba e, sim, queira algo comigo.
Jane não conseguiu disfarçar o olhar de interrogação e espanto que lançou à loira, ao mesmo tempo que esta lhe devolvia um sorriso empolgado junto com olhos brilhando, típico de criança que acaba de ganhar aquele brinquedo tão cobiçado.
- Como assim? O que você quer dizer com “o que fez hoje no estacionamento” e “queira algo comigo”? Maura Dorothea Isles, a senhorita quer fazer o favor de me contar o que aconteceu? – a morena tentou esconder o ciúme que sentia, mas o tom de sua voz a denunciava, o que passou despercebido pela legista, que já estava novamente com aquele olhar vago, distraído, sonhador.
- Ah Jane, ela me esperou hoje depois que saiu do departamento, em frente ao meu carro. Me assustei quando a vi ali, mas aconteceu tudo tão rápido que não tive tempo nem para pensar. Ela disse que me observava, que sabia que eu a olhava, e entendeu o meu olhar. E assim, sem nem me dar chance para explicar, ela simplesmente me beijou. Da mesma maneira que me beijou também foi embora, me deixando ali plantada, atordoada e... feliz.
A morena ouviu atentamente até a parte “me beijou”. Depois disso, tudo o que tinha ensaiado para dizer à legista sumiu de sua mente. As palavras, as idéias, tudo se misturava com a angústia que a martelava por dentro. Angústia em saber que perdera Maura para uma detetive exibida e sedutora, que havia desperdiçado a chance de ter a loira em seus braços enquanto pensava apenas em solucionar os casos e prender assassinos. Se odiou por ter sido tão burra a ponto de não perceber nada, por fazer piadas sobre seu suposto namoro com ela na frente de Giovanni sem conseguir entender que, mesmo sendo uma brincadeira, aquilo significava algo para a loira. Pois é, significava, no passado. E agora, ao obter a confirmação daquilo que desconfiava, de que Maura realmente estava apaixonada, por outra, tudo virou de ponta cabeça. Pela primeira vez na vida Jane Rizzoli odiou estar certa.
Maura terminou de falar e olhou para a detetive, esperando alguma reação sobre o beijo que Miranda lhe dera, mas se deparou com uma expressão incógnita. Ainda segurava as mãos de Jane entre as suas e sentiu que estas a apertavam. Depois de certo silêncio, ia perguntar à amiga o que achava do que havia acabado de lhe contar quando a morena de repente a abraçou. Achou estranho, pois Jane geralmente não gostava de abraços, mas pensou que naquele momento fosse a maneira dela lhe dizer que a apoiava, que mesmo não gostando de Charlie queria que fosse em frente, que ficasse com ela, e retribuiu. Mas a verdade daquele abraço era, para Jane, a certeza dos seus próprios sentimentos. A abraçou pois queria saber se aquilo que nutria por Maura era sólido, real, ou apenas uma estranha reação aos últimos acontecimentos. Torceu para que fosse a 2ª opção, mas ao sentir as mãos da loira em seu cabelo e tê-la ali por uns poucos segundos tão perto de si, não teve mais dúvidas. Havia aos poucos se apaixonado por sua melhor amiga, e seu coração não poderia ter escolhido pior hora para isso.
- O que foi Jane? — ao se soltar da amiga, Maura reparou que uma pequena e solitária lágrima teimava em tentar cair de seus olhos.
- Nada não Maura, apenas estou feliz por você. Feliz por saber que é correspondida, mesmo que seja por Miranda. Acho que meus hormônios hoje não estão colaborando. Sabe como é, aquela visita mensal que recebemos, e ainda tem o Casey – disfarçou -. Mas preste atenção – Jane pegou uma mecha de cabelo da loira e a colocou atrás da orelha, aproveitando para passar levemente a mão em seu rosto. – estou de olho na Detetive Miranda. Se ela quer mesmo algo com você, espero que este algo não seja apenas diversão. E saiba que, se for, ela não me escapa. Não é porque trabalho investigando homicídios que não posso cometer um.
Maura riu e se levantou, indo em direção à mesa.
- Muito obrigada Jane! Sabia que me entenderia e que poderia contar com você. Mais uma taça de vinho? – disse já enchendo uma.
- Ah sim, claro. Temos que comemorar, afinal de contas, você finalmente desencalhou! — Disparou Jane, num falso tom de animação.
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