Amarga Distração
1 Com a cabeça nas nuvens
Notas iniciais
Passava das 2 da manhã e a Dra. Isles ainda estava na sala de autópsias. Sua mente, sempre alerta e em constante atividade, agora vagava enquanto cobria o corpo de um jovem rapaz, morto em circunstâncias suspeitas durante um suposto assalto.
– Então eu disse a ele que não importava, que eu ficaria ao seu lado e o ajudaria na recuperação da cirurgia, mas você conhece Casey e... Maura, você dá banho nas luvas antes de jogá-las fora?
A legista havia tirado as luvas e, sem perceber, as jogou numa bacia com água que havia num canto ao invés de jogá-las no lixo. Jane, que estava encostada em uma das macas esperando o resultado da autópsia olhava confusa para a amiga. Há dias Maura estava assim, estranha. Não prestava atenção direito no que os outros falavam, distraía-se facilmente e Jane jurava que tinha ouvido ela suspirar enquanto lhe contava sobre a conversa que teve com Casey na noite anterior.
– Ah... que cabeça a minha! É o cansaço Jane, está tarde e essa autópsia foi meio complicada. Vamos?
Jane não engoliu direito a história, queria insistir e saber o que havia de errado com Maura, mas se convenceu a esperar um pouco. Talvez fosse apenas isso, cansaço, afinal de contas nas últimas semanas houve um aumento drástico no número de homicídios, e elas estavam tendo muito trabalho. Foi até necessário o Departamento contratar mais um detetive e um legista para não sobrecarregar a equipe.
As duas seguiram juntas até a saída do prédio e entraram no carro de Maura. Jane estava dormindo com sua mãe na casa de hóspedes da legista, pois seu apartamento estava em reforma. Ao chegar na casa, Jane foi direto atacar a geladeira, mas percebeu que só havia leite, frutas, legumes e uma tigela com algo viscoso que ela nem se atreveu a saber o que era. Com certeza uma das várias invenções culinárias de sua mãe.
– Nada? Nem uma cerveja? Really? Ok, Maura deve ter algo comestível!
Jane abriu a porta da cozinha e chamou por Maura, mas não obteve resposta. – Deve estar tomando banho – pensou. Mas não vai se importar se eu pegar algo pra comer. A detetive praticamente limpou a geladeira e, quando já estava de saída, ouviu um barulho vindo da varanda. Mais que depressa engatilhou a arma e foi verificar. Deu a volta na casa e viu Maura só de roupão sentada em sua rede, com o olhar distante e o que lhe pareceu ser um sorriso bobo no rosto. Guardou a arma e aproximou-se vagarosamente, sussurrando em seu ouvido:
– Da próxima vez compre cerveja, ok?
Maura deu um pulo e quase caiu da rede, se não fosse Jane segurá-la.
– Jane Rizzoli, o que deu em você?? – esbravejou a doutora com a testa franzida dando um tapa no ombro da outra. – Sustos podem provocar paradas cardíacas devido à aceleração dos batimentos, que por sua vez é causada pela descarga de adrenalina liberada pelo cérebro e...
– Ok, ok, Maura, já entendi! – diz Jane ainda rindo. – E eu é que pergunto, o que deu em você? Está tão avoada esses dias! E agora esse sorriso bobo no rosto. Por um acaso viu algum passarinho verde?
– Passarinho verde? E eu lá sou de ficar vendo passarinhos Jane? Melhor eu ir dormir, e você também. Trabalhamos cedo amanhã, esqueceu? Boa noite.
Maura deu as costas à Jane e foi entrando, enquanto a morena virava os olhos com cara de “parece até minha mãe falando”.
– Boa noite Maura! Mas eu ainda vou descobrir o porquê desta sua distração. Parece até que está... apaixonada...
Ao ouvir isso Maura deu uma leve parada, mas continuou andando sem se importar. A própria Jane ficou surpresa com o que disse, pois aquilo saíra espontaneamente. A idéia de Maura estar apaixonada era tão estranha e ao mesmo tempo causava algo na detetive, uma coceirinha lá no fundo, como se fosse... ciúmes. Ela balançou a cabeça como se espantasse tais pensamentos e foi dormir.
Em sua cama, Maura pensava no que a amiga havia dito. Ah, se ela soubesse. Mas não, não poderia, pelo menos não por enquanto. Precisava ter certeza do que sentia antes de contar a ela. A causa de sua distração era morena, alta, magra, com cabelos ondulados, de personalidade forte e um olhar duro, mas ao mesmo tempo tão doce...
É, talvez estivesse mesmo apaixonada. Ah Jane, por que descobriu tão rápido?
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