Amar o Caos
20 Miséria Disfarçada de Poder
Félix chegou no fim da tarde com um maço de papéis nas mãos.
Sem dizer muita coisa, deixou as inscrições de faculdade no balcão, perto de Yuna.
— É só escolher.
Ela olhou os papéis em silêncio, sem tocar em nenhum.
— Então? — Félix perguntou. — Vai escolher o quê?
Yuna respirou fundo.
— Não sei.
O maxilar dele travou.
— Yuna… o que tá acontecendo?
Ela ergueu os olhos devagar, cansada demais para fingir.
— Eu tô cansada, Félix. Cansada de viver sufocada, de sentir que minha vida tá sempre sendo decidida por outra pessoa. Eu nem sei mais o que eu quero… porque parece que eu só existo pra acompanhar o rumo que você escolhe.
O silêncio pesou entre os dois.
Félix desviou o olhar por um instante antes de perguntar, mais frio:
— Você não me quer mais? Porque se for isso, fala logo. Eu te levo de volta pros seus pais e desapareço da sua vida.
Yuna sentiu o peito apertar.
— Não é isso…
Mas Félix já tinha vestido aquela expressão dura de novo.
— Então o que é?
Ela fechou os olhos por um segundo, exausta.
No impulso, ela puxou uma das inscrições e marcou qualquer curso.
Depois jogou o papel no balcão.
— Pronto. Assim você fica feliz?
Félix encarou a folha, irritado com a resposta.
— Eu quero que você queira alguma coisa pra si mesma.
Yuna soltou uma risada seca.
— O problema é que você acha que sabe o que é melhor pra mim o tempo todo.
Ela apertou os dedos contra o balcão antes de continuar:
— Eu posso cuidar de mim mesma.
Aquilo arrancou um sorriso debochado dele.
— Você? Uma garota criada numa bolha? Yuna, você não faz ideia do que é a vida de verdade.
As palavras bateram forte.
Mas ela sustentou o olhar.
— Talvez eu não tenha crescido no seu mundo. E ainda bem. Porque viver pisando em todo mundo pra sobreviver não é força, Félix. É miséria disfarçada de poder.
O sorriso dele enfraqueceu.
E pela primeira vez naquela discussão, Yuna percebeu que tinha acertado exatamente onde doía.
Yuna subiu as escadas sem olhar para trás.
Os passos secos ecoavam pela casa inteira, como se cada um deles abrisse mais distância entre os dois.
Félix permaneceu imóvel perto do balcão, braços cruzados, mandíbula travada.
A expressão continuava fria. Controlada.
Mas por dentro, algo queimava.
O papel da inscrição ainda estava amassado sobre a bancada. Ela tinha escolhido qualquer curso no impulso — não porque queria, mas porque queria calar aquela discussão antes que desmoronasse junto dela.
Ele soltou um riso curto pelo nariz.
— “Eu posso cuidar de mim mesma.”
A frase dela voltou à cabeça como provocação.
Félix ergueu os olhos devagar para o andar de cima.
Corajosa.
Teimosa.
Bonita quando enfrentava ele daquele jeito.
Isso irritava mais do que devia.
Porque Yuna não abaixava mais a cabeça como antes.
E no fundo, Félix sabia exatamente quando aquilo começou: no instante em que ela deixou de ter medo de contrariá-lo.
Ele passou a mão no maxilar, impaciente consigo mesmo.
Tinha dito que podia levá-la de volta para os pais.
Mentira.
Nunca deixaria.
Falou aquilo porque tinha certeza de que Yuna não iria embora.
Porque precisava acreditar que ela ainda escolheria ficar, mesmo depois de tudo.
Mas agora…
Agora existia uma rachadura.
E Félix odiava a sensação que veio junto dela.
Medo.
Não de perder uma discussão.
Não de perder controle.
Medo de olhar para Yuna um dia… e perceber que ela finalmente aprendeu a viver sem ele.
Yuna fechou a porta com força e girou a chave, ouvindo o clique seco que lhe deu uma estranha sensação de vitória. Encostou-se na madeira por alguns segundos, o coração acelerado, respirando fundo como se quisesse expulsar dele o peso da discussão.
Olhou em volta — o quarto era o mesmo, mas agora parecia um refúgio. As lembranças da última vez em que ele entrou sem pedir, impondo-se, tomaram-lhe a mente. O arrepio na pele não era só de raiva, mas também da mistura perigosa de medo e desejo que odiava admitir.
— Hoje não… — murmurou para si mesma, apertando os punhos.
Do lado de fora, passos lentos se aproximaram. O silêncio foi quebrado por um leve bater na porta. Uma, duas vezes. Depois, a voz dele — calma, mas carregada de algo que fazia sua espinha estremecer.
— Trancada, Yuna? — Felix disse, quase em tom de riso. — Interessante… muito interessante.
Pela primeira vez, Yuna sentia o peso das próprias escolhas.
Félix não era apenas forte — era orgulhoso, feito de aço e silêncio, com um passado carregado demais para ser contado de uma vez.
Carregava feridas que nunca cicatrizaram por completo, e cicatrizes que falavam mais do que qualquer palavra.
Félix deu um tempo a ela naquela noite.
Sabia que, se puxasse demais a corda, ela poderia estourar — e não era isso que queria.
Não por medo de si mesmo, mas porque temia por ela.
Temia quebrar algo que, mesmo frágil e indomado, era precioso demais para ser perdido.
No dia seguinte, Félix acordou cedo.
A noite tinha sido curta e pesada, o sono picado, cheio de pensamentos que não se calavam.
Na cozinha, o silêncio reinava — nenhum sinal do cheiro reconfortante de café fresco.
O único som que preenchia a casa era o ronco ritmado de seu fiel escudeiro, vindo da sala, como se nada no mundo pudesse perturbá-lo.
Félix encostou-se ao batente da porta e ergueu os olhos para o céu.
O azul da manhã parecia distante, quase indiferente às inquietações dele.
Era raro se permitir esse tipo de pausa, mas naquele instante não conseguiu evitar.
Pensou em Yuna.
Pensou no quanto ela tinha mexido com sua vida desde o primeiro encontro.
Ela tinha atravessado barreiras que ninguém antes ousara tocar, chegando perto o suficiente para ver partes dele que ele mesmo evitava encarar.
E o mais estranho era que ela não tinha nada a ver com ele.
Luz e sombra. Calor e aço. Duas almas que, no papel, jamais se encaixariam.
Mas, ainda assim, ela estava ali — e ele a queria perto.
Aquilo pesava.
Será que ele, com todas as marcas e durezas que carregava, seria capaz de fazê-la feliz?
Ou seria mais um naufrágio anunciado?
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