Amar o Caos
8 Fogo e Gasolina
Desde aquele beijo, Yuna não era mais a mesma.
Não era só uma estudante voltando da escola.
Não era só a menina da mercearia do pai.
Não era mais invisível.
Ela tinha acendido um fósforo.
E agora, queria ver o incêndio.
Mudou os caminhos.
Passava onde sabia que ele podia estar.
Andava mais devagar.
Ria mais alto.
E, quando o via de longe, lançava aquele olhar…
venenoso. Mortal. Afiado como lâmina.
Um olhar que dizia:
— Lembra de mim?
— Ainda sente?
— Quer fugir? Corre, mas vou te achar.
Félix, por outro lado, estava em guerra consigo mesmo.
Fazia de tudo pra não cruzar com ela.
Evitava becos, atalhos, esquinas.
Virava a cara.
Fingia que não viu.
Mas era impossível não ver.
Ela era a faísca que caminhava.
Ela era a provocação viva.
E quando os olhares finalmente se cruzavam…
o mundo parava.
Tudo ao redor sumia.
Chamas silenciosas explodiam entre eles, mesmo sem uma palavra.
E ele…
Ele perdia o fôlego por dentro, mas não deixava transparecer.
Fechava a cara.
Fingia frieza.
Mas o peito, ah, o peito estava um campo minado.
— Ela tá brincando com fogo.
— Mas eu também sou o fogo.
Até os capangas já percebiam.
Uns riam por baixo. Outros evitavam falar.
Era visível: tinha algo ali.
Algo perigoso.
Algo proibido.
Algo que podia explodir a qualquer momento.
E o bairro…
O bairro começava a notar também.
O céu se despedia do dia com cores queimadas.
Yuna andava devagar, as risadas com as amigas ainda ecoando no ar.
Félix a observava de longe, encostado no canto de um velho muro, o rosto coberto pela sombra do capuz.
Cada vez que dizia pra si mesmo que ia esquecer…
O coração desmentia com força.
Era fim de tarde.
O céu se despedia do dia com cores queimadas.
Yuna andava devagar, as risadas com as amigas ainda ecoando no ar.
Félix a observava de longe, encostado no canto de um velho muro, o rosto coberto pela sombra do capuz.
Cada vez que dizia pra si mesmo que ia esquecer…
O coração desmentia com força.
Ela se despede das colegas.
Sozinha agora.
O momento perfeito.
Ele a puxa. Sem aviso. Sem tempo pra pensar.
— Félix?!
Mas ele não responde.
A leva consigo para um beco escuro, esquecido.
Ali, entre paredes velhas e concreto frio, ele a encurrala.
A encosta com firmeza.
Os olhos dele são puro gelo — ou pelo menos ele finge que são.
— Você não devia estar aqui.
Ela o encara, ofegante, mas firme.
Não há medo.
Só aquele brilho curioso que o desarma sem esforço.
— Veio me ver de novo?
Ele cerra o maxilar.
— Eu vim te dar um aviso.
Ele se aproxima mais.
A boca quase encostando na dela.
O corpo quente, duro, dominante.
— Esse mundo aqui não é o seu, boneca. — a voz arrastada, como veneno doce.
— Você é certinha demais, mimada demais… acha que aguenta o tipo de homem que eu sou?
Ela não responde.
Só o encara.
Os lábios entreabertos.
O coração gritando no peito, mas os olhos desafiando.
Foi aí que ele cometeu o erro.
Ou talvez tenha sido o acerto.
Ele a beija.
Não é gentil.
Não é calmo.
É um beijo cheio de raiva, de frustração, de medo.
Se eu beijá-la como eu sou, ele pensa, ela vai se assustar. Vai sumir. Vai me esquecer.
Mas ela…
Ela beija de volta.
Com fome.
Com entrega.
Com vontade.
Quando ele tenta se afastar, ela puxa sua camisa com as duas mãos, sem deixar o espaço se abrir.
E é ele quem perde o controle.
É ele quem sente o mundo girar.
Quando enfim os lábios se separam, ela sorri, ofegante, como quem venceu uma guerra.
— Você devia saber, Félix… — sussurra, os olhos cravados nos dele.
— Garotas como eu também gostam de fogo.
Ele fica ali.
Estático.
Respiração pesada, o peito subindo e descendo, o plano todo feito em pedaços.
E ela vai embora.
Mas não como vítima.
Como um vendaval.
Yuna saiu do beco com as pernas tremendo.
Não era fraqueza.
Era adrenalina.
O coração parecia um tambor de guerra dentro do peito.
Ela queria rir, chorar, gritar — talvez tudo ao mesmo tempo.
O gosto dele ainda estava nos lábios.
Ela encostou numa parede mais adiante, sozinha, longe de todos.
Inspirou fundo.
Os olhos brilhando, a respiração ainda presa.
— O que foi isso…? — sussurrou pra si mesma, levando a mão aos lábios.
Uma parte dela queria correr até em casa e se trancar no quarto.
A outra queria voltar e beijá-lo de novo.
Mais forte. Mais fundo. Até ele entender que ela não ia desistir.
Era como se tivesse vencido uma batalha silenciosa.
Ele quis assustá-la.
Mas quem saiu no controle…
Foi ela.
Do outro lado do beco, Félix ainda estava parado.
Imóvel.
Olhos fechados.
Punhos cerrados.
— Merda.
Ele deu um soco seco na parede.
— MERDA!
O peito subia e descia como se tivesse corrido uma maratona.
A respiração saía quente, embolada.
Ele sentia o gosto dela ainda na boca, como veneno doce que grudou na alma.
— O que foi que eu fiz?!
O plano era simples: dar medo.
Colocar ela na linha.
E pronto.
Mas bastou um segundo. Um maldito segundo e…
A boca dela respondeu.
O corpo dela respondeu.
E ele perdeu.
— Idiota. Babaca. Estúpido. — ele resmungava, chutando uma lata velha no chão.
Se alguém da gangue visse…
Se alguém soubesse…
Mas pior do que o medo dos outros, era o medo dele mesmo.
O medo de admitir que gostou.
O medo de admitir que queria mais.
Félix não podia se dar ao luxo de querer Yuna.
Ela era o tipo de problema que ele passava a vida evitando.
Mas agora… ela tava dentro dele.
No sangue.
Na pele.
No caos.
E ele sabia — maldita seja — que ela não ia parar por ali.
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