A manhã de sexta-feira parecia bem solidária a seus pensamentos. Cada pingo de chuva visto pela janela enquanto Alex tomava seu café lhe soava como uma forma da vida lhe pedir desculpas por ter feito seu coração se iludir a toa.

Os ecos das palavras de Tobias apareceram mesmo em sonho, numa tentativa desesperada de não sumirem de vez. Tarefa árdua. Mesmo porque seria ignorar todo investimento emocional feito conversa após conversa, onde uma simples companhia de jogo se tornava algo cada vez mais especial. Então, por óbvio, aquela call não podia ser posta para escanteio.

Por mais vontade que tivesse disso…

‘Tu fica mais bonito… pessoalmente’... Uma grande placa neon, em letras vermelhas, lhe chamando de tapado. Alex não encarava aquilo em qualquer escala menor do que isso. Conhecia-o desde quando aprendera a juntar consoantes com vogais, e se esconder atrás de frases de efeito fazia muito seu grau.

‘Tu fica mais bonito… pessoalmente’... Como poderia saber? Teria o amigo se tornado um stalker, cujo objetivo é lhe constranger frente aos colegas? A última vez em que seus olhos se cruzaram tinham 10 anos! Pouco tempo, mas o suficiente para algo ter mudado.

E isso ficou claro quando abriu os olhos e deu de cara com aquele novo rapaz. Havia ganho uns centímetros a mais. O cabelo, um emaranhado de fios quase crespos, seguia volumoso como uma grande bola em torno de sua cabeça. Anos antes, teria comparado-o a um bolo de aniversário de dois andares.

Só que agora, a ação dos anos passando fizeram aquele rosto de círculo quase perfeito afinar, ganhar contornos suaves como as curvas de uma taça. Os olhos, sempre com aquele ar de cãozinho pedinte, realçaram-se com a vergonha das palavras proferidas por sua boca. E concordava demais com isso. Devia mesmo estar assim.

O fato de ter se tornado um garoto bonito podia muito bem ter feito de Tobias um carvalho seco por dentro. Olhadas das meninas, a babação de ovo em cima de sua cara de coitadinho — uma máscara para seu vazio de dentro, com certeza — a mente fraca a ponto de se deixar levar pelos papos chatos de seus novos amigos em torno das ficantes… Aquele não podia mais ser o guri gente fina que se lembrava.

Mergulhado em tantas dúvidas sem resposta, sequer se deu conta da presença de Jorge. O irmão terminava de esquentar sua xícara de café, colocando-a sob um pires em cima da toalha de pano branca do lado oposto ao seu. Estavam frente a frente, o que, por óbvio, fez com que o olhar do mais velho pousasse sobre a enigmática figura do mais novo, claramente exorbitante da realidade.

— Tudo em paz, carinha? — não podia ficar alheio àquela cena. Além do mais, o carinho e a curiosidade sempre venciam a batalha dentro de seu cérebro.

— Hã? O quê? — só então pareceu voltar ao plano terreno.

— Perguntei se tá tudo em paz.

— Mais ou menos…

— Os apelões te mataram usando o hack da Danger Army de novo?

— Não. E eu derrubei as contas deles — comentava — Eu te conto, mas se tu falar que me avisou…

De início, os botões demoraram a compreender o que diabos Alex podia estar dizendo. Porém, ao revisitar em sua mente as últimas ações estranhas por parte dele, só podia ter haver com um nome: Sandy.

Sua garganta bem quis soltar um berro debochado pela cômica situação. Só conseguiu se conter por ter recebido, quase no mesmo segundo, um olhar navalha pronto para transformá-lo em bife para ração de cachorro caso tivesse a cara de pau de continuar. Teria engolido a seco caso seu café não estivesse ali para salvá-lo pelo gongo.

— Alguém descobriu que sua “mina” tinha pernas tão peludas quanto as minhas, pelo visto… — tomava um gole do líquido cor de creme a sua frente. Perdia o irmão, jamais a piada.

— Tu é muito trouxa. Sério — Alex se viu na obrigação de levantar o dedo médio como resposta aquela afronta — Pelo menos não era um gordinho gay paulista como de certas pessoas!

— Ah, é?! Era o Ari Fontoura depois da Guerra dos Farrapos, então?!

— Mano, que nojo da tua cara!

— Era ou não, pirralho?!

— O Tobias, seu inferno! Era o Tobias!

Mais alguns segundos para ligar o nome à pessoa. Quando o fez, achou, no mínimo, confuso. Tinha em mente a figura do garoto gordinho passando manhãs e tarde grudado junto ao seu irmão, fosse jogando videogames ou conversa fora mesmo, apenas pela companhia um do outro. Não fazia seu estilo uma brincadeira daquelas.

— Tem certeza que era ele?

— Claro, ué! E eu não conheço mais a fuça dele?

— Me conta direito isso aí.

Alex, então, precisou encarar segundo por segundo da trágica noite anterior, onde sua ideia “genial” de fazer com que o rosto enigmático de Sandy ganhasse, enfim, forma. Quanto mais palavras sua boca proferia, menos acreditava na infeliz consequência delas. Era como ter tido um sonho psicodélico, cheio de luzes e cores demasiadas em cada canto, e sentí-las entrando em si uma a uma.

A expressão de Tobias lhe causava um frio na espinha. O incômodo de um beliscão dado no fundo de sua alma. Nada ali soava falso, pegadinha. O garoto lhe enfrentava com tanto afinco e certeza que, um pouco mais, teria acreditado. A última frase então… tirava sua paz interior. Julgava-o mestre dos trolladores. Sem dúvida.

A incerteza do que o futuro lhe reservava depois daquilo foi outro ponto inevitável de compartilhar com o irmão mais velho. Colocara todas as vísceras de fora em prol de algo que nem existia, uma brincadeira de péssimo gosto. Se caísse no colo dos amigos do colégio, precisaria de uma passagem para o Himalaia e uma vaga nos mosteiros de lá caso quisesse sobreviver.

Já consideravam-o elo fraco por não ter pego nem gripe, sendo enganado por um guri, então… não só seria sua cova, como o enterro inteiro.

Jorge escutava tudo enquanto colocava seus neurônios todos para funcionar. Se havia algo a ser feito pelo irmão mais novo, certamente estava nas mãos de Tobias. Assim como precisou enfrentar a barra quando aconteceu consigo, o mesmo precisava ser feito por Alex, mesmo a situação sendo mais complicada que a sua — um beijo com a amiga bonitinha de sua prima já o tinha salvado do limbo dos moleques BVs.

Ao terminar o relato, o menor pôde sentir o Everest saindo inteiro de suas costas. Afinal de contas, mesmo zoando ou pegando no seu pé, Jorge era o porto mais seguro para se confidenciar algo daquele tipo. E o fato de ter vivido uma coisa parecida reforçava ainda mais sua certeza dele ter uma solução razoável.

— Eu só queria ter certeza de que o Tobias não vai abrir a boca pra falar sobre isso com ninguém. Só… não sei como — confessava o garoto, apoiando a cabeça em sua mão direita.

— Tu não disse que marcaram um rolê pra amanhã? Então! — o mais velho apontava.

— E tu acha que ele vai?

— Ah, sei lá. Acho que sim — coçava a nuca — Se ele tava falando sério, é possível…

— Ele não tava. Claro que não — deu uma leve risada, crente em suas convicções — Foi zoação. Certeza.

— Zoação ou não, só quem pode confirmar é ele.

Jorge tinha razão. Ficar debatendo ali não levaria a lugar algum sem que os fatos todos estivessem as claras, sem nomes e avatares falsos. E também, si próprio foi quem abriu a porta para esse encontro. A força desse momento havia apenas se intensificado pelos desdobramentos da noite anterior.

Com isso, só uma coisa poderia ser feita: refazer o convite.

Um aperto na boca de seu estômago surgiu de mãos dadas ao pensamento. O que falaria? Como agiria? O que poderia surgir por parte de Tobias? Será que encararia como uma chance real de lhe expor de vez? Dúvidas que passaram a surrar sua parte corajosa do cérebro.

— O problema é ele querer gravar, e… sei lá. Fazer uma live ou coisa assim! — conjecturava.

— Então eu vou junto pra cortar as asas dele se fizer. Pode ser? — sugeriu o mais velho.

Um leve sorriso surgiu no canto da boca do menor.

— Pode crer — levava sua mão direita, outrora apoiando seu braço, com a mão fechada para fazer o cumprimento de soco com o outro.

— Só não me cai mais nesses negócios, hein? Já te falei que tarado é o que não falta por aí…

— Tá bem, tiozão — riu do próprio comentário, apesar de saber o mal passo que dera ao investir no encontro.

Por um certo ângulo, havia caído em um golpe, sim. Não se tratava de algum adulto de má fé com desejos escondidos, mas ainda tinha a sensação de ter sido levado a acreditar estar falando com alguém que não existia de verdade. Menos mal ter se tratado de Tobias, afinal, depois daquilo, certamente jogar em call com alguém não teria mais o mesmo brilho de antes.

Terminado o café, Jorge acabou por ir trabalhar, deixando-o apenas com as xícaras para lavar lhe fazendo companhia. Em outras circunstâncias, esbravejaria até a sétima geração do irmão. Contudo, sem a aula para distrair os pensamentos com fórmulas matemáticas ou conjugações verbais, pouco havia a ser feito além de ensaboar, enxaguar, secar e guardar os objetos do café da manhã.

Voltou ao quarto tão logo terminou seu breve serviço doméstico. Da porta já ficou encarando o notebook, apreensivo em abrí-lo para enviar aquela mensagem, tão estranha e sem nexo, confirmando o encontro. Causava dores em lugares que sequer sabia ser possível. Como poderia algo simples lhe deixar tão paranóico? A resposta parecia na ponta da língua, mas não conseguia decifrá-la com propriedade.

Tentou simplesmente deitar debaixo de seus cobertores e descansar seus olhos por meros minutos que fossem. Virou de um lado para o outro, mas a inquietação e o formigamento na barriga persistiram. Mais cedo ou mais tarde enfrentaria aquilo e sabia disso. O fato de ter ocorrido mais cedo apenas lhe fez sentir culpa por não ter deixado quieto e seguido falando com Sandy de olhos vendados. Um verdadeiro autoflagelo em seu coração desabrochando para o lar dos apaixonados.

E a inquietação não cessava. O ronco no estômago passava longe de ser fome: era um dos sinais de seu corpo para agir logo antes que um desarranjo se formasse e sequer um passo até a cozinha pudesse ser dado. Colocou as cobertas de lado, esticou os braços, pegou e colocou o notebook no colo, tratando de ligá-lo para, enfim, enviar a tal mensagem.

Quase deu pulos de alegria ao notar nenhuma mensagem de “Sandy” na aba de conversas. E, quando observou a hora, Alex soube o porquê: certamente “ela” estava em aula, portanto, enviar o que quer que fosse estava fora de cogitação. Um certo alívio, admitia. De repente, conversar com o avatar, mesmo que fosse em tom de brincadeira, fazia seu rosto virar um pimentão. Era ótimo evitar aproximações.

‘Eai, blz? Aquele rolê de amanhã ainda tá de pé. Vô tá no shopping perto do Mc ali pelas 11. Flw’

Um clique no enviar e estava tudo feito. Fechou as abas tão depressa que teve medo da máquina resolver dar tilt e acrescentar mais um problema em sua vida. Felizmente, foi só um susto. Menos de um minuto depois, e as cobertas voltaram a envolver seu esguio corpo com o equipamento estando melhor do que sua saúde mental.

Enquanto aguardava seus olhos cansarem o suficiente para se fechar, a pauta do dia insistentemente continuava firme e forte, fazendo questão de repetir cada segundo, cada pausa na respiração, olhar penetrante e palavra velada vindas por parte daquele cuja presença em sua vida, um dia, fez dele seu melhor amigo.

Que espécie de melhor amigo faz uma sacanagem dessas?

Ao lembrar da figura mais nova — a qual lhe remetia a uma versão mirim preta do rei Momo — um copo aparecia. Tobias não era como os outros garotos. Era uma pessoa presa ao mundo dos livros, fugindo como o Diabo da cruz de futebol e afins nas aulas de Educação Física. Cada palavra que saía de sua boca não o fazia por acaso. Tenso era o dia em que um ‘Teu cú!’ eclodia do seu peito!

Assim era Tobias.

Um firme e resistente copo.

Contudo, bastava um empurrãozinho para fora da mesa e se espatifava no chão, às lágrimas por cada gesto maldoso dos outros contra si.

Alex, então, entrava em cena, fazendo jus a todas aquelas vezes em que seus pais lhe pediam para não ser injusto nem ver injustiças sem fazer nada. Abria boca para Deus e o mundo até que algum adulto tomasse providências. Chamava isso de amizade. Chamava de cuidar de quem se quer bem.

Aquele garoto na tela do vídeo não só mudara físico, como mentalmente. Os olhos continuavam caídos como os de um cãozinho abandonado, mas a cabeça… essa só podia ser de um legítimo pitbull raivoso!

Em seu quarto, marcas dos anos dourados passados ao lado daquele ser tão estranho. O Play 2, agora queimado e posto na estante do lado esquerdo da cama, testemunha de suas noites jogando juntos; a primeira cartinha que recebeu de uma menina no terceiro ano que continuava guardada no fundo do guarda roupa… partes de um passado que ele sequer devia lembrar!

Tentando fazer sua cabeça ligar os pontos, seus olhos começaram a pesar, a imagem do quarto a ficar turva, até dar lugar a um poente alaranjado no fim de um enorme campo gramado, de um verde tão vivo que mais parecia ter sido pintado com giz de cera.

Foi girar a cabeça 90º para a direita e pôde ver um moço com carrinho de pipoca entregando um saquinho a uma menininha de cabelos crespos, vestido com sobretons de rosa e um belo sorriso cheio de restos da pipoca recém posta na boca. Virando de novo, desta vez para a esquerda, um carrossel vermelho, com cada um de seus pôneis cor de creme e detalhes em azul céu, dando lentas voltas com algumas crianças em cima às gargalhadas para alguns adultos que as observavam.

De tudo aquilo, o mais estranho era justamente os tais adultos. Todos pareciam postes em contraponto a sua figura. Seus olhos entendiam aquilo como uma ilusão óptica, sem ter certeza, porém, se o mundo havia crescido ou ele diminuído. Foi quando resolveu se olhar…

Os treze anos de idade, num passe de mágica, sumiram, tão logo se deu conta dos tênis vermelho, calção tricoline marrom e camiseta azul com listras brancas. Todos em seu corpo e parte de uma lembrança dos OITO anos!

Olhava debaixo aquelas pessoas passando de um lado para o outro. Às vezes casais, às vezes famílias; algumas dessas tinham pai e mãe, outras dois pais ou duas mães; algumas até eram só a mãe ou só o pai! Outras tinham mais caras de avós do que de pais! Mas todos com algo em comum: um pequeno a zelar. Um sorriso surgiu no canto de sua boca ao notar que nenhum dos rostos ali tinha uma marca de tristeza ou infelicidade. Se as tinham, como sua cabeça de treze no corpo de oito sabia que sim, eram mestres no esconde esconde.

Um eco começou a ser ouvido vindo por trás do lado do esmaecido sol a se despedir no horizonte. Ao tentar descobrir quem era, virou o rosto na direção do som, mas nada pôde ver. Continuava apenas ouvindo aquele timbre infantil, chamando seu nome, enquanto algumas risadas acompanhavam-na. Correr alguns metros para trás perpassando a multidão adulta crescente em seu entorno na tentativa de desvendar o mistério. E a voz não cessava em chamar.

Tentou continuar seu trajeto, mas as longas pernas indo e vindo complicam demais sua vida. Desviava aqui e ali para não acabar virando massa de panqueca, o que culminava em dar dois passos e parar. Seus olhos desejavam asas para conhecer a pessoa dona daquela voz tão familiar, mas, ao mesmo tempo, desconhecida pela ausência de um ser físico que lhe acompanhasse.

Quando finalmente conseguiu uma brecha entre um vestido vermelho de uma mulher magricela como uma cana é que uma silhueta, ao fundo, pôde ser notada. Encarando-a por alguns segundos, logo ouviu seu nome ser pronunciado vindo justamente dela. Sorriu. A sombra era feminina, com algumas chiquinhas e uma saia em torno de uma cintura levemente acentuada. Uma guriazinha, deduziu, mas não qualquer uma.

‘Sandy!’ Sua voz exclamou, eufórica, como se a visse pela primeira vez.

O sol, no mesmo instante, se escondeu de vez. Luzes vindas por alguns postes espalhados pelo pequeno parque começaram a se acender em direção a figura da garota. O pequeno Alex ouvia cada batida de seu coração enquanto via aquilo acontecendo, aguardando que finalmente o mistério fosse revelado.

Porém, quanto menos escura a silhueta ficava, mais a figura mudava. As chiquinhas sumiram, a silhueta cresceu, os cabelos se tornavam mais crespos, quase ondulados, em torno de sua cabeça, o corpo deixava de ter curvas acentuadas para ficar com linhas mais retas. E, novamente, sabia bem quem era.

Um pulo da cama foi inevitável quando Stuck With You, clássico oitentista, ecoou de seu celular indicando uma ligação de seu pai. O coração, tanto quanto no sonho, batia mais que um tambor de escola de samba. Atendeu a chamada e respondeu apenas com “Aham. Tá. Sim”, sem sequer se dar conta do que o homem queria. Não era mais importante do que saber que aquela imagem mexeu com seus brios.

Ao término da ligação, quando notou ser exatamente a hora na qual entraria em call para mais uma tarde passar ao lado de sua parceira, um frio passou por cada célula de seu corpo. A certeza de sua mensagem já ter sido visualizada era muito forte dentro de seu peito. Tanto ou mais do que aquela sobre uma resposta aguardando, fazendo cada veia no seu corpo lutar para mantê-lo em pé.

De uma coisa tinha certeza: não havia a menor condição de olhar, principalmente após o sonho. Era pedir para ser o primeiro pré adolescente a enfartar na história da medicina. Levantou, foi até a cozinha e caçou coisas para fazer. Entre encarar uma pilha de louça ou memórias perdidas, ficava com a louça. Um problema de solução mais fácil e prática.

Sandy, Tobias e o sonho que aguardassem o dia seguinte. Afinal de contas, seria o dia deles mesmo.

O problema é que cada vez que Alex olhava o relógio, mesmo quando parecia de um minuto para o outro, passava mais tempo. Na primeira vez, um alívio pelos recém completados dez minutos. Na segunda, quarenta, ainda estava tudo sob controle. Na quarta, duas horas e cinquenta e quatro minutos. Na quinta, mais de seis horas e assim seu coração foi bombeando cada vez mais que a hora de dormir se aproximava.

E quando esta chegou, foi um parto e meio para conseguir fazer suas pálpebras darem ‘boa noite’ aquele dia incômodo. Por um momento se perguntou se não estava cozinhando de tanto virar de um lado para outro da cama. Uma legítima massa de panqueca com ansiedade. Aos trancos e barrancos, entre uma imagem de Sandy e outra de Tobias, entrou em consenso com o cérebro, que lhe concedeu algumas horas de trégua antes de encarar o sábado.

Foi começar a incomodar ali pelas oito da manhã, quando, como em um despertar de coma, abriu os olhos com pressa e deu um pulo da cama. Entreabriu a cortina blackout apenas para ver os raios da manhã sorrindo para si. Acreditou piamente que seria o único momento bom de todas as horas que havia de enfrentar.

O jovem caucasiano espreguiçou-se, indo arrastando seus pés até o banheiro iniciar sua higiene matinal. Um zumbi juvenil, como se autointitulou ao dar de cara com os cabelos arrepiados e cara amassada no espelho. Dez minutos de água quente levaram consigo uma parte do luto interior, mas a raíz continuava firme e forte no coração. Mesmo dolorido, encarar Tobias se fazia muito necessário.

Por volta das dez horas trocou o pijama por uma camiseta e casaco pretos, calça jeans e um tênis, todos pegos ao acaso. Terminava de dar jeito no cabelo quando Jorge deu duas batidas na porta e, sem sequer aguardar a resposta, já foi entrando, dando de cara com a cena.

— Tua “mina” vai te achar um gato, pirralho! — não aguentou ficar de boca fechada.

— Vai tomar no teu—

— Olha o palavrão, guri! Senão eu conto pra mãe, hein?!

— Bah! Que cara chato! Tá louco!

O mais velho deu uma leve risada antes de dar mais alguns passos até o caçula.

— Pega leve com o guri, carinha, mesmo se tu não curtiu ou se foi mesmo zoeira como tu diz — aconselhou. A expressão de seu rosto, sem maiores menções a risos e deboches, deixava claro sua preocupação — Já é um saco se confessar pra alguém, de guri pra guri então…

— Ele admitindo a brincadeira idiota dele comigo já largamos pra casa. Capaz que vou fazer alguma coisa com um guri que conheço desde piá…

Jorge encarou o menor com olhar de quem vê uma cena de reviravolta mirabolante.

— Olha… Alguém tá aprendendo a virar homem! Tendo responsabilidade… Isso aí! — por mais que o tom fosse cômico, havia uma certa verdade na sua fala.

— Não graças a ti, né? Curte, comenta e compartilha foto da guria pra ver se ela topa encostar nessa barba mal feita aí e ela dando rolê com os outros…

— Ah, é assim então?! VEM AQUI, SEU PIVETE!

— QUAL É, JORGE! QUAL É! TÔ ME ARRUMANDO, CARA! SÉRIO!

Começaram, então, a correr pelo quarto atrás um do outro como uma grande caçada de gato e rato. Mesmo interrompida pelos berros da mãe para pararem de palhaçada antes de se machucarem vindos da cozinha, só cessaram quando Jorge conseguiu encurralar Alex e lhe distribuir uma farta gama de cosquinhas para aprender a não mexer com quem tá quieto.

As dez e meia, com o avanço da hora, deram cessar na brincadeira e trataram de tirar o Onyx prata da garagem, indo ao tal encontro sem sequer ter certeza se aconteceria mesmo. Jorge até insistiu para o irmão abrir o jogo e pôr um fim naquela agonia antes de gastarem gasolina até o shopping. Em vão. Alex bateu pé em cada minuto antes de saírem de casa que, mesmo se Tobias tivesse dado para trás, estariam lá para descobrir. Vencido pelo cansaço, o mais velho apenas se limitou a ser motorista.

Faltavam cinco para as onze, horário marcado na mensagem, quando ambos conseguiram uma mesa em frente ao Mc e, em pé, aguardavam pela figura do garoto. Alex, mesmo com o ar condicionado, tinha nas mãos uma verdadeira cachoeira tal qual estivesse no meio do deserto. Não saber direito como agir e falar o deixava nos cacos, pois o nó cego de meses estava prestes a se romper.

Jorge não estranhou. Podia imaginar o turbilhão de coisas passando pela cabeça do menor, recém descobrindo o mundo. Fatos que exigiam demais dele, sabia disso, mas necessários. Ainda que não desse em nada, era um momento importante e precisava ser respeitado.

— Jorge — a voz do irmão lhe tirou do transe.

— Oi — chacoalhou a cabeça, voltando à órbita.

— Pode deixar que eu converso com o Tobias, ok? Vai ver uns relógios, bonés ou sei lá o que aí que tu quiser.

O maior riu da repentina segurança na fala do menino, como se, num passe de mágica, fosse um adulto cabeça e ele um adolescente intrometido.

— Nunca vi ninguém se aceitar tão rápido. Tá louco — mexeu.

— Cala boca, mané!

No íntimo, a confiança de Alex era a mesma de um filhote de gato frente a uma matilha fervorosa para ter um pedacinho de seu couro. Também pudera, não era expert no assunto. Tateava no escuro, e quando alguma parede parecia próxima demais de seu rosto, virava o lado e assim fazia até que o melhor caminho até a luz no fim do túnel fosse visto.

Só que Tobias era assunto seu. Só seu. Qualquer palavra dita pelo irmão não teria o menor sentido, pois nem Alex sabia dizer direito como lidava com aquele redemoinho surgido do nada para transformar tudo. Reconhecia a imensa boa vontade, mas o ponto final era sua responsabilidade. Com ou sem medo, passara a hora de voltar atrás.

E, como se tivesse ouvido o som alto de seus pensamentos inquietos, surgiu a figura do garoto, motivo de tudo aquilo, a metros de distância de si. Não pôde evitar o olhar de gato fujão diante dele. Se já tinha seus 1,60, não tinha dúvidas de que ele era 1,65 ou mais! O corpo, outrora roliço, havia espichado, e com isso qualquer resquício de um dia ter sido um garoto acima do peso ia sumindo. O rosto mais desenhado, de curvas delicadas, escondido pelo volumoso cabelo castanho escuro.

Era outro Tobias mesmo!

Caminhava quase em câmera lenta, com olhar que ora fitava o chão, ora criava forças para lhe encarar. O único som que conseguia escutar além dos passos em sua direção era a batida desenfreada de seu coração à beira de um ataque. As pernas tiveram um tremelique e os braços queriam sair correndo dali. O alerta vermelho geral havia sido ligado outra vez.

Ali teve certeza de que seria mais difícil do que qualquer chefe de fase que enfrentara até então.

O desatino foi tamanho que só se deu conta da presença da irmã do melhor amigo quando a voz desta chamou por si, dando-lhe um abraço, cuja resposta do seu corpo foi mais automática do que autêntica saudade. Seus olhos seguiam presos aquela figura tão diferente, quase um novo ser, diante de si. Mais alto, mais magro, mais… bonito?

Quando o adjetivo surgiu em sua cabeça, foi quando, sem querer, sua boca fez algo que jamais teria feito em circunstâncias normais, berrando um ‘NÃO!’ que até mesmo os chineses puderam ouvir.

— Não tava com saudades de mim? Ah, eu fico magoada assim! — Lily, espirituosa, levou na esportiva, crente de ter sido uma resposta a sua pergunta durante o abraço.

Seu rosto virou um tomate, fazendo com que Tobias, até então o envergonhado da situação, começasse a morder seus lábios para não dar uma gargalhada histérica na sua frente.

— Q-quê?! Não, não! Eu t-tava… Viajei. Foi mal mesmo — limitou-se a dizer, na tentativa de limpar sua barra.

— Começou bem, hein maninho?! — lógico que Jorge não deixaria o caçula em paz.

— Vai cagar, vai! — este retrucou — Tu não ia ver os preços das camisetas esporte?

— Ia? — fingiu leseira, pois sabia que receberia um olhar de fuzileiro, irritando o menor — Ah! Eu ia! ‘Bora comigo, Lily?

— Tudo bem, Totô? — a garota, cuja pele tinha o mesmo tom de argila do irmã, mas com cabelos volumosos, só que mais cacheados, pousou a mão no ombro do garoto, atraindo a atenção deste. Seus olhos cor de mel sorriam a ele tanto quanto seus lábios.

— Eu tô bem. Pode ir — foram as primeiras palavras ditas pelo garoto. O tom continuava o de brisa de verão, mas o timbre estava mesmo encorpado como no vídeo.

Com a resposta, só coube a menina dar um beijo na testa do irmão, um novo abraço em Alex e seguir conversando o que quer que fosse junto a Jorge, deixando Alex e Tobias frente a frente, a mercê do que suas cabeças estavam maquiando sem parar.

O primeiro, como um filhotinho indefeso, parecia se esquivar de movimentos muito bruscos em frente ao outro — até por já ter dado seu show logo de cara, ainda que sem querer. Para piorar, Tobias não parava de lhe encarar de novo, entre fugas e olhadas indiscretas, causando uma saia justa ainda maior dentro de seu peito.

Notou que suas mãos não saíram um só minuto do bolso de sua calça skinny preta. A camiseta xadrez preto com vermelho por cima de uma camiseta estampada com um emoji formavam uma harmonia interessante em seu ser, mesmo que Alex relutasse em aceitar isso para não dar outro vexame.

Apenas quando uma pequena crise de tosse começou por parte do maior foi que Alex, como se tivesse disparado um gatilho de anos anos, perguntou sem titubear:

— É a asma? Tá com a bombinha aí?

Tobias deu mais algumas tossidas antes de, com um belo sorriso nos lábios, tratou de responder ao menor.

— Cuspe mesmo — Alex não segurou um riso tímido, inquieto para sair de sua boca por conta da resposta — Me engasguei. Não me ataco da asma faz um tempo já. Desde os sete, oito…

— Eu que sei. Passava a noite acordado com medo de tu sufocar e eu tá dormindo — coçou a nuca, rindo — Uma boiolice. Mas.. né? Tu entende.

Novamente, um breve sorriso surgiu.

— Foi mal. Não queria atrapalhar teu sono.

— Capaz. De boa.

Mais alguns segundos de silêncio até que Tobias achou, por bem, adonar-se da mesa onde estavam escorados antes que a perdessem. Alex, por sua vez, lhe fez companhia, até porque nada muito além podia ser feito. Se havia parte boa era o fato de um pedaço do gelo inicial ter se rompido.

— Quando eu li a mensagem, achei que era trote, sabia? — confessou o irmão de Lily, com as mãos cruzadas e sobrepostas à mesa — Até pensei que tu ia ferrar comigo aqui…

Alex engoliu seco.

— Eu… só queria ouvir que tu fez aquilo só pra me sacanear. Só isso tava bom pra mim — enfatizou, fugindo seu olhar para o balcão do restaurante ao lado direito.

Fingiu não perceber quando Tobias, ao ouvir aquilo, pôs-se a encará-lo de verdade.

— Tu sabe que essa não é a verdade… — retrucou — Eu sei que outros guris zoam assim, mas eu também sei o que tô sentido e tu também já sacou isso…

O irmão de Jorge não tinha forças para encarar o olhar vindo do outro garoto.

— A única coisa que eu sei é que tô me sentindo um otário, cara. Todos os dias eu vejo uma placa escrito isso no meio da minha testa. Tu zoou com o meu coração, Tobias, com meus sentimentos. Eu tinha ou não tinha o direito de ficar chateado?

— E por que tu acha que a minha cabeça tá bem, Ale? — replicou — Tudo o que eu queria era ter te zoado de verdade ao invés de… sentir essas coisas… diferentes dos outros guris…

— Coisas diferentes? — levou um susto — Tu tá falando de—

Sequer teve coragem de pronunciar sem que seu corpo tremesse por inteiro. Um novo horizonte surgia por trás de Tobias, um olhar completamente novo para tudo o que viveram até ali. E isso dava medo. Trazia consigo todas lembranças e momentos juntos passados na infância, ganhando outras tintas pelo olhar dele, e novas formas que faziam a boca de seu estômago comer gelo só de pensar.

— Sabe, quando eu criei a Sandy, era só para upar minha conta “oficial”. Nem queria manter por muito tempo — revelava — Mas aí veio aquele Smash Squad justamente na hora em que eu tava logado como ela.

— O primeiro que ela caiu no meu squad de batalha…— comentava, imerso naquelas lembranças.

— Depois daquilo… Cara, foi tudo muito estranho. Eu me sentia estranho. A gente foi se dando bem cada dia mais e aquilo me sufocava, me fazia ter vergonha de mim, queria apagar tudo… Mas… Não dava. Eu quis esquecer isso, porque eu sabia quem tu tava esperando. Só que… não deu.

Tal qual acontecera antes, os olhos castanhos do garoto não tinham uma só gota de palavras distorcidas e mentirosas. Alex via transparência das águas de um lago cristalino, o qual o único resquício de terras profundas era aquela intimidade que colocava, mais uma vez, para fora.

— Por isso tu tava fugindo de vir aqui hoje — deduziu, mesmo porque era um fato claro a ambos — Só não entendo como fingiu uma voz tão… de guria?

Uma pequena risada frouxa surgiu na boca do garoto preto de tom claro.

— Um pano e uma afinada na voz resolveram tudo. Fiquei com medo de tu perceber, mas nunca falou nada, aí deixei quieto. Só ficava com muita dor de garganta com várias horas em call, sabe? Aí dava ruim.

Alex não pôde negar a engenhosidade do amigo, acabando por dar uma risada frouxa para o acompanhar.

— Tu é mestre mesmo, hein?

Depois disso, o silêncio foi seu companheiro por alguns minutos. O irmão de Jorge sequer se deu ao trabalho de contar. Processava tudo de forma lenta, digerindo palavra por palavra da explicação dada pelo, então, amigo de infância. Causava calafrios interpretar tudo aquilo, saber a verdade por trás da verdade, mais ainda não saber direito o que fazer com isso. Um emaranhado de informações pesadas demais para seus ombros carregarem sozinhos e de uma hora para outra.

O olhar de Tobias, entretanto, clamava por um gesto de compreensão. Algo que o tirasse do sofrimento absurdo vivido até ali, quando finalmente pôde passar o fardo adiante. O problema era Alex não conhecer as palavras certas para ajudar. Ou melhor, conhecer, conhecia, mas e a coragem de admitir? Treze míseros anos de existência conhecendo um lado não haviam lhe preparado para isso.

Sem mais adendos a serem ditos, só restava uma coisa a fazer: despedir-se.

— Então… É isso, né? — coçou a nuca — Bom te ver, cara.

— Ale…

— Oi.

— Pode pelo menos… me cumprimentar? Com as mãos mesmo?

Sentiu seu pomo de adão descendo seco. Não era uma atitude anormal, fora do que fazia com os amigos do colégio o tempo todo.

Só que tinha Tobias à sua frente.

E Tobias já não tinha mais uma palavra que o definisse.

As vozes em sua cabeça exigiam que desse meia volta, ou apenas desse ‘tchau’ e vida que segue. Cada fibra de seus músculos assinavam embaixo. Seus dedos, mãos, pés também. O único problema era… o coração. Esse não aceitava de jeito algum. Sussurrava, entre os berros desesperados de seus vizinhos, que estendesse a mão e desse aos olhos súplicos um gesto de bondade como tantos já feitos antes.

Aquele sussurro ecoou por cada parede de seu cérebro, dando empurrões singelos, mas firmes, em cada uma daquelas outras vozes desesperadas. Seus olhos não conseguiam desgrudar do rosto do maior, buscando neles uma resposta que apenas ele mesmo podia dar, um conforto que apenas quando fizesse as pazes dentro de si conseguiria.

Foi assim que, com os músculos da mão e braço tremendo como um terremoto, foram esticados e alçados pela mão esquerda do rapaz, que fitou-o com olhar admirado. Espero até alguns segundos a mais para ter certeza da mão ficar estendida mesmo para si.

E, de fato, ela não recuou. Ficou à espera do gesto sugerido por ele mesmo, a fim de concluir aquele desambiguado momento. O irmão de Lily não podia estar com o coração mais saltitante dentro do peito. Os lábios, largos de orelha a orelha, transpareciam aquilo que fazia morada no seu íntimo há meses.

Uma via muito complicada para os sentimentos e sabia disso. Tanto que deu uma risada breve ao notar o vermelho pimenta no rosto do amigo brotar por cada canto dele. Imaginou-lhe pondo a sua cabeça dentro da terra e tapando para que jamais pudesse encarar o resto do mundo, testemunha de seu mico.

E Alex realmente estava no meio de uma batalha de Tróia emocional. A mão de setim de Tobias encostando na sua, com toque de uma pétala, dava a impressão de estar encostando no próprio vento. Coração latente como um galopar de um cavalo arisco, pronto para pular qualquer obstáculo. O olhar de menino, ainda com a doçura que sempre teve e sempre haveria de ter, parecendo ter mel grudado a ele.

Ao se dar conta dos pensamentos, de cara soltou sua mão. O que diabos estava acontecendo? Havia perdido o juízo? Estava encantado como um marinheiro por uma sereia?

— E-eu vou n-nessa — disse — ‘Té mais.

— Vou te ver no jogo hoje?

Foi a última frase que ouviu do garoto antes de se virar e ir atrás do irmão. Sequer cogitou olhar para trás e descobrir o que o outro pensava. Precisava sair dali com a maior pressa possível. Tinha ânsia pelo seu quarto, suas coisas, seu mundo. Aquele novo, que queria tomar conta de si, não podia tomar o controle. Que ficasse junto a Tobias, pois ele iria lhe entender melhor.

Queria continuar sendo o orgulho do pai… mesmo que isso não fosse mais um desejo seu. Cogitou ser a hora de aceitar perder o BV com a bonitinha da sala.

Pelo menos ela usava saias e era… menina.

CONTINUA

Notas finais
Gostou? Deixa um review! Abração e até sexta que vem! ♥