Ao contrário do que esperava, Alex sentiu o passar dos dias como o rastejar de uma tartaruga paraplégica. Tudo depois de sábado corria em câmera lenta, torturando com memórias, frases, olhares e gestos feitos por Tobias. Cada novo minuto era um ponto de interrogação novo. Estava farto deles.

Como se já não fosse o suficiente, sua concentração foi totalmente para o espaço sideral. As explicações sobre números inteiros sequer soube que existiu, a introdução à Idade Média tampouco, o trabalho sobre migração da população deletou a existência e assim foi até a sexta feira, quando, encerrando com chave de ouro, a professora de português atestou sua não compreensão quanto ao gênero, número e grau dos substantivos, com dois acertos em um exame de vinte questões. Uma tragédia completa.

O sermão da mãe doeu os ouvidos até mesmo das vizinhas de porta, coitadas, alheias à situação. O celular e o jogo foram os vilões da vez, carregando um fardo que nem deles era, pois largou-lhes num canto e esqueceu. Conversas com os amigos da escola se resumiam a cumprimentos e outras poucas palavras, com o irmão também. Tornou-se uma luz enfraquecida, sem forças para fazer iluminar os cantos ao seu redor.

Só pensava em Tobias e nas palavras por ele ditas no encontro da semana anterior. O fato de nada ter sido feito para zoar deixava tudo pior. Seus ombros carregavam um verdadeiro mamute, seja por gostar de alguém que não existia, ou justamente por esse alguém existir, só ser… diferente do esperado. Nem em seus mais tensos pesadelos aquela possibilidade surgiu.

Tentou, inclusive, botar seu plano em prática e beijar de uma vez alguma menina, pondo fim a suas paranoias — ou as de Tobias. Infelizmente, não conseguiu nem se aproximar da garota sem que uma vontade imensa de mandá-la longe tomasse conta. Pensava apenas em maquiagem, fofocas e colecionar beijos. Mesmo ele, há poucos metros de ficar fora de seu radar não fosse o fato de ter seu charme, completava seu álbum. Aproximar-se dela seria dar vitória ao inimigo e trair o que achava certo.

Pensou em outras meninas, como a ruiva do 7C, cuja voz até então era desconhecida por quase todos na escola. Parecia dócil e perfeita para criar a memória de um momento bacana e, enfim, gritar ao mundo que era como todo mundo.

Mas, de novo, uma surpresa: foi só dar entrada e um toca fitas saiu da boca dela. Chegou a ficar zonzo ouvindo papos sobre Agatha Christie, Harry Potter e sabia-se lá o que mais. Sequer conseguiu processar direito. Precisou escapar usando a velha desculpa de estar apertado para ir ao banheiro, e tratou logo de esquecer o caminho até a biblioteca até se formar.

Começava a suspeitar de que o universo feminino não lhe queria por perto, inventando desculpas para jogá-lo nos braços de alguém com quem não poderia estar. Gostava de Sandy não por ser Tobias, mas por Sandy. Querer embutir a imagem dele à ela era uma mudança sofrida, difícil, e, principalmente, assustadora.

Gostava de Sandy, que era Tobias.

Mas não gostava de Tobias. Gostava de Sandy.

Quer dizer, não gostava de Tobias daquele jeito. Gostava de Sandy assim.

Só que Sandy não era Sandy, era Tobias.

E se Sandy era Tobias, então Tobias era Sandy.

Se Tobias era Sandy, então.. gostava dele daquele jeito?

Mas não podia gostar de Tobias daquele jeito!

Ou podia?

Podia, sim! Ele era Sandy!

Não, não era Sandy! Sandy era Sandy e Tobias era Tobias!

MAS TOBIAS JÁ LHE DISSE QUE ERA SANDY, ENTÃO TOBIAS ERA SANDY E SANDY ERA TOBIAS!

MAS NÃO GOSTAVA DE TOBIAS! GOSTAVA DE SANDY!

TOBIAS, COMO SANDY E COMO TOBIAS, É QUEM GOSTAVA DELE!

Mas… ele gostava de Tobias também… como Sandy.

NÃO! GOSTAVA DE SANDY!

Dia e noite, hora e minuto, o looping eterno continuava e não chegava a lugar algum. Girava e girava por entre uma palavra e outra, um gesto e outro, uma lembrança e outra. Mesmo a tardinha, quando aquela infame sexta feira já estava se despedindo do sol, sua crise de consciência não fazia questão de lhe abandonar.

Tobias também não ajudava em nada. Quando vinha na cabeça aquela figura, tão diferente do pequeno cupcake de brigadeiro o qual se lembrava, com aquele olhar de águas serenas e sorriso de um cãozinho filhote, qualquer ser com o mínimo de neurônios também ficaria surpreso! Mexido, na realidade. O tempo estava lhe dando forma, expurgando qualquer resquício que fizesse jus às injúrias às quais foi submetido ainda tão jovem.

No entanto, ao contrário do que se podia esperar e ele próprio pensou quando tudo veio à tona, seu coração não estava fechado, amarrado naqueles tempos difíceis. Parecia ter encontrado seu propósito, sua vontade de existir e viver a vida. Conseguiu notar uma aura luminosa em torno daquele novo garoto à sua frente. Uma de suas teorias apontava isso como uma das principais razões de nenhum dos seus neurônios estar no devido lugar.

Deitado em sua cama, fazendo vezes de um cadáver estirado ao chão, sequer se dava ao trabalho de mover um músculo. O corpo respeitava seu momento de luto, além de parecer ter ciência do quebra cabeça infernal armado por seu cérebro. Nada muito além havia a ser feito além de remoer tudo de novo e de novo. As cartas estavam na mesa. A próxima jogada a sua, era quem definiria tudo.

Três batidas foram dadas na porta, fazendo-o ser obrigado a permitir a entrada mesmo sabendo quem se tratava. Jorge entrou no espaço com olhar zeloso, percebendo a nítida fossa onde o menor se encontrava. Não pôde deixar de sentir uma pitada de pena, afinal de contas, tudo parece realmente ser maior do que é quando se é tão novinho, mas, ainda sim, eram problemas daquele momento e tinham seu valor.

O mais velho sentou-se ao pé da cama, fazendo cócegas no outro para ver se dava resultado. Nada. Continuava uma folha de papel jogada sem rumo. Diante da falha tentativa, só havia uma coisa a ser feita: ir direto ao ponto.

— Lily convidou a gente pra tomar açaí. Tá afim?

— Não — resmungou, abafando a face no travesseiro — Não quero falar com ninguém, principalmente com eles.

— Posso saber por quê?

Alex suspirou fundo antes de, ainda agindo como um zumbi, virar o corpo para cima e encarar a face do irmão a lhe fitar.

— Tu já sabe. Faltou o que pra entender?

— Tu falar sobre sábado, talvez… — lançou a indireta, fazendo o olhar do menor dar a volta ao mundo de raiva.

— Tua amiga nova não te contou? — alfinetou na mesma moeda — Tobias tá doido e quer me deixar doido também! Só isso! Aquele trollador, mentiroso!

— Dá pra explicar direito, faz o favor?

Dar um corridão nele e implorar que esquecesse a história toda seria como dizer exatamente aquilo, só que ao contrário. Portanto, um longo suspiro e ajeitada na cama foram as únicas ações possíveis antes de despejar os ocorridos do último encontro com aquele cuja figura se tornou um borrão de uma hora para outra. Contou do olhar, das explicações ditas por debaixo de um grande tapete que, se fosse aberto, teria causado ainda mais nós cegos.

Mesmo enquanto dava sua versão dos fatos, Alex navegava em águas turbulentas, sem saber para qual lado ir ou se estava indo para algum lugar. Andava em círculos dentro de seus próprios pensamentos na busca por compreender o que, para Tobias, era claro como o dia, mas, para si, continuava o breu de uma noite tempestuosa.

Quanto mais contava, mais aquelas palavras proferidas pelo irmão de Lily ganhavam fôlego e perseguiam seus medos, a fim de lhes expor a luz que emanava dele. Seus próprios pensamentos eram sombras que, com o raiar vindo do outro lado, dissipavam, deixando para trás apenas insegurança, medo e a certeza de que nada seria tão simples quanto nos filmes clichês de romances — os quais pegara mais asco ainda depois daquilo! .

Jorge prestava atenção em cada vírgula. Buscava nas palavras de Alex o máximo de compreensão necessária para, quem sabe, sugerir um norte. Apesar de não interrompê-lo com perguntas a todo instante e se resumir ao balançar de cabeça vez ou outra, não perdeu nada. Sentia que melhor ajudaria se fosse os ouvidos e a consciência dele naquela situação tão… diferente.

As explicações, dez minutos depois, encontraram o fim. Com o peito menos apertado, mas ainda com o coração no meio de um tornado, Alex pôs em palavras tudo aquilo que os sentimentos não conseguiam domar. Dava passos cautelosos mesmo com estas, até porque poderia lançar uma impressão equivocada. Conhecendo o irmão, seria pior do que qualquer armação da mente de Tobias.

No entanto, uma risada tão rápida quanto a luz de um relâmpago surgiu de sua boca, atraindo mais o seu susto do que qualquer outro sentimento que pudesse ter além.

— Que foi? — foi a coisa mais espontânea que conseguiu pronunciar.

— Tá, eu falo, mas se tu me socar, tu vai ver, hein? — adiantou o mais velho, fazendo com que os nervos de Alex se torcessem pensando no que estaria vindo.

— Mano, se tu tiver metido nisso, tu tá ferrado comigo. Na boa.

— Promete que vai ficar quieto e me escutar?

— Escutar o que, cara? Que tu fez? — seu estômago começava a se embrulhar.

— Eu… — engoliu seco — meio que… sabia de tudo no sábado.

— Quê?! — seu berro pôde ser ouvido até mesmo do ártico — Como assim ‘já sabia’?! E me deixou ir lá pra que, seu otário?!

Como se já não bastasse o transtorno de tudo o que lhe ocorrera, o irmão ainda jogava mais uma bomba em seu colo. Aquilo fazia tanto sentido quanto água correr para cima! Jorge ter ciência do engodo onde cairia e não lhe avisar dava mais uma evidência de uma possível armação contra si. Jogaria Tobias tão sujo assim a ponto de colocar seu próprio irmão naquela história sórdida? Tudo o que quase acreditou se tornava pó ao vento de novo?

Jorge tinha em seu rosto a expressão de quem tinha se envolvido em trambique e corroborado com cada detalhe. Sua cabeça entrou em modo defesa tão logo os fuzis lançados pelo olhar do irmão saíram da base para, munidos pela força do ódio, lhe atacar. De certa forma, compreendia-o. Não lhe era estranho o nó nos neurônios do caçula quanto a revelação de quem era o rosto por trás da adorada Sandy. Porém, seu gesto tinha outra finalidade.

Observando a força de Alex para não voar em seu pescoço, retalhando qualquer mísera partícula de ser existente nele, precisou se apressar em sua justificativa. Começou com pouco depois de sua saída do quarto do irmão, logo após este lhe contar o ocorrido. Achando aquilo tudo muito suspeito, sobretudo por se tratar de um garoto tão amistoso quanto Tobias, tratou de procurar a irmã deste, Lily, com quem também tivera laços de amizades fortes enquanto cresciam e eram vizinhos.

Entre as novidades e algumas paqueras discretas disfarçadas de perguntas sobre namoros e ficantes, Jorge lembrou-se de seu objetivo principal e tratou de indagar a garota de olhos cor de mel sobre até onde aquilo tudo era trollagem ou não. De início, Lily se manteve arisca para dar respostas mais concretas, alegando ser um assunto complicado no momento, e que, inclusive, problemas dentro de casa estavam sendo gerados em torno da figura do menor.

Sem querer pressionar a ferida, a qual pôde notar ainda estar aberta e dolorida, engatou assunto sobre como fazer faculdade em nada lembrava os filmes de comédia americanos. Depois de mais algumas risadas e trocas de experiências, que foram desde matar aula depois de esquecer a mochila em casa até ser perseguido por Quero-Queros pelo Campus do Vale, tateando ainda as palavras, escolhendo-as no mais fiel estilo vendedor ante uma cliente tamanho G querendo colocar uma blusa P, retomou a questão.

Desta vez, focou no fato de Alex estar realmente em parafuso e precisando de explicações. Mais uma vez, Lily tentou sair pela tangente, esquivando-se, mas Jorge seguiu afirmando que, mesmo Tobias sofrendo como aparentemente a irmã dava a entender, não era justo deixar Alex na mesma situação e sem as respostas que tanto buscava. Notando a quase ausência de uma saída — afinal de contas, poderia ter parado de responder, mas entendia que não era o correto — explicou por cima a real situação.

Só então Jorge descobriu o pé de guerra entre os pais dos irmãos por conta da nítida certeza quanto ao fato do filho não seguir as regras que se espera de um homem. Ouviu sobre as brigas, as discussões, a forçação de barra de levar Tobias a cada jogo, buteco — e por pouco até uma casa para maiores! — e qualquer coisa ligado à ideia de uma masculinidade embutida ser possível, tirando o garoto do lago dos renegados.

Tudo em vão.

Tobias não se deixava dobrar.

E o que podia ser resolvido com um simples ‘Sim, senhor’, viravam berros, gritos e o que mais pudesse pensar.

Como se já não fosse trágico o suficiente, o fator Alex surgira como mais uma bomba no coração do rapaz. Lily descobriu sobre ao entrar, por acaso, no quarto do irmão chamando-o para jantar, ouvindo a voz doce e feminina que ele fazia em uma ligação. Viu-lhe desligar no desespero, já com lágrimas escorrendo por sua face juvenil, a implorar que nada falasse aos pais.

E quem teria forças para negar algo a um coração apaixonado e tão machucado já desde a mocidade?

Lily, ciente do que estaria por vir caso algo assim chegasse nos ouvidos dos pais, prontamente aceitou o pedido, com apenas uma condição: que Tobias contasse exatamente o que estava acontecendo para que pudesse ajudar. Com toneladas de segredos sendo tiradas de suas costas, ficou fácil para o garoto expor os motivos por trás de Sandy, a insistência em mantê-la e no que tudo estava desembocando.

Com a gama de informações, Jorge percebeu que, de fato, o coração de Tobias não tinha espaço para brincadeiras quando o assunto era gostar de alguém. De fato, algo nele havia se interessado de verdade por seu irmão. Ainda que a sensação fosse de levar um choque, não podia ignorar o quão difícil devia ser viver assim, na ausência de provas mais concretas de sentimento recíproco.

Explicou a Lily, então, sua ideia e a vontade tida por Alex de se encontrar com Tobias e esclarecer tudo, sendo ela a responsável por fazer por Tobias o mesmo que ele estava a fazer por Alex. Tudo acertado, foi só esperar a manhã do dia seguinte e deixar rolar.

Com o findar do esclarecimento, Alex não tinha mais certeza se devia encher o irmão de travesseiradas e berros descompensados ou abraços apertados. Imensurável era a grandiosidade dentro de Jorge, o que lhe causava um conforto tão grande no peito que podia jurar que, mesmo cometendo uma atrocidade, ele estaria a seu lado em todas as horas.

Mesmo com o quentinho no coração, uma dúvida pairava no menor: por que lhe deixou ir lá sabendo de quem se tratava e que gostava de meninas? O mais velho lançou mão de um sorriso no canto direito de sua boca antes de responder.

— Tu gostou da “Sandy” por ela ter uns peitões ou de quem ela era como pessoa?

O caçula suspirou. Um ponto a favor dele.

— De quem ela era — fitou seu olhar no chão, dando a resposta entre os dentes.

— Pois é. Daí pensei que, se tu gostava daquela pessoa, tanto faz se era guria ou não.

— Acontece que fazia diferença, sim! Era um guri, cara! Um guri! Tu devia ter me avisado! Deixou me fazer papel de viado na frente dos outros!

Jorge levou sua mão até o queixo do menor, cujo semblante parecia o de uma criança desolada após um furacão. Novamente um sorriso se fez presente em seu rosto, iluminando cada parte dele com raios de esperança.

— Os outros não tem nada haver contigo, pirralho. Com que tu gosta ou não — pontuava — Eu preferiria que fosse uma mina gostosinha da tua turma, mas quem tem gostar? Eu ou tu?

De novo, o rapaz de cabelos ondulados e volumosos tinha os trunfos em sua mesa. Ouvir a história toda, os bastidores daquela verdade exposta de forma tão voluntária, mas traumática, fez com que sua cabeça percorresse algumas arestas ainda desconhecidas. Isso, porém, não dava ao fato um peso menor. Apenas confirmava que Tobias não agiu de má fé. Mas e quanto a si? O que faria disso? Qual o passo a seguir?

Analisando o que lhe fora dito, chegava a conclusão de que não tinha conclusão. Encontrava-se num labirinto emocional de saídas bloqueadas, onde nem mesmo a revelação de seu irmão poderia mudar o curso da história. Jogou-se na cama como um defunto esticado em um caixão, não tirando nem por um segundo o olhar fixo do teto.

— Então eu decido que não. Pronto — enfim, deu uma satisfação ao irmão — Pode dizer pra Lily que não vou. E pro Tobias que… depois a gente se fala. Sei lá. Talvez.

Jorge encarou a figura apática a sua frente por mais alguns segundos antes de levantar, começar a digitar a resposta e ir para fora do quarto. Nada muito além poderia ser feito além disso, afinal de contas o poder de decisão partia de uma análise muito maior ao fato de comer ou não uma sobremesa.

E justamente por isso Alex seguia firme encarando o teto, como se nele estivessem projetados todos aqueles dados e, um a um, fossem se organizando como um enorme quebra cabeças. Os primeiros o levavam ao dia onde, por imenso azar, acabou caindo num squad com dois moleques, cujo único propósito era aloprar e berrar palavrões como se estivessem na banca do peixe, e uma jogadora novata de nível 7.

Bem quis se deslogar da partida online, só que o fato de um Highbot centopéia ter aparecido no mesmo instante o fez desistir na mesma hora. O monstrengo não dava as caras em seu caminho há muito tempo, e seus XP’s o fariam passar do nível 49 ao 51 num piscar de olhos. Suspirando fundo e pronto para aceitar que jogaria quase sozinho, foi a luta.

Como esperado, o inseto de tamanho similar a um prédio de oito andares e cor de cimento tinha reflexos rápidos. Suas patas o faziam sumir de um ponto a outro do mapa, enquanto seu avatar passava trabalho a sua procura. Os dois moleques estavam concentrados demais matando simples joaninhas e escorpiões verdes e se achando o máximo, já a garota sumiu de sua vista. Seria ele por ele mesmo.

Correu com o personagem mata dentro movendo a câmera inúmeras vezes, a fim de evitar ser pego de surpresa. Vasculhou cada árvore, pedra e buraco que pudesse servir de abrigo em meio ao breu em tons de roxo e preto do local. Por trás de si, galhos quebrando davam a certeza de não estar mais sozinho. Contou até três mentalmente antes de virar.

1…

2…

3… e…

Virou!

Com a mira na cara da figura, precisou controlar-se na pressa. Era a novata, lhe seguindo, mandando no chat: “Tô no teu time. Calma aí.”. Revirou os olhos no mesmo instante, enviando a réplica no mesmo instante: “Podia ficar em outro canto né? Quase t acerto”.

Sequer houve tempo para uma segunda réplica. Por trás da moça, um buraco gigante se abriu com a saída da besta por debaixo deles. Seu berro era um ruído parecido com estática de televisão, mas ainda mais agudo. Precisava agir rápido, se quisesse uma pontuação boa quase de graça.

Escondeu-se atrás de uma moita próxima do lado esquerdo assim que viu a fera gigante. A moça, ao que parecia, preferiu ficar sozinha e completamente à mercê, tendo em sua mão uma Storm Sword, arma de nível tão inferior à fera que precisou se controlar para não rir imaginando-a engolida em questão de segundos.

E fez muito bem em não fazê-lo, pois, quase no mesmo instante de seu maldoso pensamento, o Highbot deu seguimento ao ataque, vindo em direção a sua parceira, a qual desviou e feriu-a numa rapidez digna de um jogador de alto escalão. Saiu da mira para o lado com a espada como uma aparição, enfiando no bicho toda lâmina de sua arma e já sentindo os trovões sendo atraídos, caindo em cima do alvo.

Por ser de um nível básico, poucos foram os danos. Contudo, de tantas vezes que a menina cravou a espada, o inimigo foi perdendo força, com as articulações já frouxas e se dando por vencidas, até finalmente o brilho raivoso de seu olhar se apagar por completo, indo direto para si mesma todo crédito e a elevando do nível 7 ao nível 18.

Ali já teve certeza que precisava conhecê-la. Ali uma semente fora plantada, e seria regada pelos meses seguintes religiosamente, até brotar uma flor estranha, mas de perfume tão doce, capaz de envolver a quem se aproximasse. Podia ter sido uma partida como tantas outras, com parceiros de time como vários que teve — inclusive garotas também — só que aquele gesto tão pontual não só acertou seu alvo, como também seu coração.

A dor em seu peito causada pela lembrança consumia seu ser quase por inteiro. Aquele vazio existencial tinha consigo um amargor na boca, a sensação de nenhum olhar ser capaz de se voltar para si caso optasse por negligenciar o que a emoção já alardeava, mas a razão teimava em dizer que não. Precisava pôr um fim naquilo e precisava fazê-lo apenas de um modo: encarando Tobias no grão de seu olho!

Levantou-se correndo do modo estático o qual se encontrava para ir atrás do irmão. Deu largos passos de leopardo até a porta e depois pelo corredor, ao fim, encontrando-o atirado no sofá maior, de três lugares, com olhar vidrado na tela de seu aparelho celular.

— Eu até posso dizer não… mas vai ser na cara do Tobias.

O mais velho deu uma risada sacana, como a de um jogador de pife prestes a vencer uma partida.

— Bah, que sorte então que aceitei o convite antes, né?

— Tu é um idiota, cara. Se ferrar!

Mais uma gargalhada contida vinda de Jorge antes do menor voltar a seu quarto para tomar as últimas decisões antes da grande decisão. Não podia perder tempo retrucando as bobagens do irmão. Era hora de agir.

Já no seu cantinho, abriu as portas do guarda roupas e começou a passar o olho por cada uma daquelas peças de roupa. Uma delas precisava servir para uma situação como aquela, já que, por mais difícil que fosse, estar bem vestido passava uma imagem mais agradável. Talvez depois do ‘Não’, Tobias até se animasse em tomar um sorvete depois do açaí e aquela história toda seria enterrada para sempre.

Uma pequena parte sua, entretanto, se via numa posição minúscula ante a ideia de se arrumar para vir um amigo. Sentia-se um grande e imenso baitola, como por várias vezes ouviu os colegas de classe se referindo uns aos outros, num total gesto de falta de educação. Precisava agir como quem não queria nada, usando qualquer coisa que lhe desse na telha, mas simplesmente não dava. Os meses frente aos jogos não tiraram seu senso de bom gosto.

Foi nessa busca que, escondida atrás de um suéter cinza que sequer sabia se ainda lhe cabia, achou uma camiseta dada justamente por Tobias anos antes ainda com etiqueta. Era presente de uma viagem a São Paulo feita por ele e sua família. Aos oito, parecia uma camisola, só que agora, aos treze, tinha certeza que combinaria.

E estava certo.

A camiseta preta com estampa do jogo ‘Super Metroid’ permanecia intacta a ação do tempo. Pudera: jamais foi usada. Nunca sequer sentiu a luz do sol desbotando seu tecido e craquelando sua estampa. Sorte que, por volta e meia fazer o que a mãe pedia e limpar o armário, acabava dando um trato na camiseta antes de lhe colocar de volta a esperar pela hora em que fosse ser usada. E agora a hora tinha chegado.

Para completar, pôs uma calça skinny preta e um All Stars. Estava bem, com certeza. Seu coração queria arrebentar em uma cena digna de desenho animado, mas mesmo assim o estilo ainda seria seu parceiro num momento daqueles. Se tudo mais era incerto, esse seria seu porto seguro.

Ao se deparar com o irmão lhe aguardando meia hora depois, precisou ouvir umas tiradinhas maliciosas, dizendo que estava muito estiloso para dar um fora, e retrucando com um dedo médio quase instintivamente. Medo era o motor de tudo aquilo, mas tinha sorte de a coragem também estar lhe dando as mãos para enfrentar aquele que julgava o pior momento de sua existência.

CONTINUA

Notas finais
Momentos finais de nossa história! Quem tá curtindo levanta a mão! Gostou? Deixa um review! Abração e até a próxima sexta!