Amar Amora
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Notas iniciais
Uma leve brisa noturna acariciava o corpo desnudo e suado, que se debatia com os lençóis, entre gritos e movimentos bruscos de desespero.
A Lua espreitava pela janela daquele enorme quarto gelado e solitário, assistindo, mais uma vez, à dor daquela pequena força da natureza.
O peito amassado e ofegante juntava-se às lágrimas e suor, formando uma dolorida cascata de água salgada, denunciando a passagem de mais um longo e árduo pesadelo.
Não havia maneira de acabar com aquele sofrimento, de acabar com o peso da culpa, de curar uma ferida que insistia em abrir.
Não foi por falta de paixão, nem por falta de confiança e companheirismo.
Foi por falta de Amor.
A única coisa que aquela alma sabia é que todo o esforço e dedicação não mereciam aquele desfecho amargo.
Já sentada na cama, com os olhos vidrados na bola de luz que a observava desde o início, começou a fazer uma retrospetiva do seu passado: a felicidade que durou pouco; a humilhação da rejeição que lhe perfurava o peito; o Amor doentio que ainda acalentava o seu destroçado coração; as noites perdidas de súplica; o som daquela mísera porta a bater, anunciando o fim daquilo que lhe dava vida.
Perguntava-se como tinha aguentado.
Como estava aguentando.
Os dias pareciam todos iguais. As horas não passavam, as pessoas aborreciam. Só o álcool e as drogas lhe permitiam viver no mundo real.
Já nem amigos tinha. Perdeu contacto com todos, após escolhas infelizes e impossíveis de contrariar. Nada disto teria acontecido se tivesse prestado atenção ao seu redor.
Não foi por falta de aviso.
Desde o começo, todos os que sabiam o que se passava por detrás de suas costas, tentaram abrir os seus olhos e horizontes. E embora ouvisse, não queria acreditar que aquele maravilhoso pedaço de paraíso, era de facto, o inferno.
O peso dos pensamentos empurrou o seu corpo contra a cama. Deixou-se levar, fechando os olhos, na tentativa de ainda ter umas horas de sono.
Mas o cérebro não respondia às necessidades do corpo.
Desistindo daquela guerra, levantou-se, arrastando o seu corpo magro e tonificado pelos corredores de sua casa.
Até a sua própria casa já lhe fazia confusão.
Aquele enorme espaço vazio, que outrora fora preenchido por um falso exemplo de felicidade, havia se tornado um lugar sombrio e sufocante.
Valeria a pena continuar a viver?
Questionou-se debruçada sobre a parede gélida, enquanto segurava uma memória em suas mãos.
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