Amar é mais do que imaginei
1 Alice no Terraço
Notas iniciais
*Steve
Meu lugar favorito na escola era sem dúvida o terraço, mais especificamente, um lugarzinho no terraço atrás da caixa d'agua, onde tinha sempre uma sombrinha refrescante pela manhã nos dias de sol e também sempre me protegia do vento nos dias de frio. A escola ficava em um dos pontos mais altos da cidade, permitindo assim uma vista espetacular dos campos, do topo das casas, das colinas a quilômetros de distância e da imensidão do céu. Mas o melhor de tudo, era a paz que aquele lugar me proporcionava, pois o acesso era proibido aos alunos, tornando aquele terraço, um lugar só meu.
E era exatamente lá o lugar para onde eu ia todos os dias na hora do recreio, todos os dias, exeto na quarta, que era o dia da reunião do jornal da escola, que Adam me obrigou a entrar. Aconteceu mais ou menos assim, o Adam, que é um cara realmente carismático, meu melhor amigo e vizinho desde que nascemos, estava afim de uma garota do jornal da escolar, Isabela, e a questão era o seguinte, nós, adam e eu, fazíamos parte de uma banda, o que naturalmente atraia a atenção de algumas garotas para nós, mas principalmente para Adam, que como eu disse, era um cara carismático, ou seja, não havia motivos para ele não convida-la para sair, só que isso não era o suficiente para ele, ele queria realmente conquista-lá. Então Adam decidiu que nós deveríamos nos inscrever para as vagas do jornal, mesmo sendo ele quem estava afim da garota, ou seja, não tinha vantagem nenhum para mim. Contudo, depois de ele passar 3 dias inteiros respondendo "jornal" para cada pergunta que eu fazia ou qualquer assunto que eu tentava puxar, eu cedi a causa "Adam e Isabela" e, assim fiz minha inscrição sem nenhuma livre e espontânea vontade. Agora já faz um ano e meio que fazemos parte do jornal, acabou se tornando a minha segunda coisa favorita na escola e, Adam e Isabela estão namorando, no fim, nós dois saimos ganhando.
* * *
Quando o sinal da escola tocou anunciando o recreio naquela terça-feira, peguei meus materiais e sai da aula de química me despedindo do Adam e da Isabela, subi até o terceiro andar, esperei todos descerem para o pátio e deixarem o corredor ficar vazio, fui sorrateiramente até o armário de vassouras e o destranquei com a chava reserva que eu havia pegado emprestada da sala do diretor, em uma detenção há um ano atrás. O armário era um quartinho estreito onde haviam algumas vassouras velhas com teias de aranhas nos cabos, dando indício de que não eram usadas a muito tempo, mais adiante tinha um pequena escada de dois lances que levava a um alçapão e pelas frestas do alçapão entravam alguns raios de sol, que era a única iluminação do lugar. Eu subi as escadas e alcancei o alçapão, já estava pegando as chaves para abri-lo também, quando percebi que estava destrancado, eu não costumava esquecer de trancá-lo, afinal de contas depois de um tempo subindo ali, a coisa toda se torna automática. Sai pelo buraco do alçapão e logo senti o ar fresco no meu rosto, fui caminhando em direção a caixa d'agua, distraído, pensando em como, depois de tanto tempo, ninguém nunca havia descoberto que eu passava o recreio, e até mesmo matava algumas aulas ali em cima. Ninguém, exceto Adam e Isabela, que eram os únicos que sabiam, mas só porque eu havia lhes contado.
Enfim, continuei andando tão distraído, que acabei nem percebendo o barulho que vinha de trás da caixa d'água, e quando cheguei lá me até me assustei, tinha uma garota deitada no chão, por um segundo achei que estivesse morta, mas logo percebi o peito subindo e descendo, numa respiração acelerada e soluçante de alguém que está chorando. A garota estava com as mãos no rosto, as pernas esticadas e cruzadas na minha direção, ela era miudinha, tinha cabelos castanhos na altura dos ombros, usava uma camiseta lisa cor de rosa por dentro da sua saia jens, que ia até os joelhos e tênis brancos. Mesmo sem ver o rosto eu já sabia quem era a garota, era Alice Cooper, o que deixava a cena ainda mais estranha, Alice era o tipo de garota que nunca se esperaria ver invadindo o terraço da escola ou chorando pelos quantos, tinha a fama de ser extremamente certinha, nunca chegava atrasada ou matava aulas, nunca foi pega colando, tinha horário para ir embora das festas e sempre o cumpria, não falava palavrão, jamais se temeu em alguma briga, se dava bem com todo mundo, também era do tipo que não namorava e andava sempre alegre pelos corredores.
Eu sei esses fatos sobre ela, não porque eu venha cuidando da vida dela nem nada, todos na escola sabiam disso e todos a conheciam, simplesmente pelo fato de ela ser a filha única do diretor, mas ela não era daquele tipo que ganhava favoritismo por ser filha dele, pra falar a verdade acho até que ele era mais rígido com ela do que com os demais, mas é só uma suposição, pois eu só tinha falado com ela uma vez quando estávamos na quinta série e não foi nada especial, tinham um garoto mais velho que costumava implicar sempre com um garoto gordinho, um dia ele rasgou a mochila do garoto e todos os livros e cadernos caíram no chão, a Alice correu para ajudar o garoto gordinho a recolher os livros e eu corri para bater no outro. Quando um professor separou a briga, Isabela me olhou e disse num tom muito irritado "Não é assim que se resolvem as coisas, você foi tão estúpido quanto ele" e saiu batendo os pés, lembro-me de ter ficado muito irritado com ela na ocasião, desde então não nos falamos mais.
— Oi...eh ta tudo bem aí? — Perguntei a Alice no tom mais suave que consegui para nao assuta-la.
Não funcionou muito bem, ela tirou as mãos do rosto e num movimento muito rápido ela se sentou, seus olhos estavam arregalados pelo susto e percebi que também estavam vermelhos, de fato, estava chorando, porém a reação de susto dela durou poucos segundos, assim que ela viu que era apenas eu, tomou folego, estufou o peito e disse em um tom autoritário.
— O terraço é proibido para alunos! — Mas a tentativa dela de parecer intimidadora para me expulsar dali foi por água abaixo quando uma lágrima escorreu por sua bochecha. Me senti mal por te-la visto assim, se fosse ao contrário, eu não iria gostar, então dei de ombros e fingi não perceber a lágrima.
— Se você não contar, eu também não conto.. — Disse e ela me deu um olhar intrigado, então eu falei num sussurro, como se estivesse contando um segredo — Você também é uma aluna!
Ela bufou e me respondeu irritada.
— Não estou para brincadeira, Turner — Ela usou as mesmas palavras que o Diretor Cooper usava quando me dava bronca, exceto pelo fato de que ele me chamava de "Sr." Turner.
— Caramba, você fala igualzinho o seu pai — Não consegui conter uma risada, o que pareceu deixa-la ainda mais irritada- Ta bom, ta bom...tô descento.
Levantei as mãos como quem diz "eu me rendo, você ganhou", virei de costas para ela e sai. Eu não era bom em consolar as pessoas, tinha mais talento para irrita-las, mas pelo menos cedi o lugar para que ela pudesse chorar em paz e acho que isso já contava como uma boa ação, afinal de contas eu dúvidava muito que ela gostaria ser consolada por mim. Sempre suspeitei que talvez o Diretor Cooper lhe contasse às inúmeras vezes em que eu fui parar na diretoria e por isso ela acabou desenvolvendo um certo desprezo por mim, eu já havia percebido isso a anos só pelo jeito que ela me olhava, chegava ser até engraçado, era como se ela lutasse para manter o rosto impassível e o status de boa menina que gostava de todo mundo, enquanto queria muito revirar os olhos para cada atitude minha que ela desaprovassa, patética. Talvez, se um dia ela tiver coragem de admitir que não gosta de mim, eu eté paro de desconfiar que na verdade ela é um robô.
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