Amanhã, às oito
1 Capítulo Único
Sexta-feira
Para falar a verdade, Lily nunca entendeu o significado de perder a virgindade.
Ela sabe onde está, e para onde vai. Ela não vai perder... Ela vai matar. Talvez o termo seja forte demais para ser usado e alguém, que inventou isso, decidiu o ‘perder’. Ela continuou fitando o teto de sua cama, sem conseguir entender o que estava acontecendo com seu corpo e com sua mente. Ela teve a semana mais tensa e confusa de sua vida desde que James pulou no banco em que ela estava sentada na segunda-feira, às sete da manhã, sussurrando em seu ouvido um ultimato:
— Sexta, às oito, na Sala Precisa, você vai ter a noite mais especial da sua vida.
Em menos de quinze minutos, ela iria perder sua virgindade para todo o sempre. Ela faria parte do time das garotas legais que transam. E de alguma forma, quando o pênis de James Potter entrasse em sua vagina, ela seria outra pessoa. Refletiu toda a sua vida novamente, tentando imaginar como seria a vida da nova Lily que se levantaria daquela cama, em menos de dez minutos.
Sentou-se em sua cama e calçou seus tamancos, ajeitando seu colete diante do espelho. Olhou-se de forma firme e determinada. Checou sua lista mental:
1 – Dezoito anos: check.
2 – Seios completamente formados: check.
3 – Depilação: check.
4 – Lingerie: check.
5 – O garoto certo: check.
Foi em direção da porta, perguntando-se por que, em todos aqueles dezoito anos de vida, ela nunca colocou a pergunta ‘você está pronta?’ como questão para ser conferida.
Segunda-feira
Lily ainda estava com os olhos arregalados durante a aula de Astronomia, tanto que assustou o professor mais de duas vezes quando ele a olhou de relance. Estava tão dura na cadeira que a bolinha de papel que Sirius jogou nela quase quicou e bateu na cara dele. A aula acabou e Lílian nem tinha notado que havia começado. Enfiou seu livro na mochila e colocou a touca de sua capa, marchando para fora da sala, indo no conhecido point de alunos que cabulavam mais do que eram humanamente possível.
— Marlene. — chamou Lily, puxando a capa da garota loura.
— Ah, oi Lily, e aí?
— Eu preciso da sua ajuda.
— O que foi?
— Vamos para lá. — Lily apontou para o local mais vazio possível e saiu andando, desesperada. Marlene a seguiu confusa. Assistiu a amiga virar-se para ela, desconfiada, parecendo um dementador com a toca da capa cobrindo sua testa e escurecendo seu rosto. Lily fitou as sardas fortes de Marlene, procurando as palavras certas. — James me deu um ultimato.
— Como assim?
— Vamos transar. Sexta.
— Oh... Bem, pelos boatos, James não é muito bom, mas acho que ele consegue entregar o necessário.
— Marlene! Eu não quero um review do rodado do meu namorado agora... — Lílian fechou os olhos, surtando. — Eu quero ajuda!
— Como assim... Oh não... Você é virgem? — Lily arregalou os olhos mais ainda, assentindo lentamente, enquanto Marlene também arregalava os olhos, chocada. — Como isso é possível? Você namorou Dean por meses! Você deu aula de educação sexual para as garotas do quinto ano! E todas aquelas passeatas feministas... Como!?
— Eu não estava pronta!
— Você tem dezoito!
— Eu sei, e esse é o problema. Essa é a data final, eu tenho que perder a virgindade agora!
— Então, qual o problema?
— Eu... Eu não sei! Acho que o fato de ter uma data determinada está me deixando nervosa... Eu não posso lidar com coisas planejadas, eu sou de Aquário!
— Lílian, calma... Você está surtando, é normal. Vamos por partes, se você esperou tanto, é porque James é o cara ideal, certo?
A demora de Lily para responder foi cômica para Marlene.
— Eu não sei... Ele é?
— Você está perguntando para mim? Gata, quem namora com ele é você, não eu.
— Ele me ama, já disse isso mil vezes, estamos juntos há seis meses e ele sempre me respeitou... Eu sinto vontade de arrancar as roupas dele fora e bem, ele já tentou fazer isso comigo algumas vezes... Acho que sim, eu não sei, eu o amo, mas... Deus do céu, eu não tenho nenhuma lingerie!
— Isso não é problema, eu posso te emprestar.
— Emprestar? — Lily reprimiu uma careta. — Acho que isso não é muito higie...
— Lílian Evans! — cortou Marlene, irritada.
— Ok, ok... Quais você tem?
Lílian estava chocada com a coleção de lingeries que Marlene tinha em seu malão. Tinha certeza que ia ficar zero confortável com um pedaço de fio enfiado em sua bunda apenas para agradar James. Achava incrível como era difícil conciliar seus princípios feministas com um namoro heterossexual. Tentou imaginar Simone de Beauvoir usando um fio dental para Satre.
Retorceu o rosto em uma careta.
— Você só tem essas calcinhas?
— Bem, tem essa também. — Marlene mostrou um conjunto vermelho de renda, onde a calcinha não era tão... Apertada? Lily pegou, tentando imaginar-se naquilo. Imaginar o ato em si fazia sua mente embranquecer e o suor tomar conta de seu corpo.
Ia morrer antes de sexta-feira.
Terça-feira
Conferiu o livro mais uma vez, e para seus pelos pubianos diante do espelho, com medo de fazer algo errado com uma parte tão querida de seu corpo. Olhou sua varinha, desconfiando da mesma pela primeira vez. Refletiu por alguns segundos e desistiu, pegando a velha caixa de cera, entregando-se as suas raízes trouxas.
Aqueceu o pote com a varinha e pegou um pouco com a espátula, vendo sua vida militante passar por seus olhos:
James era um motivo para expor sua pobre vagina a dor?
O feminismo é uma mentira?
E se toda sua pele for junto?
Aparar não é o suficiente?
A música Love Hurts de Nazareths nunca fez tanto sentido. O amor dói... Respirou fundo e passou o conteúdo morno no local, sentindo o gosto puro da morte. A cera sequer lhe deu tempo para preparar-se, secando em menos de segundos. Pegou ar, determinada, tomando coragem. Fechou os olhos com força e ficou alguns segundos, imóvel, com todos os seus músculos endurecidos.
Puxou.
Arregalou os olhos para seus pelos na cera e para sua vagina, desacreditada que fizera aquilo consigo mesma. Berrou de dor, sentindo a pele dormente. Chorou um pouco, passando mais um pouco de cera em outro ponto.
Quarta-feira
Lílian continuou observando Sirius Black tentar tirar um pedaço de comida de seus dentes com a língua, brincando com seus pés sob a mesa, fazendo a cadeira que estava sentado inclinar-se. Ele estava entretido observando o disco de Grateful Dead rodar loucamente.
— Sirius?
— Quê? — indagou ele. Ele nunca foi muito educado com ela... Na verdade ele não era educado com ninguém, então não havia motivo para se ofender. Continuou olhando o garoto, ignorando a tempestade em sua mente.
— James saiu com quantas meninas antes de mim? — Ele olhou para o teto rapidamente, mexendo os dedos por alguns segundos, e então fazendo contas no ar. Desviei o olhar, arrependida de ter perguntado.
— Sei lá, eu perdi a conta no terceiro ano. Por que?
— Nada.
— Que cheiro é esse? — questionou ele, colocando as mãos atrás do pescoço, parecendo curioso. Então sorriu. — Ah sim, é sua insegurança.
— Idiota. — retrucou, irritada.
— Ah Evans, vai, você é a primeira namorada de James que eu gosto, não me decepcione.
— O que você quer dizer com isso?
— Eu quero dizer que: Ficar insegura com quantas garotas James já ficou não vai te levar a lugar nenhum. — Lily ficou alguns minutos a mais refletindo o que Sirius dissera e então subiu para o dormitório, fechando as cortinas de sua cama. Tirou suas roupas, ficando apenas de calcinha e seu habitual top, respirando fundo. Pegou seu travesseiro e fingiu que era James. Sentou-se em cima e suspirou, decepcionada. Provavelmente seria ridículo, ele é quase quinze centímetros mais baixo e mais magro que ela.
Ela era alta demais para transar!!!
Deitou-se na cama novamente e tentou pensar em algo que não fosse constrangedor para eles. Abriu as pernas e tentou tocar seus pés, mas seu cóccix começou a doer em segundos. Lembrou-se ligeiramente da cena de sexo de O Massacre da Serra Elétrica, tentando não se assustar novamente com a família bizarra. Acabou desistindo, pegando um bombom escondido em seu travesseiro.
Quinta-feira
Lílian não conseguia parar de olhar para a virilha de James em seu uniforme de Quadribol. Tentou imaginar o tamanho real do que ele tanto roçava nela quando os dois estavam sozinhos. E se não coubesse? E se ela tivesse colo de útero baixo e morresse durante o ato? E se sangrasse a ponto de ensopar a cama? E se...
E SE ELA FICASSE GRÁVIDA?
Seus olhos pareciam que iam pular das órbitas, ela sabia todos os métodos contraceptivos, mas acidentes acontecem e Lílian não era a garota mais sortuda do mundo, e havia provas disso:
1 – Dez anos indo ao bingo com seus avós e perdendo por dez anos.
2 – O pão fresco sempre acaba na sua vez quando vai a padaria.
3 – O ônibus sempre ‘acabou de sair’ quando ela chega no ponto.
Sua vida passou diante de seus olhos quando a possibilidade de gravidez veio à tona. Ela iria se formar em meses, ficar grávida é fora de possibilidade. Ficou alguns minutos fitando a grama, em silêncio, não notando seu namorado brotar ao seu lado.
— Lily, tudo bem?
— Sim, por que?
— Você está estranha desde segunda... Eu fiz algo errado? — Lily virou-se para James, risonha.
— Claro que não, James. Eu só estava distraída, tenho que terminar meu trabalho de História da Magia. — O garoto acariciou as madeixas lisas da namorada, sorridente. Ela quis enxergar dentro da mente dele. Provavelmente estava pensando nos dois quicando a noite inteira na cama na sexta. Será que ele a queria tanto passa isso? Será que ele sabe o quão virgem ela é? Será que ele só a acha bonita por que tem 1,77 enquanto as outras garotas parecem hobbits?
— Lily, você me ouviu? — questionou ele, apertando seu ombro levemente.
— Oi? Não.
— Lílian, o que está acontecendo? Fala sério, eu estou preocupado. — A garota ruiva colocou uma mecha atrás da orelha, vacilante. Mordeu o lábio, fitando seu namorado. Talvez ela devesse pedir mais tempo, ele iria entender... Ou não? Mas por que ela queria mais tempo? Era só ansiedade, ela sempre foi ansiosa, ela sabe disso. Sorriu e o beijou, acariciando seu cabelo bagunçado.
— Você está ficando doido, James. — ele sorriu, apertando sua cintura.
— Por sexta? Com certeza. Estou contando os minutos... Não! Os segundos! — ele beijou seu pescoço e Lily sentiu sua alma agonizar. Ela também estava contando os segundos, mas não da mesma forma que James. Um beijo dele fazia seu corpo tremer tanto e sua pressão baixar de um jeito que era como se ela tivesse pressão baixa 24 horas por dia. Ela o amava, tinha certeza disso.
Só estava ansiosa.
Sexta-feira.
Lílian caminhou pelos corredores escurecidos do castelo.
Passou as mãos em suas madeixas ruivas, respirando fundo. O sétimo andar sempre a deixou um pouco incomodada. Ela tinha medo de andar naquele corredor a noite. Era um medo completamente sem sentido, infantil. Ela não lembra quando perdeu o medo, mas se lembra que não muito tempo depois estava correndo por ali, dia e noite, sem se importar com os monstros imaginários que poderiam sair dali.
A porta da Sala Precisa materializou-se para Lily assim que ela chegou no corredor, e, de alguma forma estranha, ela estava tranquila.
O quarto estava recheado de velas e lírios, o que assustou Lily de inicio. James levantou-se da cama perfeitamente arrumada e sorriu, apertando as mãos. Ela sorriu enormemente, percebendo o quão maravilhoso era seu namorado. O Potter aproximou-se lentamente, entrelaçando seus dedos nos de Lílian, sem desviar seu olhar.
— James, eu preciso te dizer algo primeiro. — disse ela, sem pensar. Ela não estava nervosa, uma onda indescritível de calma havia invadido sua mente. — Eu não posso fazer isso.
— Por que? — Lílian desviou o olhar por um segundo, entendendo o que seu corpo e sua mente estavam tentando lhe dizer.
— Porque eu não estou pronta. Digo, eu estou... Mas não estou. Eu não quero perder minha virgindade. Acho que não estou pronta para dizer adeus para a Lily virgem, por mais ridículo que isso esteja soando... É a verdade. Eu... Gosto de ser uma virgem. De não saber como é estar no clube dos que transam. De sexo ser apenas uma imagem na minha cabeça. — James não estava entendendo, nem ela sabia explicar. Ela queria continuar reservando seu corpo para si mesma, para suas próprias fantasias. Queria ter seu corpo para si mesma, um segredo que o mundo ainda não descobriu. Ela não estava pronta para abrir mão de suas curiosidades.
— Ok. — disse ele, sorrindo.
— Ok?
— Ok.
— Você está irritado?
— Não... Sei?
Lílian acabou rindo, assim como James. Eles se abraçaram e Lily sentiu-se melhor, como se tivesse tirado o castelo inteiro de suas costas. Ficou feliz em poder continuar com suas fantasias de como seria a perca de sua virgindade, que lingerie vestiria, se teria superado a ditadura da depilação e se seus peitos não iriam crescer mais um pouco. Mas ela tinha certeza de que seria com James.
Ela tinha certeza.
Notas finais
O que acharam?
Beijos!
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