"Você ficou sabendo o que aconteceu?"

"Será que eles já sabem quem é?"

"Aposto que sim, estão tentando por panos quentes!"

"Eu desconfio de tudo que vem daquela família"

"Ouvi falar que ela se machucou"

Laura Martíni prosseguia pelo corredor acompanhada por burburinhos e olhares curiosos de todas as direções. Nunca em sua vida se sentira tão sufocada quanto agora. Sempre foi acostumada a receber atenção das pessoas, não se importava de ser diariamente comentada, até gostava, mas dessa vez não estavam opinando o preço da sua roupa nova, ou como seu cabelo andava hidratado. Agora, todos comentavam sobre o acontecido na semana passada. De toda forma, não esperava que fosse diferente, qualquer rompimento na sossegada rotina de Monte Holambra rendia assunto para um mês inteiro.

Neste momento, até os mais desprendidos dos noticiários já deveriam saber do assunto estampado nas primeiras páginas: "Mansão dos Martíni é invadida e criminoso segue foragido". Não tinha certeza se essas seriam realmente as palavras, mas com certeza seria algo nesse nível de dramaticidade. Toda essa situação fez Laura se sentir como um animal num zoológico, se precisasse de dinheiro poderia até cobrar para ser observada em uma jaula, todavia, se tinha algo que não lhe faltava, era dinheiro.

"Você viu? A cara dela tá péssima"

"Soube que tem um segurança na porta da escola"

"Com rico qualquer coisinha vira caso de polícia"

"Eu acho que..."

"E digo mais..."

Laura percebeu que a multidão estava ficando para trás quando os sussurros nada discretos começaram a ficar realmente inaudíveis. Logo houve uma dispersão total, para seu alívio. Impulsivamente, adentrou o banheiro feminino, não queria correr o risco de encontrar novos cochichos pelo restante do caminho. Jogou um pouco de água no rosto e olhou diretamente no espelho à sua frente, e lá ficou, encarando seus olhos âmbares como se encarasse não só seu rosto, mas tudo que aconteceu e irá acontecer. O olhar fixo no reflexo se dispersou assim que um pomposo vulto amarelo saiu de uma das cabines. A menina de casaco vibrante se aproximava com calma da pia ao lado, em um silêncio perceptível, sem olhares, sem palavras, sem toda a exaltação que fora presenciada por Laura a pouco tempo.

— Nossa... Alguém deveria consertar essas torneiras. — Disse a menina, até então, sem nome.

Laura olhou para pia em que a garota de amarelo se apoiava, reparou nas poucas gotas de água que saiam da torneira totalmente aberta, estava definitivamente estragada. Logo, como se recebesse um puxão, se locomoveu para longe, deixando a sua pia livre para a desconhecida usar.

— Obrigada.

Houve um silêncio, enquanto a garota lavava suas mãos.

— Aposto que foi o Marcelo. É, isso tem a cara do Marcelo.

— Hum? — Exclamou Laura, pela primeira vez.

— Aquela torneira, sempre dando problemas. O Marcelo é o faz-tudo da escola, mas, se você quer saber, eu consigo fazer um trabalho melhor.

— Desculpa, qual o seu nome mesmo?

— Amanda, Amanda Presley. — Fala, esticando a mão. — Não repara não, eu as vezes não sei a hora de parar de falar.

— Eu sou a Laura. — Retribuiu o cumprimento. — Então você entende sobre torneiras?

— E tudo mais que puder ser consertado. Acho que é herança de família ou coisa do tipo.

Ao ver a expressão de surpresa se destacar no rosto pálido de Laura, Amanda chegou a jurar que a garota acabara de descobrir que trabalhadores podem ter famílias.

— Seu pai trabalha nisso?

— Minha mãe, na verdade, ela é realmente boa com uma chave inglesa na mão. Meu pai era combatente do exército, faz alguns anos que ele se foi. O Presley é dele.

— Eu lamento.

Houve uma pausa longa suficiente para acreditar que o assunto estava definitivamente encerrado, as duas iriam tomar caminhos diferentes e provavelmente está seria a primeira e última interação entre a herdeira dos Martíni e a herdeira da chave inglesa. Apesar disso, para a surpresa de Amanda, o silêncio foi quebrado.

— Vem cá, pensando bem, eu acho que já ouvi seu nome em algum lugar.

Amanda começou a tentar ligar alguns pontos mentalmente. Será que Miriam Bittencourt teria em algum momento citado o nome dela? Elas tinham sido amigas de infância, quando a família de Miriam ainda não tinham as posses que tem hoje, antes mesmo dela e Laura serem as amigas grudadas que são hoje. Talvez fosse muita pretensão achar isso, mas arriscou o palpite.

— Essa cidade é um ovo mesmo. Eu acho que a Miriam nunca me contou que vocês eram amigas. Na verdade, ela fala pouco sobre o passado.

Era compreensível.

— Não eramos grande amigas, era só coisa de infância, você sabe.

Pela expressão no seu rosto, ela não sabia.

— Desculpa, eu estou te prendendo nessa banheiro. Você deve ter algo melhor para fazer. — Disse Laura.

— Acredite, minha vida não é tão divertida assim. — Fez uma pausa, pensando bem nas palavras que viriam a seguir. — Eu... achei que você tava meio pra baixo e aí pensei em distrair você falando coisas aleatórias. O que eu posso dizer? É o meu dom.

— É, o negócio da torneira foi bem aleatória mesmo. — Falou, esboçando um sorriso.

— Ei! Torneira quebrada é um assunto muito sério pra minha família.

Antes que mais alguma coisa pudesse ser dita, ouviu-se a porta abrir repentinamente, exibindo o rosto desesperado de Miriam, que se jogou em direção à Laura da forma mais teatral possível. Enquanto a recém chegada abraçava e balançava exageradamente a amiga, Amanda percebeu que, por mais que tenha conhecido Miriam durante toda a sua infância, se sentia mais conectada com Laura nos poucos minutos em que se falaram. Saiu, enfim, daquele banheiro, deixando pra trás as amigas ricas que pareciam ter muito o que conversar. Não entendia de fato o que estava acontecendo, o motivo de tanto alarde a intrigou, tanto que, com o fim das aulas, foi perguntar para a pessoa que com certeza saberia responder todas as perguntas.

— É impossível que você não tenha ouvido falar do caso Martíni. Afinal, onde você se meteu?

— Sei lá, Raíssa. Tinha prova de matemática essa semana, eu fiquei ocupada.

— Tá certo, agora eu preciso vomitar. Mesmo.

As duas amigas estavam sentadas no ponto de ônibus em frente a escola. Raíssa era conhecida como a fofoqueira da escola, e esse não era um título que a incomodava. As coisas funcionavam da seguinte maneira: Se houver algo inusitado acontecendo por Monte Holambra, pode ter certeza que Raíssa Duarte seria a primeira a espelhar a novidade. Amanda achava até graça dessa característica, inclusive acreditava que, se fosse bem utilizada, a amiga poderia se dar bem dando furos de reportagem.

— Tá certo, eu entendi que invadiram a mansão e tudo mais, mas o pessoal dessa cidade está fazendo tempestade em copo d'água. Ficam tratando a menina como se fosse de outro planeta em vez de, sei lá, tratar ela bem. A própria Miriam parecia que ia esmagar a menina quando a viu.

— Miriam? Miriam Bittencourt? Ela tava lá? Você ouviu o que elas conversaram?

— Não, eu sai assim que ela entrou.

— Por que nós somos amigas mesmo? Você não pode nem ouvir a conversa dos outros por mim?

— O que elas podem conversar que seja surpreendente?

— Você não tá entendendo, minha querida Amanda, a coisa é bem mais embaixo do que você pensa. Não foi a primeira vez que Laura Martíni passa por perigos tipo esse.

— Já aconteceu outras vezes?

— Às vezes mais de uma vez no ano acontecem invasões, ameaças e atentados.

— Eu nunca ouvi sobre nada disso. — Disse Amanda, perplexa.

— Alguns são abafados, outros acontecem em viagens, até mesmo pra fora do país. Sempre que acontece algo desse tipo, os pais da Laura contratam o segurança para ficar de guarda.

O olhar de Amanda se voltou quase que instantaneamente para o rapaz alto de preto encostado num carrão escuro. Parece ter ligado os pontos, esse devia ser o tal segurança que está protegendo a herdeira indefesa.

— Ele é um pão, não é?

Amanda retornou seu olhar, agora estremecido.

— Que foi? Além de CDF, é cega também?

— Não é isso, é que... deve ser difícil ser Laura Martíni.

— Sim, pobre menina rica.

Amanda pensou em responder a ironia de Raíssa, mas o ônibus já vinha dobrando a esquina. A semana passou rápido, mas o caso Martíni ainda continuava sendo comentado na mesma proporção. Na manhã do sábado, Amanda Presley acordou com as habituais brigas dos seus irmãos mais velhos, Antônio e Alan, ou aqueles moleques infernais, como eram conhecidos no bairro. Pensou que talvez eles precisassem programar suas discussões inúteis para um pouco mais tarde, mas essa era uma sugestão que precisava ser discutida após alguns goles de café. Se levantou, dando uma leve desamassada no seu pijama amarelo e foi direto em direção à cozinha, onde encontrou aqueles moleques infernais fazendo cabo de guerra com uma camisa esgarçada.

— Eu devo perguntar o que está acontecendo? — Perguntou Amanda, em meio a bocejos.

— Ele não quer largar a minha camisa! — Disse Alan.

— Porque ela é minha! — Retrucou Antônio.

A garota sabia que os irmãos não tinham muitas opções de brigas inéditas após todos esse anos, mas brigar por uma camisa feia parecia um pouco demais até para eles.

— O que aconteceu? A mamãe fez uma fogueira com as outras roupas de vocês?

— Para de ser idiota, eu quero usar essa camisa na festa.

— Mas que vou usar.

Amanda despertou como num estalo. Do que esses dois estariam falando a final? A pergunta foi respondida quando Antônio a entregou um convite em formato de carta, que ela leu em voz alta.

— "Você foi convidado para a festa na mansão Martíni"?

— Nossa família toda. — Completou Alan.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.