Além das Quadras

33 Arco III – 33. Já entendi


Notas iniciais
Olá meus amores, turu pom? Como prometido, capítulo quentinho pra vcs! Aposto que terão muitos comemorando rs Mas gostei de escrever esse capítulo e espero que gostem dele tbm! Ghost Kisses ~Marceline

Capítulo 33: Já entendi

A luz forte da janela penetrou no quarto com tanto ódio que Erick achou que estava sob um holofote de polícia e que seria preso imediatamente.

Sua cabeça parecia que tinha sido feita de carpete para elefantes de tanto que doía. Ressaca não era algo comum pra ele, mas sabia exatamente o que fazia sua cabeça explodir no dia seguinte: tequila.

Poderia amar a bebida e a sensação que ela deixava depois de ser derramada em sua garganta, mas tinha que dizer que era seu maior ponto fraco. Ele sabia disso. E bebia mesmo assim.

Principalmente quando estava irritado.

Era óbvio que a chegada de Chris o tinha desestabilizado emocionalmente. Quando Erick enfim achou que estaria livre do embuste, o mundo mostrou que estava muito enganado.

Nunca achou que teria uma resposta de Henry sobre o motivo de eles estarem juntos, mas quando a recebeu, simplesmente não acreditou. Henry realmente duvidava de que poderia fazê-lo feliz? Depois de todos os momentos que tiveram? Erick poderia ser lerdo, mas sentia o clima, a química entre eles. Podia dizer que “não” em voz alta, mas ele sentia. Sentia demais.

Ele já estava perdido. Parecia que o universo não queria que os dois ficassem juntos. Henry havia admitido que queria beijá-lo. Erick havia dito que o amava. Mas nada disso parecia o suficiente ou então eles estavam complicando mais as coisas do que deveriam.

Só de pensar nessas coisas, sua cabeça doía. Não se lembrava muito do que tinha acontecido na noite anterior por conta da tequila. Lembrava-se de arrastar Danilo para fora de casa para ele afogar suas mágoas na única coisa que conseguia tirá-lo da realidade.

Nem sabia como tinha voltado para casa, mas lembrava-se das mãos de Henry em seus cabelos, em seus ombros… Parecia que o toque do outro deixava um rastro quente em sua pele, que ele ainda sentia.

Quando a luz tornou-se o maior incômodo (que nem um travesseiro em seu rosto havia resolvido), Erick finalmente levantou-se na intenção de fechar a cortina e fechá-la com ódio. Mas parou no meio do quarto quando a porta foi aberta.

— Pensei que estava dormindo – Henry disse. Ele tinha um copo de água e uma cartela de comprimidos nas mãos.

— A luz – Erick apontou para a fresta da cortina aberta.

Henry apenas assentiu, entrou no quarto, colocou os objetos na mesinha de cabeceira e virou-se para sair.

— Espera – Erick disse, voltando-se para Henry, que virou para ele lentamente.

Havia alguma coisa estranha. Sua cabeça martelava e ele não conseguia se concentrar, mas sentia uma tensão estranha no ar. Ele olhou bem para Henry. Ele possuía um semblante inexpressivo, mas apesar disso, havia ruguinhas entre suas sobrancelhas, coisa que acontecia quando ele estava irritado.

— Aconteceu alguma coisa? – ele perguntou.

Henry soltou um suspiro cansado.

— Nada demais – ele respondeu abanando a mão – Você só atrapalhou minha noite de sexo, nada demais.

As entranhas de Erick se contorceram em ciúmes. Detestava o fato de Henry namorar aquele cara. Mas as coisas se intensificavam quando palavras como aquelas saíam da boca do outro. Erick não conseguia entender.

O silêncio preencheu o ambiente e ele era ensurdecedor e tenso. Eles ficaram se olhando por alguns segundos até Henry balançar a cabeça em negativa minimamente e sair do quarto.

Erick queria falar mais, porém as palavras lhe fugiram. Queria manter o outro ao seu lado, mas seu corpo lhe traiu, ficando parado onde estava. Quando se deu por si, ainda estava em pé, olhando para a porta como se Henry fosse voltar a qualquer momento, o que não aconteceu.

Ele bufou, fechando com raiva as cortinas, tomando o remédio que Henry havia deixado e se jogando na cama, com a intenção de ser sugado pelo mundo dos sonhos.

Mas não aconteceu. Ficou rolando na cama de um lado para o outro, pensando em Henry. Estava tão inquieto que Pudim, que dormia no pé da cama, levantou-se e foi para a porta, querendo sair.

Com um bufar e revirar de olhos, Erick se levantou, percebendo que não iria conseguir dormir mais. Abriu a porta do quarto, fechando os olhos imediatamente por conta da claridade.

A casa estava em silêncio. Danilo não estava no sofá e Henry deveria estar no quarto. Então ele se arrastou até a cozinha para preparar uma xícara de café bem forte. Precisava muito disso para poder recuperar sua alma.

Quando o café estava pronto, ele encheu sua xícara de Hora de Aventura e sentou-se à mesa, desfrutando do gosto amargo do líquido em sua língua. Uma onda de prazer o preencheu rapidamente, mas ela logo foi substituída por apreensão quando Henry entrou na cozinha.

Ele estava vestido para sair, aquilo era claro. Erick sempre gostava das roupas que Henry usava, por mais simples que elas fossem. Uma camisa branca lisa, jeans azul escuro, uma camisa xadrez vermelha amarrada na cintura, tênis brancos e sua touca cinza. Erick ficou encarando-o por alguns segundos, enquanto ele mexia no celular freneticamente e abria a geladeira.

— Aonde você vai? – Erick finalmente perguntou quando percebeu que o outro não falaria nada.

— Vou sair com Chris – respondeu sem tirar os olhos do aparelho.

Erick crispou os lábios.

— Então vai me abandonar – resmungou fazendo drama.

— Não, vou esperar você terminar isso aí – respondeu Henry. Erick já estava ficando irritado com aquele celular que estava captando totalmente a atenção de Henry.

— Terminar o quê? – perguntou com um pouco de deboche. – Meu café?

— O quê? – ele enfim voltou sua atenção para Erick – Desculpa, tava distraído.

Erick apenas assentiu minimamente, notando que Henry ainda mantinha sua atenção em si, mas ele não disse nada.

— O que foi, Erick? – ele perguntou com um tom cansado na voz.

— Eu que pergunto.

— Já disse o que aconteceu – resmungou Henry.

Erick fez uma careta.

— Não é possível que tenha sido só isso. – disse com amargura na voz.

Um suspiro da parte de Henry.

— Eu só… – mas ele foi interrompido pelo seu toque no celular. Ele olhou para o aparelho e antes de atendê-lo disse que eles conversariam depois.

Então saiu da cozinha falando um “oi, amor”, que fez Erick fazer uma imitação idiota e debochada da saudação. Ele revirou os olhos quando Henry gritou que não voltaria para casa naquele dia e saiu do apartamento, deixando um silêncio que perfurou Erick com força.

Ele levantou-se, falando sozinho com voz de deboche sobre Christian. Ele queria que aquele garoto nunca tivesse conhecido Henry, talvez a vida deles fosse mais fácil assim.

Ou não.

Antes que pudesse entrar no quarto, o interfone tocou. O porteiro anunciou a presença de Danilo, que em poucos minutos estava na porta. Erick a abriu com os olhos franzidos.

— Onde diabos você estava? – ele perguntou como se fosse mãe de Danilo.

— Eu avisei que ia dormir na casa do carinha que conheci na festa. – respondeu entrando.

— Espero que tenha transado muito – rebateu com um pouco de raiva.

Danilo o encarou com a sobrancelha levantada.

— Você tá irritado – sentenciou – O que aconteceu?

Erick o encarou por alguns segundos antes de desabafar sobre o que tinha acontecido naquela manhã.

— Primeiro, quero dizer que é muito engraçado te ver irritado e com ciúmes – Danilo riu e Erick fechou a cara. – Segundo, você sempre tem a opção de esquecer ele e partir pra outra.

Erick bufou. Dan não entendia que aquilo meio que não estava entre as opções.

— Ou eu posso destruir o relacionamento deles dois e ficar com o Henry só pra mim, também é uma opção.

— Eu não vou deixar você fazer isso – Dan disse o encarando intensamente – Eu sou super contra a destruição de relacionamentos alheios, mesmo que seja do cara que pegou minha ex namorada.

Mais uma bufada de Erick.

Danilo o pegou pelos ombros e o chacoalhou levemente.

— Eu sei que você tá deprimido e com ciúmes, mas não tem nada que você possa fazer quanto a isso. – os olhos azuis de Dan o encararam com intensidade. – Às vezes eles terminam e você pode ter sua chance, mas no momento, não tem nada que possa fazer. Henry não é seu, Erick.

Infelizmente, ele tinha que concordar com Danilo. O relacionamento deles parecia fadado ao fracasso, mas seria uma sacanagem Erick interferir. Talvez eles terminassem pela força do universo. Erick não queria admitir, mas estava torcendo pra que, dessa vez, tivesse a colaboração do destino.

[...]

Henry aproveitou o dia em que os primos de Chris insistiram para que ele saísse com eles para passar um dia com Marge.

Ela iria voltar para BH dali a poucos dias, então Henry quis aproveitar a presença da amiga. Além das saudades, precisava conversar com ela sobre o que estava acontecendo.

Desde que chegara, Chris andava agindo um pouco estranho. Era comum eles brigarem, mas as coisas não estava assim ultimamente. Estavam incrivelmente calmas, o que fez Henry achar que tinha alguma coisa de errado.

Havia perguntado, mas Chris insistia em dizer que estava tudo bem.

O clima entre Erick e ele havia mudado também, desde a chegada de Chris. Era da ciência de Henry que eles não simpatizavam um com o outro, por isso fazia questão de mantê-los separados o máximo possível. Mas ele sentia algo diferente em Erick. Ele estava de mau humor na maioria das vezes e, depois daquele dia em que chegara bêbado e declarara que queria Chris fora da vida de Henry, ele entendeu do que se tratava.

Nunca pensou que fosse ver Erick com ciúmes. Ou talvez ele tenha se convencido de que não era ciúmes nesse tempo todo que ele implicava com Chris. De qualquer forma, não estava feliz.

— Desconsiderando o fato de que eu não gosto do Chris e que não aprovo o relacionamento de vocês – começou Marge depois de ouvir atentamente o monólogo de Henry. – Tenho que dizer que você não colabora muito, amigo.

Henry franziu o cenho pra ela, que revirou os olhos impaciente.

— Você sabe que está com o garoto só pelo sexo.

— Isso não é verdade – rebateu ele, incrédulo com o que estava ouvindo.

Marge o encarou com aquele semblante debochado dela.

— No seu coraçãozinho tarado, você sabe que é verdade – ela sentenciou. – Você não ama ele, Henry. Você pode amar a atenção que ele te dá. O sexo que ele te oferece. A segurança… Mas você não ama ele como um namorado deveria amar.

Henry ficou absorvendo o tapa que tinha levado na cara com aquelas palavras.

— E desde quando você é especialista nisso? – acusou ele.

— Eu te conheço muito bem – respondeu ela, arrancando um pouco de grama ao seu lado. Estavam sentados embaixo de uma árvore do Ibirapuera. – Só o fato de você ter vontade de beijar o Erick e de despi-lo, já diz muito sobre isso, meu bem.

Henry bufou. Talvez ela tivesse razão. Estava sendo egoísta, mas algo dizia que as coisas deveriam ser assim. Mesmo que tivesse a mínima esperança de ficar com Erick, ele jamais trairia Chris. Com aquela conversa, lembrou-se de falar com sua psicóloga, um tempo antes, sobre o medo de ficar sozinho. Ela havia dito que não tinha nenhum problema nisso, que era importante que ele se amasse acima de tudo.

Ele estava mais perdido do que tudo.

— O que você faria? – ele perguntou depois de um tempo em silêncio.

— Terminaria com ele logo – ela deu de ombros.

— Não é tão simples assim.

— Eu sei, porque você adora um drama na sua vida. – ela jogou um bocado de grama nele.

— Como se eu quisesse estar apaixonado pelo meu melhor amigo que me machucou absurdamente no passado. – ele admitiu com uma amargura na voz.

— Você admitiu! Isso é um grande passo – ela disse rindo com certo sarcasmo na voz – Amigo, deixa o passado no passado. Você viu que ele mudou. Entende pelo o que ele passou. Eu sei que é difícil, mas tenta um pouquinho.

— Mas e o Chris?

— Termina logo, caramba! – ela disse exasperada – Ou o quê? Vai esperar ele terminar com você?

— Talvez? – ele falou meio sem graça. Era difícil. Até porque ele nunca namorou, então nunca precisou terminar com ninguém formalmente. Aquilo o assustava um pouco.

— Você só tá adiando o inevitável – ela resmungou e encarou-o com intensidade. – Tome o controle da situação, Henry. Não deixe o medo tomar conta de você.

Marge era rígida, mas ele sabia que ela estava sendo sincera e que o que ela dizia era para o bem dele. Sabia que a amiga entendia os seus sentimentos, por mais que não concordasse tanto com eles.

Depois daquela conversa, ele estava determinado a tomar as rédeas da sua vida.

[...]

— Por que eu tenho que ir? – Chris perguntou com uma cara de poucos amigos.

— Porque é o último dia da Marge aqui e eu não queria furar com você.

Chris revirou os olhos, o encarando por um momento.

— Ele vai estar lá?

Henry crispou os lábios.

— Sim? – ele disse meio sem graça – Mas por favor, eu só quero ter um momento com as pessoas que eu gosto.

Chris o olhou mais uma vez. Henry teve a impressão de que queria dizer alguma coisa, mas no final não disse nada. Ele cedeu depois de um tempo, fazendo Henry sentir-se aliviado.

Fazia alguns dia que ele estava tentando terminar o relacionamento deles. Mas era mais difícil do que ele imaginava. Toda vez que encarava aqueles olhos castanhos, sua fala era engolida e ele trocava de assunto.

Henry sabia que não aguentaria ver a expressão triste e magoada no rosto de Chris. Podia parecer extremamente simples, mas ele não conseguia encontrar palavras. Não conseguia verbalizar o que sentia.

Por mais que não quisesse, preferiu deixar as coisas rolarem. Podia ser uma decisão idiota, mas ele não se sentia preparado para tomar qualquer tipo de decisão.

Marge iria embora no dia seguinte e obrigou Erick e Henry a curtirem com ela o seu último dia em São Paulo. Ele não fazia ideia de qual programação ela tinha preparado, mas estava com medo. Quando Marge decidia que queria se divertir, ela não brincava em serviço.

Era de tarde e eles estavam na casa de Henry. Erick e Danilo tinham saído para comprar alguma coisa, então a casa estava livre para os dois.

Henry se insinuou para Chris e eles acabaram na cama minutos depois. Porém, ele sentia o clima estranho. Não era do feitio de Chris ficar aéreo enquanto Henry sentava em seu colo.

Ele queria perguntar se estava tudo bem, mas as palavras não vieram. Estava concentrado demais no prazer que sentia para formular algo coerente. Após ambos gozarem, Henry jogou-se ao lado de Chris, que não moveu um músculo por alguns segundos.

A respiração de Henry estava um tanto ofegante e ele ainda sentia um pouco do efeito do orgasmo. Não demorou muito para Chris levantar e colocar sua cueca.

– Onde cê vai? – Henry perguntou, ainda deitado.

— Tenho que ajudar minha prima com um negócio de dança dela – ele disse, vestindo-se. – Já que vamos sair de noite, vou aproveitar pra resolver isso logo.

Henry franziu o cenho, mas assentiu levemente. Ele levantou-se para buscar suas roupas e abrir a porta para Chris, mas foi interrompido.

— Não precisa, eu sei chegar na porta.

Henry o encarou por alguns segundos. Aquele jeito frio e distante não combinava nada com Chris.

— Eu… Eu quero terminar – Henry gritou no impulso, fazendo Chris parar com a mão na maçaneta

Chris virou-se lentamente, as sobrancelhas franzidas. O silêncio dominou o local enquanto eles se encaravam, o clima completamente tenso.

— E você decidiu isso depois de a gente transar? – Chris perguntou, cruzando os braços sobre o peito.

Henry ficou mexendo no seu anel, tentando descarregar a ansiedade. Tinha tomado a decisão de que ia deixar as coisas rolarem, mas não podia fazer aquilo. Usou o impulso e o fato de Chris não estar olhando para ele para finalmente proferir a sentença.

— Desculpa – ele murmurou, não conseguia olhar para Chris naquele momento.

— Há quanto tempo você quer me dizer isso? – ele perguntou após uns segundos de silêncio.

A pergunta foi como um choque. Ele queria responder a verdade, dizer que tinha errado em ter aceitado o relacionamento. Que tinha medo e não queria aquilo de verdade. E foi exatamente o que saiu de sua boca, por mais ciente que estivesse do quão aquilo machucaria o outro.

— Você mentiu pra mim esse tempo todo… – sentenciou Chris e soltou uma risada, mais de escárnio do que qualquer outra coisa. – Eu deveria saber… Fui muito burro.

— Não fale assim…

— Desde que eu cheguei… Você se preocupa 100% com aquele cara. O jeito que você cuidou dele quando estava bêbado… O jeito como você olha pra ele…

— Isso não tem a ver com Erick – retrucou Henry e Chris soltou mais uma risada.

— Não se faça de idiota, Henrique.

Aquilo calou sua boca. Ficaram em silêncio por alguns segundos.

— Você tá pouco se fodendo pra mim… Essa é a verdade. – Chris acusou. – Me diz, você alguma vez se importou de verdade?

— Eu sempre me importei! Não duvide disso só porque… – as palavras travaram em sua garganta. – Só porque…

— Só porque ele é mais importante?

– Christian…

— Não… Tudo bem. Eu já entendi – ele sentenciou e encarou Henry firmemente mais uma vez. Talvez pela última vez. – Você sempre vai querer ele… Sempre vai precisar dele. Mas infelizmente eu jamais vou ser o Erick, não é? Falhei em tentar fazer você esquecer aquele cara.

Henry apenas retribuía o olhar. Ele não sabia o que falar. Havia um nó gigantesco em sua garganta. Ele sentia lágrimas quentes se formando em seus olhos, assim como algumas escorriam pela face do outro.

Chris rapidamente fungou e limpou as lágrimas com a manga do casaco.

— Espero que ele te faça feliz. – disse finalmente e virou-se para sair do quarto.

Henry não conseguiu dizer mais nada. Pensou que iria aceitar tranquilamente o término. Mas era mais difícil do que ele imaginava. Várias coisas passavam por sua cabeça e ele não conseguia colocar nada em ordem. Com o coração acelerado e as lágrimas escorrendo pelo seu rosto, ele ouviu a porta da frente batendo.

Tinha feito. Estava feito. Não tinha como voltar atrás. E ele não queria. Por mais que doesse, ele estava aliviado. Não doía porque não teria o outro mais em sua vida, doía ter machucado Chris de uma forma tão horrível.

Haviam dado o último beijo. Tiveram a última transa. O último olhar. Mas Henry só tinha se dado conta naquele momento. E não dava mais para voltar atrás. Sabia que correr atrás do outro seria errado, mas queria pelo menos pedir desculpas.

Com a respiração ofegante, ele deixou as lágrimas descerem sem freio.

Querendo ou não, Chris tinha sido uma pessoa importante em sua vida. Tinham passado bons momentos juntos. Henry realmente gostava de Chris, mas talvez não fosse o mesmo sentimento que o outro nutria por si. Com certeza não era na mesma intensidade.

As coisas que Marge havia falado para ele vieram em sua mente e ele percebeu o quão babaca tinha sido. Talvez fosse verdade tudo o que Chris tinha dito, afinal. Marge também estava certa. Sua psicóloga estava certa. Ele sempre amaria Erick e talvez nenhuma pessoa tivesse o poder de mudar aquele sentimento.

Seu coração tinha sido quebrado, mas tinha certeza de que quebrara o de Chris muito antes.

Seus pensamentos foram interrompidos pela porta sendo aberta. Henry achou que fosse Chris, mas para a sua surpresa, era Erick.

— Henry, que horas… – ele parou subitamente. – Você tá chorando e pelado...

A voz alarmada de Erick fez com que Henry entrasse em desespero, pois estava mesmo nu. Puxou rapidamente os lençóis para cima do corpo. Não era possível que Erick o veria pelado com tanta frequência e ele não teria nem sequer uma amostrinha em troca.

Não demorou muito para ele estar do seu lado na cama.

— Eu vou ficar bem – disse Henry fungando e limpando as lágrimas com as mãos. – Só preciso de um tempo sozinho.

Erick o encarou intensamente. Henry sabia o que se passava naquela cabeça loira. Sabia que ele queria insistir, mas para a sua sorte, ele não o fez. Não sabia o motivo, mas também não queria perguntar.

Ficaram em silêncio por alguns segundos antes de Erick quebrá-lo.

— Só quero confirmar o horário de hoje a noite.

— 20h30.

Erick assentiu, agradecendo, e saiu do quarto. Mais uma vez, Henry sentiu aquela coisa estranha, como se tudo estivesse errado. Ficou um tempo na cama, absorvendo tudo o que tinha acontecido, a culpa caindo sobre seus ombros como uma bigorna.

Não querendo ficar naquela depressão intensa e como ainda tinha muito tempo até o horário que tinham combinado, então ele decidiu que iria jogar League of Legends pra distrair a mente.

Havia cometido o erro de jogar no modo ranqueada. Anos jogando aquele jogo, ele sempre se enganava achando que iria se divertir, mas era sempre uma mistura de ódio e frustração que o dominava. Havia partidas boas, sim. Mas naquele dia, tinha perdido as contas de quantas partidas seguidas ele tinha perdido.

E mesmo assim, não largava o jogo de maneira alguma.

Estava prestes a entrar em mais uma partida quando Erick entrou em seu quarto.

– Não sabe bater na porta, caralho? – ele disse com raiva, espantando Erick.

— Só queria dizer que faltam 30 minutos pra sairmos – ele falou com certa frieza e Henry caiu em si.

— Desculpa, esse jogo me estressa – ele esfregou as mãos no rosto. – Não queria dizer isso.

Erick apenas assentiu e disse para Henry se arrumar logo.

Ele não queria ir. Estava na bad demais para ir numa festa. Mas sabia que Marge não iria aceitar aquilo, independente do que ele argumentasse. Seria uma guerra perdida e ele não estava com paciência para ouvir as chantagens e reclamações da outra.

Rapidamente ele fechou o jogo, ainda na tela de seleção de campeões, sem importar as consequências daquilo. Correu para o banheiro, levando suas roupas. Tomou o banho mais rápido da sua vida, se arrumando com a mesma velocidade.

Estava pronto uns 10 minutos depois do horário combinado. Erick fez o favor de esperá-lo, então os três puderam dividir um uber até o local que Marge havia marcado. Era um bar com uma temática rústica e bem bonito.

Eles chegaram ao local e o adentraram, vendo Marge se levantando de onde estava e sacudindo o braço freneticamente para eles. Foram até lá, notando que haviam algumas meninas com ela e entre elas estava Danielle, uma das amigas de Bruno. Eles se cumprimentaram, Marge apresentando todas as suas companheiras de time ali presentes e apresentando Dani para Erick como “a crush suprema do Arsenal”.

Dani revirou os olhos, mas suas bochechas ficaram vermelhas com aquilo. Henry sabia do enorme tombo que a amiga tinha pela garota e torcia para que elas ficassem juntas e Marge esquecesse de uma vez por todas de Rayssa.

Eles se sentaram e Henry teve a impressão de que Erick havia escolhido um lugar bem afastado dele na mesa. Estava tão anestesiado que não se importou muito com aquilo. Queria ter paz e ficar pensando sobre o motivo de Erick não estar perto não ajudava.

— Hoje eu quero sair carregada! – Marge exclamou, virando uma dose de tequila. Chupou o limão e lambeu o sal da mão, passando a garrafa para Erick, que recusou prontamente.

— Chega de ressaca pelo próximo mês – ele disse, tomando uma cerveja.

— Você é fraco, lhe falta ódio – ela acusou.

Ficaram no bar bebendo e conversando por algum tempo, algumas das meninas preferindo ficar no refrigerante. Provavelmente as coitadas se encarregariam de carregar Marge até o hotel.

Ele se levantou para ir ao banheiro, anunciando isso para Marge e virou as costas. Quando chegou perto dos banheiros, sentiu uma mão em seu cotovelo e ao virar-se deparou-se com uma Marge meio bêbada lhe encarando com os olhos franzidos.

— Conta – ela disse e tomou um gole da cerveja que havia na mão.

Henry suspirou e resumiu o acontecimento de mais cedo em poucas palavras. O sorriso que a garota deu surpreendeu até mesmo ele, que esperava que a outra soltasse fogos. Então ela o abraçou fortemente.

— Eu to tão orgulhosa de você – ela disse feliz. – Você conseguiu, cara! Isso é um belo passo.

Henry soltou um muxoxo.

— Só quero deixar isso pra lá – ele respondeu.

— Não fica assim! As coisas tendem a melhorar agora – ela lhe deu um beijo estalado na bochecha. – Você consegue, migo. Eu acredito em ti.

Henry apenas assentiu com a cabeça.

— Ei, sem bad – ela lhe deu um tapinha na bochecha que havia beijado. – Quero você bêbado até cair! Perto de mim você não vai ficar com essa cara não.

Quando eram quase 22h da noite e ela já estava tropeçando um pouco, eles saíram do bar e foram para uma boate ali perto. Henry ficou com dó de seu bolso por ter que pagar para entrar, mas faria qualquer coisa pela amiga. Não demorou muito para ele notar que estavam em uma boate LGBT.

– O maravilhoso mundo onde garotas héteros podem se ver livres de machos escrotos – disse Marge com um sorriso. – De nada, meninas.

Henry nem se lembrava da última vez que estivera em uma boate. Ou em alguma festa que pudesse dançar como se não houvesse amanhã. E lá estava ele, numa boate tocando música pop com sua melhor amiga. Não demorou muito para que fossem ao bar, Marge pedindo várias bebidas coloridas para ambos. Ele perdera Erick e Danilo de vista. Deveriam ter achado pessoas para trocar saliva.

Uma queimação surgiu em seu estômago pelo pensamento.

O álcool descia queimando sua garganta, mas ele não estava se importando. O gosto era bom apesar disso e não demorou muito para sua visão ficar turva e começar a sentir vontade de transar.

Eles saíram do bar para procurar as meninas. Encontraram-nas em uma rodinha, a poucos metros de onde estavam. Marge soltou um grito quando viu Dani, correndo para perto da garota na rodinha.

Ele começou a dançar apenas balançando o corpo de um lado para o outro. Por mais que tivesse bebido, não estava a ponto de sair rebolando sem pudor logo de cara. Aos poucos, foi-se deixando envolver pela música, vez ou outra acompanhando alguma coreografia de alguma das meninas.

Quando Beyoncé começou a tocar alto e em bom som, Henry simplesmente se soltou. Amava todas as músicas da cantora, sabia vários passos e deixou-se levar, dessa vez rebolando com as garotas e dançando conforme a música entrava em seus ouvidos.

Sentiu-se livre. Sentiu-se bem, como não se sentia há um tempo.

Em algum momento, percebeu estar sendo observado. Procurou ao redor por alguns instantes até seus olhos se fixarem em Erick, que estava encostado numa parede próxima, sozinho. O escuro disfarçava os olhares, mas Henry sabia que o outro o encarava.

Ver que Erick estava o olhando só fez com que Henry rebolasse ainda mais. Que dançasse com mais sensualidade ao som de um remix da música Crazy In Love. Seu cabelo estava grudado em seu rosto. Ele sentia o corpo quente, o coração acelerado e tudo era intensificado pelo fato de Erick não tirar os olhos dele.

Ele deu um pulo quando uma mão grande o segurou pelo cotovelo. Henry virou-se rapidamente, vendo um cara alto sorrindo para si. Ele abaixou-se para ficar na altura de sua orelha.

— Posso me juntar a você? – ele perguntou.

Henry ficou um pouco atordoado. Não sabia mais como flertar com desconhecidos.

— Ele tá comigo, desculpa – Marge cortou, se colocando entre os dois.

— Ah! – exclamou o cara. – Tudo bem, desculpe.

Henry a encarou com uma sobrancelha arqueada.

— Vamos evitar qualquer tipo de encrenca hoje, por favor – ela falou – Não acho que Erick ficaria tranquilo com esse tipo de coisa.

O olhar de Henry foi imediatamente para onde Erick estava a poucos segundos. Tentou procurá-lo no meio da multidão, mas não o encontrou. Ele passou a mão nos cabelos suados, respirando fundo. Não demorou muito para Marge tirá-lo de seus devaneios, fazendo com que voltasse a dançar animadamente com as garotas.

Henry perdeu-se no tempo. Quando notou, estavam sendo expulsos da boate. Como Marge queria, ela estava sendo praticamente carregada por suas amigas.

— Melhor noite de todas! – ela exclamou rindo. – Nem acredito que conquistei a crush!

— Não seja convencida, bobinha – disse Dani, que apoiava o corpo de Marge de um dos lados.

Henry soltou uma risada, se despedindo da amiga e se encontrando com Danilo e Erick. Dan parecia cheio de energia ainda, ao passo que Erick estava caindo de sono. Era claro, já que ele se apoiava em Danilo com os olhos fechados. Henry torceu o nariz, mas não disse nada, apenas chamou o Uber.

— Aproveitou bastante? – Dan perguntou, ajeitando Erick em seu ombro.

— Sim, foi divertido – respondeu, um pouco desconfiado de Danilo estar puxando conversa justo com ele. – E você?

— Foi ótimo! – ele exclamou – Nunca tinha ido em uma boate LGBT.

Henry arqueou as sobrancelhas em surpresa.

— Sério?

Danilo assentiu.

— Desde que minha namorada terminou comigo, tenho aprontado um pouco – ele disse e encarou Henry.

— Sinto muito pelo término – Henry estava sendo sincero, apesar de tudo.

— Então você não sabe? – Dan perguntou e logo após soltou uma risada nervosa. – É claro que não. Karine não daria o trabalho.

Henry franziu as sobrancelhas, claramente confuso. Danilo logo esclareceu.

— Minha ex me traiu. Por isso terminamos – Danilo falou e o encarou no fundo de seus olhos, como se conhecesse todos os seus segredos. – Recentemente descobri que foi com você.

Aquilo deixou Henry em completo choque. Fazia séculos que não ficava com alguma menina. A última vez que ele se lembrava havia sido ano passado em uma calourada… Ah.

— Sua namorada era prima da Rayssa? – ele perguntou, apenas para confirmar. Não sabia o que sentir diante da revelação.

Danilo assentiu.

— Ela passou pra UFMG. Enfim… Passado. Não o culpo por isso. – ele deu de ombros. – Claro que eu surtei quando ela terminou comigo… Mas tem sido bem revelador desde que terminamos.

— O que quer dizer com isso? – Henry estava mesmo surpreso. Esperava que Danilo largasse Erick no chão e o socasse até o amanhecer.

— Nós namoramos por uns 5 anos – ele disse, com certo pesar. – Então não tive… hum… Oportunidade de me conhecer melhor. Sobre minha sexualidade, quero dizer. Sempre achei que fosse hétero.

— Ah – foi tudo o que saiu da boca de Henry.

Alguns segundos de silêncio.

— Pode parecer estranho, mas quero te agradecer – sua voz era suave, porém firme. – Sei que não tivemos o melhor dos começos e que provavelmente você me detesta por isso mesmo eu pedindo desculpas… Mas se você não tivesse ficado com Karine, talvez eu nunca saberia a respeito de mim mesmo. Foi bom enquanto durou. Eu amei ela com todo o meu coração, mas pelo visto não era para ser.

Henry ficou sem palavras para aquilo. Estava tentando pensar no que falaria, mas para sua sorte o Uber havia chegado. Danilo acomodou Erick na parte de trás do carro e falou para Henry ir com ele enquanto ele ia no banco da frente.

Não demorou muito para Erick cair em seu ombro, num sono profundo e aparentemente agradável. Quando notou, Henry estava fazendo carinho em seus cachos. O gesto foi tão automático que ele o parou abruptamente.

Ele ficou pensando sobre sua conversa com Danilo e se perguntando se ele já havia ficado com Erick em algum momento. A ideia lhe embrulhava o estômago, mas podia ser algo provável. Henry não sabia o que pensar a respeito daquilo.

E Danilo havia sido incrivelmente gentil. Henry também não sabia o que pensar sobre aquilo.

Seria possível que se tornassem amigos?

Notas finais
O que acharam? Gostaria muito do feedback de vcs! É muito importante para eu continuar escrevendo ♥ Nos vemos então dia 10/08 com o próximo capítulo! Obrigada a todos por lerem ♥ Ghost Kisses ~Marceline