Além da superfície.
51 Pesadelos.
Notas iniciais
Por Quinn
Essa manhã, antes de irmos para o colégio, Rachel me ligou e insistiu para que nós desmarcássemos com Holly, alegando não precisar mais de ajuda. Depois de muito tempo, ela acabou cedendo aos meus pedidos. A morena chegou um pouco atrasada no colégio, nós já havíamos tido a primeira aula. Ela passou por mim nos corredores e me deu um pequeno sorriso, antes de entrar na sua sala.
Na hora do almoço não foi diferente. A pequena parecia querer me evitar o tempo inteiro. Agora, no ensaio do Glee, ela está quieta, como há alguns meses. Um frio percorre minha coluna com o pensamento. Quando todos deixam a sala, Santana franze a testa e dá um pequeno aceno em direção a morena, que permanece calada em seu lugar. Retribuo o gesto, pedindo para que elas nos deixem a sós. Brittany sorri, compreensiva, e leva uma latina desconfiada para fora do coral. Eu me aproximo devagar, com medo de assustá-la. A morena levanta a cabeça, prendendo nossos olhos.
– Você está bem? – Sussurro.
– Estou. – Suspira.
– Ainda é por causa da conversa? – Rachel vira o rosto. – Não precisamos fazer isso, se você não quiser.
– Mas, você quer, amor. – Ela morde o lábio, me encarando outra vez. – E eu sei que você precisa. Que nós precisamos. É só que... Estou cansada, sabe?
– Não muito. – Inclino a cabeça. – Você parecia estar mais animada para falar com Holly quando ela apareceu.
– E eu estava. – Fecha os olhos. – São muitas pessoas querendo saber de mim, muita gente sabendo demais.
– Isso é sobre o nosso namoro? – Pergunto, um pouco magoada.
– Claro que não, Quinn. – Repreende. – Eu fiquei muito tempo sozinha, sem atenção alguma. Só estou estranhando toda essa atenção de repente. Eu queria que me enxergassem, mas não assim. As pessoas me olham com pena. – Franze a testa. – Eu gostaria que eles não soubessem o que aconteceu.
– Eles esquecerão, Rachel. – Seguro sua mão. – Logo sairemos daqui e...
– E se não sairmos? E se eu não conseguir sair?
– Ei! – Levanto. – O que está acontecendo?
– Só estou tentando ser um pouco realista. Vamos encarar os fatos, Quinn. Eu perdi muito tempo de ensaio, faltei muitas aulas. NYADA não me aceitará agora. – Eu abro a boca, incrédula. – Ficarei em Lima, dividida entre as pessoas que me desprezam...
– Rachel, pare.
– E as pessoas que sentem pena de mim.
– PARE. – Seguro seus ombros. – Hey! O que é isso? Voltamos no tempo?
– Desculpe. – Põe as mãos no rosto. – Não dormi direito.
– Quando eu sai de sua casa estava tudo bem...
– Sim, foram só alguns pesadelos. Nada demais. – Sorri de lado.
– Tem certeza?
– Tenho. Esquece o que eu falei.
– Eu não gosto de te ver falando desse jeito. – Admito. A pequena se encolhe, puxando meu corpo para si. – Você está ensaiando muito e tem recuperado as aulas. NYADA não será estúpida de te recusar. – Ela assente, em silêncio. – Rach...
– Shhhh, só me abraça um pouco.
Eu obedeço seu pedido e envolvo meus braços firmemente ao redor dela. Posso sentir sua respiração pesar e sei que ela está se esforçando ao máximo para não chorar aqui. Meu coração se aperta em preocupação. Rachel estava indo bem, muito bem, aliás. Nós ficamos abraçadas por alguns minutos. Quando eu abro a boca para perguntar algo, a porta da sala se abre, fazendo a morena se soltar de meus braços no mesmo instante. Eu poderia duvidar que ela estivesse comigo segundos atrás.
Minha namorada me olha, culpada, enquanto Holly se aproxima sem jeito.
– Me perdoem, eu não queria atrapalhar. – Eu abaixo a cabeça, assentindo. – Está tudo bem por aqui?
– Está. – Rachel responde, voltando para perto de mim. – E você não atrapalhou nada, fique tranqüila.
– Ótimo. – Sorri. – Então, Santana me falou que vocês precisavam de ajuda com algumas coisas. – A morena se encolhe. Eu suspiro alto.
– Estamos com medo de como as pessoas reagirão ao nosso namoro. – Falo.
– Eu estou com medo. – Ela corrige. – Você já deve saber o porquê. – Continua, sarcástica.
– Na verdade, eu sei, sim. – Holly encosta-se ao piano. – Mas, não estamos aqui pra falar sobre o que você passou, Rachel. – Eu sorrio. – Andei conversando com Sue, Sr. Figgins e Will...
– Você saiu falando com todo mundo sobre o meu namoro? – Eu bronqueio a morena com o olhar.
– Não falei com todo mundo, apenas com eles. – Explica. – E não foi sobre o seu namoro, foi sobre o geral na escola. Percebi que vocês estão bem protegidas.
– Nós sabemos. – Sussurro.
– Ninguém está bem protegido por aqui. – Cospe.
– Bem, eu vi que o coral está apoiando vocês e...
– O coral não tem moral nenhuma. – Interrompe novamente.
– E o coral tem os jogadores e as Cheerios mais importantes do colégio. – Continua, ignorando a morena. – Mas, me contem, como está o namoro de vocês? – Tenta quebrar o clima.
– Está maravilhoso. – Respondo. Rachel sorri, tímida. Eu seguro sua mão.
– Quinn está cuidando bem de você, Rachel?
– Melhor impossível. – Fala mais para mim do que para a mulher.
– Fiquei surpresa ao saber, mas muito feliz.
– Nós também estamos felizes. – Abraço a pequena, sendo correspondida com um aperto. – Eu sou louca por ela.
– E eu por você. – Sussurra, me fazendo arrepiar.
– Ah, que bonitinho. – Holly nos lembra que está ali e eu sinto meu rosto arder. – Como a família reagiu?
– Perfeitamente. – Digo, orgulhosa. – Minha mãe e minha irmã sempre me apoiaram. E bem, quanto ao lado de Rachel, não tínhamos com o que nos preocupar, certo? – Nós rimos. A morena fica um pouco tensa. – Certo, Rachel?
– Sim, claro. – Sorri de lado. Holly troca um olhar confuso comigo. – Certo. – Eu aceno para a loira mais velha, que parece entender o recado.
– Eu acho que... – Limpa a garganta. – Eu lembrei que preciso fazer um trabalho com uma turma. Me perdoem. Nos encontramos depois?
– Sim. – Suspiro, enquanto Rachel afunda o rosto em meu uniforme. – Obrigada. – Sussurro para a professora, que assente e faz o caminho para fora da sala.
Eu tento afastar minha namorada, mas ela se prende em meu corpo. Respiro fundo e espero que ela diga alguma coisa. Minha preocupação só aumenta.
– Desculpe. – Se afasta. – Eu estraguei tudo, me desculpe.
– Rachel, olha pra mim. – Ela obedece, sem graça. – O que aconteceu, meu amor? Você está estranha.
– Eu... Eu já falei. – Senta na cadeira. – Só tive um pesadelo.
– Como foi esse pesadelo? – Me ajoelho em sua frente.
– Não quero falar. – Desvia o olhar.
– Certo. – Esfrego os olhos, levantando. – Eu vou para a quadra, Sue não vai aceitar que eu atrase outra vez. – Beijo sua testa. – Vá para casa e descanse um pouco.
– Quinn... Não se chateei comigo, por favor. – A suplica na sua voz faz meu estomago revirar.
– Não estou chateada, Rach. Só quero que você descanse. Você vai ficar bem sozinha? Ou quer que eu peça dispensa do treino?
– Não precisa. – Suspira. – Sue te mataria.
– Eu explico para ela, tenho certeza que ela entenderá.
– Eu estou bem, vou dormir. – Olho-a desconfiada e ela sorri. – Eu prometo.
– Bom. – Ela deixa um beijo demorado em meus lábios. – Qualquer coisa me ligue, ok?
Nós nos despedimos e eu caminho em direção a quadra. Sue me encara, com a testa franzida. Dou os ombros, me aproximando do grupo que está se aquecendo. Sinto o olhar de Santana sob mim, mas decido ignorar, por enquanto. O treino foi bastante cansativo e longo. Nós passamos do horário de sempre. A treinadora nos dá alguns gritos e reclamações. Se eu estivesse com paciência, iria contra ela, mas hoje eu só suspiro pesado e aceito. Não foi um bom treino. Como capitã da equipe, eu concordo com tudo o que ela falou.
Tomo um banho quente, deixando a água correr pelo meu cabelo. Rachel não mandou nada para meu celular. Não sei dizer se isso é bom ou ruim. Talvez ela só tenha pego no sono. Abro a porta do box e vejo Brittany empurrando Santana contra a parede. Eu rio, virando os olhos e limpo a garganta, fazendo-as se separarem.
– Esperem ao menos o banheiro esvaziar. – Brinco.
– Começou agora e já quer ter moral no assunto. – Santana levanta uma sobrancelha e eu sinto meu rosto queimar. Ela sorri vitoriosa. – Estávamos te esperando. Como foi a conversa?
– Não teve conversa. – Sento na pia. – Rachel não deixou que tivesse.
– O que? – Brittany faz uma careta. – Por quê?
– Porque ela cortou tudo que Holly falava. – Suspiro. – Ela não estava em um dia bom.
– Percebemos. – A latina resmunga. – E você está distraída demais nos treinos, Quinn. Sue vai acabar perdendo a paciência com você.
– Ah, San, eu não tive culpa, ok? – Levanto, arrumando minhas coisas.
– Ok, só estou te avisando. – Ela segura a mão da dançarina. – Brittany irá lá para casa, nós tentaremos estudar algo. Você não quer ir com a gente?
– Hoje não dá. – Santana abre a boca, mas a namorada entra na frente.
– Tudo bem, Q. – Diz, doce. – Nós nos viramos.
– Britt, você sabe que nós não conseguimos estudar sozinhas. – A latina diz, derrotada.
– Mas, eu estou estudando com Artie, San. – Cruza os braços. – Você agora só vai falar sobre isso?
– Ei, eu só me preocupo com você.
– Certo, San, mas está chato já.
– Bom, você é quem sabe. – Encolhe os ombros, pegando sua bolsa. – Vejo vocês amanhã.
– Santana. – A dançarina chama, sem sucesso. – Eu falei algo de errado?
– Não, B. – Me aproximo, surpresa pela cena. – É apenas Santana. Logo passa.
– Eu sei que ela está preocupada, mas eu quero minha namorada um pouco, entende? Eu não preciso de ajuda por 24 horas. – Mordo o lábio, pensando no que Rachel falou mais cedo. – Quinn?
– Desculpe. – Balanço a cabeça. – Não leve a mal. Converse com ela direito sobre isso e vocês se entenderão.
– Só se você conversar com Rachel também.
– Mas, nós não... – Ela levanta uma sobrancelha. Eu rio fraco. – Trato feito, Britt.
A dançarina sorri e me abraça apertado. Agradeço por chegar em casa e Frannie ter saído com minha mãe. Agora eu só preciso comer algo e deitar um pouco. Coloco os fones em meu ouvido e fecho olhos, entrando em outro mundo.
Por Rachel
Acordo desorientada. Pelo menos consegui dormir alguma coisa. Noite passada foi o verdadeiro inferno. Sonhei que todos descobriam sobre o meu namoro com Quinn e me jogavam raspadinhas de diversos sabores. O pior de tudo foi reviver a cena de Finn depois das Nacionais, só que com a loira no lugar. Estávamos em um corredor e Quinn me explicava que não podia mais continuar comigo, que ela precisava ser respeitada no colégio. Eu chegava em casa e Hiram abria a porta, dizendo um sonoro e forte “eu avisei”.
Viro para o lado, alcançando meu celular.
Cheguei agora. Sue nos quebrou. Espero que você esteja bem.
Eu te amo, pequena. – Q
Eu sorrio, encarando sua foto. Linda... Eu passei o dia evitando-a, com medo de discutirmos por causa da minha noite mal dormida. Me sinto mal por isso. E com saudades. Vê-la e não poder abraçá-la e beijá-la já é torturante e eu ainda desperdicei as oportunidades que tive hoje. Suspiro alto, levantando da cama.
Tomo um banho rápido e jogo umas roupas na bolsa. Leroy não pergunta nada, apenas sorri e beija minha cabeça, sabendo que estou indo para a casa da loira. Judy abre a porta, sorridente, e me avisa que Quinn está deitada. Peço licença e sigo para o quarto da minha namorada. Dou um pequeno sorriso ao vê-la. Deito ao seu lado, abraçando-a.
– Hm... – A loira se remexe, virando para mim. – Hey... – Sorri.
– Você adormeceu com isso, Quinn? – Tiro seus fones. – Você sabe o quão mal faz dormir com isso no ouvido? – Bronqueio.
– Eu sei, amor. – Vira os olhos. – Só cochilei. Cansada...
– Sue está pegando no seu pé? – Ela faz um bico adorável.
– Muito. – Suspira. – Está insuportável.
– Eu imagino. – Sussurro. – Está muito cansada? – Mordo o lábio.
– Depende. – Sorri de lado. – O que está pensando em fazer?
– Na verdade... – Me aproximo. – Só estou com vontade de te beijar.
– Ótimo. – Passa o nariz suavemente no meu, fazendo meus olhos se fecharem. – Porque eu também estou com vontade.
A loira prende as mãos em minha nuca, trazendo-me para perto e beija meus lábios lentamente. Eu peço passagem com a língua, desesperada por um contato maior. Sinto seu riso ao deixar-me passar. Perco a noção de quanto tempo nós ficamos assim, apenas nos sentindo. A loira tira o meu cabelo do rosto, carinhosa.
– Quinn, eu sinto mu...
– Rachel, você se lembra da apresentação de Push It? – Me interrompe.
– O que... – Eu rio. – Claro que eu lembro. – Escondo meu rosto no travesseiro, enquanto ela tenta me virar, rindo.
– De quem foi aquela idéia? – Provoca.
– Ah, Quinn, já faz muito tempo. – Ela solta uma gargalhada gostosa. – Foi minha, ok? Só estava querendo mostrar que o Glee poderia ser... Sexy.
– Bom, você estava sexy.
– Cala a boca, idiota. – Empurro-a, rindo. – Você estava morrendo de ciúmes do Finn.
– Você estava se esfregando no meu namorado, se é válido lembrar. – Arqueia as sobrancelhas. – E estava sexy.
– Quinn! – Jogo o travesseiro nela.
– O que? Eu não posso te achar sexy? – Ri. Eu jogo outra vez. – Auuush, amor...
– Por que você está falando sobre isso?
– Porque eu quero conversar com minha namorada, longe de toda preocupação. – Diz, suave. – Vamos esquecer nossos problemas um pouco? Hm? – Traça meu rosto com os dedos.
– Acho perfeito. – Suspiro. – Obrigada. – Beijo sua mão. – Quer dizer que o melhor assunto que você achou foi sobre Push It?
– Claro. – Levanta, abrindo as gavetas. – Sexy...
– O que está fazendo? – Rio. Ela mostra dois prendedores de cabelo. – O que?
– Vem cá. – Me puxa, amarrando meu cabelo em duas partes, como no dia da apresentação.
– Eu não acredito que você lembra disso.
– Óbvio que eu lembro. – Me vira, sorrindo. – Foi no dia que eu decidi entrar no clube.
– Nossa, que bom que surtiu efeito. – Brinco.
– Acho até injusto não ter participado daquela coreografia. Sei toda decorada.
– Ah, que mentira. – A loira tira o fone do aparelho e o conecta nas caixas de som. – Quinn? – Ela faz sinal para que eu espere. A música começa a tocar. – Você não está fazendo isso...
– Get up on this. – Canta, se posicionando. Eu solto uma risada sonora. – Uh, baby, baby. Ba-baby, baby.
Eu balanço o braço no ar, divertida. A loira continua cantando e fazendo a coreografia. Meu Deus, como eu sou apaixonada por essa pessoa! Meu coração acelera loucamente em meu peito, vendo-a se movimentar. Ela joga uma escova para mim, me incentivando a cantar. Eu nego com a cabeça, rindo dessa cena idiota. Quinn me puxa da cama e eu acabo me juntando a ela. Nós terminamos a música gargalhando e nos jogamos no chão.
– Eu te amo tanto. – Sussurro. Ela sorri grande.
– Eu também te amo, minha pequena. – Beija minha boca. – Sexy.
Eu rio, virando os olhos. Junto nossas bocas de novo, aproveitando cada detalhe seu e deixando todo o medo ir embora do meu corpo outra vez.
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