Além da superfície.
20 Guardiã.
Notas iniciais
Por Quinn
Eu não consigo reagir. Rachel toma o papel da minha mão, furiosa. Tento balbuciar algo, mas não sai nada.
– O que você está fazendo aqui? – Sua voz é baixa e terrivelmente assustadora.
– Você... Rach, você... – Eu tento afastar as lágrimas, para conseguir falar. – Você...
– VAI EMBORA. – Grita, me assustando.
– O que?
– Vai embora. Eu não quero ver você aqui outra vez. Eu te disse que você estava entrando, Quinn, e você ultrapassou nossos limites.
– Me perdoe, eu não quis ser...
– SAIA! – Eu encolho, baixando a cabeça.
– Eu quero que você explique isso. – Digo firme. Ela ri sarcástica.
– Eu quero que você se dane. E que saia daqui o mais rápido possível.
– Não faça isso, eu só quero te ajud....
– VAI. EMBORA. DAQUI. – Ela começa a me empurrar do quarto.
– Você está me machucando. – Soluço, tentando segurá-la.
– O que está acontecendo aqui? – Hiram aparece, franzindo a testa. Merda. Rachel me solta e bate a porta do quarto, nos deixando fora. – Quinn?
– Eu sinto muito. – Sussurro, indo embora. Eu paro na frente, antes de sair e viro para o homem confuso. – Por favor, olhe Rachel.
Entro no meu carro, tremendo. Não sei como eu dirigi até em casa, mas eu chego, sem conseguir respirar direito. Eu estraguei tudo. Pego o celular e ligo para Santana.
– Fala, Fabray. – Atende. Eu quebro ao ouvir a sua voz. – Quinn? O que houve?
– Rachel... – Sussurro.
– O que aconteceu? Eu acabei de deixa-la em casa. Está tudo bem.
– Não está. Vá para lá, Santana. – Suplico.
– Se acalme, Q. – Sua voz preocupada só piora. – Quinn...
Eu desligo, querendo que ela vá logo para lá. As palavras escritas naquele papel ecoam na minha cabeça. Eu coloco a mão nos ouvidos, tentando parar de pensar. Meu peito aperta forte. Puxo o ar o mais fundo que posso, mas parece que, simplesmente, não existe oxigênio. Sinto um braço me sentando no sofá. Aperto os olhos e percebo que Frannie está ao meu lado.
– Respire. – Pede. – Olhe para mim. – Ela coloca minha mão em seu peito. – Estou respirando, você também pode. – O desespero começa a bater. Eu não posso morrer, eu preciso ajudar Rachel. – Quinn, acalme-se. – Minha irmã prende meus ombros e puxa um pouco a minha camisa, folgando-a. Um soluço estrangulador solta da minha garganta, permitindo a passagem do ar. – Shhh... Respire, está tudo bem.
– Rach... – Murmuro. – Ela...
– Shhhh, não fale nada.
Ela puxa minha cabeça para seu colo. Deixo as lágrimas caírem, agarrando seu corpo mais para perto. Frannie levanta, para que eu deite nela, como uma criança. Sinto suas mãos nas minhas costas, suaves.
– Rach... – Sussurro. – Oh, meu Deus...
– Você quer me dizer o que aconteceu?
Abro a boca para respondê-la, mas a campainha toca, me interrompendo. Fran me olha e eu deslizo para o lado, para que ela possa atender. Vejo Santana entrar, nervosa. Eu salto em direção a ela.
– QUE MERDA VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI? EU MANDEI VOCÊ IR PARA RACHEL. – Grito.
– Quinn, acalme-se. – Ela tenta chegar perto, mas eu afasto.
– SANTANA, VOCÊ NÃO PODE DEIXÁ-LA SOZINHA.
– Brittany está lá. Fique calma. Eu vim ver você.
Eu respiro fundo, para não perder o controle de novo e suspiro. Santana segura minha mão e senta do meu lado, como Frannie. Mais calma, eu conto sobre a carta e o que aconteceu depois.
– Pessoas que se automutilam têm uma tendência ao suicídio, Q.
– Ela não pode fazer isso, Fran. – Digo angustiada. – Ela não pode... se matar.
– Ela não vai, ok? – Minha irmã passa a mão no meu cabelo, carinhosa. – O que importa é que vocês notaram isso a tempo. Rachel está se abrindo.
– Estava. Eu estraguei tudo. – Murmuro.
– Não estragou. Certo, você errou em ter invadido a privacidade dela, mas acabou descobrindo algo importante e muito sério. Rachel precisa de ajuda, de amigos, dos pais e de um profissional.
– O que a gente faz? – Santana pergunta.
– Mantenham a calma. Não vai adiantar ficar assim, ela precisa de vocês fortes. San, ela não vai dizer o que houve, mas ela sabe que Quinn já te falou, então, por favor, não olhe com pena, ou com medo. Você também, Q. Isso só vai piorar. Tratem ela normalmente.
Um barulho nos interrompe. Santana tira o celular do bolso e abre uma mensagem.
San, ela acabou de dormir. Lutou um pouco contra mim, mas acabou me deixando ficar. Ela estava chorando muito e xingando Quinn o tempo inteiro. Não entendi o que aconteceu. – B
Eu solto um suspiro trêmulo e esfrego meus olhos, cansada.
– Por que você não vai tomar um banho e tenta dormir também, Quinnie? – Fran fala suave. Eu assinto, levantando.
– Você vai ficar? – Pergunto para Santana. – Por favor.
– Claro que sim. Eu já subo. – Sorri de lado.
Por Rachel
Acordo com minha cabeça explodindo de dor. Me remexo na cama e sinto um braço me puxar. Viro para ver Brittany, dormindo. Suspiro pesado, lembrando o porque. Eu coloquei naquela gaveta, todos os sentimentos que eu queria enterrar. Quinn não podia ter entrado e vasculhado tudo. Me sinto invadida. Meu coração se aperta. Eu estava gostando de tê-la por perto, mas agora eu não posso mais. Eu não confio mais. Enterro a cabeça nos braços de Britt, que coloca a mão nas minhas costas, fazendo um carinho leve. Sorrio de lado. A dançarina não fez nenhuma pergunta, apenas ficou e me segurou a noite inteira, mesmo que eu tenha insistido para que ela saísse. Ainda bem que ela ficou. Eu não suportaria ter ficado sozinha.
– Precisamos levantar. – Sussurra. Eu assinto devagar. – Você está bem?
– Não. – Suspiro. – Mas, eu já estou acostumada com isso. Vamos.
– Você não tem que se acostumar com essas coisas, Rachel. – Eu balanço a cabeça.
– Tudo bem, Britt. Sério. – Ela beija minha testa e levanta. – Você precisa de alguma coisa no banheiro?
– Não, obrigada. Eu trouxe tudo. – Sorri, saindo.
É claro que ela trouxe tudo. Quinn, provavelmente mandou que ela viesse. Nós nos trocamos e descemos. Meus pais já estavam na mesa. Dou um beijo nos dois e sento. Brittany os cumprimenta, educadamente. Hiram limpa a garganta, me fazendo estremecer. Fecho os olhos, esperando.
– Então, o que foi aquilo tudo ontem?
– Nada demais, papai.
– Rachel, você estava gritando e empurrando Quinn para fora daqui. O que ela fez? – Sinto o olhar assustado de Brittany em mim.
– Nós discutimos. – Sussurro.
– Sim, isso eu percebi. Eu e toda a vizinhança, aliás.
– Sinto muito. – Baixo a cabeça.
– Por que vocês brigaram? – Seu tom grosso faz meus olhos arderem.
– Porque... – Limpo a garganta. – Porque ela ficou com Finn. – Minto. Ouço Brittany suspirar.
– Eu sabia que essa menina não era confiável. Viu só? – Ele aponta pra Leroy, que encolhe os ombros.
Eu como tudo mais rápido e saio quase correndo para o carro. A loira me segue, mais uma vez, sem perguntas. Chegamos ao colégio, Santana já estava na porta. Ela dá um beijo demorado na bochecha de Britt. Eu sorrio fraco, vendo as duas. Então, a latina coloca um braço em cima do meu ombro e entra. Tudo normal. Ninguém teve coragem de falar algo de novo comigo. Não quando eu tenho Santana Lopez abraçada a mim. Foi difícil me concentrar nas aulas. Quando eu achava que estava conseguindo esquecer, a imagem de Quinn tremendo, segurando o papel, chorando, invade minha cabeça com força, me quebrando.
Antes do Glee começar, sento na sala, sozinha. Estava brincando com o piano, quando Santana aparece, senta comigo e começa a tocar também. Eu sorrio para ela. Ficamos tocando juntas mais um pouco.
– Quinn disse que te ligou várias vezes. – Quebra o silêncio.
– Deixei o meu celular em casa. – Dou os ombros. Ela me encara.
– Ela está mal. – Eu suspiro, cobrindo meu rosto com as mãos. – Você precisa conversar com ela.
– Eu não quero, San. – Sussurro.
– Você vai simplesmente afastá-la outra vez? Depois de tudo?
– Por favor, eu não quero falar sobre isso. – Suplico.
– Certo. – Ela vira. – Apenas pense no que faz. Quinn não está feliz com tudo isso.
O ensaio foi tranquilo. Finn ficou quieto na dele, Mercedes ainda não tinha voltado. Tina ficou conversando comigo e San. Depois da aula ontem, nós saímos juntas. Eu sempre gostei dela. Nós nunca tivemos a oportunidade de nos aproximar, mas por motivos óbvios, nunca fizemos. É bom ter alguém que não sabe o que está acontecendo. Eu sinto seus olhares curiosos, eu sei que ela percebe que eu não estou bem, mas não passa disso. Chego em casa e vejo oito chamadas perdidas de Quinn. Suspiro. Três mensagens.
Por favor, eu preciso falar com você, me atende. – Q
Rachel, não faz isso. Estou preocupada com você. Não me deixe de fora. –Q
Estou esperando você retornar, ok? Eu não vou dormir até você me ligar. –Q
–x-
E Quinn não dorme há uma semana. Nos primeiros dias, ela tentou falar com a morena durante o colégio, mas foi ignorada. Então, ela resolveu dar tempo. Rachel não a olhava, não sentava próxima nos ensaios. A loira a acompanhava nos corredores, protegendo-a, mas não trocavam palavras. Isso estava devastando Quinn. Santana e Brittany tratavam de ficar sempre por perto de Rachel, acalmando-a mais.
Durante o ensaio de dança do Glee, Quinn sentou na cadeira do auditório, cansada e ficou assistindo os outros dançarem. Foi um movimento que a pequena fez, que gelou o coração dela. Quinn paralisou, encarando-a.
– Ei, tem alguém ai? – Santana ri. – O ensaio terminou.
– Eu preciso... – Levanta. – Depois nos falamos.
A loira pula da cadeira, seguindo Rachel em direção ao banheiro. Ela tranca a porta atrás, fazendo a morena se assustar.
– Levante a blusa. – Pede calma.
– O que? – Rachel franze a testa.
– Levanta a merda da blusa, Rachel.
– Eu não vou fazer isso. – Ri nervosa. Ela tenta sair, mas Quinn fica na frente. – Me deixe sair.
– Eu quero que você levante a blusa. – A voz firme de Quinn faz Rachel estremecer. – Por favor.
– Eu não quero mais falar com você. Você ainda não percebeu?
– Rach, pare com isso. – Suspira, baixando a guarda. – Eu só quero te ver.
– E eu não quero que você me veja. Que inferno. – Tenta sair mais uma vez. A loira segura seu punho, olhando para o chão.
– Você não quer mesmo falar comigo? – O tom magoado da loira ecoou no banheiro. – Quer mesmo que eu me afaste?
– Sim. – Sussurra.
– Certo. – Engole seco. – Só... Conte para Santana e Brittany, ok? Elas merecem saber disso.
Por Quinn
– Eu não vou mais te incomodar. – Sorrio falso, soltando seu braço e virando para a porta. – Não se machuque.
Eu saio pelo corredor, ignorando os chamados das minhas amigas. Eu sou uma estúpida. Prometi que ia cuidar dela e só fiz besteira. Como eu não percebi isso antes? Me tranco no meu quarto e aumento meu som. Eu preciso falar com Fran, mas quero ficar sozinha no momento. Elas não me atrapalham, respeitando o meu espaço. Coloco a cabeça em meu travesseiro e grito forte. Não sei por quanto tempo eu fiquei assim, mas a batida na minha porta me acorda. Esfrego os olhos, confusa. Quando eu abro, meu coração dá uma volta.
– Rachel... – Sussurro. Ela abraça minha cintura e enterra a cabeça em meu peito, soluçando. – Tudo bem, eu estou aqui. – Envolvo seu corpo, com cuidado. – Shhh...
– Me perdoe. – Murmura com a voz falha. Eu fecho os olhos, passando a mão em seu cabelo.
– Está tudo bem. – Repito.
– Não está. – Ela se afasta, com raiva. – É tudo uma merda. Eu sou uma merda.
– Não fale assim. – Bronqueio.
– É a verdade, Quinn. Olhe para mim! – Ela levanta a blusa e eu sinto tudo rodar. – Eu não queria, eu juro, eu...
– Rach... – Eu passo a mão em suas cicatrizes na cintura. – Por que você não me contou?
– Porque eu não queria que vocês se decepcionassem comigo. Eu sou fraca, Q. É isso. – Ela está irritada.
– Você não é fraca.
– SOU. EU SOU UMA FRACA, PERDEDORA.
– Pare. – Tento segurar seus braços, mas ela se afasta. – Pare. – Antes que eu pudesse prever seus movimentos, Rachel dá um murro forte na parede. – PARE, RACH. Você vai se machucar.
– Eu já estou machucada. – Ri, dando outro. Finalmente, eu puxo seu corpo para o meu. Prendendo-a.
– Pare. – Peço calma. – Pare, meu amor, pare. – Sussurro, sentindo minhas lágrimas descerem. Nós caímos no chão, abraçadas. Ela chorando alto, quase gritando. – Shhh...
– Eu não queria, Quinn, eu não queria...
– Eu sei. – Beijo sua cabeça. – Eu não vou deixar isso te acontecer de novo, eu prometo.
Eu levanto a pequena, levando-a para a cama. Ela se alinha em meu corpo.
– Eu não tentei me matar. – Sussurra. – Eu tenho várias daquela carta. Dezenas delas. Escrevendo, eu encontrei um jeito de colocar meus sentimentos para fora. Mas, eu nunca tentei tirar minha vida. – Eu assinto, aliviada. Ela respira fundo. – A primeira vez que eu me cortei, foi quando Finn me jogou uma raspadinha. Eu vi todos vocês rindo de mim. Eu percebi que eu estava sozinha. Doeu, mas então veio o alivio. Ver meu sangue escorrer me traz alivio. Desde então, é como se o ar faltasse para mim. Quando eu faço o corte, eu consigo respirar outra vez.
– Eu sinto muito, Rach. – Aperto-a.
– Não fale nada, por favor. – Pede. – Eu só queria te contar. Não fale mais. – Suspira. – Cante.
– Tem certeza? – Ela assente.
Eu limpo a garganta e começo a cantar Guardian de Alanis Morissette. Sei que minha voz está rouca, carregada de emoções. Mas, eu estava tentando transmitir confiança para ela. Eu quero protege-la com toda minha alma. Pensar em Rachel se machucando outra vez é o inferno. Vejo um sorriso fraco em seus lábios, quando termino a música. Ela adormece em meus braços.
Trinta minutos. Esse foi o tempo contando para ela despertar, nervosa. Eu desenho círculos imaginários em suas costas.
– Qual o problema? – Sussurro.
– Pesadelo. – Diz, com suas lágrimas caindo outra vez.
– Não chore. – Tento limpar seu rosto, mas ela quebra ainda mais. – Rach...
Seu rosto é inexpressivo. Eu solto um suspiro sonoro, puxando-a para meu pescoço. Sinto suas lágrimas na minha pele.
– Eu sou uma merda. – Repete.
– Ei... – Seguro seu rosto entre as mãos. Há tanto medo e dor em seus olhos, que ela está tremendo. Eu me inclino e beijo o rastro de suas lágrimas suavemente. – Você é linda.
Ela sorri de lado. Eu beijo sua bochecha e sua testa, passando meus lábios em sua pele molhada. Não tem desejo nisso, só conforto. Eu querendo tranquiliza-la. Ela vai relaxando, parando de chorar lentamente. Quando eu ia beijá-la outra vez, Rachel vira, me pegando de surpresa. Nossos lábios se encontram por alguns segundos. Eu me afasto, para me desculpar, mas ela põe a mão em meu rosto, puxando-me para sua boca. Percebo sua necessidade nesse gesto e relaxo, empurrando nossos lábios, suavemente. O gosto é agridoce. Suas lágrimas misturadas com o sabor de sua boca.
Ela arranha meu corpo, me trazendo para mais perto ainda. Eu estremeço quando sinto sua língua pedindo entrada. Eu abro a boca, permitindo-a. Sua língua mergulha suavemente, lutando com a minha própria. Ela rola seu corpo em cima do meu, estabelecendo-se entre as minhas pernas. Seus braços enrolados em volta do meu pescoço com força, agarrando-se a mim com urgência, enquanto sua boca continuava engolindo a minha.
Rachel dança no beijo lentamente, trabalhando com um ritmo delicioso. Eu não queria parar. Eu não senti medo ou dúvida, estava tudo muito claro em minha mente. Eu a amo. Então, a morena sai de cima de mim rapidamente, como se a atmosfera tivesse mudado.
– Oh, meu Deus. – Sussurra. — Eu sinto muito...
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