Além da superfície.
71 Futuro.
Notas iniciais
Por Rachel
As cheerios foram bem recebidas esta manhã. Sue cruzou os braços, com os olhos brilhantes e peito estufado. Ela tinha feito o seu trabalho, como sempre. Os aplausos e assobios não paravam quando uma delas aparecia. Mas, quando Quinn chegou, o barulho foi quase ensurdecedor. Eu me encolhi um pouco ao lado do meu armário, vendo a loira entrar com o sorriso de capitã das lideres de torcidas que, sinceramente, eu acho que ela nunca perderá. Minha namorada agradeceu, acenando com a cabeça. Assim que seus olhos fizeram contato com os meus, eu soube que ela havia se desligado do resto do pessoal, bem como eu fiz.
Sem seu famoso uniforme, Quinn resolveu aparecer com um vestido branco e um bolero amarelo por cima. O cabelo solto também era novidade. As poucas vezes que ela apareceu assim no colégio, foram durante a sua gravidez, onde teve que se afastar dos treinos. A loira se aproximou de mim, me envolvendo em um abraço apertado. As vozes que se dirigiam a ela foram parando até virarem apenas sussurros. Algo que eu posso facilmente ignorar, tendo-a em meus braços.
Brittany e Santana se juntaram e nós caminhamos para nossas salas. Os corredores já estão enfeitados de propagandas sobre o baile, cartazes de casais candidatos às coroas. Quinn sorriu de lado, analisando tudo. Mas, algo em seu sorriso me dizia que ela não estava completamente bem. E eu levei o primeiro tempo inteiro pensando sobre isso. Desde que eu a conheço, seu sonho era subir naquele palco e ser coroada como a rainha do baile. Um sonho que eu considerei estúpido por alguns anos, tendo em vista os meus objetivos. Agora, conhecendo-a como eu a conheço, sei que de estúpido não tem nada.
A voz do professor Schue me traz de volta a realidade. Brittany levanta em um pulo, fingindo bater em uma bateria, com baquetas invisíveis.
– Baile a fantasia! – Diz, empolgada.
Eu arqueio as sobrancelhas, vendo uns comemorarem e outros resmungarem.
– Sério? – Mercedes faz uma careta. – Você não tinha um tema mais batido não? – Ironiza.
– Eu acho perfeito. – Santana abraça a cintura da namorada cabisbaixa.
– Não consegui pensar em nada mais. – Lamenta. – E nós nunca fizemos um baile à fantasia.
– Eu gosto da idéia. – Tina aprova.
– Talvez se restringíssemos mais... Heróis, filmes, desenhos. – Blaine opina.
– Melhor você escolher a fantasia que quiser. – Finn cruza os braços.
– É só botar um terno, Frankenstein. – A latina provoca, fazendo o menino virar os olhos.
– Santana, eu não vou falar do que você tem que se vestir em respeito a sua namorada.
– Você não se atreveria. – Entrecerra os olhos.
– Ok, não briguem. – Kurt se mete no meio dos dois.
– Eu acho que perde a magia dos vestidos lindos e longos dos bailes de final de ano. – Sugar fala girando.
– Mas, não necessariamente é preciso perder. – Finalmente, a voz que todo mundo estava esperando se pronuncia. – Existem várias personagens com excelentes vestidos para nos emprestarmos.
– Vestidos incríveis. – Kurt acompanha, emocionado.
– Deus, ele virá de vestido.
– Eu não virei de vestido, Puckerman. – Bufa. – O Fantasma da Ópera é meu e ninguém tasca. – Avisa, nos fazendo rir. Kurt é tão óbvio às vezes.
– Já que o tema já foi decido pela nossa presidente, não temos muito que discutirmos. Ótimo tema, por sinal, Brittany. – O professor sorri, apertando o ombro da dançarina. – Vamos à parte que nos interessa? As músicas!
Santana sorri grande e acena para os músicos, como se já tivesse esperando por essa pergunta. A latina senta a namorada em uma cadeira e começa a cantar "Love You Like a Love Song". Eu olho para Quinn, que me dá um beijo na testa e entrelaça nossas mãos. Nós sorrimos com as meninas. Tina e Brittany acompanham Santana, fazendo segunda voz. Os meninos dançam, animados. Mercedes... Bom, Mercedes encara Sam como se só existisse ele na sala. A música termina e nós aplaudimos as três calorosamente.
– Boa escolha, Santana. Estou gostando de vocês participando. – O professor sorri. – Rachel? Você tem alguma idéia?
– Não, eu não pensei em nada ainda. Sinto muito. – Me encolho.
– Tudo bem. Teremos uma semana pela frente. – Eu assinto. – Alguém mais quer cantar? – Nós negamos. – Nos vemos amanhã, garotos! Quero muitas idéias na próxima aula. Precisamos fazer desse, o melhor baile de todos.
Todos se levantam, saindo da sala. Santana permanece no colo de Brittany, parecendo estar conversando sobre um assunto sério. Aproveito o momento e seguro o braço de Quinn, puxando-a para o outro lado da sala. Antes que eu possa falar, junto nossos lábios com força. Ela ri, passando os braços atrás de mim e se deixando levar pelo beijo.
– Eu preciso te perguntar uma coisa. – Sussurro.
– Pode perguntar.
– De zero a dez, quanto você quer participar da disputa pela coroa?
– Eu não...
– Quinn!
– Hm... – Ela morde o lábio. – Cinco? – Eu levanto uma sobrancelha. – Ok, oito.
– Eu quero que você participe. – Aliso seu cabelo.
– Você participará comigo?
– Não, mas...
– Então, zero. – Dá os ombros.
– Amor. – Seguro seu rosto. – Olha pra mim. – Ela obedece. – Você quer.
– Eu quero. – Suspira. – Mas, não irei sem você.
– E eu quero que você participe. Se eu for com você, quais serão suas chances de ganhar? Nenhuma.
– Não seria a primeira vez. – Sorri, irônica. – Não ligo.
– Por favor, Quinn. – Peço. – Não faz isso. Participa.
– Com quem?
– Com... Não sei... Só não com Sam. Nem Lena. – Penso um pouco. – Nem Joe. – Ela ri.
– Deixa isso pra lá. – Esconde o rosto em meu pescoço. Eu levanto a cabeça, vendo os meninos passarem no corredor.
– Finn!
– O que? – Se afasta para me encarar.
– O Finn. Ele sempre foi o seu par. Por que não?
– Tirando que as coisas não estejam tão bem entre nós ultimamente? Que ele tentou roubar minha namorada, sabendo que ela estava comigo? Que ele jogou na minha cara as coisas de ruim que eu já fiz e o “risco” que você corre com isso? Ou...
– Shhh... – Interrompo-a. – Vocês eram amigos, Q.
– Éramos, Rachel. Não mais.
– Ele é o capitão dos jogadores. Tem uma excelente reputação, que não foi perdida nem mesmo pelo coral. Todos gostam dele e...
– Ok, ok. Eu não entendo essa sua admiração por ele. – Me solta. – Respeitei você perdoá-lo e tudo mais, mas às vezes...
– Às vezes o que, Quinn? – Pergunto, sabendo o que ela iria dizer. Seu rosto fica corado.
– Não sei. Às vezes me dá impressão que você continua gostando dele.
– Eu gosto dele.
– Mais... Mais que amigo.
– Vamos fingir que nossa conversa não está tomando esse rumo, porque não tem sentido, já que eu namoro você e não com ele.
– Desculpa, eu sei que é besta, mas... É o Finn.
– Tudo bem. Eu entendo, ele é seu ex namorado também. E era seu amigo. – Ela se apóia no piano. – Você pode pelo menos pensar nisso?
– Você pode pensar em se candidatar comigo?
– Penso agora com você. Ninguém gosta de mim. – Ela abre a boca. – É a verdade, Q. Fariam piadas, escreveriam nomes, colocariam chifres, bigodes nos cartazes. Chamaria minha atenção e eu preciso ficar quieta.
– Eu entendo. – Suspira, encostando a testa em meu ombro. – Eu vou pensar. Prometo.
Por Quinn
A parte boa de não ter treino após o clube do coral é que eu não preciso sair correndo da sala e deixar Rachel pra trás. A próxima aula irá demorar a começar, então resolvemos ficar um pouco mais na sala, aproveitando a oportunidade. Minha namorada sorri quando nosso fôlego acaba e se afasta do beijo, colocando uma mexa de meu cabelo para trás de minha orelha. Eu a abraço e ela descansa a cabeça em meu peito. Finalmente, lembro que não estamos sozinhas. Meu olhar vai à direção contrária a nossa e eu vejo Santana e Brittany sentadas uma de frente para outra.
– Será que elas estão bem? – Rach sussurra, percebendo minha atenção.
– Eu espero que sim. – Franzo a testa. – Estava tudo ótimo até agora.
– Você sabe que elas brigam do nada.
– Não é tão do nada assim. Algumas coisas se juntam e explodem de vez.
– Eu que o diga. – Fala baixo. A latina segura uma mão da namorada. – Não parece briga.
– Não. – Volto a olhá-la. – Você já sabe com que fantasia vai?
– Não tenho noção. Você já?
– Algumas idéias. – Sorrio, inclinando a cabeça.
– O que, por exemplo?
– Por que não deixamos isso em segredo? – Proponho. – Você me surpreende. Eu te surpreendo. E depois... Depois nós arrumamos um bom lugar para passarmos a noite. Quem sabe San não nos empresta sua casa outra vez? – Levanto uma sobrancelha, sentindo seu corpo estremecer.
– Soa perfeito, mas não ficaria muito longe para sairmos à noite?
– Sim. – Mordo o lábio. – Ok, eu darei um jeito de ficarmos a sós.
– O que você está planejando, Fabray? – Rachel me puxa pela cintura, encostando nossos corpos. – Estou começando a gostar desse tal baile.
– Acho bom você escolher uma boa fantasia. – Digo em seu ouvido.
A morena sorri. Mas, antes que nossos lábios se encontrem, alguém limpa a garganta ao nosso lado.
– Estou pensando em alguma roupa da Britney Spears no clipe de Circus. – Santana arregala os olhos, tossindo, enquanto nós rimos.
– Britt, depois nós falamos sobre isso. – Alisa o braço da loira mais alta. Percebo os olhos das duas, avermelhados, mas a latina nega antes que eu pergunte algo. – Quão estanho é não ter treino essa hora?
– Muito estranho. – Choramingo. – Mas, Sue disse que nos chamaria semana que vem para que não ficássemos paradas.
– Sério que vocês gostam tanto assim dos gritos dela? – Rach brinca.
– É mais forte do que nós. – Britt ri. – Você quis continuar no coral mesmo quando perdemos as regionais no primeiro ano.
– Touché. – Levanta as mãos. – Por que não vamos para o auditório? Lá é bem mais aconchegante. – Me manda um olhar e eu o entendo rapidamente.
– Claro. Eu só preciso ir ao banheiro antes. Vão indo na frente. – Aceno. – Vem comigo, San.
Eu puxo o braço da minha amiga e ela me segue sem esforço. Ao entrarmos no banheiro, um par de garotas nos olha, surpreendidas e temerosas, nos parabenizam e saem praticamente correndo. Fecho a porta, vendo Santana sentar em cima da pia.
– Brittany ficou chateada com o comentário de Mercedes. Você sabe. Ela é sensível.
– E você não muito. No entanto, está com essa cara de choro. – Me aproximo. – O que houve?
– Eu disse que seria nosso ultimo baile, para que ela não ligasse para isso. – Encolhe os ombros. – Aí ela disse que é meu ultimo baile. E começou com aquela história de que não sabe se terminará o colégio esse ano.
– Ow, San. – Aperto seu joelho. – Como estão as notas dela?
– Ruins. – Faz uma careta. – Melhoraram um pouco, mas... Eu não quero pensar nisso, sabe? Meu sonho está em Nova York e eu simplesmente estou com medo de passar e ter que deixá-la aqui.
– Mesmo que isso aconteça vocês poderão dar um jeito. Não é tão longe assim.
– Quinn!
– Ok, será difícil, mas poxa, Santana! — Suspiro. – Daremos um jeito. Somos a trindade profana, nós sempre damos um jeito, lembra? – Ela assente, encarando o chão.
– Eu sei que eu disse que queria aproveitar todos os segundos desse ano, mas às vezes a realidade nos bate muito forte. Você ouviu o que eu falei? Eu não estou com medo de não receber a carta, de perder NYADA próximo ano. Estou com medo dela não passar comigo. Isso é... Insano.
– Não é insano, porque eu sei como você está se sentindo.
– Berry vai passar, Quinn. – Vira os olhos.
– Escuta, San. Não vamos ser pessimista, por favor. Precisamos disso. Ainda falta muita coisa. Teremos o baile, teremos as nacionais, a formatura. Continua aproveitando. O que tiver que acontecer...
– Deus, não!
– Vai acontecer. – Rio, empurrando seu ombro. – Eu sei que é frase feita, mas é a mais certa de todas elas. Dependendo do que for, eu prometo pensar com vocês e tentar ajudar em tudo que eu puder até acharmos uma saída.
– Ok. – Suspira. – Vamos para o auditório antes que sua namorada enlouqueça a minha.
– Idiota.
– Obrigada. – Me aperta em um abraço.
Nós seguimos para ao auditório e nos surpreendemos ao notar que quem estava cantando não era Rachel, e sim Brittany. Santana abre um sorriso imenso e senta em uma das cadeiras, admirando a dançarina. Eu me junto a Rachel, que entrelaça nossas mãos e descansa a cabeça em meu ombro. Me aconchego na posição. Não posso culpar Santana por pensar no futuro. Isso é algo que eu realmente não gosto de fazer desde que eu engravidei e vi um borrão em meu caminho. Era assustador pensar. E deparei-me com uma turbulência de sentimentos que não fazia idéia de que podia senti-los. Foram momentos estranhos, cheios de dúvidas e de amargura. Se eu os superei, não posso dizer, mas eu consegui respirar e seguir em frente. É a tal luz no fim do túnel, estou caminhando em direção a ela, sem tanta pressa, porque eu sei que ela existe, ao contrário de antes. É como se passasse a mão nos olhos, como quem tenta desembaçar a visão turva que as lágrimas causaram, e conseguisse enxergar o que eu não conseguia mais.
Foram tantas mentiras, que eu cheguei a achar que tudo que me diziam era falso. Duvidei das poucas pessoas que só queriam o meu bem. E por muitas vezes, quis me desprender delas, deixá-las para trás. E pensar desse jeito me doía mais do que qualquer mentira que eu havia descoberto. Não conseguia pensar em seguir em frente, se eu tinha que deixar as pessoas que eu mais gastava, de lado. Eu deitava todas as noites e sentia um vazio me tomar, uma vontade louca e inexplicável de procurar essas pessoas e dizer tudo que estava sentindo. E eu rezava.
Foi como uma tempestade duradoura. Precisei levar uns carões, principalmente de Santana e Frannie, precisei ver que não dependia só de mim. E eu aprendi e segui, porque uma hora isso tem que acontecer. Eu tenho feito muitos planos com Rachel e essa é uma das maiores provas de que ela afasta meus grandes medos. Rachel é a minha luz do fim do túnel, mesmo que ela não saiba o quão isso significa. E nem precisa saber.
Sem perceber, solto um suspiro arrastado, conseguindo a sua atenção. A morena me olha, curiosa e eu decoro cada ponto de seu rosto como se minha vida dependesse só disso. Ela sorri. Eu a beijo. Porque não importa quanto tempo passe, eu sei que eu nunca vou resistir ao seu sorriso. É algo certo de meu futuro.
– Eu te amo tanto. – Sussurro contra a sua boca.
– Eu também te amo, amor. – Ela limpa uma lágrima teimosa do meu rosto. – O que houve? Está tudo bem?
– Está tudo perfeito. – Fecho os olhos, sorrindo. – Você consegue imaginar sua vida daqui a três anos?
– Não muito. – Encolhe os ombros. E eu percebo que ela me entende.
– Como você gostaria que fosse? – A encaro.
– Gostaria de estar ensaiando para alguma peça da Broadway e conciliar isso com NYADA. Gostaria de chegar em casa, cansada e poder deitar ao seu lado no sofá e ouvir sobre seu maravilhoso dia. Nós pediremos uma boa comida, porque ambas estarão com preguiça de cozinhar. Comeremos, assistindo um pouco de algum programa estúpido de NY na TV. Então... – Morde o lábio inferior. – Conseguiremos energia e vamos para aquele quarto que você me prometeu. – Eu solto uma gargalhada alta. – E faremos amor até cairmos exaustas, dormindo abraçadas.
– Viveremos de fast food?
– Só prestou atenção nisso? – Eu rio mais uma vez.
– Basta você estar lá comigo, Rach. – Traço seu rosto com os dedos.
– Lá onde?
– No meu futuro.
–
Depois das aulas, Quinn dá uma carona para Rachel até sua casa. A loira fica alguns minutos conversando com os sogros, que desatam a falar sobre o baile e uma provável fantasia para a filha. Rachel os repreende e conta que será uma surpresa, como havia combinado com a namorada. Os Berrys sorriem, respeitando a decisão das duas e se divertindo com a situação. Mais tarde, Quinn vai para casa e encontra sua mãe sentada ao lado da irmã e cunhado. Ela franze a testa, percebendo os olhares apreensivos deles.
– Oh, meu Deus, você está grávida. – Solta.
– Não! – Frannie levanta, enquanto o namorado gargalha, abraçando a Fabray mais nova. – Chegou algo.
– O que?
– Hmmm... Algo! – A psicóloga olha para Judy.
– Chegou uma carta para você. Da Columbia. – A mãe explica.
– O que? Mas, já? Como... – Quinn segura o envelope.
– Não sabemos. Também estamos confusas. – Frannie se aproxima. – Abra.
– Estou com medo. – Admite, rasgando o papel cuidadosamente.
– Tudo bem. É apenas a primeira faculdade. – Judy conforta.
Com uma inspiração funda, Quinn começa a ler a carta em mãos. Suas pernas ameaçam tremer e a loira resolve sentar no sofá, ganhando segurança. As três pessoas esperam a menina, ansiosas. Quinn levanta os olhos cristalizados, levando a mão à boca.
– Eu... Eu... – Solta o ar. – Eu fui aprovada.
Fale com o autor