Além da superfície.
24 Eu sempre soube.
Notas iniciais
Por Rachel
Mais calma, eu relaxo a cabeça no braço de Quinn, sentindo seu cheiro e sua respiração perto de mim. Eu me sinto incrivelmente segura. Não quero que ela me solte, nunca. Adormeci várias vezes nos braços de Finn. Era bom, ele sempre foi muito carinhoso. Mas, o abraço dela é mais confortante, mais suave. Eu não posso pensar muito nisso, eu não tenho esse direito. Parece que eu estou me aproveitando da amizade que ela está me oferecendo. A amizade que está me tirando do fundo do poço. A última vez que eu me cortei, ela me segurou firme, garantindo que não ia acontecer mais. Não importa quantas vezes eu volte a fazer, ela sempre irá falar isso, eu tenho certeza. E é bom, entende? Ela não me julga, não me grita, nem mesmo me olha decepcionada, mas preocupada e, às vezes eu até vejo um pouco de dor em seus olhos. Nada me dá mais forças para pensar duas vezes antes de pegar a lâmina.
Santana é uma pessoa incrível, assim como Brittany. Elas me fazem super bem, são incríveis e atenciosas. Mas, há algo diferente em Quinn. Sempre houve. Eu sempre quis ter essa proximidade com ela, mesmo ela me esnobando, criando nomes e me jogando raspadinhas. Eu respiro fundo, tentando organizar tudo na minha cabeça. Se eu não tivesse tão perdida, nada disso teria acontecido. Por que elas só vieram até mim depois que eu quebrei? Tudo seria mais fácil se eu estivesse conseguindo pensar direito.
– Não consegue dormir? – Sua voz rouca me tira do transe, me fazendo estremecer.
– Estou sem sono. – Admito, encolhendo. Ela se alinha a mim, fazendo carinho no meu braço. – Como você sabia que eu não estava dormindo?
– Sua respiração. – Diz, afundando seu rosto em meu cabelo. – Está tudo bem?
– Está. – Suspiro. – Só muita coisa rondando minha cabeça.
– Tipo o que? – Eu sorrio para seu tom sonolento. Ela se afasta quando eu não respondo, aumentando ainda mais meu sorriso. Eu viro, encontrando suas sobrancelhas levantadas. – Você é uma idiota.
– Você está me xingando muito. – Sussurro, fazendo bico.
– Oh, Deus. Me perdoe, Rach. Eu estou brinc...
– Calma, Q. Eu sei. – Interrompo-a. – Não é como se eu fosse quebrar com qualquer coisa.
– Sinto muito. – Murmura, sem graça. Eu viro os olhos. – É que eu já te fiz tanto mal que...
– Pare. – Peço. – Já conversamos muito sobre isso. Você pediu para que deixássemos o passado de lado, lembra?
– Lembro. – Sorri de lado.
Eu dou um beijo em sua testa. Sinto o engate da sua respiração quando eu me afasto. Ela olha nos meus olhos. A cor esverdeada dos dela está mais escura. Mais intensa. Eu engulo seco. Sua respiração está acertando o meu rosto a cada expiração desregulada que ela dá. Olho para seus lábios. Ela está mordendo o canto da boca. Quinn está pensando. Eu sei no que ela está pensando.
– Eu quero te beijar. – Sussurra. Recebo suas palavras contra meus lábios. Eu balanço a cabeça.
– Tudo bem. – Digo de forma silenciosa.
– Eu não posso. – Se afasta lentamente.
– Por quê? – Faço uma expressão triste.
– Merda. – Ela fecha os olhos. – Porque... – Abre novamente. – Porque eu tenho medo de não conseguir parar.
Eu desvio o olhar, sentindo as lágrimas pinicarem. E daí se ela não conseguisse parar? Que merda de desculpa é essa? A decepção toma conta do meu peito. Eu não posso chorar na frente dela. Não sobre isso.
– Não chore mais, Rach. – Ela vira minha cabeça para ela.
– Eu estava com tanto medo de você não voltar. – Pisco minhas lágrimas.
– Eu estou aqui. – Desvio os olhos outra vez, tomando um tempo para falar.
– Não sei o que isso significa, mas... Digo, eu sei que não é nada. Eu só... Eu só quero que você... – A encaro. – Por favor?
Eu sei que eu estou pedindo demais, que estou abusando dela. Mas, eu preciso disso. Assisto suas feições mudarem, numa luta interna. Deito e agarro sua camisa. Ela me puxa, para me deixar em cima dela. Adoro a forma que ela morde o lábio quando está pensando. Eu sinto meu estomago saltar, como há tempos eu não sentia.
– Por favor, diga-me para eu parar. – Ela sussurra, fechando a distância entre nós.
– Não. – Murmuro, passando meus braços, levemente, por seus ombros. Ela aperta seus lábios nos meus.
– Isso é loucura. – Sussurra contra eles.
– Humrum... – Respondo, abrindo a boca.
– Loucura. – Repete, antes de me beijar.
Nas outras duas vezes, eu tinha iniciado o beijo. Agora que ela está no comandando, percebo o quanto ela segurou. Não há urgência na forma como ela move a boca na minha. Quinn solta uns gemidos baixos, me fazendo estremecer. Sua língua entra, eu aperto meus olhos fechados, tentando puxá-la mais para perto. Ela aprofunda, mas não me deixa fazer o mesmo. Eu sou quase desleixada perto dela. É tão bom. Eu sinto como se eu pudesse... Ela se afasta.
– Hm... – Faço beicinho. Por que ela parou?
Quando ela me viu fazendo isso, seus olhos ficaram mais intensos e ela ataca minha boca nesse momento. Eu não consigo ser o suficiente para ela. Corro minhas mãos por suas costas. Ela beija longe da minha boca e desliza seus lábios na minha bochecha, antes de executar a sua língua, suavemente, para o lado do meu pescoço. Ela mordisca o lugar atrás da minha orelha antes de sugar levemente. Agarro-a contra mim. Suas mãos estão no meu cabelo. Ela puxa minha cabeça para o lado para que meu pescoço esteja exposto. Ela está beijando-o e sua língua está me dando alucinações. Eu tenho certeza que eu estou sonhando. Nada nunca me fez tão bem, nem mesmo as lâminas, os cortes, o sangue.
– Oh, Deus. – Eu sussurro, quando ela morde no mesmo local.
Eu posso sentir as vibrações de seus gemidos contra o meu pescoço. Ela morde com um pouco mais de força, quando me escuta. Eu quero, mais do que qualquer coisa, me pressionar para dentro dela, mas eu estou com medo de que ela pare se eu mudar o meu corpo.
– Foda-se. – Sussurra contra minha pele e então ela pressiona todo o seu peso em mim e rodeia seus quadris.
Jogo minha cabeça para trás e gemo alto. Antes que eu tenha ideia do que está acontecendo, sua boca volta para a minha. O beijo é quente, diferente, cheio de desejo. Coloco minha mão por baixo de sua blusa e corro para cima e para baixo, por sua coluna. Quando ela circula seus quadris, eu quebro o beijo, arqueando as costas.
– Oh, meu Deus. – Puxo sua camisa. A intenção que eu tinha não foi alcançada. Ela se afasta um pouco.
– Rachel, espere.
– Não. – Digo, firme. Eu tiro minha camisa, sentindo seus olhos queimarem sobre mim. – Não. – Repito, voltando para baixo dela.
– Pare. Nós precisamos...
– Não. – Puxo-a para mim, mordendo sua clavícula.
– Merda. – Ela está ofegante em cima de mim. – Merda, merda, merda. – Empurra os lábios contra o meu pescoço. – Rachel...
– Quinn... – Choramingo. Ela continua me beijando, mas eu noto que não é mais da mesma forma. Eles voltaram a ser suaves, tranquilos. – Não, por favor, não pare.
– Rachel. – Pede mais firme. – Isso aqui é mais importante para mim do que você imagina. – Eu engulo seco, sem entender. – Eu não posso fazer isso com você. Nem comigo.
– Você não quer? – Sussurro.
– Eu quero. – Sorri. – Mais que tudo nessa vida. Deus, eu quero tanto.
– Então...?
– Você ouviu o que eu falei? – Pergunta frustrada. Eu franzo a testa, pensando. Mais que tudo nessa vida? Arregalo os olhos, vendo seu sorriso um pouco triste. – O que está acontecendo aqui?
– Eu não sei. – Murmuro, nervosa.
– Você não sabe o que sente?
– Não. – Admito, baixando o olhar. Ela segura meu queixo.
– Ei, não tem problema. – Fala calma. – É muito confuso, certo? Está tudo muito rápido.
– Eu só queria...
– Eu sei. – Suspira. — Nós íamos dar um passo muito grande, Rachel. Eu sei que você está querendo, eu também estou. Mas, estamos na cama, estamos com tesão, estamos... – Balança a cabeça. – Estamos nos deixando levar. O que aconteceria depois? – Eu engulo seco, sem saber responder. – Eu sei o que eu sinto. Eu sempre soube.
– O... o que...
– Me escute. – Pede. – Precisamos ir com calma. Eu não quero te machucar, nem quero sair machucada. Eu gosto de ficar com você. Não vou fugir se você me der um beijo, eu não vou te deixar por isso. Não me importa.
– Eu... Oh, meu Deus. – Deslizo para o lado, saindo debaixo dela. – Oh, meu Deus. Eu ia estragar tudo.
– Não. Nada seria estragado. Não seria culpa sua. Rachel, você não está vendo o quanto eu estou me segurando? Por Deus, eu também tenho desejos. – Senta, segurando minhas mãos. – Você é linda, tem o corpo maravilhoso. Qualquer um daria tudo para estar no meu lugar. – Eu rio sarcástica.
– Não fale besteiras.
– Eu não estou falando besteiras. Você consegue ver? É por isso. Eu não posso te mostrar uma coisa quando você está totalmente fechada. Eu quero que você se reconheça, que tenha ideia de quem é. Eu vou te ajudar a sair dai, eu te prometo. Mas, você também precisa se ajudar. – Suspira. – Rach, eu preciso de você segura de suas atitudes. Você está frágil, está querendo conforto. Eu vou te dá tudo de mim, mas isso não pode funcionar como suas lâminas, que você usa quando precisa de um alivio.
– Eu não estou te usando. – Franzo a testa.
– Eu sei que não, pequena. – Alisa minha bochecha. – Mas, seu corpo pode falar mais alto, às vezes. Existem muitos sentimentos envolvidos aqui. – Gesticula entre nós.
– Você está certa. – Digo, derrotada, passando as mãos no rosto. – Eu estou tão confusa.
– Rach, está tudo bem. Você sabe disso, não sabe? – Eu sorrio de lado, puxando-a para deitar outra vez.
– Eu sei. – Sussurro. Ela se afasta. – O que foi?
– Sinto muito. – Murmura, envergonhada. – Eu não posso deitar agora. Eu... Eu preciso... – Limpa a garganta. – Eu preciso tomar um banho... Frio. – Solto uma gargalhada alta e ela tapa a minha boca. – Pare de rir, Berry.
– Te deixei quente, Fabray?
– Não me provoque. – Resmunga, levantando.
– Deixa só Santana saber di... – Não consigo terminar, ela deita em mim, me calando com sua boca. Sem esperar, ela coloca a língua na minha, me fazendo gemer outra vez. Aos poucos, vou perdendo a consciência, até que ela para e levanta, me deixando chocada.
– Eu deixo você ir depois de mim. – Sorri vitoriosa, entrando no banheiro. Eu jogo o travesseiro na porta, rindo junto.
Ah, Quinn... O que você está fazendo comigo?
Por Quinn
Depois do treino de Cheerios, fomos nos trocar. Todas as meninas saíram, enquanto Santana enrolava um pouco mais para ficar sozinha comigo. Eu conto tudo o que aconteceu a ela, sorrindo grande, mas sempre com aquele aperto no coração, por Rachel não entender o que está acontecendo. A latina vibra comigo, brincando e descontraindo algum tipo de tensão existente. Eu a agradeço por isso. Ela é minha melhor amiga, sabe o que falar e o que fazer na hora certa.
– Você está indo fundo na promessa. – Fala, me olhando pelo espelho, enquanto penteia o cabelo molhado.
– Como vai a sua? – Pergunto, me enxugando.
– Cantarei para ela hoje. – Suspira. – Eu sei que já é batido e tal, mas... Sabe, Q, Britt conhece meus sentimentos. Eu já falei tudo, tudo. Já dei a minha cara a tapa e expus meus medos. Você sabe o quanto isso é difícil para mim. – Eu assinto. – Ela não pode simplesmente enrolar. Se for pra ficar com Artie... Vai ser assim.
– Você está desistindo?
– Claro que não. – Vira para mim, encostando na pia. – Estou aqui pra ela, sempre. – Sorri triste. – Dói o inferno quando ela fica comigo estando com ele, entende? Estou pronta. Quando, e se, ela ficar também, vai acontecer.
– Vai acontecer. Britt te ama. – Garanto. – Você precisa de ajuda na música?
– Não. Eu preciso fazer isso sozinha.
Nós terminamos de nos trocar e vamos para o ensaio. Eu sento ao lado de Rachel, que sorri ao me ver. Brittany senta atrás de nós e longe de Artie. Depois que o professor Schue explica alguns números e faz suas sugestões de sempre. Santana levanta a mão e pede para cantar. Ela começa a cantar Songbird de Fleetwood Mac. Eu abro a boca, surpresa por sua coragem. Todos parecem estar em choque também, ver a latina tão transparente assim. Olho para Brittany, ela está presa nos olhos de Santana, algumas lágrimas já escorrendo em sua bochecha. Ela dá um sorriso fraco, duvidoso. San continua a cantar, se aproximando, Eu me afasto, segurando a mão de Rachel, para que a latina tenha uma visão melhor. Quando a música acaba, a sala inteira fica em silêncio. Santana suspira, percebendo o que fez. Ela olha assustada para todos, quando seu olhar cruza o meu, vejo um pedido de socorro. A latina dá dois passos para trás, antes de virar e correr para fora de sala. Eu levanto, sendo seguida pela morena.
– Eu vou. – Brittany avisa, nos parando. – Sou eu que tenho que falar com ela.
– Britt, pelo amor de Deus, pense bem no que você vai fazer. – Peço.
– Eu sei bem o que eu vou fazer, Quinn. – Sorri de lado. – Eu sempre soube.
Olho para Rachel, estremecendo com as últimas palavras da loira. Eu sei que ela também percebeu, porque ela não quis me encarar. Mas, eu consigo notar seu lábio curvado um pouco para cima. Eu sempre soube.
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