Além da superfície.
14 Doces esperanças.
Notas iniciais
Por Quinn
Eu nunca tinha parado para pensar que minha filha foi adotada pela mãe de Rachel. Claro que eu sabia quem era Shelby, eu estava no dia que Rachel descobriu. Mas, ligar toda a história pareceu ser impossível. E hoje, saber que isso afetou a morena de alguma maneira... Só torna tudo mais difícil. Não era a minha intenção. Nunca foi. Agora, aqui estou eu, quebrada nos braços de quem eu deveria estar segurando. É tão confortável e seguro. Rachel cheira incrivelmente bem. Suas mãos são leves, diferente do que eu costumava falar sobre elas. ManHands. Sinto vontade de virar os olhos para mim. As lágrimas pararam, os soluços passaram. E nós estamos presas uma na outra. Eu sei que ela também precisa disso. Estamos quebrando uma barreira que foi construída ao longo desses anos. Eu já dormi abraçada a morena, já a coloquei no meu colo. Essa era eu, me abrindo para ela. Durante esses dias, ela tentou fazer isso, mas tudo o que conseguia era me afastar no final. Agora é diferente. Rachel me tem nos braços. É ela me aceitando.
Respiro fundo, me afastando devagar. Alguma hora eu tinha que fazer isso. Ouço um gemido frustrado por parte da pequena e sorrio fraco para ela. Deus! Ela é linda, mesmo com rastros de lágrimas no rosto e com o nariz um pouco vermelho. Com certeza, eu estou um desastre completo. Eu fico inchada quando eu choro assim. Ótimo. Eu devo estar corando de vergonha.
– Bom, você deveria mudar seu pedido. – Rachel diz suave. Eu a encaro, com a testa franzida. – Você pediu salada para me agradar. – Vira os olhos. Eu rio.
– Eu realmente gosto de saladas. Por que ninguém acredita?
– Não sei. – Ri. – Soa como algo que a Sue obriga vocês comerem.
– Não é verdade. – Empurro meu ombro no dela, brincando. – Tem muito de mim que você não sabe, Rach. – Suspiro.
– Talvez devêssemos sair daqui. – Sussurra.
– Você já quer ir embora? – Pergunto triste.
– Sim. – Eu assinto, encolhendo os ombros. – Digo, eu quero ir embora para outro lugar. Aqui tem muita gente.
– Oh, sim. – O sorriso volta para o meu rosto instantaneamente. – E eu devo estar uma bagunça terrível. – Murmuro.
– Não está. – Sorri, colocando uma mecha de meu cabelo para trás. Eu estremeço com esse toque. – Você está com o rosto vermelho, mas é adorável mesmo assim. – Ri. Certo, agora ele ficou bem mais vermelho, imagino eu.
– Besta. – Viro os olhos, chamando o garçom.
– Vocês desejam algo mais? – O moço pergunta, educado.
– Um grande pedaço de torta de chocolate. – Peço. Rachel levanta a sobrancelha. – Para a viagem, por favor. – Ele assente, saindo. – O que? Nós estamos aqui de graça, vamos aproveitar.
– Claro. Pede alguns salgados e vamos fazer uma festa. – Ironiza, rindo.
– Uh, soa bem. – Ela me dá um soco fraco.
O rapaz volta com uma caixa em mãos. Nós entregamos nossos bilhetes e vamos embora. Rachel aponta a direção e nós chegamos ao parque. Eu venho aqui às vezes, com Santana e Brittany.
– Santana me trouxe para correr aqui. – Explica, como se lesse meus pensamentos. Eu aceno.
– Elas gostam de treinar nesse lugar. – Nós sentamos no banco. – Você gostou?
– Sim. Eu vim outra vez. – Admite.
– Fazer exercícios físicos é uma ótima e saudável distração. – Comento. Ela dá uma risada baixa. – O que foi?
– Você falando como uma líder de torcida.
– Eu não sou qualquer líder, Rachel. Eu sou a capitã delas. – Sorrio, me gabando. Ela bufa, rindo.
– Sim, eu sei. – Diz. Um silêncio cai entre nós. Então, ela suspira pesado. – Quinn... Eu realmente sinto muito pelo o que aconteceu.
– Não sinta, Rach. – Falo rápido. – Está tudo bem.
– Nós precisamos conversar. – Sussurra. Eu passo as mãos nos meus olhos, assentindo. Ela está certa. – Eu não queria te machucar, ou te trazer lembranças ruins.
– Eu acredito em você. – Seguro sua mão. – Mas, você tinha que falar.
– Eu tinha. – Concorda. – Só me sinto uma idiota egoísta agora.
– Você estava no seu direito de filha. Eu fiz tanto para te causar danos, que até quando eu não tive intenção eu consegui. – Minha voz é de pura culpa. – Você pode me perdoar por isso?
– Por você querer dar uma vida melhor para sua filha? – Pergunta. Eu balanço a cabeça, afirmando. – Eu não tenho o que te perdoar. Acho que eu estava usando isso mais como defesa.
– Entendo. – Murmuro. – Estou feliz por você ter me contado. Apesar de me sentir mal pelo que te fiz. – Digo sincera.
– Foi bom ter colocado para fora. – Sorri. – Eu... É...
– Apenas pergunte, Rach. – Ajudo-a, percebendo sua expressão curiosa.
– Como... Como você voltou para casa? – Sussurra.
– Quando Beth nasceu, minha mãe me procurou. – Encolho os ombros. – Ela pediu perdão por tudo, disse que tinha se separado do meu pai e que me queria de volta em casa.
– Foi difícil voltar?
– Muito. Eu tinha uma certa mágoa dela e de Frannie. Mas, com a distancia de meu pai, eu entendi que elas não tiveram a ver com isso. Nós três somos muito unidas hoje.
– Você... – Ela para, como se estivesse procurando as palavras. Eu a observo, esperando. – Você não parecia estar passando por coisas assim.
– Eu aprendi a esconder meus sentimentos bem, Rach. – Explico. – Eu sou aquela pessoa que conversa mais sozinha do que com os outros. – Ela assente, pensativa. Eu prevejo sua próxima pergunta e me adianto. – Não é como se eu tivesse superado por completo tudo que aconteceu. Ainda me dói lembrar. Mas, eu tive ajuda de Santana e Brittany, depois de minha mãe e irmã. Não ter que lidar sozinha, como eu achava que bastava, foi essencial.
– Parece bom. Ter amigos... E família. – Sua voz falha. Eu passo um braço por seus ombros e ela encosta a cabeça no meu.
– Você nos tem agora. – Aviso. – Você também tem uma família. Talvez precise lembra-los disso.
Por Rachel
Nós continuamos conversando no parque, sobre coisas mais leves. Conversar com Quinn é bem mais fácil do que eu pensei. Ela é divertida. E ela passou por coisas realmente difíceis. Ao invés de mágoa, agora eu sinto uma espécie de admiração por isso. Percebemos que já estava tarde, a loira resolve me deixar em casa. Dou um suspiro, enquanto ela estaciona o carro na minha rua, o que não passa despercebido por Quinn, porque ela desce junto comigo. Eu sorrio, abrindo a porta com minha própria chave. Franzo a testa ao ver tudo escuro. Tateio a parede até achar o interruptor e ligar a luz.
– Seus pais não estão em casa? – Pergunta. Eu dou os ombros, entrando. Óbvio que não. Quando estão? – Eu posso espera-los com você.
– Eles podem nem chegar hoje, Q. – Rio fraco. Ela coloca a cabeça para o lado, mordendo o lábio.
– Eu tenho torta. – Sorri, levantando a caixa. É inevitável não sorrir junto. – E você vai comer comigo.
– O que? Claro que não. Não sei o que enfiaram ai.
– Ah, Rachel, não seja chata. – Ela entra na cozinha, atrás de talheres. Eu a guio. – Você nunca come essas coisas?
– Nunca. – Digo firme.
– Hoje você comerá. – Eu nego, rindo. Ela faz um pequeno bico. – Por mim?
– Só um pedaço, ok? – Ela grita um “yes” empolgado. – Deus, controle-se, Fabray. Eu disse um pedaço!
– Tanto faz. Você nunca comeu essa torta. Tenho certeza de que, quando experimentá-la, não vai querer deixar para mim.
– Eu duvido muito. – Murmuro.
– Eu deveria gravar isso. – Eu viro os olhos, batendo em seu braço. – É um momento histórico e você está duvidando de mim.
Ela tira um pedaço com o garfo e me dá. Eu coloco na boca, sob seus olhos curiosos e vibrantes. Eu fecho os olhos, fazendo todo um drama. Puta merda! Isso está delicioso. Aproveito todo o sabor enquanto posso. Então, eu engulo. Quando abro os olhos, quase gargalho ao ver a expressão de Quinn. Ela parece uma criança querendo me viciar em doce. Ok, ela meio que conseguiu. Olho para a torta e volto o olhar para ela. Repito o gesto, fazendo-a levantar uma sobrancelha. Vejo um sorriso começar a se formar em seus lábios. Antes que eu possa avançar na sobremesa, ela segura a caixa e sai correndo para a sala. Eu vou atrás dela, com o garfo na mão.
– Você disse só um pedaço, Berry. – Lembra. – Não vou te dá mais.
– Quinn, não faça isso. – Choramingo. – Só mais um pouquinho. – A loira coloca um pedaço na boca, soltando um sonoro “hmmm”. – QUINN!
Eu corro atrás dela. Ela pula o centro da sala, fugindo de mim. Eu rio da cena, vendo que ela está indo para um lugar sem saída. Aproveito sua distração e a encurralo entre a parede e o móvel da televisão.
– Não vale. – Resmunga. Eu gargalho. – Saia, você nem mesmo queria trazer.
– Pare de ser criança e me dê essa torta, Quinnie. – Brinco. Ela agarra a caixa com força, mas logo ri, cedendo. – Boa menina.
– Eu te disse que era perfeita. – Fala, enquanto voltamos para cozinha. Eu assinto, com a boca cheia. – Ei, divida. – Aponta o garfo para mim. Eu levanto as minhas mãos, em rendição.
– Por que você não comprou uma para você? Isso me custou muito caro. – Finjo reclamar. Ela arqueia as sobrancelhas. Num movimento rápido, Quinn passa o dedo no chocolate da caixa e mela minha bochecha. – Você é mesmo uma criança. – Balanço a cabeça e a imito. Ela ri, limpando o rosto.
– Obrigada, professor Schue. – Rimos.
Abro a torneira para lavar as mãos e o rosto. Quando fecho, percebo que a água bateu em meus punhos e tirou a maquiagem deles. Eu suspiro, encarando-os. Quinn aparece por trás, seguindo o meu olhar.
– Tudo bem? – Sussurra. Eu assinto, incerta. – Ei, vem cá. – Ela me gira para eu ficar de frente a ela. – Nós sabíamos que elas estavam ai, certo?
– Sim. – Suspiro. – Eu só... Tinha esquecido um pouco. – Os lábios de Quinn levantam em um sorriso doce.
– Você vai esquecer e esquecer... Então, elas sumirão.
– Você acha que elas vão sumir? – A loira segura meus braços, traçando as cicatrizes. – É impossível, Q. – Digo embargada.
– Não é. – Segura meu queixo. – Talvez algumas possam dar mais trabalho, mas podemos cuidá-las. Um dermatologista pode vê-las e...
– NÃO. – Me afasto. – Ninguém pode... Ninguém pode ver. Eles... Me chamarão de louca. Vão perguntar o que foi e... Não.
– Ei, ei... Calma. – Eu respiro fundo. Ela segura meus ombros, me acalmando. – Desculpe, foi só uma ideia boba. – Encosto minha cabeça em seu peito e ela me abraça.
– Não foi boba. – Sussurro. – Eu só não posso mostrar, entende?
– Claro. De qualquer forma, Rachel, são médicos. É contra a ética deles achar alguma coisa. Se você tem um problema, eles vão te respeitar e tratar de você. – Diz suave.
– E se dizem aos meus pais? – Murmuro.
– Podemos resolver isso. – Esfrega as mãos em minhas costas. – Quando você estiver pronta.
– Obrigada. – Me afasto, olhando o relógio na parede. Mais de meia noite. – Já está tarde, acho que eles não viram.
– Eles não te avisam? – Pergunta desconfiada.
– Às vezes. Na maioria eles esquecem. Bom, reuniões importantes que não podem ser interrompidas.
– Isso é uma droga. – Eu concordo. – Você vai ficar bem?
– Sim, sim. – Não, eu não quero ficar sozinha.
– Certeza? – Eu dou um sorriso de lado. Ela ri e me abraça outra vez. – Te vejo na segunda, então?
– Claro.
– Eu gostei muito de hoje, Rach. – Segura minhas mãos. – Foi muito importante para mim.
– Eu posso dizer o mesmo. – Digo envergonhada. – Boa noite, Q.
– Boa noite, R.
Eu abro a porta para ela, que parece relutar para sair, mas sai. Quando a loira entra no carro, eu fecho a porta. Sinto um peso cair em mim no mesmo segundo. Quase como pânico, eu me desespero ao me ver sozinha. Abro novamente e meu coração se enche quando eu vejo o carro ainda parado. Quinn desce, caminhando de volta.
– Talvez...
– Você pode ficar? – Falo ao mesmo tempo. Ela sorri. – Desculpe, eu não quero ficar só...
– Só preciso ligar avisando para minha mãe. – Entra, puxando minhas mãos. Um sorriso se espalha em meu rosto.
– Eu posso te emprestar alguma roupa. – Ela gargalha. – O que?
– Você é pequena, Rach. – Fala rindo. Eu belisco sua cintura. – Aush! Estou falando sério.
– Eu tenho roupas grandes. – Me defendo. – Eu preciso delas. – Vejo a loira indo para o quarto de hóspedes. – O que está fazendo?
– Eu não vou dormir aqui?
– Oh, sim. – Olho para minhas mãos. – Bem, eu... Você pode dormir no meu quarto, se quiser.
– Ok. – Ela sai do quarto, sorrindo. – Eu vou ligar lá pra casa, certo?
Eu assinto e subo. Tiro uma roupa folgada do guarda roupa e coloco em cima da cama. Enquanto ela não aparece, eu tomo um banho rápido, relaxando meu corpo. Algumas dores ainda trazem alivio. Com cuidado, eu coloco um pijama largo. Saio do banheiro e vejo a loira sentada na cama. Aceno para a roupa e ela pega, indo para o banheiro. Escuto ela cantarolar baixinho, no banho. Meu estomago dá uma volta ao reconhecer a música. Eu encolho, embaixo dos lençóis. Depois de alguns minutos, sinto a cama descer.
– Rachel? – Quinn chama baixinho.
– Hmmm?
– Você já está dormindo?
– Não... – Minha voz me denuncia, porque, rapidamente, seus braços me envolvem. Logo eu estou naquela posição confortável do final de semana passado. Eu me alinho no abraço. – Odeio Lady Gaga. – Falo. Ela ri fraco em minha nuca.
– Eu não sabia, desculpe. – Eu balanço a cabeça. – Nossa. Tão mal eu cantei?
– Não, claro que não. – Suspiro. – Eu só... Quando... Quando eu a reencontrei... – Ela me aperta, entendendo e eu agradeço isso.
– Foi na semana de Lady Gaga. – Lembra. Eu assinto.
– Eu cantei uma música com ela. – Sorrio triste. – Foi como uma despedida estúpida.
– Eu não sabia...
– Ninguém sabe. – Murmuro. – Acho que nem ela lembra mais.
– Aposto que lembra. Quem faz um dueto com Rachel Berry não esquece jamais. – Brinca. Eu viro os olhos, rindo.
– Aquele momento foi um dos mais importantes pra mim, entende? – A loira assente. – Foi tão intenso. Nossas vozes pareciam tão conectadas. Então, nós terminamos e... Pronto, como se nada tivesse acontecido. Isso é ridículo, Quinn. Eu cantei com minha mãe e... – Um soluço escapa e eu viro nos braços dela, enterrando minha cabeça em seu peito.
– Shhhh... Eu queria ter estado ali pra você. – Sussurra. – Nós vamos tirar toda essa agonia que tem ai dentro, Rach. Eu vou, eu prometo.
– Co... Como? – Soluço.
– Não sei. Mas, eu vou conseguir...
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