Notas iniciais
http://www.youtube.com/watch?v=raksTnM9K4k

Por Rachel

Estou me sentindo, surpreendentemente, mais leve. Não é o alívio que eu sinto quando me corto, mas é um alívio. Eu fico pensando se é isso que as Cheerios sentem quando Sue grita para que elas corram em volta da quadra. Santana soube incorporar o papel da treinadora muito bem, por sinal. Enquanto eu demorei quase meia hora para me recuperar da corrida, ela parecia ter recuperado o folego em dois minutos. Bom, eu sou uma sedentária e estou com uma camisa de mangas compridas. A latina cantarola, batendo os dedos suavemente no volante, no caminho de volta para a minha casa.

– Então, você e Britt estão bem? – Quebro o silêncio. Ela solta um suspiro, baixando o som do carro.

– Sinceramente? Eu não sei. Artie vai cobrar sua resposta segunda e eu não quero pensar no que pode acontecer. – Diz sincera.

– Você pode mudar isso, no entanto. – Ela encolhe os ombros.

– Infelizmente, eu não posso fazer mais do que eu tenho feito.

– Claro que pode, Santana. – Falo incrédula. – Você pode assumir de uma vez por todas, antes de perdê-la.

– Rachel, eu não quero falar sobre isso. – Corta. Eu assinto, voltando os olhos para a rua. – Não fique chateada, por favor.

– Basta dirigir. – Recupero meu tom frio, que eu não deveria ter perdido.

– É complicado, ok? Eu sinto medo. Você tem ideia do que vão falar sobre mim nos corredores? – Solta. Eu fecho os olhos, balançando a cabeça. – Puta merda. Eu sinto muito. Eu não queria ter dito isso.

– Queria sim. – Suspiro. – Eu entendo seu medo. Não queira estar nesse lugar. É apavorante.

– Rach...

– Está tudo bem, Santana. – Tento sorrir, aumentando o som novamente.

Continuamos o resto do caminho em silêncio. Não estava desconfortável. Pelo menos, não pra mim. Ela estaciona o carro. Antes de descermos, sinto sua mão segurar meu ombro. Eu franzo a testa, virando para ela. A latina sorri, incerta. Eu sei que ela está tentando saber se está mesmo tudo bem. Devolvo o sorriso, dando o meu melhor. Quinn abre a porta, um tanto nervosa. Eu apenas aceno e entro. Brittany aparece com um copo na mão.

– Hey, vocês voltaram. – Vibra. – Quer um pouco?

– Não, obrigada. Eu não bebo leite. – Digo. Uma expressão confusa toma conta do rosto da dançarina.

– Mas, não mataram nenhum animal para bebermos o leite, Rach. – Sussurra.

Eu abro a boca, tentando achar uma explicação, mas seria muito difícil falar para Britt sobre os costumes veganos agora. Santana solta uma gargalhada sonora. Vejo Quinn prender o riso, mordendo o lábio inferior.

– Eu sou alérgica ao leite, Britt. – Minto, achando a melhor saída.

– Como San é alérgica a Lord T.? – Sorri por estar compreendendo. Eu assinto. – Às vezes, ela começa a espirrar quando nós estamos...

– Ok, Britt-Britt, ela já entendeu. – A latina interrompe, corando um pouco. Quinn não evita a risada dessa vez. – Eu bebo esse leite.

Eu entro na cozinha, enchendo um copo d’água bem gelado. Eu me preocuparia com minhas pregas vocais em outro tempo, mas hoje não me importa. Sinto alguém atrás de mim. Quinn senta-se à mesa, sorrindo fraco.

– Tudo bem?

– Sim. – Sussurro. Ela assente, devagar.

– Vocês correram?

– Humrum. – Tomo o resto da água e coloco o copo em cima da pia. Engulo seco quando vejo o olhar da loira fixo em suas mãos. – Vamos para a sala?

– Eu já vou. – Ela sorri falso, sem me encarar.

Volto para a sala e sorrio ao ver Santana tentando explicar a Brittany porque ela tem alergias e a loira não. Quão estranho é pensar nessas duas separadas? Desde que eu entrei naquele maldito colégio, e olhe que faz muito tempo, elas sempre andaram juntas. Só quando realmente começamos a conviver, com o Glee, eu percebi que o sentimento que as envolviam era algo muito maior que uma simples amizade. Artie é apenas um estúpido, como o resto do clube do coral e do colégio. Quinn aparece alguns minutos depois. Percebo que seus olhos estão cristalinos, apesar do sorriso grande que ela coloca nos lábios. Sinto-me culpada por ter tratado ela mal. Digo, eu não joguei nenhuma raspadinha, nem inventei um nome para zombar dela, talvez não tenha sido tão mal assim.

– Nós já vamos indo. – Santana anuncia, segurando a mão de Britt.

– Pensei que vocês fossem dormir aqui. – Quinn fala.

– Eu prometi a minha mãe que sairia com ela amanhã cedo. – A latina dá os ombros. – Outro dia, ok?

Despedimo-nos das duas. Um silêncio toma conta da casa. Eu dou boa noite para Quinn, que devolve e vai para o quarto. Entro no meu banheiro para tomar um banho. Tiro a camisa e encaro as cicatrizes em meus braços. Respiro fundo, tentando não cair em tentação.

Por Quinn

Por que ela tenta me afastar? É mais fácil estar com Brittany ou San do que comigo. Talvez tivesse sido melhor uma delas estar aqui para Rachel, ao invés de mim. Fui eu quem implicou mais com a morena. Fui eu quem brigou, não me pergunte o porquê, pelo namorado idiota dela. Sempre fui eu tentando tirar tudo que ela queria. Sinto as lágrimas pinicarem meus olhos, mas ouço uma batida tímida na porta. Sento na cama, afastando as lágrimas para longe.

– Posso entrar? – Sussurra.

– Claro, Rach. – Sorrio. Ela entra devagar. – A casa é sua. – Lembro. Ela assente. – Está tudo bem? Você precisa de algo?

– Não, não. – Fala depressa. Eu suspiro aliviada. – Quero dizer, eu... Eu... Posso ficar aqui? Um pouco? – Sinto meu coração disparar no meu peito. Por que diabos eu estou assim?

– O tempo que você quiser. – Bato na cama, chamando-a para sentar ao meu lado. Ela o faz.

– Você também corre? – Eu arqueio a sobrancelha. – Oh, claro que você corre. Você é uma Cheerio. Eu quis dizer...

– Se eu corro para me distrair, como Santana faz. – Completo. Ela assente. – Poucas vezes. Para mim, já basta nos treinos. – Sorrio.

– E o que você faz... Para se distrair? — Pergunta brincando com seu pijama. Tão adorável. Parece a Rachel de sempre.

– Bom, eu leio. – Respondo. Rach faz uma cara surpresa e eu dou um empurrão fraco nela, brincando. – Qual o problema nisso?

– Não achei que você fosse o tipo de pessoa que ficava lendo. – Admite.

– E você achava que eu fazia o que? – Fico curiosa.

– Ah, não sei. – Cora. – Achei que você saísse, fosse fazer compras.

– Isso soa bem. – Rimos. – Mas, eu prefiro ler. Oh, eu gosto de desenhar também. – O rosto de Rachel cai.

– Eu sei. – Murmura. – Você fez bons esboços meus. – Ri amarga.

– Deus, eu sinto muito, Rachel. Eles eram apenas brincadeiras de mal gosto. – Ela encolhe os ombros. – Eu posso te desenhar de verdade, se você quiser. – Tento. Ela me encara. – Vai ser difícil ficar igual, mas eu tento. Até porque eu não sou desenhista profissional e você é muito bonita. – Solto.

– Não diga isso. – Reclama. Eu franzo a testa. – Não diga que eu sou bonita.

– Mas, você é. – Afirmo.

– Eu não sou, Quinn. Vocês me falaram isso por muito tempo e eu realmente não consigo acreditar que vocês me achem bonita, a não ser por estarem com pena de mim.

– Não estamos com pena de você. – Fecho os olhos, beliscando a ponta do nariz. – Ok. Tudo bem. Eu posso te desenhar?

– Eu preciso ficar imóvel ou algo do tipo? – Brinca. Eu viro os olhos.

– Eu sei bem como você é. – Ela levanta as sobrancelhas. Droga, o que eu estou falando? – Venha, sente-se aqui. – Ela sobe mais na cama, encostando as costas na parede.

Eu levanto, tiro o bloco de papel e meu estojo da minha bolsa, e volto para o lado dela, na mesma posição.

– Não fique em silêncio. Dê um discurso ala Rachel Berry.

– Não sei o que falar.

– Fale sobre seus pais. – Nega. – Sobre Finn. – Nega. – Sobre... Barbra. – Ela morde o lábio, pensando um pouco. Nega. Suspiro frustrada. – Então, eu vou falar, ok? Mas, não me deixe falando sozinha.

Rachel assente, com um sorriso fraco. Começo a falar sobre minha mãe e minha irmã. Procuro histórias engraçadas, que não faça ela se sentir mal. Excluo a parte em que meu pai morava com a gente, talvez todo o McKinley saiba sobre isso. Conto sobre alguns treinos das lideres, o que uma capitã faz. Falo coisas sobre Santana e Brittany, quando eu percebi que elas se amavam. Rachel faz perguntas, ao longo das histórias. Percebo quanto tempo eu perdi evitando conversar com ela. É realmente agradável, ela sabe conversar. Enquanto isso, vou fazendo o seu desenho. Olho para ela, às vezes. Mas, a verdade é que eu não preciso mesmo olhar. Ela não tem que saber que eu já fiz vários desenhos seus. Ninguém tem que saber.

– Singing in the rain, sem dúvidas, foi uma das performances que eu mais gostei. – Digo.

– Uh, para mim foi uma das mais difíceis. – Rimos.

– Pronto, terminei. – Mostro o desenho a ela. Não consigo ler sua expressão. Ela apenas encara o papel. – Ficou... Ficou ruim? – Pergunto temorosa. Rachel me olha. Seus olhos estão mais escuros que o normal. Engulo seco. – Eu...

– Você desenha bem. – Diz finalmente.

– Isso quer dizer que... Você gostou?

– Sim, claro. – Balança a cabeça. – Talvez eu deva... Ir dormir. – Ela tenta sair da cama, mas eu seguro seu braço.

– Por Deus, o que foi que eu fiz dessa vez? – Sussurro desesperada. Eu sempre tenho que estragar?

– Nada, Quinn. Estou com sono, só isso. – Eu percebo que ela está lutando contra as lágrimas.

– Por favor, fale comigo.

– É tudo uma merda, ok? – Quase grita. Eu solto seu braço, assustada.

– Você não gostou?

– Não o seu desenho. Aliás, sim, o seu desenho. Eu só acho que... Que os outros representavam melhor. – Ela prende um soluço e meu coração afunda.

– Rachel, não faz isso. – Minha voz sai tremula. – Eu só queria que... Que você confiasse em mim. Ao menos um pouco.

– Não é questão de confiança, Quinn. Eu me acostumei com isso e...

– E é tudo mentira. – Digo firme. Seguro o rosto dela entre as minhas mãos. – Eu tinha inveja de você, de sua voz. Você tirou o Finn de mim e nós éramos os populares. Você é... linda.

– Pare, por favor, pare. – Ela suplica, segurando minhas mãos em seu rosto. – Por favor...

– Eu vou te provar isso. – Limpo suas lágrimas com meus dedos. Ela assente.

– Eu... Eu posso dormir... aqui? – Pergunta constrangida.

Eu abro um sorriso doce, afastando. Ela deita ao meu lado. Rodeio sua cintura com meus braços, como fizemos ontem a noite. Rachel alinha seu corpo no meu. E parece que nós temos o encaixe... Perfeito.

Por Rachel

Acordo ouvindo uns barulhos estranhos. Abro os olhos e percebo onde estou. Alguém pula na cama, me abraçando. Fico tensa.

– Rach, acorda. – Ouço a voz de Brittany e relaxo mais.

– Estou acordada, Britt. – Ela se afasta e sorri grande. É impossível não retribuir os sorrisos da dançarina. – Bom dia.

– Bom dia. Vamos, levanta. Nós iremos sair.

– O que? Para onde vamos? – Franzo a testa. Quinn entra no quarto, abraçando Brittany.

– Vamos andar. – Dá os ombros. – Santana nos ligou, dizendo que estava quase terminando de ajudar sua mãe.

– Sim! – A loira mais alta comemora. – Ela está no shopping, pediu para que fossemos para lá.

– Mas, está muito cedo. – Resmungo.

– Não está tão cedo assim, Rach. É quase hora do almoço. – Quinn mostra a hora no celular.

– Oh, meu Deus! Por que vocês me deixaram dormir? – Levanto apressada.

– Você tinha algo importante para fazer? – Britt pergunta. Nego. – Então? Eu gosto de dormir até tarde. – Sorri.

– Nós almoçaremos lá. – Quinn continua.

– E se eu não quiser ir? – Falo irritada. Desde quando elas controlam a minha vida?

– San vem aqui e te leva arrastada. – A dançarina diz como se não fosse nada. – Foi ela que falou.

Suspiro, derrotada e vou tomar um banho. Nós encontramos a latina no canto combinado. Almoçar no shopping, na frente de todo mundo, com as três cheerios mais populares do colégio, foi no mínimo estranho. Algumas pessoas passavam olhando fixamente na nossa mesa. As meninas fingiam que não viam. Mas, era impossível não notar. E não se incomodar. Depois do almoço, fomos dá uma volta. Até que paramos na frente de uma loja de instrumentos musicais.

– Olha, San, é um piano rosa. – Brittany fala emocionada.

– É lindo, Britt-Britt. – A latina beija a bochecha da amada.

– Será que deixam tocar? – Quinn pergunta curiosa. – Você poderia nos mostrar a sua música, Rach. – Explica.

– Oh, não. Não, não. – Balanço a cabeça, saindo de lá. Santana me segura. – Tem muita gente aqui.

– E daí, Berry? Nós já cantamos para teatros lotados.

– É diferente, Santana. E nós contávamos juntos.

– Nós acompanhamos você, se quiser. – A latina tenta. Eu bufo.

– Vocês não sabem a letra. – Murmuro.

– Por favor, Rach. Eu quero muito ouvi-la. – Quinn faz cara de cachorro pidão e eu viro os olhos, voltando para a loja.

As três meninas falam com os atendentes. Se não fosse permitido, elas conseguiriam convence-los. Elas sempre conseguem. Elas acenam, sorrindo. Não disse? Vou para o piano, envergonhada. Respiro fundo e começo a tocar a música que eu sei decorada.

– Se chama Battlefield.

Por Quinn

Tanta dor, tanta verdade transbordando nas palavras cantadas da morena. Tento controlar minha respiração. Vejo Santana cerrar as mãos em punhos. Brittany enxuga algumas lágrimas. O rosto de Rachel também está molhado, enquanto ela canta, sem tirar o olhar das mãos. Quando ela acaba, dá um sorriso torto. As pessoas da loja aplaudem calorosamente. Eu demoro a reagir, mas acompanho-as. Eu não imaginei que aqueles rabiscos soltos se tornariam uma música assim.

– Ficou perfeita. – Sussurro. Ela acena com a cabeça, me fazendo lembrar que ela está fechada para elogios.

Voltamos para casa. As meninas ficaram sozinhas, precisavam conversar algo. Coloco um filme para assistir com Rachel. Ela pega o resto dos sorvetes que a latina trouxe ontem e se aconchega ao meu lado. No meio do filme, meu celular vibra. Meu corpo fica tenso.

Não importa o que aconteça, não deixe Rachel acessar a internet e suas redes sociais. Ligue-me quando puder. URGENTE. – S. L.

Notas finais
Hey, gente! Espero que vocês gostem do capítulo. O final de semana passou rápido, mas uma semana cheia está vindo por aí. Não esqueçam de comentar!! ;) http://ask.fm/FlorDeLins_