Além da superfície.

53 A culpa é de quem?


Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=sF1EvIhgIuA

Por Quinn

Só pode ser uma brincadeira de um mau gosto incrível, principalmente quando nós esperamos algo de David Karofsky. Ele poderia muito bem inventar uma história como essa só para poder nos atingir, não poderia? Karofsky nunca faria isso com a própria vida. Solto um riso sarcástico, conseguindo a atenção da treinadora Sue, que me dá um olhar sério. Eu estremeço. Por favor, alguém entra nessa sala e avisa que o imbecil está jogando bola na quadra e dando risada de todos nós?

– Como... Como isso aconteceu? – Ouço Artie perguntar. Silêncio.

– Como aconteceu? – Eu me assusto com a voz de Rachel ao meu lado. Tento segurar sua mão, mas ela afasta rapidamente. – Professor Schue? – Ele abaixa a cabeça. – Treinadora?

– Infelizmente não podemos controlar as pessoas sempre. – Ela começa. – Karofsky foi atacado nas redes sociais por causa de um boato que estava rolando pelos corredores sobre sua orientação sexual. – Rachel endurece na cadeira.

– Eu ouvi quando os jogadores combinaram ontem de irem a casa dele para picharem os muros. – Finn sussurra.

– Você não fez nada? – A morena franze a testa.

– Tentei impedi-los, mas não me ouviram. – Encolhe os ombros.

– Você nunca consegue impedir, Finn. – Cospe.

– Ei, isso não é minha culpa, ok? – Se defende. A pequena desvia o olhar.

– Rachel... — Tento me aproximar outra vez.

– Como ele está? – Kurt pergunta, com os olhos vermelhos, sendo confortado pelo namorado.

– Ele está em coma. – Emma responde. Suspiros mais fortes ecoam pela sala.

– É ruim, San? – Brittany sussurra. A latina assente, abraçando a namorada com força.

O ar começa a ficar preso em meus pulmões, eu não consigo respirar direito. Coloco as mãos em meus joelhos, buscando uma posição melhor. Ouço eles fazendo mais perguntas, mas não entendo o que estão dizendo. As vozes parecem cada vez mais distantes. Olho para Rachel, ela não retribui o olhar, encarando o chão, com as mãos presas embaixo das pernas. Eu sei que ela está tremendo. Ela sempre faz isso quando quer esconder. Fecho os olhos, puxando um pouco a gola da minha camisa.

– Quinn, você está bem? – Joe coloca uma mão em meu ombro. Eu balanço a cabeça, sem conseguir responder. – Quinn?

– Afaste-se. – Santana rosna. – Deixa-a respirar. – Ele obedece a latina, indo para longe. – Quinn, olhe para mim. – Levanta meu rosto. – Está tudo bem. Respire. Vamos. – Leva minha mão para seu peito. – Vamos, Quinn. – Eu inspiro forte, tentando imitar seus movimentos. – Isso. Aqui tem ar o suficiente. Continue.

– Por que ele fez isso? – Sussurro.

– Eu não sei.

– Ele é um estúpido. – Falo mais alto. Dessa vez consigo os olhos de Rachel. – É um estúpido egoísta. Como... Como estão os pais dele?

– Egoísta são as pessoas que ficam fazendo essas coisas na internet e nos corredores aqui do colégio, Quinn. – A morena levanta.

– Egoísta é ele de fazer todo mundo que gosta dele sofrer. – Devolvo.

– Você não entende nada. – Resmunga.

– Nunca vou entender, Rachel. Ele está vivo, tem que agradecer e não...

– Oh, você está lembrando os tempos de boa filha que acompanhava Russel todos os dias na igreja? – Eu congelo. – Enquanto vinha para o colégio e fazia pessoas como Karofsky sentirem vontade de fazer o que ele fez?

– Rachel! – Professor Schue bronqueia. – Não é hora de brigarmos, por favor.

Nós nos encaramos. O que está acontecendo? Estávamos a algumas horas nos amando em meu quarto e agora parece que voltamos demais no tempo. Rachel está com o mesmo olhar de quando não falava com ninguém. Eu fiz com que ela sentisse vontade de se matar. Eu fiz isso. Sinto meu estomago embrulhar. Sua expressão suaviza um pouco. Me afasto deles, correndo para fora da sala. Apresso o passo, entro no banheiro, empurro uma porta do box e meus joelhos perdem a força, enquanto vomito toda a tensão de antes. Dou descarga, tossindo, sentindo minha garganta queimar, mas não consigo me mover.

Alguém puxa meus ombros, me sentando no chão. Brittany passa um papel molhado em meu rosto. Fecho os olhos com o contato frio. A dançarina me entrega uma garrafa com água e ajeita meu cabelo quando eu bochecho o líquido e despejo fora.

– Melhor?

– Sim, obrigada. – Tomo um pouco da água, tentando aliviar a ardência. – Onde está Santana?

– Ela saiu com Rachel. – Diz calma. Eu assinto, olhando minhas mãos. – Muito triste isso, né?

– Sim. – Suspiro, levantando. Ela me estende a mão para ajudar. – Surreal.

– Perdoa a Rach. – A dançarina me encara pelo espelho, enquanto lavo as mãos. – Ela não falou por mal.

– Ela quem precisa me perdoar, Britt. – Sorrio triste.

– Ela já te perdoou. – Garante. Eu nego com a cabeça. – Quinn, você sabe que sim. Olha o que aconteceu. Estamos todos assustados, mas Rachel... – Ela se cala. Eu viro. – Rachel foi a pessoa que espalhou... – Sussurra.

– Puta que pariu. – Coloco as mãos na cabeça. – Me diz que isso não está acontecendo. – Imploro.

– Não posso. – Me abraça. – Precisamos ser fortes. Sua namorada precisa de você.

– E EU PRECISO DELA. – Grito, nervosa. – Desculpe. Eu só... Eu... Ela não tinha o direito. – Aperto as mãos. – Para onde elas foram?

– Para casa de Santana. – Eu assinto. – Quinn, você não vai se não tiver calma.

– Estou calma. – Suspiro. – Você pode me levar, por favor?

– Posso, mas não agora.

– Brittany...

– Espere um pouco. – Me empurra para o banco.

A porta do banheiro se abre, revelando a treinadora. Sue coloca uma mão sob o ombro de Brittany, dando-a um sorriso de lado. A dançarina encosta na parede.

– Como estão?

– Assustadas. – Britt responde. Sue me encara.

– Só quero ir atrás da minha namorada. – Dou os ombros.

– Para brigarem de novo?

– Não interessa. – Rosno. – Resolveremos.

– Assim? De cabeça quente? Acho muito difícil.

– EU PRECISO VÊ-LA, OK? – Levanto. – Ela disse que... Eu não posso... Rachel não pode fazer isso. – Sussurro. – Se eu perdê-la, eu...

– Quinn...

– Eu morro junto... – Soluço.

– Quinn! – Sue me abraça apertado. – Rachel não fará nada. Ei, ei. – Esfrega as mãos em minhas costas. – Ela está com Santana, está bem.

– Eu quero vê-la...

– Brittany levará você, mas fique calma, por favor. – Pede. – Calma.

Deito a cabeça no ombro da treinadora, aceitando o carinho oferecido. Foi Karofsky, não Rachel. Deixo os soluços passarem aos poucos. Sue levanta meu rosto, enxugando-o e beija minha testa. Há quem diga que Sue Sylvester não tem coração. Eu sempre a conheci como uma boa pessoa. A treinadora sempre me ajuda nos momentos difíceis. Na quadra, sou apenas uma aluna seguindo suas ordens. Ela pode me gritar, pode me bronquear. Fora, ela uma segunda mãe, que também grita e bronqueia, mas que apóia até o fim.

Chego na casa de Santana e Brittany abre com sua chave reserva. O carro dos pais da latina não está e eu agradeço por isso. Nós entramos, procurando-as. San acena da cozinha, nos chamando. Meu coração dispara quando não vejo Rachel.

– Ela está sozinha? – Franzo a testa. – Mas, que merda, Santana!

– Ela dormiu, Q. – Suspira, sentando. – Está cansada. Estou cansada.

– Desculpe. – Sussurro, envergonhada. – O que aconteceu?

– Ela está... Revoltada. Xingou todos do colégio. Tomou as dores dele. – Morde o lábio. – Mas, ela não fala sobre o que fez... Estou preocupada.

– Ela perguntou por mim? – Me encolho.

– Não. – Fecho os olhos, assentindo. – Ela me gritou também, ok? Ela está com raiva.

– Não tivemos culpa. – Resmungo.

– Aí é que está. Ela está jogando a culpa em todas nós...

– E se escondendo da própria culpa. – Concluo, derrotada.

Por Rachel

Abro os olhos no quarto de Santana. Eu não queria mais ter que ouvi-la, então fingi que adormeci para ficar um pouco sozinha. Minha cabeça está dando várias e várias volta. Eu posso ficar tonta facilmente deitada. Puxo meu celular do bolso, conectando-o a internet. Abro o perfil de Karofsky e vejo algumas mensagens de apoio. Hipócritas. Balanço a cabeça, baixando os comentários.

Você só poderá se trocar no banheiro das Cheerios agora.

Ui, por isso você marca os jogadores tão bem? Gosta de agarrá-los?

Marica.

Perdedor.

Fecho os olhos, engolindo seco. Perdedor. Karofsky não é um perdedor. Ele é um jogador de futebol americano, temido pelo colégio inteiro. Ninguém bate de frente, ele joga raspadinhas. Eu sei, porque já provei de todos os sabores lançadas por ele. Quando não lançava, era o primeiro a gargalhar alto, puxando o resto das risadas. Karofsky é um popular. Como Santana, como Brittany. Como... Quinn. Mas, não se importaram com isso.

– Eu nunca ficaria com um lixo feito você. Deve ser difícil aceitar que nem as mulheres, nem os homens te querem.

Levanto da cama, abrindo as gavetas de Santana. Meus braços estão ardendo. É minha culpa. Tudo isso aconteceu porque eu o joguei para fora do armário. Eu fiz isso. Era pra eu estar naquela cama agora, não ele. Abro minha bolsa, rapidamente.

– O que está fazendo? – Eu me assusto.

– Estou procurando minha garrafa d’água. – Respondo, sem virar.

– Era só descer e pedir.

– Não quero incomodar. – Continuo de costas.

– Você não vai olhar para mim?

– Você deveria ir embora. – Sussurro. Ela não responde. Eu arrisco um olhar e meu coração se aperta ao ver os olhos avermelhados de Quinn.

– Por que está fazendo isso? – Pergunta tão baixo que eu mal sou capaz de ouvir. – Por que está me machucando?

– Eu não... – Franzo a testa, virando de volta. – Saia, Quinn.

– Quando você me convencer, eu saio. – Puxa a cadeira, sentando-se.

– Inferno. – Resmungo. – Eu quero ficar sozinha.

– Não convenceu.

– Eu quero ficar longe de você. – Silêncio. – Saia.

– Você acha que eu não me culpo todos os dias pelo o que eu te fiz? – Levanta. – Você acha que eu não tenho medo de me compararem ao meu pai todos os segundos da minha vida? – Se aproxima. – Você acha que não me dói ver alguém tentando tirar a própria vida porque foi julgado por gostar de pessoas do mesmo sexo, como eu? – Eu engulo seco. – Você acha que é justo eu ter que te segurar o tempo inteiro? Eu sei que você está mal, mas eu também estou. – Sua voz sai grave. – Eu também preciso de apoio.

– Você tem Santana, Brittany, todas as Cheerios. – Encaro-a. – Eu preciso apoiá-lo. Preciso ajudar o Karofsky. Ele está do meu lado agora, o lado dos perdedores.

– Até ontem ele estava do meu lado. – Ela aponta, furiosa. – Ele recebe acusações e de repente passa para o seu lado?

– SIM.

– E POR QUE VOCÊ AINDA NÃO PASSOU PARA O MEU LADO? – Explode. – SOMOS ACUSADORAS, NÃO SOMOS?

– Cale a boca.

– Rachel. – Respira fundo. – Não tem merda de lado nenhum, estamos todos no mesmo lugar.

– EU MANDEI VOCÊ CALAR A BOCA. – Empurro-a. – É CULPA SUA. EU NÃO TERIA FEITO ISSO SE NÃO FOSSE POR VOCÊ.

– Será mais fácil jogar a culpa em mim? Então, vamos. – Segura meus punhos. – Joga, Rachel.

– Se eu não tivesse falado, seriam suas redes sociais assim agora. – Empurro-a novamente. – Seria sua casa sendo pichada. Seria você...

– Seria eu o que? – Levanta a cabeça. – Você acha que eu também não aguentaria? Você não teria força o suficiente para me segurar?

– Você não sabe. – Solto-a, coçando meus braços. – Inferno. – Esfrego com mais força. – Me deixe sozinha.

– Pra que?

– SÓ ME DEIXE SOZINHA, QUINN. – Grito. – Por favor. – Soluço.

– Eu não vou te deixar sozinha, meu amor. – Sussurra.

– Não me chama assim. – Ela arregala os olhos. – Eu sou um lixo. É tudo culpa minha, Quinn. Ele pode morrer...

– Ele não irá morrer. Rachel, presta atenção, não é culpa sua.

– É MINHA CULPA, SIM! – Coloco a mão no bolso. – Eu machuquei ele, eu machuquei você. Eu machuquei você. Deus...

– Rachel, olha pra mim. – Seu olhar segue minhas mãos. – Solta isso.

– Me deixe sozinha.

– Eu estou pedindo pra você soltar isso. – Se aproxima. Eu dou um passo pra trás. – Meu amor, solte, por favor. – Eu seguro o estilete mais forte. – Rachel...

– SAIA DAQUI. – Quinn recua, revirando a mesa de Santana. – O QUE ESTÁ FAZENDO? – A loira abre o estojo da latina, pegando o mesmo objeto.

– Se eu ver descer uma gota de sangue no seu braço, eu faço o mesmo no meu.

– Vai pro inferno, Quinn. – Avanço nela, tentando tomá-lo. – Isso não tem graça!

– Eu sei. – Diz, firme. – Eu também não acho a menor graça. Solte essa merda.

– EU PRECISO FAZER ISSO.

– NÃO PRECISA.

– EU PRECISO. FOI MINHA CULPA. EU TENHO QUE FAZER. ERA PRA SER EU NO LUGAR DELE.

– FODA-SE, RACHEL. – Chora forte. – VOCÊ ESTÁ SENDO EGOÍSTA IGUAL A ELE. – Soluça. – COMO VOCÊ ACHA QUE EU ESTARIA SE FOSSE VOCÊ NAQUELA CAMA? – Eu estremeço. – PENSA AO CONTRÁRIO, SE FOSSE EU? – Sinto meu estomago embrulhar. – Ou você... Você não sentiria nada? – Sussurra.

– Eu enlouqueceria se fosse você. – Fecho os olhos, soltando o estilete no chão. Ela suspira alto, soltando também. – Me perdoe. – Seus braços me envolvem, esquentando meu corpo. Escondo a cabeça em seu pescoço. – Me perdoe.

– Eu não posso perder você, Rachel. – Suas lágrimas molham minha pele. – Não faça isso, nem brincando.

– Eu não vou fazer. Calma. – Aperto-a. – Eu estou aqui com você.

– Eu te amo. – Segura meu rosto, beijando-o em todos os cantos. – Eu te amo. Eu te amo. – Enxuga minha bochecha.

– Eu também te amo. – Suspiro, prendendo nossos lábios. – Diga que me perdoa.

– Você me perdoa pelo que te fiz?

– Eu já perdoei, meu amor. – Choramingo.

– Então, eu te perdôo também. – Encosta nossas testas. – O pensamento de perder você...

– Shhhhh... Não vai me perder. – Abraço-a, deitando na cama. – Não vai me perder.

Notas finais
Buenas tardes... ;) Espero que gostem! Bom domingo pra vocês. http://ask.fm/FlorDeLins_ Até o próximo. ;*