Notas iniciais
Já havia postado essa fic na outra conta, mas sabem como é a vida de uma estudante bagunçada, unn. ii~ Bom, aqui está ela novamente, sem nenhuma alteração!

- KIIID-KUN!

\"Kid-kun!\" ela dizia em alto e bom som. Impossível não reconhecer aquela voz, tão irritante e ao mesmo tempo tão doce, assim como sua própria dona. Pele clara, um corpo fenomenal que parecia ser frágil, porém não revelava o quão forte era. Cabelos longos e roxos, olhos cativantes. Excêntrica,barulhenta e bagunceira. Nunca me deixava terminar meus projetos, pois estava sempre querendo brincar. Um misto de graça e brutalidade que conseguiu me confundir e desordenar minha vida.

Foi difícil admitir para mim mesmo que estava apaixonado. Não que ela fosse feia ou sua presença não me agradasse, mas... ela não era nada simétrica!

Sou Death the Kid, o presunçoso filho do diretor da Shibusen. Ela é Blair, uma gata com poderes mágicos. Essa é a história do primeiro amor da minha vida, que acabei perdendo pra sempre graças à meus malditos ideais de perfeição.

Diversas vezes, no alto da escadaria da entrada da Shibusen, me deparei com ninguém menos que Shinigami-Sama ou, para mim, apenas \"papai\". A conversa era sempre a mesma, eu precisava de uma boa arma; afinal todo bom artesão precisa de uma boa arma. O problema era que nenhuma das pretendentes que papai escolhia para mim era, ãhn, perfeita. Se fosse para ser um casamento arranjado, que pelo menos ela tivesse algum senso de simetria! Foram semanas e mais semanas aturando as escolhas sem sentido de meu pai. Então, durante um simples passeio, quase fui assaltado pelos \"Demônios do Brooklyn\", uma perfeita dupla de idiotas. Pelo menos era o que eu pensava até vê-las em ação, se transformando em pistolas perfeitamente simétricas. Subarashi, eu precisava delas!

Tirar Elizabeth e Patricia Thompson das ruas e trazê-las para a Shibusen foi uma experiência complicada, mas realizei meu desejo de ser o artesão mais simétrico de toda Death City. E elas se tornaram minhas melhores amigas.

Com o tempo vieram outros artesãos bizarros e suas armas. Black Star, o artesão mais idiota que já vi e sua acompanhante timidamente estranha, Nakatsukasa Tsubaki. Chrona, o esquisito de cabelo rosa e sua espada irritante, Ragnarok. Maka Albarn, a filha teimosa de Spirit-Sama, e sua foice, o relaxado Soul Eater. As experiências que tivemos me fizeram superar a assimetria deles... menos uma. Blair, a gata falante de pêlos arroxeados e chapéu de bruxa que vivia com Maka e Soul. A princípio, não vi graça nenhuma naquela criatura. Me surpreendia todas as vezes em que ela se transformava em humana, vestida naquelas roupas minúsculas ou até mesmo sem roupa alguma; suas músicas estúpidas sobre abóboras me incomodavam, e sua falta de simetria me dava náuseas. Mas duas certas pessoas se deram tão bem com ela que começou a se aproximar mais de mim, indiretamente. Ela e as Thompson se tornaram inseparáveis, fosse para ir ao salão de beleza com Liz ou brincar com as centenas de girafas de pelúcia de Patty. Ver abóboras pela mansão se tornou cada vez mais comum, e seus gritos passaram a ser ouvidos regularmente. Com frequência, durante a noite, eu via a sombra de um gato passar pela janela, e pela manhã, a silhueta de uma bela mulher andando pela casa. Na maioria das vezes, nua, o que me deixava ainda mais constrangido. Assim, Blair foi se tornando uma parte da mansão.

\"Pum-pumpkin, pumpkin!\"

Blair era uma completa doida, mas eu ainda não tinha visto seus poderes. De vez em quando ela fazia gracinhas com sua mágica, e eu achei que não passava daquilo. Metade gata, metade bruxa, inteiramente inútil. Essa foi a imagem que construí dela, mas me vi forçado a mudar de opinião quando, num ataque rotineiro do mal, enfrentamos as bruxas Eruka Frogg e Mizune. Minhas investidas foram bem-sucedidas, mas fui pego de guarda baixa, me afastando de minhas armas, e Blair veio nos ajudar. Seus ataques, coisas como a Abóbora Esmagadora ou o Canhão do Halloween, eram de todo estranhos, contudo foram fortes o suficiente para resultar na fuga das duas bruxas. Liz e Patty a bajularam por horas, elogiando seus incríveis poderes, mas eu ficava pensando em como sua magia era assimétrica, e como sua movimentação diante das bombas de Eruka tinha sido imperfeita. Ela tinha nos ajudado muito, era a realidade, e eu devia um favor à ela, mas isso não mudava o fato de que Blair era uma assimétrica de primeira linha.

A partir daquele dia, por insistência das Thompson, Blair passou a morar conosco. Minhas noites de sono simétrico se tornaram cada vez mais curtas, já que os risos e as fofocas reinavam nas horas mais inapropriadas. O cheiro de peixe na cozinha era insuportável... Como alguém conseguia viver na mais completa desordem, sem se importar com a simetria? É impossível viver sem simetria!

Aquilo já estava começando a me irritar. Quando as três inventavam de de divertir, a bagunça se espalhava por toda a parte, destruindo a simetria perfeita de meus quadros, vasos e velas. Tive de repreender Blair diversas vezes. Logicamente ela ficava brava, mas era tudo uma questão de manter a ordem e eu me esforçava para que ela entendesse. Porém eu também precisava entender que ela não fazia aquilo por mal, então tentei pegar mais leve em minhas advertências. Depois de um tempo não haviam mais tantas abóboras nas escadas e as conversas femininas de meia-noite começaram a rarear. Ela veio se desculpar e disse que tentaria ser mais organizada. Essa mudança repentina me fez ver que talvez a presença de Blair não fosse mais um incômodo se tivéssemos a chance de nos adaptar um ao outro. Após alguns dias, conversávamos como se fôssemos os melhores amigos do universo. Eu criticava seus métodos de batalha, e ela me pedia ajuda para treinar e melhorar suas habilidades. Liz e Patty começaram a se sentir até um pouco desprezadas e me chamaram para uma pequena conversa para perguntar o motivo de eu estar me afastando tanto das duas. Tentei não mencionar muito o nome de Blair, e no fim das contas nem precisei, pois minhas amigas já haviam percebido que algo estava diferente. Não tenho certeza de como aconteceu, mas quando me dei conta não podia mais viver sem Blair.

\"Brinque comigo, Kid-kun!\"

Entre todos, Soul foi o que mais percebeu a mudança de comportamento de Blair, que já não o importunava mais para brincar com ela. Isso o deixou aliviado por um bom tempo, assim como Maka, que exigia total concentração de Soul nos estudos para se tornar Death Scythe. Eu tinha me esquecido que as provas estavam chegando, então me tranquei na biblioteca para estudar um pouco. Liz estava preocupada a cor de seu próximo esmalte, enquanto Patty dormia sobre o livro. Achei que ninguém fosse me atrapalhar, mas mal abri o livro e escutei arranhadas na porta. Ao abrir, me deparei com a gatinha arroxeada que dizia \"Kid-kun, venha brincar com a Blair!\". Respondi que estava ocupado, mas a deixei entrar. Me sentei e peguei meu caderno para continuar a leitura, enquanto Blair pulava de um lado para o outro olhando minhas estatuetas e xeretando em meus livros. Adquirindo a forma humana, foi até um quadro, meu quadro mais simétrico e mais adorado, admirando-o com demasiada atenção. Olhando de relance, vi sua mão tocar a moldura do quadro, movendo-o dois centímetros fora do ângulo original. Dois centímetros. Larguei o caderno e, nervoso, comecei a gritar com ela, perguntando a razão de ter cometido tal crime sem lhe dar tempo algum para dizer algo. Histérico, eu procurava desesperadamente por uma régua, um esquadro ou qualquer coisa que me permitisse corrigir aquele erro mortal, enquanto continuava a gritar e dizer que nada disso teria acontecido se ela controlasse aquela vontade ilimitada de brincar e fosse mais responsável. Ela me olhava com seus grandes olhos de íris amarela, tristes e furiosos. Me dando as costas, saiu da sala, dizendo \"Blair não vai mais atrapalhar\". Pensei em ir atrás dela, mas a visão daquele quadro torto por dois centímetros era aterradora. Fiquei paralisado no meio daquela biblioteca enorme, indeciso entre Blair e o quadro. Pensando que talvez ela já tivesse esquecido pela manhã, me dirigi para o quadro, a fim de arrumá-lo, então ouvi os lamentos de Patty seguidos por um giro de chave na fechadura, que parecia vir do quarto de Blair.

Por um instante parei, desnorteado, nervoso. Ouvi passos que desciam as escadas lentamente. À medida que avançavam, iam ficando mais barulhentos, em batidas pesadas e surdas. Ela devia estar atravessando a sala. Fechei os olhos e mordi os lábios como tentativa de suprir o pânico crescente que me abatia cada vez mais. Então a porta da frente bateu com um estrondo. As lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto, o silêncio era tão grande que chegava a doer. Ela havia me abandonado.

Não dormi direito, assim como também não obtive uma nota satisfatória no exame da Shibusen. Atormentado pelas grosserias que tinha dito à Blair, me tranquei em meu quarto. Olhando para todas aquelas coisas simétricas ao meu redor, me senti enjoado. Levantei e, num acesso de fúria, derrubei meus quadros, quebrei minhas estatuetas, parti as velas ao meio, atirei os livros no chão e gritei. Gritei o mais alto que podia, chamando pelo nome de Blair. Me joguei no chão de joelhos, chorando sem parar enquanto Liz e Patty, preocupadas, tentavam derrubar a porta de todas as maneiras, mas não conseguiam. Soul, Black Star e os outros fizeram de tudo para me animar, contando histórias engraçadas, me levando a festas, e até Chrona me escrevia poemas, mas nada trazia resultados. Minha mansão se tornou o local mais horrível de toda Death City, pois eu não conseguia mais olhar para toda aquela perfeição sem sentir nojo de mim mesmo.

Onde estaria Blair? O que estaria fazendo? Ou pior, com quem estaria?

Liguei o rádio, na tentativa de diminuir meu remorso.

\" You still my only hope

Você rouba minha única esperança

and make me stay awake another night...

e me faz ficar acordado outra noite...

I wish you bear with me, stay near me

Eu desejo que você brilhe comigo, fique perto de mim

when the Autumn leaves have fallen... \"

quando as folhas de Outono caírem...

A música me trouxe a imagem de Blair à mente. Como seus olhos demonstravam tristeza ao ouvir as coisas terríveis que eu dizia... Vê-la sentir-se péssima era pior que me sentir péssimo por causa dela.

\" I can\'t write these storylines without you... \"

Eu não posso escrever essa história sem você...

Me olhei no espelho, observando cada detalhe de minhas roupas, meus colares, as três listras brancas meu cabelo. Lembrando das desordens que Blair fazia, me afoguei em lágrimas, vendo o quanto minha própria simetria me enojava. Ainda tinha meus amigos, tinha Liz e Patty, mas de que adiantava aquele mundo perfeito sem Blair? Mas... aquilo não poderia ser apenas uma alucinação? Eu ainda tinha chances de estar simplesmente tendo uma noite turbulenta, onde acordaria a qualquer minuto e veria Blair na mesa para o café da manhã. Olhei além da janela, esperando ver uma garota de cabelo roxo chegar a qualquer minuto, afinal aquilo não poderia ser real. Me belisquei com força, pensando que era apenas um pesadelo, mas com a dor vi que não tinha mais nada a fazer. Minha Blair, meu oposto que me completava havia realmente me deixado, e eu não tinha feito nada para impedir.

-

As semanas se passaram sem notícias de Blair. Meu quarto permanecia revirado, pois meu remorso era tão forte que não consegui juntar coragem para arrumar tudo. As forças que ainda tinha, usei para escrever essa história. Deitado entre as roupas e os livros espalhados pelo chão, pensava no que faria para o jantar relendo meu texto quando ouvi a campainha tocar. Gritei por Liz e Patty, mas ninguém me respondeu. As Thompson haviam ido com Maka à casa de Tsubaki, para uma festa do pijama. Desanimado, me levantei para atender, pensando que devia ser Chrona me trazendo outro daqueles poemas deprimentes. Ao abrir, dou de cara com uma garota, de cabelos roxos e usando um chapéu de bruxa, com lindos olhos amarelos. Olhos que se arregalaram ao ver minhas roupas em desalinho, e meu rosto vermelho.

- Kid-kun? O que aconteceu com você? — perguntou Blair, assustada.

- B-Blair?

- Eu... eu...

- Você...?

Com ambas as mãos entrelaçadas e a cabeça baixa, ela se ajoelhou à minha frente. Simetricamente.

- Blair, você...

- Vim te pedir perdão, Death the Kid.

Ela continuava a fitar os próprios dedos inquietos que deslizavam um sobre o outro, mas pude perceber o brilho de algo em sua face. Lágrimas, certamente.

- Pare com isso, Blair. Levante, por favor...

- Não até dizer que me perdoa.

Me ajoelhei também, encostando apenas o joelho direito no chão e, com delicadeza, levei minha mão até o queixo de minha linda gatinha chorona. Ela me olhou com tristeza, e depois com olhos assustados ao reparar minha pose não-simétrica.

- Kid-kun, seu senso de simetria...

- Eu sou um lixo por me importar mais com essa droga de simetria do que com você. Eu jamais devia ter dito aquelas coisas estúpidas pra você, Blair... Me perdoe por não ter tido coragem o suficiente pra te impedir de me deixar!

Dito isso, a abracei. Logo, suas lágrimas geladas estavam molhando meus ombros, enquanto seus braços me apertavam contra seu corpo, retribuindo a aquele abraço cheio de saudades.

- Não chore mais, por favor. Não sou digno de lágrimas tão puras.

- Tive medo de que estivesse com raiva de mim e não me deixasse voltar...

- Eu não tinha certeza alguma de que te veria novamente, mas minha porta sempre esteve aberta pra você, Blair... Eu...

Não pude terminar a frase. Os lábios trêmulos de Blair se atritaram contra os meus me dando um beijo singelo, mas apaixonado. Paralisado, fixei meu olhar no dela, e a abracei novamente, com mais força do que antes.

- Subarashi...

- Kid-kun?

- Não diga mais nada, Blair-chan. Eu te amo.

E continuamos ali em silêncio, abraçados assimetricamente sob a luz a lua. Naquele momento, nada mais importava, a não ser ficar ao lado de Blair.

Descobri que a perfeição não passa de um grande absurdo. Há algo além da simetria!

Sou Death the Kid, o presunçoso filho do diretor da Shibusen. Ela é Blair, uma gata com poderes mágicos. Agora, posso dizer essa é a história do primeiro amor da minha vida, que acabei recuperando depois de achar que tinha perdido pra sempre.

Notas finais
Está bom? Está ruim? Estou sempre aberta a elogios e críticas! Reviiiiews q
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!