Alvorecer
2 Mordaz
Notas iniciais
Beijos!!!
Capítulo 2 –Mordaz.
Rin por um momento ficou paralisada. Aquela pergunta era tudo que mais queria ouvir no mundo, mas sentiu-se estranha ao pensar em abandonar Jin. Ela sabia bem que perderia a amizade dele para sempre se decidisse ir embora. Mas como não ir embora? Era o que mais queria desde quando se lembrava. Era o que queria e sempre quis. Isso a atordoou. Ela amava Jin, mas não se comparava com o que sentia por Sesshoumaru. Era algo mais intenso e talvez doentio, não sabia o que de fato aquele yokai significava para si. O que sabia era que era com ele que queria ficar. Mesmo que isso significasse não ver mais ninguém, em não ser mais a mesma, em não ver mais Jin.
Sentiu-se mal por pensar assim. Era algo complicado demais. Ele a dominava tão facilmente. Odiava isso... Mas também amava aquela vulnerabilidade, aquela dependência. Amava ficar sem palavras e ceder aos seus pedidos. Era isso que queria.
E assim que respirou fundo e abriu um largo sorriso respondeu sem qualquer dificuldade.
–Partir com o senhor é o que mais desejo.
–Então iremos assim que se sentir melhor. –ele a fitou, mas logo virou o rosto para a porta.
Não demorou mais do que dez segundos para um certo yokai verde e bem peculiar adentrar aquela rústica casa segurando uma cesta e um cajado de forma desajeitada. Rin soltou um grito de felicidade e o agarrou sem pensar duas vezes.
Jaken levou um susto e acabou derrubando a cesta e seu cajado com o abraço apertado. Ele se agitou nos braços de Rin, não conseguia respirar direito.
–Rin, você está me sufocando! –ele falou com dificuldade.
–Desculpe! –ela o soltou rindo. –Que saudades do senhor, senhor Jaken.
–Também senti sua falta, Rin. –ele falou um pouco sem jeito, ainda não estava acostumado com demonstrações de afeto.
–Por que demorou tanto, seu inútil? –Sesshoumaru o encarou impaciente.
–Desculpe, senhor Sesshoumaru! –arregalou os olhos assustado com o descontentamento de seu Lord e rapidamente tentou explicar-se. –É que eu não sabia o que trazer... Fiquei confuso.
–Você é mesmo um idiota. –suspirou aborrecido.
–Senhor Jaken, obrigada por trazer tudo isso pra mim.
–Trate de comer, deu o maior trabalho achar tudo isso...
–Vou comer sim, estou com muita fome. –ela sorriu já pegando a cesta.
Sesshoumaru sentiu um cheiro incômodo se aproximando, de alguém que não sentia a mínima vontade de olhar. Levantou-se rapidamente, caminhou até a porta e antes de sair falou a Jaken sem virar-se para ele.
–Jaken, cuide de Rin. Estarei por perto caso precise.
–Sim, senhor Sesshoumaru.
E antes que Rin pudesse perguntar aonde ele iria, Sesshoumaru saiu rapidamente sem olhar para trás. A mocinha estranhou aquela atitude, mas resolveu dar de ombros e pegar algumas coisas na cesta. Sesshoumaru havia acertado em cheio, ela estava faminta.
Enquanto comia e ria com Jaken, aquela pessoa adentrou sua casa sem pedir licença.
Era Jin.
Estava com os olhos assustados. Com olhos desesperados de quem precisa de respostas imediatas.
Assim que olhou para Jaken desanimou. Achou que a encontraria sozinha. Olhou para o yokai de cara feia, o que foi nada menos que uma reação recíproca, já que, Jaken fizera a mesma coisa. Jin tentou ignorá-lo encarando Rin que se retesou um pouco ao receber aquela olhadela.
–Rin, preciso falar com você... Sozinho.
–Nem pensar! –Jaken rebateu de forma grosseira.
–Está tudo bem, senhor Jaken. –ela sorriu gentilmente. –Ele é meu amigo.
–Desculpe, Rin, mas o senhor Sesshoumaru me deu ordens para ficar aqui com você. Não posso deixá-la sozinha com ele.
–Que ridículo! Agora você tem guardas? –Jin riu incrédulo. –Não acredito que não posso falar com você sozinho! O quê é isso agora?
–Por favor, Jin... –ela suspirou chateada e fitou Jaken. –Senhor Jaken, o senhor pode ficar na porta até Jin ir embora?
–Não seja tola, Rin. Se eu sair de perto de você o senhor Sesshoumaru irá me castigar.
–Não irá demorar, eu prometo. –ela sorriu. –Eu vou ficar bem, acredite.
–Rin...
–Por favor. É importante.
Jaken relutou até dar-se por vencido. Ele sabia que Rin só iria parar quando ele atendesse ao seu pedido. Ele caminhou até a porta, mas antes de sair olhou para Jin como se dissesse “estou de olho em você”. Isso irritou Jin que assim que sentou-se fitou Rin incrédulo.
–Não sabia que agora tinha que pedir permissão pra falar com você... O que esse Sesshoumaru acha que irei fazer?
–Esqueça isso... –ela suspirou não querendo tocar naquele assunto.
–Como está se sentindo?
–Bem melhor... Só o tornozelo que dói muito, mas só quando me esforço.
–Evite andar.
–Como está Hana e a mãe dela?
–Estão bem. Hana pegou a planta que você foi atrás, achou com você, nas suas coisas. Ela conseguiu fazer o remédio, e então deu para você e para a mãe dela. Pelo jeito as duas se curaram da febre.
–Que ótimo, estava preocupada... Hana é uma menina muito boa.
–É sim...
Jin bem que tentou, mas não conseguia segurar sua angústia desenfreada e sua curiosidade bruta. Iria explodir se não tocasse no assunto, se não soubesse o que desejava. E assim que a fitou com os olhos confusos e transbordando de ansiedade tocou logo no assunto que já tinha sido conversado tantas vezes...
–Não quero que vá embora.
–Jin...
–Rin, não vá. –ele a interrompeu. –Não faça isso... Você não pode querer isso pra si.
–Por que não iria querer? –ela o fitou profundamente. –Por favor, Jin... Não torne as coisas mais difíceis.
–Não acredito que você vai embora com ele! Não posso aceitar perdê-la pra ele! –o tom de sua voz demonstrava toda sua aflição. –Não pra ele, Rin... Pra mim esse yokai sempre foi um fantasma, uma sombra. Ele nem era real, era como se nunca fosse aparecer, mas que de alguma forma sempre esteve presente. Ele largou você aqui por quinze anos, Rin. Quinze anos! Tem ideia disso? Você se esqueceu de todo esse tempo que ficou esperando?
–Não, claro que não...
–Então por que está querendo segui-lo? Não tem orgulho, amor próprio? Como ele consegue deixá-la tão cega e vulnerável? –indagou incrédulo.
–Ele teve seus motivos. –deu de ombros.
–Só pode estar louca! Não consegue enxergar nada além dele? Rin, não seja estúpida! Acha mesmo que será feliz com ele? Acha que terá uma vida boa com ele? Não seja tão sonhadora...
–Por que diz isso? O quê sabe sobre minha felicidade? –ela indagou seriamente.
–Qualquer um em sã consciência sabe que isso é uma loucura infame! Até quando acha que vai durar? E se ele a deixar de novo? Já pensou nisso?
Jin ele franziu o cenho irritado, mas tentou buscar a calma e a encarou novamente vendo que ela prestava total atenção.
–Não percebe que nunca conseguirá ficar com ele como deseja? Ele te faz mal, não te deixa respirar nem quando não está perto. Ele é como uma doença, não é saudável. Comigo seria tão fácil, Rin. Seria como piscar os olhos. O tempo passaria sem que percebesse e nosso tempo seria igual. Envelheceríamos juntos, seríamos felizes, sabe que seríamos. Teríamos uma vida normal, uma vida simples. Agora o que acha que irá conseguir com ele? Irá envelhecer, ficará vendo os anos passar enquanto seus cabelos começam a ficar brancos e sua pele enrugada, e enquanto a ele... Continuará o mesmo, congelado no tempo. Acha que irá aguentar isso? Não percebe o quanto irá sofrer se resolver viver com ele?
Rin sentiu seu coração doer quando ouviu Jin dizer todas aquelas coisas. Não sentiu-se assim por ser uma surpresa tudo aquilo que ele havia lhe dito e sim porque era tortuoso pensar em tudo. E embora senti-se toda aquela náusea e desconforto, ela o fitou calmamente, sem demonstrar medo ou frustração.
–Acha que não sei de tudo isso? Acha mesmo que não estou ciente? Eu sei de tudo que está me dizendo, eu sempre soube. Mas mesmo assim, mesmo tendo todas as dúvidas e certezas desse mundo ainda não consigo me convencer de que é uma loucura infame o que estou preste a fazer. –ela sorriu mesmo estando desanimada. –Eu só sei que quero ir, só isso. Seria uma loucura infame se eu não fosse. E mesmo que isso não faça sentido pra você, mesmo que não entenda, é disso que tenho vontade. E não há nada que possa me dizer, nada mesmo, que vá me fazer mudar de ideia.
–Não há nada pra você lá. –ele a fitou com os olhos duros e sérios.
–Se há ou não, eu não sei... Eu sei que irei descobrir.
Jin balançou a cabeça negativamente. Ainda tinha esperanças de que ela reconsideraria a ideia de ir embora. Mas Rin estava mesmo decidida a partir e isso estilhaçou seu coração. Sentiu-se tão impotente e essa sensação o irritou. Queria que ela ficasse. Ah, como queria! Mas ela não iria atender ao seu desejo. Já não tinha mais palavras, ela roubara todas... A decisão estava tomada e voltar atrás estava fora de cogitação.
E antes de ir embora, sem a fitar ele sussurrou a frase que a machucaria e nunca a faria esquecer.
–Rin, você me decepciona...
Escutar aquilo era como levar um soco no estômago. Eram ásperas demais aquelas palavras, principalmente vindas dele. Jin nunca a dissera isso e nunca tinha escutado isso de ninguém. Aquela frase fora forte para ela. Aquelas palavras ecoaram dentro de si, talvez um xingamento tivesse doido menos, a magoado menos. E sem ter o que dizer, ela abaixou os olhos com a face entristecida.
Ele levantou-se do chão em silêncio e saiu sem dizer mais nada.
Jaken entrou apressado na casa assim que Jin saiu, e ao se deparar com Rin ficou confuso por ela estar com uma expressão tão abatida. Há minutos atrás estava sorrindo e tagarelando. O yokai sapo aproximou-se sem entender e sentou-se à sua frente.
–O que aconteceu, Rin?
–Nada... Não houve nada... –ela respondeu mesmo sem vontade.
–Não diga que não lhe avisei. –aquela voz séria cortou o cômodo fazendo com que os dois o olhassem parado na porta.
–Senhor Sesshoumaru! –Jaken quase caiu no chão desmaiado.
–Eu lhe disse para não se importar com esse humano. –Sesshoumaru encarou Rin que ficou sem resposta por um momento.
–Eu sei, mas não consigo. Gosto dele. –respondeu dando de ombros.
Sesshoumaru franziu o cenho ao escutar aquela resposta e logo voltou-se para Jaken que estava um pouco tenso pelo o que tinha feito anteriormente.
–E enquanto a você, Jaken.
–Sim, senhor Sesshoumaru! –engoliu a seco.
–Por que não fez o que eu mandei? –indagou áspero.
–Por favor, senhor Sesshoumaru. –Rin interveio antes que Jaken respondesse. –Fui eu que pedi para Jaken ficar do lado de fora. Eu precisava conversar com Jin em particular.
–Mesmo assim Jaken não deveria ter desobedecido minhas ordens.
–Por favor, senhor Sesshoumaru, me perdoe! –o yokai jogou-se ao chão temendo seu senhor.
–Você é mesmo um inútil, não serve pra nada.
Rin acabou sorrindo sem jeito, não queria que Jaken tivesse sofrido injustamente por sua causa, mas ela realmente precisava ter tido aquela conversa em particular. Ela sabia que Sesshoumaru não faria nada contra Jaken.
–Senhor Sesshoumaru. –ela o chamou querendo acabar com aquela confusão. –Por que não partimos amanhã?
–Não está em condições de seguir viagem.
–Eu ficarei bem, não me sinto mal. Só estou mancando um pouco.
–Não acho uma boa ideia. É melhor esperar.
–Rin, o senhor Sesshoumaru tem razão.
–Mas eu... –ela suspirou cansada. –Eu não quero ficar mais aqui... Quero ir embora o quanto antes.
–Já que é assim partiremos amanhã. Arurum já deve estar vindo, encontraremos com ele no caminho.
...
Pela tarde a chuva caía fraca e monótona. Estava um dia lindo pela manhã, mas as nuvens carregadas não demoraram a aparecer e desmanchar todo aquele céu azulado. Rin olhava pela janela a chuva cair, estava quieta, completamente muda o que não era característica sua.
Sesshoumaru havia saído junto com Jaken. Eles não gostavam de ficar naquele vilarejo, Rin sabia bem disso e não os culpava. As pessoas não gostavam deles, não se sentiam seguras na presença de dois yokais.
Rin estava aborrecida pela conversa que tivera pela manhã com Jin. Não conseguia esquecer as últimas palavras pronunciadas por ele. Ele havia ido embora sem deixá-la falar qualquer coisa depois. Era terrível que ele não a entendesse. Rin só queria ser feliz e a sua felicidade estava ligada a Sesshoumaru, era tão fácil de entender. Mas ela sabia que não adiantaria o que dissesse, ele não a compreenderia.
Assim como ela, Jin perdeu todos os parentes, talvez fosse por isso que era tão agarrado a ela. Os dois dividiam a mesma frustração, a mesma dor. Jin se apegou a Rin desde o momento em que trocou as primeiras palavras.
Ela suspirou cansada e assim que sairia da janela o viu passar um pouco distante sem camisa e com a espada embainhada presa na cintura. Num solavanco ela levantou-se, sentiu a fisgada no tornozelo e acabou deixando uma careta de dor escapar. Tentou ignorar o desconforto e partiu mancando para o lado de fora mesmo que ainda estivesse chovendo.
Rin andou o mais rápido que podia. Jin estava de costas para ela, completamente distraído fitando o céu cinza e deixando a água correr seu corpo. E só saiu de seus pensamentos quando escutou aquela voz o chamando.
–Hei, Jin!
Ele virou-se para trás descrente, e assim que a viu arregalou os olhos surpreso. Ela estava há uns dez passos de distância o fitando seriamente.
–Rin? O quê está fazendo aqui?
A chuva aumentou, mas os dois não se importaram. Rin mancou até ele, até ficar bem próximo. Jin fitou seus olhos e viu as lágrimas cortando a face da menina e se confundindo com a água da chuva.
–Rin...
–Por que não consegue entender? Por que é tão difícil de entender? Jin, eu nunca vou ser a pessoa certa pra você. Eu nunca serei sua porque nem a mim mesma eu pertenço. Sabe disso... Não tem ideia de como foi duro ouvir que estava decepcionado comigo, mas eu... Eu não posso fazer nada.
–Eu sei. –ele assentiu seriamente. –Sei que não vai ficar comigo, sei que o ama, sei de tudo isso... Acho que é por estar tão consciente que sofro tanto.
–Jin, eu não quero ir embora brigada com você. Você é como um irmão pra mim.
–Pare de dizer isso! –ele rosnou. –Sabe que odeio quando diz isso...
–Mas é o que eu sinto! Você é como o irmão que eu nunca tive. Não sabe como me dói deixá-lo aqui, contudo eu tenho que seguir minha vida e você a sua, como eu sempre disse que teria que ser.
–Mas eu sempre me neguei a isso...
–Só que agora de uma certa forma estarei o forçando a isso.
–Vou sentir tanto a sua falta... Tanto... O quê eu vou fazer agora sem você, Rin? –ele cerrou os olhos querendo prender as lágrimas. –Você é mesmo uma idiota.
Rin sorriu e sem mais delongas o abraçou fortemente. O abraçou apertado ainda deixando as lágrimas rolarem.
–Eu te amo. –Jin sussurrou no pé da orelha de Rin.
–Eu também.
–Não tanto quanto eu.
...
Rin voltou para dentro de casa. Estava encharcada, um verdadeiro caos. Tirou a roupa rapidamente antes de Sesshoumaru a ver. Ela sabia que ele ficaria furioso se soubesse que tinha ido atrás de Jin. Enxugou-se o mais depressa que podia e tratou de por um outro kimono. Colocou um laranja sem estampa com um obi vermelho. Trocou os curativos por outros e assim que terminou de amarrar a faixa do tornozelo, deu de frente com Sesshoumaru que estava um pouco molhado assim como Jaken. Ela o fitou de forma nervosa, como uma criança que acabara de fazer alguma artimanha.
–O senhor voltou.
–Por que está com essa cara? –ele indagou franzindo o cenho.
–Não... Não é nada.
–Sei que se encontrou com aquele humano, não precisa mentir.
–Como o senhor sabe? –arregalou os olhos, tinha sido pega.
–Porque sinto o fedor dele em você. Eu não gosto dele, Rin. Não confio nele. Mas não posso impedi-la de fazer o que quer. Não compreendo e nem quero compreender seu afeto por ele.
–Eu precisava falar com ele antes de ir embora...
–Faça como quiser.
...
Assim que amanheceu os três estavam prontos para partir. Rin iria pegar alguns kimonos e algumas coisas de que poderia precisar, mas Jaken não a deixou. Disse a ela que teria tudo e que não iria precisar de toda aquela tralha, só iria atrapalhar levar tudo aquilo durante a viagem. Ela então assentiu mesmo que não quisesse. E assim que os três puseram os pés do lado de fora tiveram uma surpresa.
–Arurum! –Rin gritou não se aguentando de alegria.
O yokai logo a reconheceu, soltou um grunhido de felicidade enquanto ela correu mancando em sua direção para abraçá-lo. Ela o acariciou e o olhou com um sorriso radiante.
–Que saudade Arurum. Você está o mesmo... Senti sua falta.
–Como conseguiu chegar tão rápido? –Jaken ficou surpreso.
–Ele deve ter vindo logo atrás de nós. –Sesshoumaru respondeu. –Chegou em boa hora, Rin precisava mesmo da ajuda dele. Agora poderemos ir mais rápido.
–É verdade, senhor Sesshoumaru. –Jaken assentiu.
–Rin! –Sesshoumaru a chamou. –Vamos, está na hora.
Rin assentiu para Sesshoumaru e assim que iria montar em Arurum que já havia abaixado escutou uma voz a chamando. Uma voz feminina. Ela virou-se para trás assim como todos. Era Hana que estava ali.
–Hana? –indagou surpresa.
–Senhorita Rin, ainda bem que cheguei a tempo. –ela sorriu aliviada. –Vim para me despedir da senhorita, para agradecer o que fez pela minha mãe.
–Eu que deveria agradecer, Hana. Agradecer por ter cuidado de mim.
–Esqueça isso. Se não fosse por nós a senhorita não teria caído naquele buraco. Eu sinto muito.
–Está tudo bem. –ela sorriu.
–E também preciso lhe entregar uma coisa.
Hana se aproximou timidamente, olhando pelo canto dos olhos todos aqueles yokais que já não a fitavam mais. Ao chegar bem próximo de Rin, entregou-lhe um pergaminho amassado e sorriu.
–Ele não quis vir. Pediu para que eu entregasse a senhorita.
–Eu já imaginava. –ela sorriu. –Obrigada, Hana.
As duas se abraçaram e logo a mocinha foi embora correndo, sem olhar para trás.
Sesshoumaru fitou Rin novamente e assentiu. Já estava na hora de ir. Ela sabia. Montou em Arurum e finalmente partiram.
“Rin, não tive coragem de vê-la partir...
Espero que me perdoe por não ter ido me despedir de você, mas é que seria doloroso de mais.
Você entende, não é?
Não sei se fez a escolha certa, talvez eu nunca descubra, mas quero que saiba que desejo a você a maior felicidade desse mundo.
Desculpe por tudo...
Eu queria tê-la feito feliz. Queria ter sido capaz disso...
Mas já que não fui o escolhido, tenho que me conformar.
É só o que me resta.
Eu irei buscar a minha felicidade, não sei se ela está aqui ou em outro lugar...
Bom, irei descobrir!
Se cuida.
Talvez um dia a gente se veja de novo.
Quem sabe, não é? Seria ótimo...
Eu te amo,
Jin.
Ps: Seus banhos nunca mais serão os mesmo sem mim para espionar”.
...
Foram dez dias de viagem.
Dez dias.
Mas eles finalmente conseguiram.
–É logo ali à frente. –Sesshoumaru fitou Rin rapidamente.
E assim que Rin viu por sobre Arurum o enorme castelo que pouco a pouco ia surgindo entre as árvores abriu a boca completamente absorta. Ela sabia que Sesshoumaru era o senhor das terras do Oeste, mas não imaginava que seria tudo aquilo. Ficou abismada, literalmente de boca-aberta. Queria dizer algo mais inteligente naquele momento, mas não conseguiu.
–É tudo isso mesmo, senhor Jaken?
–Sim. –Jaken assentiu, estava nas costas de Arurum assim como Rin. –Não é maravilhoso?
–É... É lindo.
O castelo oriental medieval era perfeito. Do alto dava para se ter ideia da beleza daquele castelo. Rin pode ver os tetos pontiagudos de um verde musgo vivo, as árvores floridas por todo o canto, de muitas cores. Havia uma cerejeira enorme que ela amou de primeira. Havia também um lago bem claro com uma ponte vermelha com acabamentos impressionantes. Um outro lago menor atrás do castelo, rodeado por rochas grandes, parecia ser uma fonte. Os muros cáquis eram grandes e havia um enorme portão de aço que intimidaria qualquer um.
Sesshoumaru foi à frente enquanto Arurum se postava atrás como sempre fizera. E foi só o Lord se aproximar dos portões para que estes abrissem lentamente. O som era alto, dava para se escutar os estalos das engrenagens e o barulho das roldanas sendo movimentadas, com certeza mover aquele portão não devia ser nada fácil.
Assim que os portões se abriram havia uma fileira imensa curvada de cada lado para recebê-lo e uma mulher no centro com um sorriso nos lábios.
Ela usava um kimono curto, acima dos joelhos. Era um kimono diferente da cor lilás com um laço grande azul marinho nas costas. Usava também faixas azul marinho desde os pés, prendendo os chinelos, até um pouco antes dos joelhos. Ficava parecendo com uma meia.
Ela não se destacava apenas pelo tipo de roupa, mas também pela beleza e pelas duas foices presas por uma corrente que carregava nas costas.
A yokai possuía uma pele branca, olhos muito azuis e cabelos ruivos presos numa trança embutida. Possuía algumas sardas pelo nariz e embaixo dos olhos. Ela sem dúvidas era um conjunto belo, com seus lábios carnudos e seu corpo escultural.
–Meu Lord. –ela curvou-se solenemente. –Estávamos o aguardando.
–Como andam as coisas por aqui, Satsu?
–Nenhuma mudança relevante, meu senhor. –elevou-se novamente. –Mas há algumas coisas de que precisamos tratar.
–Perfeitamente. –assentiu. –Vamos entrar, há coisas de que preciso saber.
E assim que Rin desceu das costas de Arurum, o sorriso de Satsu deu lugar à incredulidade. Ninguém havia percebido ainda que havia uma humana ali presente, bem diante do nariz. Rin sentiu o impacto bruto daqueles olhos azuis a fitando, mas não recuou e manteve-se com a face firme.
–Humana? –Satsu deixou escapar dos lábios.
E foi a palavra mágica, a palavra chave que fez com que todos a olhassem, literalmente todos.
Rin sentiu-se acuada e involuntariamente deu um passo para trás. Eram tantos olhos a fitando... Não imaginava que seria o centro das atrações uma vez na vida, não que nunca tenha sido, mas das outras vezes eram olhos de admiração, um culto a sua beleza. Aqueles olhos eram de perplexidade, olhos que não estava acostumada a ver. Eram como se perguntassem sem palavras “O que ela faz aqui?”. Um olhar fulminante e mordaz.
Sesshoumaru não se espantou com aquela reação coletiva, já esperava por aquilo, não se importou, já que não precisava dar satisfação a ninguém do que fazia. Ele era o senhor daquele feudo e ponto final. Nenhuma conversa acabaria quando ele não quisesse e nada era feito sem sua permissão.
–Rin morará aqui a partir de hoje, é melhor se acostumar e parar de olhar com tanto espanto. Isso serve para você e para os outros.
–Mas...
–Isso é uma ordem, Satsu. Espero que tenha entendido. –ele a fitou seriamente sem paciência.
–Sim, senhor. –ela curvou-se novamente.
–Venham, o quê estão esperando? –Sesshoumaru voltou-se para os outros atrás de si.
–Vamos, Rin. –Jaken a puxou pelo kimono. –Temos que entrar.
Rin assentiu e foi mancando ao lado de Jaken e Arurum. Ainda estava assustada com aquela situação, engoliu a seco ao ver todos aqueles yokais bem de perto. Sesshoumaru seguiu na sua frente sem demonstrar que se incomodava com a reação de seus servos, manteve a mesma postura de sempre e pela primeira vez os olhos de todos não o seguiam.
Satsu cruzou os braços ao ver aquela cena. Sesshoumaru sendo seguido por uma mulher que não era ela, e sim uma humana. Ficou incrédula e só saiu de seus pensamentos quando ouviu os portões do castelo fechando atrás de si.
–Quem é essa humana?
–Quem é ela, eu não sei, mas admita que ela é muito mais bonita que você, Satsu. Mesmo sendo humana.
Satsu olhou para trás e viu aquele yokai familiar.
Ele era bonito como os yokais mais perigosos. Tinha os olhos castanhos-avermelhados, cabelos negros lisos que iam um pouco depois dos ombros e estavam cuidadosamente presos num rabo de cavalo baixo. Tinha um porte físico bonito que não passava despercebido mesmo atrás de um kimono masculino despojado. A parte de cima do kimono era de um verde bem escuro enquanto a de baixo preta. Usava chinelos de madeira simples e uma enorme espada larga presa nas costas.
–Kenji, o que quer?
–Ver a atração principal como todo mundo. –deu de ombros zombeteiro. –Parece que ela veio pra ficar.
–Ah, mas não vai mesmo... –ela o fitou séria. –Vamos ver se ela vai aguentar ficar aqui.
–O quê vai fazer? Ah, você é tão cruel... –ele riu de escárnio.
–Eu não vou fazer nada. Os outros irão. Sabe bem disso.
–Isso vai ser divertido tão divertido, Satsu.
–Vai... Mas não pra ela.
CONTINUA...
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