Alvorecer
4 Cobiça
Capítulo 4 –Cobiça.
Rin fitou aquele yokai completamente confusa. Não entendeu o porque daquela aproximação e tampouco daquela ironia, que soou mais como ofensiva do que uma simples brincadeira.
-Não vai falar nada? –ele riu irônico.
-O que quer que eu fale? –indagou um pouco emburrada franzindo o cenho.
-Então a humana morde. –ele sorriu e balançou a cabeça negativamente. –Não é necessário se armar para falar comigo. Não vim para aborrecê-la.
-Então por que veio?
-Ora, pra conhecê-la. –falou como se fosse óbvio. –Fiquei curioso para saber quem era a mais nova atração do castelo. Você roubou o posto de Satsu, meus parabéns. Isso é um feito quase impossível.
-Eu não roubei nada de ninguém. –ela rebateu aborrecida. –Não estou disputando o cargo com ela. Seria um favor que ela me faria se voltasse a ser a atração, como o Comandante mesmo diz. –pronunciou as últimas palavras de forma debochada.
Kenji ficou sem resposta, acabou sorrindo de leve e pulando velozmente para um dos galhos mais baixos da cerejeira. Ele sentou-se de maneira despojada, com uma perna para baixo e a outra dobrada encima do galho resistente. Recostou mais as costas na árvore e cerrou os olhos.
-Você é o ser mais curioso que esse castelo já abrigou, sabia disso, Rin?
-Não. –respondeu secamente. Não queria ouvir mais nada.
-Nem mesmo Akane é tão... Como posso dizer? ...Nem mesmo conviver com essa meio-yokai é algo tão difícil e inacreditável como é com você. Você é inacreditável, humana. É inacreditável sua presença aqui. É por isso que todos a olham.
-Não me importo com isso... Não me importo com a opinião de nenhum de vocês ao meu respeito.
-Ah, se importa! –ele riu. –Claro que se importa!
-Por que acha que me importo com o que o senhor Comandante pensa ou com qualquer outro? –ela levantou-se um pouco nervosa e o fitou sem hesitação.
-Eu não sei, humana. Realmente não sei porque se incomoda. Mas sabe mais do que ninguém que falo a verdade.
Rin engoliu as próximas palavras. Não queria continuar aquela conversa, não iria permitir-se prosseguir com aquele diálogo que não iria dar em nada. Ela respirou fundo e decidiu que já estava mais do que na hora de voltar para o seu quarto. Ela virou-se de costas para ele e tratou de seguir.
-Hei, humana! –ele a chamou do seu jeito.
Rin queria ter tido a audácia de ignorá-lo, mas acabou se rendendo e virando-se de costas para ouvir o que ele queria dizer.
-Por que quis vir pra cá, humana? Acha que irá ficar melhor aqui do que lá fora? Ah, isso é uma doce ilusão.
-Humana... –ela girou os olhos.
-Só me responda. –ele a ignorou. –Por que quis vir?
-Não importa porque eu quis vir Comandante. –ela deu de ombros. –O que importa é que estou aqui.
-Tem razão. –ele assentiu com um sorriso, mas logo fechou a cara e tomou um tom de seriedade. –Mas saiba de uma coisa, humana: não há nada pra você aqui.
Aquela frase não podia ter sido pior. Ela já a tinha escutado anteriormente pelos lábios de Jin. Seu antigo companheiro já a tinha dito que não haveria nada para ela naquele castelo.
E foi com essa frase que Kenji a silenciara. Não pela intensidade daquelas palavras em si, e sim pela lembrança que elas traziam.
Rin fechou o semblante e abandonou o lugar sem dizer mais nada. Sentiu-se covarde por não responder a altura, contudo preferiu dessa forma. Evitaria mais aborrecimentos. De qualquer maneira sabia bem que não resolveria nada conversando com aquele yokai. Ele só havia ido ao seu encontro para provocá-la. Para irritá-la.
Rin adentrou o castelo. Não iria demorar a anoitecer. Caminhou em sossego até o seu quarto, lembrava bem chegar. E no meio do caminho acabou por encontrar o yokai sapo que deu um salto ao vê-la.
Jaken tinha esperado o dia inteiro para lhe dar uma boa bronca por ter desaparecido, mas quando a viu chegando faltaram-lhe palavras. Ela estava linda, arrumada como uma princesa. Não era mais, sem sombra de dúvidas, a mesma menina que um dia deixaram num certo vilarejo com a promessa de retorno. Agora ela é mulher. Mulher feita e abarrotada de encantos quase sobrenaturais.
Rin parou há poucos passos de Jaken. Ainda estava aborrecida pela conversa anterior, sua face não negava mesmo que tentasse desfazê-la.
-Senhor Jaken. –ela tentou disfarçar com um sorriso amarelo a sua frustração.
-Até que enfim trocou aqueles trapos! –ele sorriu satisfeito, mas logo franziu o cenho. –Por onde andou esse tempo todo?
-Primeiro estava com Akane, depois passeei com o senhor Sesshoumaru pelo castelo e... –hesitou.
-E? –insistiu.
-Fiquei embaixo da cerejeira por um momento... Sozinha.
-Sozinha... –Jaken balançou a cabeça negativamente, não acreditou naquilo. –Não pode ficar andando sozinha por ai. Esses yokais não estão acostumados com você por aqui. Evite andar sozinha pelo menos por enquanto, Rin.
-Tudo bem, o senhor tem razão.
A noite caiu rápida. O céu estava límpido. Completamente livre de nuvens e abarrotados por inúmeras estrelas. A lua brilhava no céu e iluminava alguns pontos do castelo que ficava silencioso e sombrio durante a noite.
O castelo tinha iluminação própria, havia velas diminutas por todo o canto. A luz era bruxuleante, muito fraca e fosca. Mas ainda sim era melhor do que caminhar no escuro.
Rin estava no seu quarto penteando os longos cabelos lisos em frente ao enorme espelho. Jaken também estava por lá, Sesshoumaru havia ordenado ao servo que ficasse por lá até a segunda ordem. É claro que o yokai sapo não gostou nenhum pouco da novidade, mas não tinha como recusar nada ao seu senhor. O yokai verde já estava dormindo no seu próprio Futon que havia sido posto pelo mesmo. Ele não iria dormir junto a Rin. Ela não era mais uma menina... E é claro que isso não tinha sido ideia de Jaken e tampouco de Rin. Tinha sido ideia de um certo senhor...
Rin já não usava mais o kimono anterior. Usava agora uma roupa de dormir. Era um kimono branco, bem simples e leve. Este, por sua vez, era preso por uma faixa fina que cruzava sua cintura e formava um laço discreto ao lado.
Rin amarrou os cabelos num rabo de cavalo bem baixo. E quando por fim terminou soprou o fogo de todas as velas e foi-se deitar no Futon.
Ela olhou Jaken dormindo afastado do seu Futon. Acabou achando graça naquela cena, a fez relembrar os velhos tempos. Mas no passado eles dormiam juntos encostados em Arurun, e agora estavam dividindo um quarto num imenso castelo.
Por fim deitou-se... Havia tido um dia cheio. Precisava descansar... Mas a noite só estava começando.
Rin dormia profundamente. Seus sonhos ainda eram indefinidos. Inúmeras imagens corriam em sua mente, como se tivesse vasculhando várias coisas, a procura de algo ainda incerto. Era como se não soubesse o que procurava, perdida entre inúmeros fatos.
Foi então que de repente se viu menina. Ainda bem pequena, com o antigo kimono laranja.
Estava andando sozinha com a roupa suja e os pés descalços. Não havia Sesshoumaru e nem Jaken ainda na sua vida.
Era somente ela.
Ela e a floresta selvagem.
De repente ouviu grunhidos e passos rápidos não tão longínquos. Eram passadas de quadrúpedes, disso tinha certeza. E eram muitos. Um bando. Mas do que seria? Seriam cães? O som era parecido. Bastante familiar.
Ficou assustada, tentou correr, mas as pernas já estavam bambas. E mesmo que fizesse a ação pretendida, suas pernas eram curtas. Suas passadas não a salvariam se precisasse.
Quando tomou a iniciativa de fugir os viu finalmente. Eram lobos. Yokais lobos. Que rosnavam e mostravam seus enormes dentes afiados. Era o fim do caminho. E sem pestanejar eles a atacaram.
Rin acordou aos berros. Seu coração palpitava com violência contra o peito. Batia em ritmo frenético. Os olhos arregalados não conseguiam enxergar naquele quarto escuro. Sentiu um medo terrível a invadir. Não conseguia controlar o pulso acelerado. O sonho tinha sido real de mais. Não lembrava da última vez que tivera um pesadelo tão forte como aquele. Fazia anos que não sonhava com a sua primeira morte... Era um trauma superado que de repente voltou das cinzas.
Jaken acordou assustado com os berros da menina e foi como uma flecha até o seu lado. Acendeu uma vela com o seu bastão de duas cabeças e a fitou com os olhos mais arregalados do que de costume.
Ela ainda tremia com a mão direita sobre o peito.
-Rin, o que houve?
-Os lobos...
-Lobos? Do que está falando? Ficou louca? –Jaken balançou a cabeça não entendendo.
-Eu sonhei com os lobos. –ela tentou buscar a calma, mesmo que seus lábios tremessem. –Com os lobos que me mataram.
-Hum... Foi só um pesadelo. Deve ter acordado o castelo todo com esse escândalo. –ele suspirou. –Volte a dormir, não há nada errado.
Rin assentiu enquanto o yokai sapo tratava de voltar para o seu Futon. Seu pulso descontrolado ia voltando pouco a pouco a normalidade. Deitou-se novamente, mas não conseguiu mais fechar os olhos. Aqueles lobos a tinham deixado completamente apavorada. Sentiu vontade de se confortar com Sesshoumaru. Ele sempre passava a calma e a segurança que ela gostava.
O que ela mal sabia era que o senhor feudal estava mais próximo do que imaginava. Sesshoumaru estava atrás da porta. Ele havia escutado seus gritos, mas não entrara, pois ouviu todo o desenrolar da história antes de invadir o cômodo. Rin estava em segurança e isso era o bastante para ele voltar para seus aposentos.
Na manhã do dia seguinte, Rin abriu os olhos devagar. Não conseguiu dormir direito, deu somente breves cochilos durante a noite. A imagem dos lobos ainda a perturbava. Não conseguia compreender o porque daquele pesadelo voltar a tona depois de todos aqueles anos. Ficou completamente confusa.
A menina olhou para o lado e não viu mais Jaken. Provavelmente ele tinha saído durante algum cochilo seu. Levantou-se do Futon com o corpo todo dolorido. Foi até a janela e deparou-se com um sol discreto que lentamente ia ganhando espaço no céu. Ainda era cedo.
Teve vontade de ser vestir, mas teria de esperar por Akane aparecer do nada como fizera da última vez. Não conseguiria colocar aqueles kimonos sem ajuda. Foi então que sentou-se de volta ao chão.
Sesshoumaru analisava alguns pergaminhos. Ele usava uma kimono masculino todo branco, não estava com a sua armadura pesada de sempre e nem com a pelugem nos ombros. Mas ainda possuía as duas espadas presas na cintura.
Estava sozinho em uma das salas do castelo. Tentava resolver alguns problemas e buscar soluções. Não imaginava que tanta coisa aconteceria em sua ausência. A ideia de um possível traidor mexia muito com o grande Lord.
Quando por fim guardou todos os pergaminhos e levantou-se do chão, Satsu adentrou a sala. Ela usava um kimono verde do mesmo estilo que o anterior, ou seja, era um kimono curto que desenhava com precisão as curvas de seu corpo. Dessa vez seus cabelos não estavam presos numa transa e sim num rabo de cavalo alto.
-Perdoe-me, meu senhor. –ela curvou-se solenemente como de costume.
-O que foi, Satsu?
-Recebemos notícias de Watanuki e Yashamaru, eles irão chegar pela noite. Parece que tudo ocorreu conforme o planejado.
-Excelente. Assim que chegarem avise aos Comandantes que faremos a nossa reunião.
-Sim, senhor.
Rin já estava devidamente arrumada. Akane tinha chegado de surpresa como antes e ajudara a menina a colocar um outro kimono. Dessa vez o kimono era de um vermelho vivo com flores desenhadas em branco espalhado por todo o tecido. O obi e o laço grande nas costas eram também da cor branca.
Somente a metade do seu cabelo estava preso. Havia o enfeitado também com prendedores dourados. Para completar, Akane passou uma leve maquiagem rosa nas pálpebras de Rin. Finalmente estava pronta.
Akane a virou para o espelho rapidamente. Rin pode contemplar a sua imagem e a da meio-yokai baixinha ao seu lado, que não usava um glorioso kimono como a da nova hóspede, e sim simples roupa de samurai. Rin sorriu cansada para a amiga e assentiu de leve como forma de agradecimento.
-Obrigada, Akane.
-Hei... O que houve? –franziu o cenho. –Não gostou?
-Claro que gostei. –ela virou-se desanimada.
-Então o que foi? Parece aborrecida.
-Tive um pesadelo terrível essa noite...
-Ah, então não foi impressão minha. Eu realmente escutei gritos ontem à noite. Mas me conte... –Akane cruzou os braços, parecia pensativa. –Que tipo de pesadelo teve?
-Bem, na verdade foi uma lembrança. Sonhei com os lobos que me atacaram quando eu era uma criança. –ela suspirou ainda atordoada. –Mas foi tão real, Akane. Era como se eles realmente estivessem aqui. Eu juro que senti até mesmo o cheiro deles. Senti a terra em meus pés. Até mesmo toda a dor da morte. Foi tudo igual... Como se estivesse vivendo aquilo de novo. Foi o sonho mais real que tive em toda minha vida. Isso já lhe aconteceu alguma vez?
-Não. –balançou a cabeça negativamente. –Não com essa intensidade...
-Não imagina o quanto foi terrível, Akane...
-Disse que foi atacada por lobos quando era criança?
-Sim. Eram yokais lobos na verdade.
-Como conseguiu sobreviver? –indagou confusa.
-Não sobrevivi. –ela sorriu sem jeito. –Por isso conheci o senhor Sesshoumaru.
-O quê? –ela deu um salto. –Ele o ressuscitou com a Tenseiga?
-É. –deu de ombros.
-Incrível! –arregalou os olhos e a puxou pelo braço. –Você tem que me contar tudo! Mas primeiro, vamos comer alguma coisa. Vem comigo.
-Pra onde? –Rin riu da ansiedade de Akane.
-Ah, como você pergunta! –ela riu. –Vem logo!
Akane pegou na mão de Rin que deixou-se levar por aquele ser tão interessante. As duas percorreram vários pontos do castelo até chagarem num pequeno cômodo longe de tudo. Akane deslizou a porta e fez com que Rin entrasse.
O cômodo era bem arejado, havia bastantes janelas e uma outra porta que dava acesso para a enorme varanda que circulava todo o castelo. Akane fez com que Rin sentasse ao chão e logo tratou de pegar várias coisas nos armários que ali habitavam. Quando por fim terminou havia uma cesta lotada de frutas e grãos.
Rin sorriu animada. O cheiro fresco das frutas era delicioso.
-Pode comer. –Akane sorriu a incentivando. –Só nós duas comemos isso mesmo.
-Obrigada. –ela assentiu.
Enquanto as duas comiam, Rin contava tudo que Akane queria saber. Falou desde o tempo da infância, antes e depois de conhecer Sesshoumaru e Jaken, até aquele exato momento. Foi uma conversa longa que deixou Akane abismada. Eram tantas coisas, não podia imaginar que Rin tivesse passado por tantas aventuras em tão pouco tempo.
-Nossa! –Akane recostou as costas na parede e cruzou os braços embaixo do peito. –Não acredito em tudo o que passou.
-Nem eu. Às vezes acho que foi tudo um sonho. –ela sorriu. –Mas tudo isso foi mesmo real. É tudo tão incrível e irreal.
-É sim. –Akane assentiu. –Se outra pessoa viesse me contar, quero dizer, se não a visse com meus próprios olhos nesse castelo, e alguém me contasse que Sesshoumaru um dia dividiu seu espaço com uma humana e salvou-lhe a vida diversas vezes, até mesmo a ressuscitou, falaria a essa pessoa que pronunciava sandices ou que no mínimo era uma brincadeira.
-É... Ninguém acredita que o senhor Sesshoumaru fez tudo isso por mim. Pra todo mundo soa tão estranho, mas pra mim é algo tão natural... –ela deu de ombros com um largo sorriso nos lábios. –Sabe, Akane, é maravilhoso estar aqui. Era tudo que eu sempre quis. Sempre quis estar ao lado do senhor Sesshoumaru e do senhor Jaken de novo. Em nenhum momento na minha nova vida, com a senhora Kaede e com os outros, e até mesmo com Jin, que era como um irmão pra mim, eu me sentia completa. Sempre me faltou alguma coisa que eu sabia que só encontraria ao lado do Senhor Sesshoumaru.
-Ah... –Akane sorriu compreendendo tudo. –Você o ama, Rin.
-O quê?
Rin sentiu o rosto pegar fogo. O pulso ficou descontrolado e não soube mais o que dizer. Engoliu as palavras na boca enquanto sentia o rosto arder, queimar de constrangimento. Ela não queria pensar naquela tolice. Baixou os olhos sem dizer mais nada.
-Não precisa dizer nada, Rin. –Akane riu dando-lhe uma piscadela. –Eu não vou contar pra ninguém. Será nosso segredo, está bem?
Sesshoumaru estava sentado na ponta da varanda com sua perna direita dobrada e a esquerda tocando a grama. As costas recostadas na parede e os olhos cerrados. Sua mente encontrava-se lotada. Queria descansar um pouco sentindo o vento fresco por ele passar, livrar-se dos problemas pelo menos por alguns segundos.
Ouviu barulhos de passos. Já sabia bem quem era, e por isso abriu os olhos.
Rin chegou sorrateira, com seus passos leves. Ele a encarou sem pestanejar, como da última vez, ela pareceu uma visão. Rin sorriu ao vê-lo, sentou-se ao seu lado deixando as pernas para baixo que não conseguiram tocar na grama bem verde.
-O que houve ontem? –ele indagou antes que ela pudesse falar qualquer coisa.
-O senhor me ouviu? –indagou sem jeito.
-Quem não a ouviu? –ele sorriu ironicamente. –Me conte o que aconteceu.
-Conversei com Akane sobre isso... Sonhei com os yokais lobos. Mas... –ela cerrou o cenho. –Foi estranho. Foi como se eu realmente estivesse lá. Como se eu tivesse vivendo aquilo de novo.
-Isso não foi um pesadelo, Rin. –ele falou seriamente.
-O que o senhor quer dizer? –indagou curiosa.
-Tem alguém brincando com você. Algum yokai fez isso. Algum deles mexeu com sua mente.
-O quê? –ela sentiu o pulso acelerar.
-Parece que algum yokai quer desenterrar seus medos. Até mesmo aqueles mais antigos. Não tenho dúvidas.
Rin ficou estática com aquela revelação. Seria mesmo possível que algum yokai tivesse lhe feito àquilo só por pura maldade? Ficou incrédula. E logo lembrou-se de Akane lhe dizendo “se eu fosse você dormiria até de olhos abertos”. Não imaginava que fosse literal o sentido daquela frase.
-Quem será que fez isso?
-Eu não sei. –Sesshoumaru admitiu. –Há vários yokais com o poder da mente em meu castelo. Talvez nunca descubra quem é o culpado.
-Foi terrível. –ela suspirou.
-Pensei que Akane tivesse lhe contado que foi obra de um yokai.
-Não. Ela não me contou.
-Rin, eu avisei que não seria nada fácil.
-Eu sei... –ela assentiu e quis mudar o assunto rapidamente. –Onde está o senhor Jaken?
-Vendo se os outros estão fazendo o trabalho direito. Eu o mandei ficar de olho em certos yokais.
Rin olhou pra frente e viu aquele yokai passando um pouco longínquo. Fechou o semblante no mesmo minuto.
Kenji estava distante. Não tinha percebido ainda que olhos o acompanhavam.
Sesshoumaru notou a expressão de Rin, mas não quis perguntar-lhe nada. Só pela cara que a menina tinha feito nada precisaria ser dito.
-Rin.
-Sim? –ela indagou voltando-se para ele.
-Ainda tem certeza de que quer ficar aqui?
-Claro. –assentiu seriamente sem pensar duas vezes.
Pela tarde, o castelo acabou recebendo outro Comandante. Yashamaru chegara antes da hora prevista com a sua tropa.
O segundo Comandante também tinha a forma humana.
Yashamaru era um yokai alto e com um ótimo porte físico. Seus cabelos negros eram cumpridos e lisos, passavam da metade das costas. Ele usava a cabeleira longa e pesada solta. Os olhos eram violetas, como duas pedras preciosas. Seu rosto era perfeito e jovial. O yokai possuía também uma diminuta marca na testa. Era um símbolo peculiar. Assemelhava-se a um tridente só que sem o bastão.
Yashamaru usava um kimono completamente preto, assim como as meias e o sapato fechado. O kimono era um pouco justo ao corpo, mas ainda assim largo. Ele usava uma armadura também preta que protegia todo o peitoral.
Não havia armas visíveis.
Assim que Yashamaru pisou no castelo, Satsu veio o receber. Ela veio vindo com a postura séria e rígida de sempre. Mesmo que sua beleza fosse estonteante aquilo não abalava nenhum de seus Comandantes que já estavam acostumados com sua formosura.
-Pensei que chegaria a noite.
-Conseguimos chegar antes. –ele sorriu de forma maligna. Sua voz era forte, quase rude.
-Ele quer que todos se reúnam.
-O que houve dessa vez? –indagou curioso.
-Parece que temos um traidor entre nós.
-Quem falou isso?
-Ninguém. É o que achamos e será o que iremos debater.
-Não há traidores na minha tropa. –ele rebateu furioso. –Se há algum traidor aqui, certamente não está comigo.
-Yashamaru, isso é o que iremos ver. –ela o cortou de forma grosseira. –Só falta Watanuki chegar para começarmos.
-Ele está por perto. Sinto sua presença.
-Eu também. Logo ele irá chegar e resolveremos esse problema. Enquanto isso vá para a sala. Nosso senhor já está com Kenji lá. Eu ficarei aqui esperando por Watanuki e depois encontrarei vocês.
Yashamaru assentiu e logo desapareceu numa velocidade incrível. Assim que adentrou o castelo sentiu um cheiro diferente. Cheiro de humano. De mulher humana. Não conseguiu compreender. Achou que era sua imaginação.
Já era noite e bem tarde. As luzes do castelo já estavam apagadas.
Rin estava com Akane e Jaken andando pelos corredores. Os três se encaminhavam para o cômodo da menina que segurava um pequeno recipiente contendo uma vela diminuta de luz fraca.
No corredor oposto, Satsu estava junto a Watanuki.
O terceiro Comandante também de forma humana, era um yokai bastante chamativo.
Ele era alto como os outros e com uma bela forma física.
Possuidor de olhos verdes bem claros e cabelos castanhos lisos que paravam no início do pescoço. Alguns fios teimosos às vezes teimavam em ficar no rosto e ele sempre tinha de recolocá-los atrás da orelha.
Watanuki usava a parte de cima do kimono completamente aberta e solta. A cor dela era cinza assim como as calças largas. Utilizava chinelos comuns e carregava preso nas costas um bastão de tamanho mediano.
Watanuki segurava o recipiente com a vela enquanto Satsu não parava de falar ao seu lado. Ele não estava conseguindo se concentrar por causa de um certo cheiro esquisito. Um cheiro doce que nunca havia sentido antes no castelo.
-Satsu, não está sentindo esse cheiro? –sua voz grave saiu baixa.
-Ah... Estou. –ela girou os olhos. –Isso é uma outra história.
-O quê? Do quê está falando?
E foi só virar no corredor para vê-la.
Watanuki parou subitamente quando seus olhos se encontraram com os de Rin. Ele levou um susto. Um susto brutal. Não pela suposta humanidade que era algo claro e irrevogável, e sim pela aquela beleza estonteante no corpo de singela humana. Foi uma pancada forte, algo arrebatador que sentiu assim que pôs seus olhos por sobre ela. Mesmo com a luz bruxuleante ele já sabia de todos os detalhes. Ficou louco.
Rin sentiu-se invadida por aquele olhar. Era algo forte, violento. Não era nenhum pouco sadio. Ela retesou-se e acabou dando um passo para trás involuntariamente. Ninguém entendeu aquele olhar de Watanuki. Se ao menos fosse de incredulidade... Mas não era. Era algo esquisito que ninguém conseguiu identificar.
Era cobiça.
Desejo.
E sem se dar conta, ele deixou o recipiente com a vela cair ao chão.
Satsu ficou incrédula, pisou na vela antes que pudesse incendiar o chão de madeira, acabou quebrando o recipiente. Assim que a apagou, pegou firmemente no braço de Watanuki o forçando a encarar.
-O que está havendo?
-Quem é ela? –ele indagou confuso com os olhos urgentes.
-Já falei que tudo será explicado. Recomponha-se. Está parecendo um louco!
-Vamos sair daqui agora. –Jaken as encarou.
-Venha, Rin.
Akane a puxou pelo braço, queria tirar Rin dali o mais rápido possível.
E assim que os três desapareceram, Satsu puxou Watanuki novamente, mesmo no breu.
-O que deu em você? –ela estava quase tendo um colapso nervoso.
-Nada. –ele responde secamente se livrando dos domínios dela. –Não foi nada.
-Watanuki, no que está pensando? Por acaso ficou cego? Não viu Jaken? Ele vai falar o que você fez.
-Não estou pensando em nada e também não fiz nada, Satsu! Só levei um susto... Quem é essa mulher? O quê faz aqui?
-Já falei que irei responder. Agora vamos.
Rin entrou no quarto assustada. Sentou-se no chão e fitou os dois seres a sua frente que também estavam confusos com a postura de Watanuki.
-O que houve no corredor? Quem é aquele? –Rin indagou ainda sem entender.
-Watanuki. –respondeu Jaken. –Ele é o terceiro Comandante.
-O jeito que ele me olhou foi...
-Sim, eu sei. –Akane assentiu. –Rin, eu não sei o que deu no Watanuki, nunca o vi daquele jeito, não sei no que ele está pensando, mas é melhor tomar cuidado.
-Eu vou falar com o senhor Sesshoumaru sobre o que aconteceu, não se preocupe, Rin. –falou o yokai sapo que também estava preocupado.
-Mas essa agora... O que será que ele quer comigo? Será que não foi só susto?
-Não, Rin. –Akane balançou a cabeça negativamente. –É coisa bem pior...
CONTINUA...
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