Alvorada
2 A maldição que corre em minhas veias
Ruby entra no quarto e encontra sua menina chorando na cama.
— Minha filha...
Ruby fecha a porta e vai até Elodie, que a abraça forte.
— Elodie, você não pode enfrentar seu pai assim...
— Ele não é o meu pai. — A voz de Elodie beira o ódio. — Ele nunca foi. Pra ele eu sou um erro. A própria maldição.
— Eu não deveria ter te contado.
Elodie enxuga as lágrimas, se recompondo.
— Tudo bem, mãe. A senhora também não tem culpa.
Ruby suspira pesado.
— Eu achei que ele estava apaixonado. Mas ele só queria um herdeiro. Fiquei horrorizada quando descobri sobre a maldição dos Whritemore. Fiquei furiosa, foi quando descobri quem era o Imperador de verdade.
— Ele te machucou... daquele jeito?
Ruby desvia o olhar. Não queria contar algo tão horrendo para sua filha.
— Mãe. — Elodie segura sua mão. — Eu não sou mais criança. Só temos uma à outra.
Ruby a olha com os olhos cheios de dor. Ela apenas balança a cabeça positivamente, ainda relutante.
O nojo começa a tomar Elodie ao entender o que aconteceu.
— Ele forçou a senhora a consumar o casamento?
— Ele só queria um herdeiro de Jaspe. Mas a vida me deu você e ele me odiou mais ainda.
— Mãe. — Elodie abraça Ruby com toda a força. Depois a olha triste e determinada. — Eu vou acabar com isso.
Ruby gela. ‘Acabar com isso’ podia ser fugir. Podia ser matar. Podia ser morrer. E ela sabia qual a filha dela escolheria.
— O que vai fazer? Ninguém nunca descobriu como quebrar a maldição.
Elodie sorri.
— Mas eu descobri uma coisa. — Ela pega um papel escondido no espartilho do vestido. — A história original da maldição.
Ruby fica surpresa com a descoberta, mas fica animada.
— É sério?
— Lembra aquela velha louca que fica na cidade pedindo esmola? Que falou com a gente?
— Ela te chamou de alvorada de Morpheus.
— Isso. Quando eu mencionei para a cozinheira, ela ficou estranha. Eu perguntei e ela disse que é uma história antiga de Jaspe. Que Jaspe era uma floresta encantada antes de ser um império.
— Sim, mas o que isso tem a ver?
— Tem a ver que agora o livro que encontrei escondido na biblioteca faz sentido. Jaspe era uma floresta, protegida por uma guardiã. Essa guardiã fez uma aliança com um príncipe quando Silla estava sendo formada. O livro só conta até aí.
— Ok. Então você acha que a tal bruxa era essa guardiã? — pergunta Ruby, tentando acompanhar o raciocínio de Elodie.
— Essa parte da história estava perdida. Eu falei com a velha louca e ela me disse para procurar no velho Carvalho. Eu fui até a floresta e achei isso dentro da árvore, mas alguma coisa assustou meu cavalo e me mandou de volta para fora da floresta.
— Você se arriscou demais, minha filha. Qualquer um que entra naquela floresta não volta.
— Mas aí é que está, mamãe. Eu voltei. Ouça. “Antes do império chegar, Jaspe era uma floresta encantada protegida por uma guardiã sagrada. Um dia, um príncipe a conheceu e fez uma aliança com ela. Essa aliança garantia a prosperidade do império em troca da proteção da floresta. Uma pedra mágica foi dada ao príncipe imperador como sinal da aliança.
Mas seu sucessor não pensava assim.
Movido pela própria ganância, o príncipe Whritemore caçou e matou a guardiã para que ela não viesse a reivindicar o que lhe era dela por direito. Sendo um ser mágico, seu corpo se transformou em um enorme carvalho e seu espírito vivia nele, continuando ligada a floresta de Jaspe.
Seu pai, agora imperador rei, foi até a floresta lhe pedir perdão. Ela concedeu, com uma condição: devolver o que lhe era dela por direito. A gema mágica.
O príncipe não ficou satisfeito, ele matou seu próprio pai e, a guardiã, vendo a maldade no coração dos Whritemore, o amaldiçoou.
Toda menina que nascer, em seu 21º aniversário, entrará em um sono profundo. Sete dias, se não for devolvido o que foi roubado, ao oitavo dia ela morrerá. Então a guardiã que se tornou um enorme carvalho, o coração da floresta, expulsou os humanos de lá.
O príncipe enterrou essa maldição na escuridão e seguiu reinando, sempre com a condição de que, se a primeira esposa não lhe der um menino, ela merecia a morte.”
— Então... é isso? Temos que devolver a gema mágica?
— Sim, mãe. O problema é que não sabemos onde está.
Ruby tem uma ideia.
— O conselheiro do Imperador.
— O tio Ryus? Será que ele sabe de alguma coisa?
— Não custa tentar. Mas se seu pai descobrir, ele vai te matar.
Elodie segura na mão de Ruby e sorri.
— Mãe, se eu não tentar eu vou morrer. A ganância dos Whritemore matou muitas meninas inocentes e condenou princesas como a senhora a uma vida triste ou à morte. Isso tem que acabar. Eu vou acabar com isso mesmo que custe a minha vida. Mais nenhuma inocente irá morrer.
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