Almas-Vagantes
17 Capítulo XVII - O Cálice -
Notas iniciais
— Cadê o Swift?! – Se perguntou Peter sentado a cama em retalhos de Swift. – Já anoiteceu e ele ainda não chegou... Só deixou este bilhetinho... Que falta de consideração!
Chegarei tarde hoje. Estou resolvendo sérios problemas, que por via das dúvidas, não são problemas seus. Chegarei dez para as dez.
Fraternalmente S. K.
Ps: Farei comida quando chegar!
— Há! Há! Há!— Gargalhou Peter sarcasticamente despejando o bilhete na mesa da cozinha. – Que problemas aquele pobretão teria? Não entendo por que ele é o meu responsável! Meus pais devem ter suas razões para dar minha guarda a esse Swift!
Peter se levantou da cama em um salto e foi observar o relógio excêntrico de Swift que era uma coruja com um relógio arredondado de ponteiros na barriga, marcavam-se quinze para as dez. Faltava-se cinco minutos para Swift chegar... Isso se ele for pontual.
— Acho que vou dar uma olhada no céu... – Disse Peter se dirigindo à porta bocejando de sono.
A noite estava agradável. O céu azul-escuro se preenchia de poucas nuvens e muitas estrelas cintilantes. A lua minguante brilhava intensamente em meio às poucas nuvens daquela noite. A brisa estava calma e refrescante. As casas vizinhas eram deveras iguais na sua arquitetura. Isso deu uma sensação de “já vi isso antes” em Peter. A luz da lua crepitava nos telhados e gramados das casas vizinhas. As árvores plantadas em cada jardim oscilavam suavemente com a variação do vento. As ruas estavam sombriamente quietas e desérticas.
Eis que uma nuvem de fumaça negra surgiu abruptamente ao lado de Peter flutuando a meio metro do chão. A nuvem trovejou e rapidamente se moldou em um vulto. Era Swift. Os cabelos louros se esvoaçavam com a leve brisa. O rosto pálido como sempre se abriu em um sorriso tímido. Swift trajava um terno negro um pouco velho com uma gravata azul-marinho.
— ‘noite! – Cumprimentou Swift. – O que faz aqui fora? Vamos entrar?
— Estava pensando em respirar um ar puro... – Respondeu Peter.
— Vai por mim! – Avisou Swift. – Não vai querer estar aqui fora depois das dez.
— Por quê? – Perguntou Peter abismado.
— Entre! – Pediu Swift. – Lhe explico lá dentro!
— Como você fez aquilo? – Perguntou Peter se sentando novamente na cama em retalhos de Swift. – Você se teletransportou? Como isso é possível?
— Não tente entender a magia! – Disse Swift colocando salsichas em uma frigideira ao fogão. – Ninguém pode explica-la!
— Qualquer pessoa pode fazer magia? – Perguntou Peter curioso.
— Somente alguns tipos de seres vivos podem fazer magia! – Explicou Swift colocando queijo parmesão por cima das salsinhas na frigideira. – Os magos, anjos, etc. Mas os humanos comuns jamais poderão fazer ou compreender a magia!
— E você é qual dos dois? – Perguntou Peter abismado com as novas informações.
— Mago é obvio! – Exclamou Swift adicionando orégano as salsichas. – Mas eu sinceramente não sei que você é realmente um mago!
— Por quê? – Perguntou Peter.
— Por via das dúvidas... – Respondeu Swift. – Vamos fazer “o teste de tipo mágico” com você!
— Teste?! – Perguntou Peter ansioso. – Mas vai doer?!
— Há! Há! Há! Há! – Riu Swift gostosamente sentando-se uma cadeira no aquém da janela. – Não Peter! Não se preocupe. Coma primeiro! – Swift ofereceu a Peter um prato com salsichas cobertas de queijo derretido com orégano.
— A propósito! – Lembrou Peter com uma salsicha na boca. – Você não me falou o porquê de não podermos ficar nas ruas depois das dez!
— Oh! Bem lembrado! – Exclamou Swift já tendo devorado todas as suas salsichas. – O motivo é simples...
Swift olhou abruptamente para seu excêntrico relógio-coruja de parede.
— Faltam trinta segundos para começar... – Disse Swift vagamente, analisando o relógio.
— Trinta segundos para o que? – Indagou Peter.
— Para que elas apareçam! – Disse Swift pacientemente. – Obviamente...
— Quem vai aparecer?! – Perguntou Peter não entendendo nada.
— Veja! – Swift se virou de costas junto com sua cadeira para contemplar a janela. – Elas já vão aparecer...
Peter se cansou de perguntar e se precipitou em direção à janela. O rosto próximo ao vidro.
— O que você quer me mostrar? – Sibilou Peter impaciente.
Swift se silenciou. A rua estava desértica como de costume, nada de incomum.
— Dez segundos! – Contou Swift. – Cinco, quarto, três, dois... Um.
A rua ao outro lado da janela abruptamente se escureceu mais intensamente. Ao longe psicóticas vozes agourentas imploravam socorro em gritos agudos. Ouviam-se gemidos mórbidos se aproximando. O estômago de Peter se esfriou. O rosto de Peter se empalideceu violentamente quando as vozes assombrosas atingiram seus tímpanos.
— O-o q-que é I-isso?! – Perguntou Peter trêmulo de espanto. – F-fantasmas?!
— Não diria fantasmas... – Disse Swift pensativo. – O nome correto dessas aberrações é almas-vagantes!
— A-almas v-vagantes? – Sibilou Peter tremendo como uma vara verde.
— Eu não o culpo por ficar abismado! – Murmurou Swift sombriamente, os olhos azuis levemente funestos. – Qualquer um que as ouve pela primeira vez fica pelo menos um pouco assustado!Espere até vê-las... Mas pode se abrandar... Elas não podem machucá-lo!
Peter respirou fundo e lentamente se acalmou. A coloração voltou ao rosto.
— Que coisas psicóticas! – Exclamou Peter deveras mais calmo.
— Almas-vagantes são pessoas que suicidaram e misteriosamente continuaram no mundo humano como espíritos agourentos... – Explicou Swift com veemência. –Mas somente existem almas-vagantes em cidades amaldiçoadas... E Sky Gray é uma dessas cidades amaldiçoadas!
— Por que alguém amaldiçoaria Sky Gray? – Perguntou Peter curioso.
— Para que se pudesse testar um feitiço sombrio extremamente mórbido! – Sibilou Swift aparentemente irritadiço.
— Qual seria essa magia?
— Para explicar melhor... Primeiro devo lhe dizer sobre as almas-vagantes! – Disse Swift vagamente. – Existem três tipos de almas-vagantes que a Suprema Autoridade Mágica (SAM) conhece!
— SAM?! – Indagou Peter.
— É tipo... Digamos... O governo do mundo mágico... – Continuou Swift. – Bem... Como eu dizia... Existem três tipos de almas-vagantes: almas-vagantes tradicionais;almas-vagantes-conscientes; e o tipo raríssimo de alma-vagante chamado de alma-monocromática.
“As almas-vagantes que são baseadas em sua maioria nos sentimentos psicóticos e depressivos de quem se suicidou são denominadas de almas-vagantes tradicionais. Mas a maior diferença das tradicionais é que após as dez da noite as almas-vagantes tradicionais entram em ciclo contínuo de suicídio até o amanhecer”...
“Mas tem-sealmas-vagantes que não se baseiam em um sentimento depressivo ou psicótico. Esse tipo de alma-vagantese baseia em sentimentos de paixão obsessiva, por isso se põe em perseguir quem elas amavam quando vivas. E diferente da tradicional não entra em ciclo de suicídio noturno.Excepcionalmente por possuírem consciência e inteligência, são denominadas de almas-vagantes-conscientes”...
“Mas recentemente a SAM descobriu mais um tipo de alma-vagante. Desse tipo especificamente deve-se ter medo... Esse tipo de alma-vagante não se baseia em tipo nenhum de sentimento humano... São guiadas apenas por desejos homicidas. O objetivo desse tipo de ser maligno é apenas se divertir com o cadáver de humanosque elas mataram e matar cada vez mais, cada vítima de um modo morbidamente diferente... Elas são seres funestos originados obrigatoriamente de psicopatas suicidas possuidores de pensamentos homicidas quando vivos. Esse tipo de alma-vagante se esconde nas sombras, sendo difícil de capturá-las... E o pior... Elas conseguem fingir fielmente que estão vivas... Essas almas-vagantes são chamadas de almas-monocromáticas”.
— Almas-monocromáticas?! – Exclamou Peter inerme.
— Não precisa se preocupar! – Exclamou Swift. – A SAM já deu conta de todas as que existiram até hoje... Mas é obvio que antes de serem capturadas fizeram diversas vítimas.
— Como se captura uma alma-vagante? – Indagou Peter.
— Selando-a em um objeto... – Explicou Swift sombriamente. – E se após... O objeto cuja alma-vagante foi selada for destruído... A alma-vagante se destrói junto com ele. Selamos as almas-vagantes com o feitiço fusus, é somente permitido selar almas-vagantes em objetos... Sendo proibido selar almas-vagantes em seres vivos. Mas não pense que já não tentaram... E devo dizer que os resultados foram catastróficos...
— Você tem que me ensinar esse tal de fusus! – Exclamou Peter. – Vai que eu me encontre com uma alma-monocromática...
— Pensarei sobre isto... – Disse Swift. – Nem mesmo sei seu tipo mágico... Somente usuários do tipo “espiritua” podem usar o fusus...
— E seu fosse de um tipo mágico diferente desse tal de “espiritua” e tentasse fazer o fusus? – Indagou Peter.
— Você se explodiria em mil pedaços! – Explicou Swift. – Isso me faz lembrar... Você sabe qual a principal diferença entre um mago e um anjo?
— Como é que eu saberia! – Disse Peter ríspido.
— Um mago só pode fazer magias pertencentes ao seu tipo mágico e anjos podem fazer magias de todos os tipos mágicos... – Explicou Swift.
— Interessante! Queria ser um anjo! – Disse Peter desejando ser um anjo.
— Tem lá suas desvantagens em ser anjo... – Murmurou Swift observando a rua desértica enfestada de gritos psicóticos e almas-vagantes suicidas. – Prefiro ser um mago! Além do mais... Os magos podem fazer magias cinza... Diferente dos anjos.
— Magias cinza?! – Indagou Peter.
— Magias negras proibidas veementemente pela SAM! – Explicou Swift. – Faze-las lhe garante pena de morte...
— Então os magos podem fazer magias brancas do seu tipo mágico e magias negras proibidas aos anjos, denominadas cinza! – Lembrou Peter vagamente.
— Exatamente! – Confirmou Swift. – Entre uma das mais famosas magias cinza está à magia destroçususada para destroçar psicoticamente partes do corpo do adversário. Mas mudando de assunto... Como eu disse Sky Gray foi amaldiçoada para conter almas-vagantes!
— Quem a amaldiçoou? – Indagou Peter.
— Uma organização execranda chamada de Dark Birds! – Murmurou Swift os olhos vidrados além da janela em uma alma-vagante se esfaqueando no jardim de uma casa.
— Qual o objetivo dessa organização?
— Ninguém sabe! Somente se sabe que estão fazendo cada vez mais vitimas e seguidores! – Explicou Swift. – Mas pode ter plena certeza... Que coisa boa não deve ser!
— Mas por que amaldiçoar a cidade? – Indagou Peter incrédulo.
— Eles querem fazer testes com almas-vagantes! – Exclamou Swift com indignação na voz. – E como Sky Gray é uma cidade pequena... O líder da organização achou na cidade a oportunidade perfeita...
— Que tipo de teste? – Indagou Peter querendo saber mais.
— Ora... – Exclamou Swift. – Pelo o que eu sei... Eles querem usar magia para ressuscitar suicidas... Não se sabe o motivo... Estão fundindo almas-vagantes em bonecas... Para... Sei lá!... Talvez transformar almas-vagantes em fiéis servas... Ou talvez só estejam testando até obterem total sucesso... E finalmente fundir uma alma-vagante em especial de maneira perfeita...
— Por que alguém precisaria fundir uma alma-vagante em uma boneca? – Indagou Peter.
— Não se sabe... – Disse Swift pensativo. – Mas a coisa pode se complicar psicoticamente... Se estiverem planejando ressuscitar uma alma-monocromática!
— Uma alma-monocromáticas?! – Exclamou Peter.
— Seria um problema se eles conseguissem tal coisa... E ainda controlasse-a! – Disse Swift. – Almas-monocromáticas são facilmente manipuláveis por magia cinza!
— Você está me dizendo que o objetivo desta organização é ressuscitar uma alma-monocromática específica? – Questionou Peter.
— Talvez sim... Talvez não... Talvez mais que isso... – Murmurou Swift.
— Interessante... – Murmurou Peter mirando a rua desértica repletas de murmúrios do outro lado da janela. – Não é estranho?
— O que é estranho?
— O fato de só podermos ouvir as almas-vagantes! – Exclamou Peter. Os olhos negros varrendo a rua a procura da origem dos murmúrios fantasmagóricos.
— Somente ouvir?! – Indagou Swift. – Ah... Esqueci-me...
“Como pude me esquecer de que apaguei a memória dele...” pensou Swift.
— Você não consegue vê-las... Porque você nunca viu a morte! – Explicou Swift.
— Somente quem viu a morte pode vê-las? – Perguntou Peter.
— Exatamente! – Confirmou Swift. – Pessoas que não presenciaram a morte cara a cara, mas tiveram algum parente morto podem ouvi-las...
— Interessante essas almas-vagantes! – Exclamou Peter assonorentado.
— Bem... Chega de bate-papo! – Disse Swift. – Vamos fazer o teste!
— Teste?! – Indagou Peter confuso.
— Já esqueceu! – Exclamou Swift apanhando um cálice de prata de dentro de um dos armários da cozinha. – “O teste de tipo mágico”!
— Ah... – Lembrou Peter. – Como funciona esse teste?
Swift colocou o cálice de prata vazio sobre a mesa da cozinha. Correu até a cômoda do quarto e revirou as gavetas procurando algo.
— O que você está procurando? – Indagou Peter.
— Isto! – Exclamou Swift tirando da gaveta em meio às peças de roupa, um cartão com o verso dourado e a fronte prateada com letras vermelha-cintilantes grafadas artisticamente. Apanhou o cartão nas mãos, analisou-o rapidamente, e atirou-o para Peter.
Tipo Mágico Universal
Branco: Anjo
Cinza: Elementatus
Preto: Psicologus
Preto + Branco: Espiritua
Incolor: Humano
— O que é isso? – Indagou Peter examinando o cartão prateado.
— São os tipos mágicos existentes e as suas cores correspondentes! – Exclamou Swift analisando cuidadosamente o cálice de prata.
— O que quer dizer essas cores? – Perguntou Peter.
— Você já vai descobrir... – Disse Swift parado à frente do cálice à mesa. – Se aproxime.
Peter se aproximou receoso. O cálice de prata estava vazio e imóvel em cima da mesa.
— O que esse cálice faz? – Perguntou Peter confuso.
Swift estralou os dedos abruptamente e pousou suas mãos na lateral do cálice de prata. – Principie! – Pediu Swift. Abruptamente o cálice lentamente se encheu até a metade de um líquidoacromático reluzente.
— Goteje uma gota de seu sangue no líquido do cálice! – Ordenou Swift.
— O que?! – Exclamou Peter aflito.
— Rápido! O teste só dura cinco minutos! Se você demorar demais o líquido do cálice se esvai e você vai ter que fazer o teste daqui a uma semana! – Informou Swift ríspido.
— Ok! Ok! – Respondeu Peter procurando uma faca na pia. Achou uma afiadíssima com cabo negro e a posicionou, receoso, fez uma pequena fissura na ponta do dedo e correu em direção ao cálice.
— Ótimo! – Disse Swift. – Agora goteje no cálice!
Peter aproximou o dedo do cálice e balançou delicadamente o dedo para fazer o sangue gotejar no cálice. A escarlate gota de sangue voejou do dedo de Peter e se deitou no líquido reluzente. O líquido se iluminou de um intenso feixe de luz verde-esmeralda deslumbrante.Os rostos de Peter e Swift se cintilaram levemente com luz esverdeada do cálice. A luz começou lentamente a se desfazer. Pouco a pouco o interior do cálice foi se revelando. O líquido incolor tinha se transformado em um líquido branco reluzente.
— B-Branco?! – Exclamou Swift incrédulo no que via. – Não pode ser! Não pode ser!
— O que foi? – Indagou Peter aflito como se o líquido branco representasse sua morte. – Líquido branco significa algo ruim?
— Não exatamente! – Exclamou Swift olhando o líquido branco reluzente mais de perto. – Branco quer dizer que...
“Você é um anjo!”.
— Anjo?! –Sibilou Peter abismado. – Como posso ser um anjo?! Nem sequer tenho asas!
— As asas só nascem aos dezoito anos de idade! – Murmurou Swift vagamente duvidoso quanto ao cálice. – Não tem como duvidar... O cálice nunca mente!
— Eu... Um anjo... – Murmurou Peter analisando o conteúdo do cálice, os olhos negros esbugalhados preenchidos de ansiedade.
— Ser um anjo não é tão ruim assim! – Explicou Swift. O rosto cintilado pela luz pálida do cálice. – A única desvantagem de ser um anjo é a impossibilidade de fazer magias cinza e... Ter que esconder as asas... Na verdade ser um anjo é algo para se comemorar!
— Isso quer dizer que posso aprender os três tipos mágicos? – Indagou Peter.
— Exatamente! – Confirmou Swift. – Você pode fazer magias do tipo espiritua (magias que envolvem manipulação de energia e matérias), psicologus (magias de manipulação psicológica) e elementatus (magias de manipulação dos elementos da natureza)...
“Mas jamais tente fazer uma magia cinza (magias exorbitantemente negras)... Ou caso faça... Você morrerá... Mas você não ia querer fazer magias cinza... A“Suprema Autoridade Mágica” te capturaria com mais facilidade que um pescador profissional pesca um peixe lambari”.
As almas-vagantes murmuravam mais vagamente na rua lá fora, pareciam já estar cansadas de se suicidar. Peter bocejou.
— Hoje foi um dia cheio! – Murmurou Peter.
— De fato foi... – Confirmou Swift. – É melhor irmos dormir... Temos outro dia cheio amanhã!
— Ok! –Concordou Peter.
— Pode continuar dormindo na minha cama... – Disse Swift. – Eu durmo na cadeira.
— Não posso fazer isso... – Respondeu Peter. – Eu durmo na cadeira!
— Eu insisto! Por favor, durma na minha cama! – Insistiu Swift. – Gosto de dormir na cadeira. – Mentiu Swift.
— Está bem... Er... Obrigado por ser meu mestre! – Agradeceu Peter compassivo.
— Eu que agradeço! –Murmurou Swift fraternalmente. – Você acabou com a minha solidão! Não tinha ninguém para conversar antes de você vir morar comigo... Bem... Agora chega de sentimentalismo... Vamos dormir...
— Está bem... – Murmurou Peter se jogando a cama em retalhos de Swift. Os olhos pesados de sono. – Boa noite!
— ‘Noite! – Respondeu Swift se sentando a cadeira no aquém da janela. Observou brevemente as almas-vagantes se suicidando no fim da rua ao outro lado da janela, até que finalmente caiu no sono.
Pois não há nada melhor que ver almas-vagantes se matando antes de dormir.
O dia nasceu lançando raios alaranjados pela única janela de vidro daquele cômodo duplo (cozinha-quarto). Os cabelos louros de Swift resvalando pelo vidro da janela. Peter roncava intensamente deitado de forma desconfortável e engraçada, os olhos negros entreabertos. Eis que Peter despertou, os olhos cansados.
Consultou o relógio de parede de Swift, já eram seis e meia, estava quase atrasado para escola. Levantou-se de um salto e correu para o banheiro para se arrumar. Como sabia que Swift não gostava de ser acordado, decidiu não acordá-lo. Aprontou-se com presteza. Apanhou a mochila que estava jogada em um canto, junto com diversas roupas sujas, e a pôs nas costas. Apanhou uma maçã no console da mesa da cozinha, o cálice ainda estava à mesa. Guardado o cálice, Peter se despediu de Swift com um aceno retórico e partiu.
Peter correu rua acima em direção à praça central. As ruas continuavam desérticas, ninguém estava sequer com a porta aberta. A luz do sol crepitava no asfalto negro repleto de pequenas poças de água resultantes da chuva do dia anterior. Atravessou a ponte do Rio de Hades e correu rua acima.
Finalmente chegou a Light Of Sky, a única escola de ensino médio de Sky Gray. A escola estava movimentada como sempre, o que era deveras estranho para uma cidade desértica como Sky Gray. Provavelmente Sky Gray era desértica não porque tinha falta de habitantes, mas sim porque as pessoas não gostavam de andar nas ruas.
Eis que Peter teve uma súbita lembrança que ele parecia ter esquecido subitamente como lembrou. Havia beijado Joanne na borda da ponte do Rio de Hades. Mas por algum motivo ele subitamente esqueceu-se disto quando chegou à casa de Swift durante a tempestade do dia de ontem. Por que ele se esqueceu subitamente de algo tal importante?
— Por que Joanne afeta tanto a minha psique?— Se perguntou Peter cruzando a soleira de Light Of Sky. – Será que aquilo foi uma ilusão?... Bem... De qualquer forma... Vou descobrir hoje!
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