Almas Obscuras - Despertar

2 Capítulo 1 - Doces Sonhos


Notas iniciais
Pessoal, mil perdões pela demora. Faculdade não é fácil, e esses dias foram difíceis pra mim. Espero que curtam o capítulo, e boa leitura '')

Depositei com cuidado as flores na grama molhada. Era uma singela homenagem à pessoas mais importante da minha vida. O dia estava nublado, e se assemelhava com meu estado de espírito. Observei o vento levar as folhas secas e espalhá-las pelos cantos. Um monte delas se amontoou nos meus pés; como se tentassem me consolar.. Até mesmo as árvores pareciam tristes; seus galhos balançavam morbidamente.

Já me virava para ir embora, quando escutei um sino vindo de uma pequena igreja que havia no cemitério. Minha gargante se fechou no mesmo instante ao me lembrar de ter dado adeus a alguém muito especial e querido pra mim a pouco mais de um ano e meio atrás.

Encontrei um balanço velho, esquecido no tempo, e me sentei. Comecei a balançar, escutando a corrente desgastada que o prendia ranger. Fechei os olhos. Então, escutei passos perto de mim e os abri.

– Quem está aí? — falei.

Talvez, eu estivesse com a imaginação fértil demais.

Fiquei pensando o que minha mãe acharia de mim agora. Sentiria remorso? Orgulho? Repulsa? "Você constrói seu próprio destino", ela costumava dizer.

Não. Provavelmente ela não estaria nada feliz comigo. Em outras circunstâncias, talvez...

A sensação de estar sendo observada voltou, e não gostei daquilo. Filha, filha, fuja! Encontre-o!, berrava a voz da minha mãe na minha cabeça. Encontrar quem?, falei em resposta, o que era inútil. Mamãe não estava mais aqui comigo.

Mãe? Mãe! Onde você está? Volte! Eu preciso de você!, gritei novamente, colocando a mão no rosto e caindo de joelhos na grama recém molhada. Você não está sozinha, disse uma voz desconhecida. Mentira!, berrei.

Melaine! Melaine!, uma voz insistia em me chamar.

Um luz incomodou minha visão, e abri os olhos devagar, ao mesmo tempo que o toque estridente do meu celular me fez tatear às cegas pela bagunça da cama. Chutei os lençóis e caminhei trôpega até o banheiro.

– Mel? Ainda não acordou, amiga? — era a voz de Lauren.

– Como pode ver... — disse, irônica.

– Já estou chegado na escola — falou ela. Estava dirigindo. — Não se atrasa, hein?

Liguei o chuveiro e deixei a água relaxar meus músculos. Desembacei o espelho e vi meu reflexo. Lá estava a silhueta da nova garota que eu era agora.

Não era fácil pra mim acordar e ter que encarar um novo dia. Eu não devia estar viva. Tudo o que eu tinha foi arrancado de mim e despedaçado para sempre, assim como meu coração — e permaneceu no fundo daquele maldito lago. Agora eu estava só. Sem minha mãe, não havia mais ninguém que pudesse interceder por mim. Abandonei inúmeros remédios idiotas contra ansiedade indicados por psicólogos fajutos arranjados por meu pai. Eu sofria a cada dia sem ela.

Primeiro, meus pais se separaram. Isso não me abalou, pois sempre tive mais afinidade com minha mãe. Juntas, sempre pensavam que éramos irmãs. Mas agora eu havia perdido minha mãe e melhor amiga.

Loranda Grace, minha mãe, era arqueóloga. Nas férias, volta e meia eu partia em viagens com ela. Tínhamos milhares de fotos e vídeos de nossas aventuras. Era fácil se lembrar dela.

Quando me dei conta da sua morte, fiquei muito perdida. Tudo o que eu via eram pessoas amontoadas em cima de mim, preocupadas. Disseram que foi um milagre eu estar viva; por ter permanecido tempo considerável debaixo d´água. Depois disso, me veio outra dor de cabeça: quem ia ficar comigo. Minha relação com meu pai sempre foi péssima — pra não dizer um desastre — e mal nos falávamos.

Por sorte, havia um anjo na minha vida: Tia Diana, a melhor amiga da minha mãe. A família do meu pai quis ficar comigo, mas me recusei e fugi. Tia Diana então me levou pra casa, e fiz 18 anos, podendo ficar com ela de vez. Mas meu pai e sua família se recusavam a me deixar. Eu só conseguia pensar: Por que insistiam? Não nos relacionávamos bem. O que queriam de mim?

Na escola, eu estava na equipe de líderes de torcida. Finalmente minha vida parecia ter voltado aos eixos.

Só que jamais seria a mesma coisa. Jamais me sentiria a mesma vontade de viver de antes. Nada no mundo parecia me oferecer as mesmas chances. Tia Diana ainda era o que me segurava em pé.

– Por que a pressa? A escola está agitada hoje? — Tia Diana apontou para meu uniforme de líder de torcida quando desci para o café.

– Você nem imagina — me despedi dela dando-lhe um beijo na bochecha e uma piscadela.

Tia Diana tinha quase 40 anos e era uma mulher de muita fibra. Seus cabelos no tom castanho-cobre quase sempre estavam presos num coque moderno e sensual. Era fina e elegante, além de falar com um leve toque francês. Foi companheira de minha mãe na faculdade. Por isso, decidi seguir os passos dela e pretendia ingressar na mesma faculdade que minha mãe pôs os pés.

Consegui estacionar na frente do colégio. Bati a porta do carro, peguei a mochila e suspirei. Encarar todo mundo quando a notícia era muito recente não era fácil. Ainda mais sendo eu. Todos me encaravam não só por causa do uniforme e a postura ereta. Não só por causa da morte de mamãe também. Mas eu era popular por ser conhecida como a filha do empresário mais rico de toda a região de Monthe´s Hell. E eu detestava aquilo.

– Mel, amiga! — Lauren Briggs acenou pra mim no corredor. Ela era minha melhor amiga e capitã da torcida. Lauren era alta, esbelta, atlética; loira de olhos acinzentados. Ela tentava, a todo custo, arranjar namorados pra mim.

Depois de passarmos pela Toca — nosso point no refeitório — seguimos até o gramado para o treino, onde os jogadores do time de futebol americano já se encontravam. Lauren foi até Todd, o craque; os dois tinham um affair. Depois de nos alongarmos, bati com a mão na testa.

– Esqueci o cantil de água no carro. Vou buscar. — deixei os pom-pons no chão.

Foi só eu me aproximar, que logo ouvi um ruído invadir o pátio e o cheiro de gasolina inundou meu nariz. O motoqueiro passou por mim com um rastro de nuvem de poeira. Pude escutar sua risada assim que ele parou pra me ver. Eu tossi e afastei a poeira.

– Seu idiota! — grunhi quando ele se aproximou. — Por que não aparece como uma pessoa normal?

– Porque não teria a menor graça – respondeu ele, sorrindo e ajeitando o cabelo cor de mel.

Jonas Bawer era um total idiota desinibido. Ele fazia todo tipo de coisa só pra me irritar. A verdade era que nos conhecíamos desde a infância. Ele era filho do dono de uma das maiores redes de laboratório do país; Dr.Bauer, que inclusive, era grande amigo e parceiro de negócios de Henry, vulgo meu pai. Por essa razão tínhamos algo parecido com uma amizade.

Como eu, Jonas também não tinha mais mãe. Diferente de mim, ela a perdeu bem mais cedo. Seu pai, sempre um homem muito atarefado, não tinha tempo pra ele, que acabou se tornando um rebelde. Além disso, tudo o que eu sabia sobre ele era que morava em uma mansão onde nem sabia o nome dos empregados. Não o via com amigos — e os que se aproximavam, ele tratava logo de enxotar. Não tinha irmãos. Com o tempo, ele se acostumou a ser só.

– O que você quer, caubói? — caçoei. Era o apelido dele.

– Não é óbvio? Quero falar com você — ralhou.

Mas é um grosso mesmo.

Cruzei os braços, esperando.

– Quero seus cadernos emprestados. Estou muito mal nas matérias...

Jonas já havia reprovado de ano.

Suspirando, tentei desativar o alarme do carro, mas não deu certo. Impaciente, ele o tomou da minha mão, conseguindo enfim.

– Há-há — zombei vendo seu sorrisinho superior. — Só funcionou com você por pura sorte.

– Ah, é? Quem garante que não foi meu toque mágico? — ironizou ele, pegando os cadernos.

Revirei os olhos.

– É melhor ir tirar cópia.

Já perto do gramado, ele se despediu.

– Seus amigos estão logo ali. Depois dou um jeito de te devolver. Valeu, fui!

Lauren segurava os pom-pons no quadril de forma questionadora.

– O que estava fazendo com o Jonas? Vocês se odeiam!

Agitei as mãos, me agachando para tomar água.

– Esqueça.

Depois do fim do primeiro tempo, dei uma passada rápida no banheiro e, na saída, ao guardar o material no armário, me espantei com um flash de luz, seguido de uma risada.

– Oi, Pom-Pom! — Rosemary, ou Mary Tellan, era a pessoa mais icoveniente do colégio. Mary era baixinha, de cabelos loiros de um tom cor de palha até o queixo, e escrevia para o jornal da escola — por isso estava sempre xeretando coisas. Ah, e tinha uma implicância comigo.

Ela segurava uma câmera nas mãos.

– Não devia pedir permissão das pessoas antes de tirar fotos delas?

Ela riu.

– Você sempre será manchete do jornal, Pom-Pom — era o apelido que ela me dava. — E até acho qual vai ser o título da matéria: "Herdeira de império tem amizade colorida com playboy da cidade." — ela fez um gesto com as mãos de grandeza.

– Você é ridícula — eu a empurrei. — Me deixa em paz.

Continuei a seguir meu caminho. Então senti um arrepio nas costas; aquela sensação de ter alguém te observando. Até que uma figura apareceu no corredor, e fiquei estática. Imagens borradas do momento do acidente tomaram conta de mim, e balancei a cabeça.

Me apoiei na parede. Aqueles malditos remédios...

– Quem tá aí? — perguntei. Estava delirando?

Uma sombra se ergueu, e me arrepiei inteira.

Tive então uma sensação estranha; cansaço repentino. Minha cabeça começou a latejar, e me afastei.

Não tenha medo. Você não está sozinha.

A voz veio de lugar nenhum, mas soou como se alguém estivesse perto de mim. Vasculhei pela multidão, mas não captei nada. Podia ser obra da minha cabeça; flashes do acidente. Mas não.

Havia alguém parado lá atrás. Uma silhueta que meu cérebro se esforçava pra lembrar. Saí cortando a multidão pra ver quem era. Só que, quanto mais eu chegava perto, mais longe parecia estar. Fui andando roboticamente, olhando em todas as direções.

– Olá? — gritei.

Mas não houve resposta, porque não havia ninguém lá.

...[...]...

Assim que cheguei em casa, Tia Diana me viu no corredor.

– Melaine, o que houve?

– Nada. — disse me sentando no sofá.

Ela cruzou os braços.

– Abandonou os remédios de novo?

– Não preciso daquelas porcarias.

– Ah, querida — ela me olhou com ternura. — As feridas ainda estão abertas. Você é forte, mas não pode suportar a dor sozinha.

Aquela sensação de sufocamento que tomou conta de mim assim que percebi a morte de minha mãe retornou naquele momento. Me senti sem ar; sem chão. Era uma ilusão pensar que ela diminuiria com o tempo — ela sempre estará presente. Era uma faca que me atravessava e se cravava cada vez mais.

Por fim, enxuguei uma lágrima e ergui o queixo.

– Eu...vou dormir.

– Tem que se concentrar no seu futuro — ela disse. — Sua mãe ficaria feliz. Não deixe seus impulsos tomarem conta de você — ela desfez meu laço e o rabo de cavalo, deixando livre meu cabelo castanho-claro, herança de minha mãe. — Você tem o controle.

Dirigi-me até o quarto e desabei na cama. Ao lado, havia a caixa com inúmeras fotografias de nossas viagens. Tirei de lá a primeira que vi: nós duas rodeadas de crianças africanas em nossa estadia no Quênia. Aquilo me fez sorrir e lembrar de como brinquei com elas a tarde inteira, enquanto mamãe fazia suas escavações.

Na foto seguinte, estávamos em um acampamento numa cidadezinha na Índia. Fechei os olhos e pude reviver com clareza como fazia frio, e minha mãe me enrolou como uma múmia à noite pra dormir. Já quase adormecendo, pude sentir seu toque no meu rosto enquanto ela sussurrava:

Você é uma companheira de viagem do caramba, disse ela, E está destinada a grandes coisas.

Eu esperava que aquelas palavras fizessem sentido algum dia.

Notas finais
Obrigada por ler, e comentários são bem-vindos, tá? ''D