Almas Afins
6 Capítulo 6 - Um passo de cada vez...
Notas iniciais
Rachel procurou ar e o puxou com força. Sua filha estava bem ali na sua frente, e no entanto, não conseguia dizer nada.
Foi Audrey quem quebrou o silêncio.
— Oi, Reichel. — O modo como o nome da atriz foi dito era adorável. Extremamente adorável, e a judia se sentiu derreter totalmente.
A morena fungou algumas poucas vezes e engoliu o bolo na garganta.
Diga alguma coisa!
Sua mente gritava, tentando fazê-la ter alguma ação diante da garotinha que ainda encarava-a com seus olhos verdes foscos e sem brilho, mas que ainda eram tão belos quanto os de Quinn.
Rachel queria falar. Queria dizer o quanto se arrependia e o quanto a amava, mas isso prejudicaria toda a situação e, principalmente, faria uma enorme confusão na cabeça de Audrey.
Então fez o que desejava fazer desde que a viu.
Tocou-a na face.
Entretanto, a garotinha se assustou e se afastou bruscamente, fazendo-a se arrepender no mesmo segundo e se sentir frustrada por não ter sentido a maciez da pele da filha contra sua mão por mais alguns segundos.
Quinn, que ainda se mantinha parada e apenas observava atentamente, deu ouvidos à sua razão e se aproximou da filha rapidamente, pegando-a nos braços.
— Me desculpe. Eu... eu não quis assustá-la. — A judia se levantou, completamente atordoada.
— Está tudo bem. Ela só não esperava por isso, não é, meu amor? — Quinn fitou a mais nova.
Audrey assentiu e apoiou a cabeça no ombro da mãe. Podia não entender tudo totalmente ainda, mas odiava se assustar e não poder ver quem estava na sua frente. Os braços pequenos rodearam o pescoço de Quinn, e a mãe sabia que ela ficaria um pouco mais quieta do que o normal.
Rachel viu o efeito negativo que causara na filha e não evitou sentir os olhos aguarem outra vez, todavia, não deixou que as lágrimas caíssem, e fitou o teto, tentando dissipar o pranto que almejava escapar. Sempre fazia tudo errado. Deveria ter dito alguma coisa antes de tentar uma aproximação de afeto, mas não conseguiu controlar as suas ações diante da pequenina.
— Eu acho que já está na hora de alguém aqui comer bacon, o que acha? — A detetive apertou a garotinha contra o seu corpo e atacou o rosto alvo com beijos carinhosos.
Audrey não conseguiu evitar a gargalhada eufórica pelas cócegas, esquecendo o ocorrido de minutos antes, e espalmou as mãos no peito de Quinn, tentando empurrá-la.
— Para, mamãe! — Ela pediu. O rosto adquirindo um tom mais rubro pelo riso incessante.
Rachel as fitou assim que ouviu a risada de Audrey e aos poucos abriu um sorriso amoroso, deixando que o choro que desejava escapar perdesse sua força. No final, era aquilo que importava. Estar presente novamente. Poderia demorar dias, semanas, meses e até anos, mas não iria se deixar cair e se manteria sempre por perto. Ter a presença de Quinn e Audrey já era mais valioso do que qualquer outra coisa na sua vida.
Quando a loira finalmente parou o ataque de beijos, ela puxou o seu celular para checar as horas.
— Vamos tomar café. Você não pode se atrasar para a escola.
— A Reichel também vai tomar café com a gente? — A garotinha indagou curiosa.
O sorriso da judia expandiu com aquele questionamento.
— Você quer que eu tome café da manhã com vocês? — Ela enfim disse algo coerente.
— Eu quero. Eu gosto de visitas. — Audrey respondeu antes que Quinn pudesse falar qualquer coisa.
Como explicaria que não seria apenas uma visita? Que seria alguém constante na vida dela para sempre? As perguntas rondaram a cabeça de Rachel de repente, mas ela as ignorou, pensando apenas naquele momento. Um passo de cada vez.
Não demorou muito para que as três se sentassem à mesa. Quinn e Audrey lado a lado, e Rachel de frente para ambas. A judia não comeu, mas passou todo o tempo observando minuciosamente como a detetive cortava o bacon em pedaços pequenos e alimentava a filha com calma e delicadeza, sempre limpando a sua boca com o guardanapo e fazendo-a beber todo o suco. Sua mente viajou outra vez, parando em uma das conversas que tiveram quando ainda eram apenas amigas no ensino médio.
O cômodo era amplo, e as paredes eram cobertas por um papel de parede floral. A estante ao lado da Tevê era enfeitada por troféus perfeitamente limpos e alguns diplomas de competições de gramática do ensino elementar. Os livros eram os mais visíveis no local, ocupando uma parede inteira. O quarto de Quinn Fabray era uma composição intelectual e esportiva, exatamente como ela.
— No que está pensando? — A voz rouca tirou-a dos seus pensamentos.
Rachel virou o rosto, fitando a capitã das Cheerios encarando-a com a sobrancelha arqueada. Estavam deitadas uma ao lado da outra na vasta cama de casal.
— Eu estou pensando em como o seu quarto é dividido em leitura e esportes.
Quinn riu.
— Eu gosto dos dois. É muito estranho?
— Não é estranho. É tão...
— O quê?
— Tão Quinn Fabray.
Quinn gargalhou alto, e as bochechas ganharam um rubor fraco.
— E você gosta disso?
— Eu gosto. É, de certo modo, aconchegante. — Rachel sorriu.
Quinn retribuiu o sorriso, e um silêncio confortável caiu sobre ambas.
Rachel continuou com seus olhos na líder de torcida. Estava tentando encontrar uma forma de adentrar um assunto delicado desde que chegara na sua casa no início da tarde, mas não sabia como.
— Então... — Ela começou, ganhando a atenção da mais alta. — Shelby está de volta.
— Ela está? — Quinn não se preocupou em ocultar a surpresa.
— Está. — A morena assentiu. — Ela me procurou ontem para saber como eu estava e perguntou sobre você e Puck.
A loira passou alguns segundos assimilando tudo e por fim desviou os olhos dos de Rachel.
— Você... você a viu?
A judia sabia de quem Quinn estava falando e suspirou enquanto umedecia os lábios.
— Ela foi até a minha casa, e Beth estava presente. Ela se parece tanto com você e...
— Eu não quero saber. — A capitã das Cheerios cortou a fala de Rachel. — Eu não posso saber. Falar dela dói, Rachel. Eu não consigo, não consigo... — Fechou os olhos, sentindo as primeiras lágrimas molharem o seu rosto.
A judia xingou a si mesma profundamente por ter tocado no assunto, mas era necessário, porque Shelby estava disposta a deixar que Quinn tivesse contato com Beth.
— Shelby disse que deixaria você vê-la e estar com ela. Quinn...
— Eu seria uma péssima mãe, Rachel. — A voz de Quinn saiu trêmula. — Eu a dei para Shelby porque sabia que não conseguiria cuidar dela e eu não consigo. Talvez eu não consiga ser mãe um dia, talvez...
— Não diga isso, Quinn! — Rachel a interrompeu, invadindo o seu espaço pessoal e puxando-a para apoiar a cabeça no seu peito. — Você vai ser uma ótima mãe um dia. Vai amar e cuidar da sua filha, mesmo que ela não seja a Beth. Você vai ser uma mãe tão amorosa que fará todos ao seu redor pararem de fazer qualquer coisa só para poderem apreciar todo o sentimento que você vai ter com a sua filha ou filho, embora eu ache que você vai ser mãe de outra linda garotinha.
— Como você sabe disso? — Quinn indagou, sentindo as mãos de Rachel afagarem os seus cabelos de modo afetuoso.
— Porque quando eu imagino você sendo mãe, eu a imagino com uma garotinha ao seu lado. Simples assim.
— Você parece ter tanta certeza do que diz. — A loira fechou os olhos enquanto apreciava o carinho que recebia.
— E eu tenho, Quinn. Eu realmente tenho.
— Está satisfeita?
A voz de Quinn a fez sobressaltar levemente. Estava tão imersa nas memórias de um passado que parecia tão distante que não se deu conta de que Audrey já havia terminado o café da manhã.
— Estou, mamãe. — A garotinha aquiesceu e ergueu os braços, sendo prontamente segurada por Quinn.
— Então vamos trocar esse pijama pelo uniforme da escola.
A detetive levantou da cadeira e fitou Rachel por alguns segundos. Havia alguns assuntos pendentes para tratar com ela, mas seria impossível no momento.
A judia aproveitou a saída de Quinn para guardar os alimentos que sobraram e lavar a louça usada. Eram poucas, e estava secando as mãos quando a esposa voltou com a filha. Audrey estava ainda mais linda com os cabelos escuros presos em um rabo de cavalo, deixando evidente o rosto bem modelado.
— Blanca já deve estar chegando.
Quinn mal terminou de falar quando a campainha tocou. Ela caminhou até a porta e a abriu, sorrindo para Brittany, que segurava a mão de uma pequena latina impaciente.
— Por que tocou a campainha? Vocês nunca fazem isso.
— Eu sei, é só... ela está aí e eu não sabia como agir. — A amiga respondeu.
— Nada mudou, Britt. Exatamente nada, tudo bem?
A professora de dança assentiu e se aproximou para plantar um beijo na testa de Audrey.
— Bom dia, minha gatinha.
— Bom dia, tia Britt.
— Tia Q, coloca a Aud no chão. — Blanca pediu.
Quinn riu e acatou o pedido, vendo a afilhada segurar a mão de Audrey e a guiar até a sala de estar.
— Como Santana está? — Ela voltou a atenção para Brittany.
— Ela esbravejou e amaldiçoou a Rachel em todos os nomes em espanhol que conhecia e então começou a repeti-los em inglês até conseguir dormir. Depois, tentou vir até aqui inúmeras vezes, mas eu a impedi, assim como fiz hoje de manhã. — Brittany respondeu calmamente.
Quinn suspirou. Sabia que a raiva de Santana era perfeitamente normal. Sentiria a mesma coisa se Brittany fizesse algo parecido com o que Rachel fez.
— Eu vou falar com ela hoje no trabalho.
— Tudo bem, não se preocupe com isso. Nós sempre damos um jeito nas coisas. — A mais alta sorriu. — Tenha um bom dia, Q. — A abraçou demoradamente.
A detetive retribuiu o afeto, respirando fundo enquanto sentia a amiga transmitir todo o cuidado que possuía, e se despediu após pegar a mochila e a lancheira de Audrey, que havia deixado na casa das amigas no dia anterior, juntamente com as coisas de Blanca.
Ao entrar na sala, ela observou as duas garotinhas sentadas no sofá, e Blanca encarava Rachel de modo curioso, que também a fitava, mas com uma expressão embasbacada. A judia já havia visto fotografias de Santana na infância quando ainda visitava a casa das Pierce-Lopez anos atrás, e ali, observando a pequenina, era como ver uma daquelas fotos ganhar vida.
No dia em que foi embora, Blanca também era somente um bebê. Sabia que ela tinha traços latinos, mas não sabia que iria se parecer tanto com Santana.
— Elas são iguais, não são? — Quinn pareceu predizer seus pensamentos, e Rachel apenas maneou a cabeça em concordância enquanto se aproximava da esposa.
— Será que elas usaram mesmo um doador? — Ela sussurrou.
— Eu me pergunto isso quase todos os dias. — Quinn devolveu no mesmo tom.
— Então os óvulos de Santana ganharam a briga que decidiria quem iria predominar as características da Blanca, porque isso é incrível.
Quinn soltou uma risada curta, porque Rachel tinha razão. O casal Pierce-Lopez tinha optado por coletar os óvulos de Santana e escolheram o sêmen de um doador anônimo com as características de Brittany. Contudo, a jovem latina era idêntica à detetive.
Blanca franziu o cenho, olhando as duas mulheres.
— Por que vocês tão cochichando?
— Estamos conversando. — Quinn respondeu.
— Sobre o quê? — A garotinha insistiu.
— Sobre assuntos de adulto.
— Eu não posso saber? — Blanca cruzou os braços.
Quinn sorriu.
— Eu já disse que você é completamente parecida com Santana?
— Sim, tia Q.
— Então eu vou repetir. Você é uma jovem Santana. — Quinn se aproximou. — Agora está na hora de irmos. Estão prontas? — Mudou de assunto.
As duas garotinhas assentiram simultaneamente, e antes que a detetive pudesse fazer algo, Blanca ajudou Audrey a descer do sofá.
— Você tá com o bastão?
A pequenina de olhos verdes aquiesceu e mostrou o objeto dobrável no bolso da sua calça. Rachel achou a cena fascinante. Blanca se mostrava tão prestativa com a amiga, mesmo com a pouca idade. Era algo admirável.
As duas foram na frente com as mãos unidas enquanto caminhavam lentamente, e as adultas foram logo atrás. Antes que Quinn pudesse sair da sala de estar, Rachel segurou o seu braço delicadamente.
— Você pode me levar até a casa dos meus pais? — Ela perguntou. O tom afetuoso.
Quinn assentiu.
— É claro.
A cadeirinha extra foi usada para prender Blanca no carro, e quando ambas já estavam devidamente presas, a detetive se acomodou no banco do motorista com Rachel ao seu lado.
O caminho até a residência do casal Berry não era longo. Logo o veículo parou em frente à casa que Rachel tanto amava. Estava exatamente como há dois anos. As mesmas cores neutras.
A judia se virou, fitando Quinn.
— Obrigada.
— A Reichel vai jantar com a gente hoje? — Audrey indagou.
Rachel não conteve o sorriso e pôs seus olhos na garotinha, que brincava com seu bastão, passando-o de uma mão para a outra.
— Talvez, meu amor. — Quinn respondeu. — Ela tem coisas importantes para fazer hoje.
A atriz assentiu e esticou a mão, tocando na da filha. A pequenina não se assustou dessa vez, e Rachel pôde sentir a pele macia por alguns segundos antes dos seus olhos marejarem.
Ela decidiu quebrar o contato, ou então desabaria novamente.
— Espero que se divirtam na escola, meninas. — Sorriu para ambas.
— Tchau, Reichel. — Blanca disse.
— Tchau, Blanca.
— Tchau, Reichel. — Audrey espelhou a fala da amiga, e Rachel a fitou por longos segundos, guardando mais uma vez os detalhes do seu rosto antes de sorrir. O amor e a culpa querendo escorrer dos seus olhos através do choro.
Por fim, ela se despediu. A voz não passou de uma tentativa de se manter forte diante da enxurrada de sentimentos.
— Tchau, Audrey.
Quinn não quis dizer algo, tampouco se despedir. Tinha os seus próprios olhos levemente cheios de lágrimas. A mágoa evidenciada e intensa, e o carro deu partida quando a judia saiu do mesmo, tomando o seu caminho até a escola.
A morena encarou a casa dos pais e suspirou. Todos os acontecimentos que sucederam o seu retorno para Lima ainda estavam deixando-a extremamente abalada, e precisava extravasar os seus sentimentos. Precisava de um abraço e de um colo para apoiar e deixar as lágrimas saírem até que se esgotassem, e ninguém melhor do que Hiram e Leroy para isso. Eles eram dóceis, calmos, e o afeto que transmitiam era algo que poderia iluminar qualquer tempestade.
Rachel só esperava que ambos a recebessem com amor.
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