Almas Afins

33 Capítulo 33 - Céu azul...


Notas iniciais
Dia de capítulo! Eu gostaria de agradecer à Tharry Charliye pela linda recomendação. Eu mal posso descrever o quanto fiquei feliz em saber que foi sua primeira recomendação e justamente nessa fanfic. Você me fez rir com o seu modo efusivo de descrever a história e me fez sorrir durante toda a leitura, então muito obrigada por tirar um tempo do seu dia no intuito de vir aqui e escrever tantas coisas bonitas. Obrigada. De verdade. Me alegra saber que o enredo agradou e espero que continue gostando dele. ♥ Eu também espero que vocês gostem do capítulo e desculpem-me se houver algum erro. Boa leitura. =D

O céu estava azul.

Essa era uma das únicas certezas de Rachel quando ela acordou pela manhã, piscando lentamente e olhando através da janela do quarto ainda na cama. E ela também estava tão radiante quanto o sol poderoso e imponente no céu livre de nuvens. Estava até mais iluminada do que ele. O seu interior era iluminado incessantemente pela felicidade imensurável de ter passado a noite com Quinn.

Foi como anos atrás, quando se casaram e usaram cada metro quadrado da casa para fazerem sexo. A cozinha, a sala de estar, o banheiro social, o banheiro anexado ao quarto. Foi uma tour prazerosa e inesquecível, assim como qualquer lembrança ligada à Quinn.

Tudo pareceu tão distante enquanto estava em Nova York, experimentando o frio incansável da cidade que parecia perfurar a sua pele e impregná-la por dentro. Nem mesmo o café podia curá-la da sensação gélida e desconfortável de solidão constante. E agora estava aquecida. Tão aquecida que o seu coração estava envolto em uma manta de alegria e amor, o que só aumentou quando viu a bandeja de pés no final do colchão com torradas, frutas, café e iogurte.

Rachel cobriu o torso com o lençol e se sentou, puxando-a para perto.

Havia um pequeno bilhete com a letra que mais conhecia no mundo. A letra de Quinn.

''Espero que goste. Eu quis retribuir todos os cafés da manhã que você já fez para mim e para Audrey durante o tempo em que esteve aqui. Ela adora as suas torradas, então espero que goste das dela. Ela ajudou bastante.

Quinn.''

Há um momento, pelo menos em alguma parte da sua vida, em que o seu sorriso não vai ser suficiente para expressar tamanha felicidade. Rachel já vivenciou isso várias vezes. Quando foi pedida em namoro e em casamento. Quando o dia da cerimônia chegou. Quando a inseminação foi um sucesso. Quando Audrey nasceu. Rachel estava exatamente assim agora e não conseguiu fazer nada a não ser chorar, exatamente como acontecia quando era atingida dessa forma. Ela chorou de felicidade enquanto aproximava o nariz do papel que segurava, sentindo o aroma da esposa nele. Ainda que estivesse esmorecido, o cheiro do hidratante que ela adorava havia ficado no objeto. Morangos.

Depois de enxugar as lágrimas, Rachel começou a comer tudo. Primeiro as torradas com o café e depois as frutas. O iogurte ficou por último, e quando largou a taça vazia, ela se levantou da cama, indo para o banheiro.

Rachel era uma aglomeração de matizes eclodindo em um estado de epifania. Se sentia completa.

...

Quinn pendurou o vaso pequeno logo acima da porta e colocou a câmera pequena dentro dele, fixada em uma das folhas artificias. Aquilo deixava o foco livre para ser direcionado na entrada da sua casa. Ninguém conseguiria distinguir que havia um objeto ali. Era a ocultação perfeita. Ela desceu os degraus da escada após isso, entrando na residência e repetindo o processo na área dos fundos. O foco da câmera abrangia todo o quintal.

Audrey estava no sofá da sala, ainda de pijama e afagando os pelos escuros e macios de Alice, que dormia ao seu lado. Sua outra mão se concentrava em explorar o jogo de tabuleiro eletrônico que tinha no colo. Quinn o comprou há alguns meses quando Hayden o recomendou. Era ótimo para crianças cegas. A voz robótica que saía dele dizia uma das sete vogais, e o objetivo da garotinha era tatear todos os botões enquanto identificava através do braile qual era a letra correta.

— Parabéns. Você acertou. — A voz mecânica falou, e Quinn sorriu. Audrey era muito inteligente. Esse era apenas o primeiro nível. Ela pretendia comprar todos, que incluíam formações de vogais e palavras inteiras, porém a filha era nova demais e ainda não tinha alcançado essa parte do aprendizado. Levaria tempo.

Ela foi até o porão buscar algumas ferramentas e quando voltou, parou o que fazia ao ver Audrey com os braços cruzados enquanto exibia um semblante contrariado.

Quinn deixou os objetos que segurava na poltrona da sala e se aproximou da filha, puxando-a para o seu colo.

— Não conseguiu diferenciar o "E" do "I" de novo? — Ela plantou um beijo na bochecha de Audrey, que balançou a cabeça em negação.

— É difícil, mamãe. Eles se parece muito. — A voz da garotinha saiu aborrecida.

— Se parecem, meu amor. — Quinn a corrigiu docemente. — Me deixe ver isso.

Havia dois pontos em relevo na letra "E". Um era do lado direito e o outro do lado esquerdo, mas em um espaço mais elevado. Eles formavam uma inclinação, e a letra "I" era semelhante. No entanto, as posições eram invertidas.

Quinn pensou por um momento em como poderia desenvolver uma forma mais fácil de explicar para a filha como diferenciá-las sem errar.

Por fim, ela segurou as mãos de Audrey. Primeiro, ela dobrou a esquerda, juntando os quatro dedos e deixando o polegar pressionado contra a ponta dos demais, formando um bico de pato.

— Lembra quando você tocou os patinhos no jardim da escola? — Quinn perguntou, recebendo um aceno positivo como resposta. — A boca deles se chama bico e se parecem muito com a posição em que a sua mão está.

Audrey pareceu encantada com isso e repetiu o gesto da mão várias vezes, abrindo, fechando e voltando para a mesma posição.

Quinn sorriu amorosa e continuou.

— O nome desse patinho é Enard. E Enard começa com a letra "E". Ele sempre nada para a esquerda. — Ela repetiu o mesmo processo com a mão direita de Audrey. — E esse é o Ian. Ele é melhor amigo do Enard. A primeira letra do nome dele é "I", e ele sempre nada para a direita. Sempre que você se confundir e achar que vai errar, é só tocar delicadamente o relevo. Se ele descer para a esquerda, qual patinho você vai lembrar?

— Enard! — Audrey respondeu rapidamente, mostrando a mão correta.

— E se ele descer para a direita?

— Ian!

— Você é a garotinha mais inteligente de todas. — Quinn atacou Audrey com cócegas, fazendo-a se contorcer enquanto soltava altas gargalhadas.

Alice se assustou com a movimentação repentina e pulou para a mesa de centro, dormindo ali mesmo, e Quinn parou o ataque na filha para fitá-la com uma sobrancelha arqueada.

— Você é muito folgada. — Ela pontuou, e Alice apenas bocejou, apoiando a cabeça nas patas superiores.

Quinn deixou a filha treinando as vogais e acendeu a lareira. Ainda que o sol estivesse presente, a temperatura não estava tão alta, e precisava deixar a casa sem energia para terminar de instalar as câmeras.

Ela foi até a caixa de luz no porão e desceu a pequena alavanca, usando uma lanterna para voltar até a sala. Audrey mal percebeu a oscilação de temperatura, mas o grito vindo de algum lugar da casa assustou todos que estavam no cômodo, o que incluía Alice.

— Mamãe? — Audrey chamou, e Quinn foi até ela. — É a mama Reichel?

— Eu acho que sim. Eu vou ver o que houve. Fique aqui. — Quinn estava pronta para ir até o seu quarto, mas Rachel apareceu na sua frente.

Ela estava completamente molhada, com os cabelos recheados de shampoo e envolta em uma toalha.

— Você desativou a energia? A água ficou gelada, Quinn! — Ela bateu o pé raivosa.

A loira passou alguns segundos olhando para ela antes de rir, e Audrey espelhou a mãe. Ainda que não pudesse ver, ela entendeu a situação quando a judia esbravejou.

— Isso não tem graça! — Rachel cruzou os braços.

— Tem sim. — Quinn continuou rindo.

— Quinn!

— Tudo bem. Você não pode terminar o banho na água fria? — A detetive arriscou perguntar, mas engoliu em seco diante do olhar da esposa. — Eu vou reativar a energia.

— Eu acho bom.

Quinn revirou os olhos, mas fez o que disse e esperou quase uma hora para que pudesse começar o seu trabalho na casa.

Rachel retornou para a sala de estar algum tempo depois e avistou a loira no último degrau da escada de metal.

— Eu vou furar essa parede agora, então cuidado para não se assustar com o barulho. Tudo bem, filha? — Quinn comunicou.

Audrey apenas assentiu, concentrada no jogo de tabuleiro eletrônico. Rachel chegou perto dela e se sentou, colocando-a no seu colo.

— O que você está fazendo?

— Aprendendo o A, E, I, O, U, Y e W. — A garotinha respondeu, sentindo as mãos de Rachel nos seus cabelos em um afago amoroso.

— Eu posso aprender também? — A judia apoiou a cabeça levemente no ombro da filha e recebeu a confirmação dela.

Audrey explicou tudo sobre o objeto eletrônico que possuía, como se fosse uma professora nata, e Rachel achou extremamente encantador como ela falava, totalmente compenetrada em aprender o braile. Queria estar por dentro de tudo o que a filha sabia.

Quinn sorriu vendo a interação delas, percebendo que a esposa vestia um dos seus suéteres e se lembrando automaticamente da noite que tiveram. A excitação, os toques, os beijos. Foi tudo tão intenso, ao mesmo tempo em que era carnal e com um punhado de sentimentos não verbalizados da sua parte.

Ela voltou a atenção para os fios que segurava, ligando-os na caixa de passagem recém-instalada. Não queria ter de elucidar para um eletricista o porquê de ter câmeras de vigilância dentro de vasos, tampouco que alguém soubesse sobre isso, então passou o começo da manhã assistindo vídeos de como realizar todo o procedimento. Ela inseriu o fio da câmera na tomada quando a parafusou e fez a mesma coisa nos fundos da residência.

— O que você está fazendo? — Rachel repetiu a pergunta, mas a direcionou para a esposa dessa vez.

— Você vai ver. — Quinn reativou pela segunda vez a energia da casa e pegou o laptop que recebeu de Dylan, se sentando na poltrona e fazendo toda a configuração com os drivers das câmeras.

Em segundos, a imagem da área em frente à casa estava na tela, assim como a do quintal, em alta qualidade. Com elas, seria possível ver qualquer movimento.

Quinn chamou Rachel em silêncio, observando-a deixar Audrey no sofá para que pudesse caminhar na sua direção.

A morena arregalou os olhos quando fitou o laptop.

— Câmeras. — Ela sussurrou.

Quinn assentiu sorrindo.

— Câmeras de vigilância. E isso não é tudo. — Ela clicou no ícone do semáforo e apreciou a vista de todo o quarteirão, incluindo a casa de Santana e Brittany. Foi possível ver o exato momento em que elas prenderam Blanca na cadeirinha e o carro iniciou um trajeto para longe dali.

— Elas estão indo passar o domingo com os pais da Britt. — Quinn respondeu antes que Rachel fizesse alguma pergunta, mas ela estava ocupada demais inerte e com a boca levemente aberta.

— Como você conseguiu isso?

— Dylan sempre foi obcecado por tecnologia, e eu pedi isso, resultando no meu atraso para o jantar ontem. — Ela sorriu, se sentindo minimamente aliviada por poder acompanhar em tempo real quem entrava e quem saía do quarteirão. — Eu também vou mudar a senha do alarme daqui. É recomendável fazer isso uma vez ao mês.

— Tudo isso... é por mim?

— Eu achei que você já soubesse disso. Eu não vou deixar ninguém pegá-la, Rachel. — Quinn disse convicta, fitando-a e vendo como os olhos dela marejaram em uma velocidade impressionante.

Ela não soube discernir o momento, mas em um segundo Rachel estava sentada no braço da poltrona e no outro o laptop estava na mesa de centro.

Quinn suspirou quando o corpo dela se acomodou no seu colo e quando o seu pescoço foi enlaçado. As reminiscências da intimidade compartilhada voltaram, e ela retribuiu o beijo no momento em que a sua boca foi reivindicada, deixando que Rachel sugasse a sua língua em movimentos lentos e sensuais.

Suas mãos migraram para a cintura fina, apertando o local quando a esposa mordeu o seu lábio inferior e o puxou antes de voltar a beijá-la. Ambas permaneceram nesse contato frêmito até Quinn sentir o seu baixo ventre se contrair, ao passo em que Audrey comemorava mais um acerto, fazendo a bolha libidinosa estourar.

A loira respirou fundo, tentando controlar a leve pressão no seu núcleo por ainda ter Rachel sentada no seu colo.

— Eu... não vou dizer que foi um erro o que houve ontem, porque eu quis tanto quanto você, mas as coisas não estão resolvidas, Rachel. — Ela sussurrou.

— Eu sei. — Rachel afagou o rosto da esposa, plantando um beijo na ponta do nariz fino. — Mas eu também sei que quando eu quiser beijá-la, não terei rejeição, não é? Eu também pensei em ir dormir com você todas as noites. Para a minha própria segurança. — Sugeriu com um sorriso, e Quinn riu.

— Você está convidando a si mesma para ficar no meu quarto?

— Talvez. É uma má ideia? — Rachel deixou uma mordida no queixo da detetive, consciente das reações que causava nela.

Quinn reprimiu um suspiro e se levantou após fazer a morena sair do seu colo, ou então perderia o resquício de força que ainda tinha.

— Limites, Rach. Limites são ótimos. — Ela avisou.

— Não há limites para esposas.

— Somos esposas no papel.

— Não parecia ser apenas no papel ontem à noite.

Quinn bufou, e Rachel sorriu. Estava radiante demais para se importar com a loira fazendo questão de falar que o laço delas estava apenas em um pedaço de papel. Era mais do que isso. Muito mais. E agora tinha a completa certeza do que afirmava.

— Acho que alguém aqui precisa tomar banho. — Quinn mudou de assunto, se aproximando da filha. — Essa mocinha aqui tomou café e não trocou o pijama.

— Mas hoje é domingo, mamãe. — Audrey resmungou.

— Então domingo não tomamos banho?

— Não.

— Que pena. Eu achei que iríamos aproveitar esse domingo lá fora, mas não vai ser possível. Ouviu isso, Rachel?

— Bom... eu fico triste em saber disso. Eu realmente adorei a ideia de sair um pouco. — Rachel usou da sua voz mais dramática, soando uma falsa tristeza.

— Lá fora? — Audrey pareceu se animar.

— Sim, eu planejei um dia ao ar livre para hoje. Mas vou ter de cancelar.

— Não, mamãe! — A garotinha protestou. — Eu vou tomar banho.

— Vai?

— Vou.

— Então vamos lá.

A loira foi a encarregada de lavar Audrey, enquanto Rachel ia para o próprio quarto se trocar. Ela não tinha planejado nada com a esposa, mas pelo visto Quinn pensou em algo, então também ficou contente. Qualquer lugar seria perfeito para passarem juntas. Como uma família.

Ela se trocou, optando por um vestido, um cardigã e botas de salto médio, finalizando com uma maquiagem leve e indo direto para o quarto de Quinn.

Não sabia se o que procurava estava ali, mas tinha quase certeza de que a resposta era positiva. A esposa adorava fotografar a família, então guardaria a máquina fotográfica que compraram para registrar o casamento anos atrás.

Os lábios grossos se curvaram em um sorriso quando abriu o armário e viu o objeto almejado, pegando-o e pondo a alça no pescoço.

...

Uma hora depois, todas já estavam se acomodando no carro, exceto Quinn, que voltou para conferir os recipientes com a ração e água de Alice, garantindo que ela não ficaria com fome ou sede. Os seus olhos se reviraram ao fitá-la ainda dormindo na mesa de centro.

— Folgada.

O som foi ligado quando o carro pegou a estrada, e uma música lenta preencheu o ambiente, fazendo Audrey balançar o pé e começar a cantar junto com a canção.

Rachel ficou perplexa com o tom relativamente afinado da filha e analisou toda a dicção dela. Incrivelmente boa. Herdara perfeitamente aquele talento, embora a voz não estivesse totalmente formada. Tinha apenas três anos, mas não desafinava tanto, deixando a mãe orgulhosa.

— Ela sabe cantar Somewhere Over The Rainbow? — Ela ainda estava atônita.

— Na verdade, ela sabe cantar todas as canções de O Mágico de Oz. É o único filme que ela consegue assistir até o final sem ficar frustada porque é apaixonada pelas músicas, e a Blanca adora, então descreve todas as cenas com maestria. Você precisa ver. São lindas.

Rachel sorriu, deslumbrada com o talento de Audrey, mas uma pontada de tristeza a invadiu quando percebeu que ainda não a conhecia completamente. Havia coisas que não sabia e coisas que precisava ver para conhecer. Isso a fez esmorecer um pouco, e Quinn notou, tentando mudar o rumo do diálogo enquanto a filha ainda cantava.

— Você andou mexendo no meu armário?

— Talvez. — A morena abriu um sorriso pequeno. — Nós compramos juntas, lembra disso?

— Lembro. Você deixou ela cair no primeiro dia.

— E nós discutimos.

Elas riram, e a animação de Rachel voltou gradativamente, mas ela franziu o cenho ao ver a esposa estacionar na frente da casa de Shelby.

— Por que parou aqui?

— Eu vou tentar fazer esse passeio mais inesquecível. — Foi tudo o que Quinn disse antes de sair do carro.

Ela passou as mãos na jaqueta escura e caminhou até parar na porta, tocando a campainha e esperando até que a figura de Shelby se revelasse. Rachel acompanhava tudo do carro.

— Quinn? O que faz aqui? — Shelby não estava brava, então a loira constatou que Noah não a deixou ciente sobre o que houve na delegacia.

— Eu estou indo para Mansfield levar a Audrey para conhecer um pomar pela primeira vez e gostaria de saber se posso levar a Beth. Se ela quiser, é claro.

— Nós não combinamos nada, Quinn. Você não ligou.

— Eu sei, mas tudo virou um caos com a morte do pai do Noah, e eu não tinha achado o momento certo para ligar. E agora estou aqui, pedindo para me deixar levá-la. Talvez ela goste. Vai ser divertido.

Shelby ponderou por algum tempo. Desde que Elijah Puckerman foi assassinado, o clima da sua casa se tornou um pouco desconfortável. Noah se recusava a falar sobre isso, mas ela sabia que ele estava sentido pela perda e tentou consolá-lo durante esses dias, consequentemente não tendo tempo suficiente para conciliar o emprego com a vida pessoal e ainda sair com Beth. Se sentia culpada, mas a filha parecia entender a dor do pai, então não cobrou nada. Contudo, admitiu para si mesma, Beth precisava se divertir, e Quinn era a mãe biológica dela.

— Eu vou chamá-la, e então você pode perguntar para ela. Se a resposta for positiva, eu não vou contestar.

— Obrigada. — Quinn sorriu sincera, e Shelby desapareceu do seu campo de visão, voltando momentos depois com Beth.

Ela estava linda trajando um vestido com estampa de flores, e a tiara prendia parcialmente os seus cabelos, mas eles ainda caíam livremente pelas suas costas. Quinn se pegou sorrindo genuinamente para ela, que retribuiu um pouco tímida.

— Oi.

— Oi, Beth. Como você está?

— Eu... estou bem e você? — Beth olhou para baixo e brincou com os próprios dedos.

— Eu estou ótima. E... eu gostaria de saber se não quer ir comigo, Rachel e Audrey para Mansfield visitar um pomar. — Quinn estava visivelmente nervosa.

Beth ergueu a cabeça rapidamente. Os olhos pareciam ter duplicado de tamanho.

— Um pomar? Eu sempre quis ver um! — Ela abriu um sorriso animado.

— Então quer ir conosco?

— Eu posso, mãe? — Beth fitou Shelby.

— Claro, querida. Você precisa ter contato com a Quinn. — Shelby alisou as madeixas da filha.

Beth optou por não mudar de roupas quando Quinn a elogiou de forma sincera, alegando que estava bela. Ela não diria em voz alta, mas gostava de ter a atenção da sua mãe biológica, mesmo que ainda se sentisse ressentida por não ter sido procurada.

— Eu... achei que não viria aqui. Achei que ia esquecer de mim outra vez. — Ela comentou ao se despedir da mãe e ir com Quinn até o automóvel.

Quinn parou de andar ao chegarem perto do carro e se agachou. Dessa forma, podia olhar Beth nos olhos.

— Eu nunca faria isso. Eu errei uma vez e não vou fazer de novo. Tudo está um caos porque o pai de Noah faleceu, e eu tive de organizar várias coisas por causa disso.

— Eu sei. O papai está bem atordoado. Ele nem brinca comigo direito. — Beth crispou os lábios.

— Eu vou brincar com você. Rachel vai brincar com você, e nós vamos brincar com Audrey. Mas há algo que precisa saber antes de entrar no carro.

— O quê? — Beth ficou curiosa.

— Audrey perdeu a visão quando tinha um ano.

— Ela... é cega?

— Sim, ela é.

Beth sentiu o peito apertar com isso. Nunca tivera contato com outras crianças cegas, mas sabia o quão difícil deveria ser. Não era uma garota boba.

— Eu quero ver ela.

— Tudo bem, mas eu posso ganhar um abraço antes?

Beth sorriu, e isso foi a confirmação que Quinn precisava, envolvendo-a com os seus braços e sentindo a cabeça dela no seu ombro esquerdo.

Ela aspirou os fios claros, inalando o cheiro do shampoo infantil de frutas. O cheiro da sua primeira filha.

Ambas passaram longos segundos naquele afeto. Quinn tentava matar a saudade que sentia, o que seria impossível, e Beth se deixava acalentar pelo conforto dos braços maternos de Quinn, repetindo internamente que ela era a sua mãe biológica e admitindo, sobretudo, mais uma coisa.

Quinn era muito gentil.

Quando elas entraram no veículo, Audrey foi comunicada da presença de Beth, que sorriu, embora a mais nova não pudesse ver. Ela achou incrível a cor dos olhos da garotinha. Eram muito claros, mas ainda havia uma coloração esverdeada, mesmo que não expressassem qualquer sentimento.

Audrey ergueu as mãos em um pedido mudo, e Beth aproximou o rosto quando Quinn assentiu, permitindo que a irmã a tocasse desde as sobrancelhas, passando pelas orelhas, maçãs do rosto, nariz, lábios e queixo. Era o modo como ela conhecia as pessoas e guardava os detalhes na memória.

— O nariz parece o da mamãe Q, e o meu também. — Audrey disse.

— Parece? — Beth a achou adorável, inteligente e incrivelmente linda.

— Parece. É igual, mamãe Q.

— Você é muito inteligente por saber disso, meu amor. — Quinn a elogiou, verdadeiramente impressionada com a percepção dela em decorar cada traço do rosto de quem tocasse. No entanto, omitiu o fato das duas serem irmãs. Talvez não fosse o momento. Não queria deixar Beth desconfortável e nem Audrey assustada. Eram informações demais para processarem, e aquele domingo seria apenas pacífico e divertido.

— Vamos?

— Vamos.

Rachel se manteve quieta depois de cumprimentar Beth docemente, deslumbrada pela interação das irmãs enquanto as observava. Audrey fazia indagações, tal como a idade, a cor favorita e o que Beth gostava de comer, explicando como tinha aprendido a distinguir as matizes, deixando Beth cada vez mais fascinada. Contudo, ela parou de falar quando uma nova música iniciou e começou a cantar como antes.

Para a surpresa de todos, Beth a acompanhou, e dessa vez Rachel não ficou calada. Apenas Quinn não exibiu a sua voz, resistindo até a esposa cutucá-la, extraindo uma risada e o canto rouco e suave.

No final, todas cantaram a discografia de O Mágico de Oz e repetiram a playlist, porque a energia presente no carro era tão aconchegante que não ousaram quebrar.

E o céu azul se mantinha firme acima delas.

Notas finais
*Nos Estados Unidos, são ensinadas sete vogais em algumas escolas: A, E, I, O, U, Y e W. Isso acontece por causa do som. O "Y", quando possui o som de "I", pode se tornar uma vogal, e o "W" se deriva da letra "U", então quando adota o som dela, pode ser considerada uma vogal também. No próximo, teremos a continuação desse dia em família. Espero que tenham gostado. Me deem o feedback. Favoritem também. É sempre importante. Bom final de semana para todos vocês. =D twitter.com/yasagron