Almas Afins
31 Capítulo 31 - Uma razão na loucura...
Notas iniciais
Quinn saiu pela porta dos fundos da delegacia após negar o pedido de Santana em acompanhá-la. Por mais que soubesse e agradecesse a sua preocupação, precisava fazer isso sozinha.
Walter, um dos primeiros policiais a quem ela tinha se afeiçoado quando ela foi contratada, estava fazendo a listagem dos armamentos apreendidos naquela semana no estacionamento e preenchia dados na prancheta que tinha em mãos.
Quinn se aproximou sutilmente.
— Ei, Walt. — Ela saudou.
— Quinn! — Ele abriu um sorriso. Também era jovem, e os cabelos escuros quase alcançando os seus olhos davam-no um ar de algum astro do pop dos anos noventa. — Como você está?
— Eu queria dizer que estou bem, mas esse caso novo está tirando toda a minha calma.
— Eu posso imaginar. Ninguém consegue falar em outra coisa que não seja esse maníaco obcecado pelos corações das vítimas. — Ele escreveu algo nos papéis que tinha em mãos. — Precisa de algo? — Indagou gentil.
— Na verdade, sim. — Quinn afundou as mãos nos bolsos da jaqueta. — Lembra quando eu o salvei daquela bala perdida?
— Como eu esqueceria? Eu poderia estar paraplégico agora mesmo se ela acertasse as minhas costas. Eu ainda não sei como agradecê-la por isso. — Ele sorriu outra vez.
— Então... eu não queria pedir alguma coisa, até porque eu não o salvei almejando nada em troca, mas agora preciso de um favor seu.
— Pode pedir. Vou tentar ajudá-la. — Walter focou a sua atenção na detetive.
— Esse assassino pode ir atrás da minha esposa, e eu tenho de protegê-la de alguma forma, mas eu preciso de armamentos necessários para isso, então...
— Você quer alguns desses aqui. — Walter complementou, apontando para o caminhão que estava abrigando-os.
Quinn assentiu, e ele suspirou, pensando por um momento.
— Por favor, Walter. Eu preciso muito disso. — Ela insistiu.
Ele a fitou, vendo como a loira parecia ter um desespero contido nos seus olhos inquietos, e por fim concordou.
— Você pode pegar, e eu irei riscar da lista como se eles nunca estivessem estado aqui.
Quinn sorriu diante da confirmação do amigo e o segurou pelos ombros gentilmente.
— Obrigada.
Os minutos seguintes foram gastos com Quinn procurando tudo o que era necessário. Ela pegou duas armas automáticas com silenciadores, uma menor de cilindro rotativo, um canivete médio e um taser. Alguns cartuchos e três caixas pequenas contendo balas foram guardados nos bolsos da sua jaqueta, assim como os demais armamentos após ela mostrar a numeração deles para que Walter os riscasse da lista. No final, saiu do caminhão ao lado dele.
— Obrigada. — Quinn agradeceu novamente.
— Não há de quê. Eu espero que consiga proteger a sua família, Quinn.
— Eu também espero, Walt. E não esqueça do aniversário da Audrey.
— Eu não vou esquecer. — Ele assegurou, e a detetive acenou antes de caminhar até o próprio carro.
Ela deixou parte dos objetos no banco do motorista e ligou o veículo, percorrendo as ruas movimentadas em consequência do horário noturno que estava começando naquele sábado. A maioria das pessoas pegavam a avenida principal para deixar a cidade.
Era exatamente isso o que Quinn estava fazendo.
Ela continuou o seu trajeto, e virou à direita quase duras horas depois, percorrendo a estrada OH-315 N que a levaria até a sua antiga universidade.
As luzes do prédio do dormitório masculino estavam acesas, e quando o carro foi devidamente estacionado, ela saltou para fora, sabendo para onde ir.
Garotos iam e vinham nos corredores com portas perfeitamente numeradas. Um pequeno quadro branco preso ao lado delas continham, em sua maioria, desenhos pornográficos, e ela rolou os olhos com isso. Algumas frases rabiscadas com fórmulas matemáticas também puderam ser vistas, mas isso não atraiu a sua atenção e sim o quadro com a caligrafia torta que abrigava uma citação de Nietzsche.
"Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura."
Quinn soltou uma risada e estava pronta para bater na porta quando ela fora aberta, revelando o rapaz negro de cabelo afro.
Ele sorriu e ajustou os óculos no rosto.
— Detetive Fabray.
— Quanta formalidade. — Ela não pediu licença, entrando no dormitório dele logo depois.
O quarto continuava exatamente igual. As paredes em um tom bege como o padrão da universidade estavam cobertas por quadros com criptografias, e os inúmeros monitores permaneciam ocupados por alguns outros jovens, que digitavam incessantemente.
— Já faz algum tempo. Está precisando de alguma coisa? — Ele fechou a porta e se aproximou dela.
— Estou. Eu quero câmeras de vigilância, mas quero as melhores e menores que você tiver. — Quinn respondeu.
O rapaz assentiu e caminhou até um dos seus armários, buscando algo lá dentro.
Dylan era um estudante da Universidade Estadual de Ohio há muito tempo. Quinn estava iniciando o curso de direito quando o conheceu na biblioteca. Tinham a mesma idade. Ele não se importava em ter o diploma, porque conseguia fazer pequenos trabalhos para alunos desesperados por notas dentro da universidade. Era errado, e a loira sabia disso, mas não o entregou quando ele jurou que nunca mudou o registro de ninguém no banco de dados, então apenas estudava esporadicamente, mexia nos seus equipamentos e acumulava dinheiro necessário para abrir uma pequena empresa quando saísse dali. Era um ótimo rapaz e possuía qualquer equipamento relacionado à tecnologia. Já havia frequentado a sua casa algumas vezes e conhecido Rachel e Audrey.
— Aqui está! — Dylan voltou segurando uma mochila em mãos e pegou uma pequena caixa retangular dali. — As menores câmeras de vigilância que você vai ver. — Ele a abriu, revelando câmeras que tinham o tamanho do seu dedo médio. Eram redondas e bastante leves. — Você só precisa conectá-las em uma fonte de energia, e a sua conexão wireless vai enviar os vídeos em tempo real para esse laptop. — Puxou o objeto de outro bolso da mochila. — E o melhor de tudo é que esse laptop tem conexão com as câmeras dos semáforos que envolvem o quarteirão da sua casa.
— Como você...? — Quinn o olhou surpresa.
— Eu fiz isso desde que a universidade começou a comentar sobre esse assassino, porque lembrei da Rachel e...
— E ela pode ser capturada. — A loira complementou, e ele assentiu com um sorriso triste. — Obrigada. — Foi sincera.
— Há câmeras e escutas aí dentro também. — Dylan apontou para a mochila. — Se quiser monitorar alguém, elas são excelentes, mas duram apenas algumas horas por usarem bateria.
— Onde você consegue tudo isso? — Mesmo sendo amiga dele por anos, Quinn ainda se surpreendia com aquilo.
— Eu tenho contatos. — Dylan brincou, mas encolheu os ombros diante do olhar da detetive. — Eu compro em uma loja por um preço razoável e revendo aqui. — Sorriu.
— Tudo bem. — Ela pegou a mochila. — Quanto eu te devo?
— Nada. É um presente.
— Dylan, não pode ser um presente. Eu posso pagar por eles.
— Já que você insiste, então eu posso ter uma arma?
— Claro que não.
— É só para defesa pessoal.
— Mude o curso para direito, se forme e faça todo o procedimento na polícia, então você terá uma arma.
Dylan bufou.
— Então continua sendo um presente.
Quinn tentou argumentar, mas não conseguiu, então se foi depois de recordá-lo sobre o aniversário de Audrey, pondo as alças da mochila sobre os ombros e saindo do prédio dos dormitórios.
...
Rachel mexia a colher de pau, sentindo o cheiro do molho ficar extremamente forte. Ela não podia prová-lo, então ia até Audrey, que estava sentada sobre o balcão da cozinha com Alice ressonando no seu colo, e a fazia experimentar.
— Está bom agora? Eu coloquei um pouco de sal. — Estava insegura quanto ao sabor da comida.
— Tá muito bom, mama Reichel. Eu posso comer mais? — A garotinha afagava os pelos escuros da gata.
— Quando a sua mãe chegar, e você tomar banho, nós vamos jantar, tudo bem? — A atriz desligou o fogão.
— A mamãe vai demorar muito? — Audrey pendeu a cabeça para o lado.
— Eu não sei, meu amor. Eu espero que não. — Rachel tentou não demonstrar preocupação. Santana havia dito tudo o que aconteceu e teve de segurá-la com Brittany quando quis ir até a casa de Shelby para espancar Noah. Ele não tinha o direito de falar de Audrey novamente, tampouco inventar mentiras alegando que havia ido para Nova York porque a filha era cega. Rachel nem mesmo sabia que ela tinha perdido a visão quando cometeu o pior erro da sua vida. E se soubesse, nunca a deixaria por isso. Audrey era a maior conquista que poderia ter. O fato de ser cega não a tornava um peso. Isso jamais aconteceria. Era apenas uma garotinha. Sua garotinha. Noah provavelmente queria apenas provocar Quinn e conseguiu. Rachel ficou totalmente preocupada quando a latina narrou o episódio da arma e o quão suscetível Quinn estava em apertar o gatilho. E então ela saiu da delegacia sem dizer aonde iria. Rachel não podia estar mais aflita. — Vamos tomar banho agora? — Afastou uma mecha do cabelo da filha ao vê-lo cair sobre o rosto dela.
— Eu quero esperar a mamãe. — Os lábios grossos da pequenina formaram um bico.
— Você pode esperá-la no sofá com o seu pijama extremamente confortável. O que acha? — Rachel a beijou no nariz.
Audrey ponderou por alguns segundos.
— Alice pode ficar comigo?
— Sim, ela pode. — A mãe sorriu amorosa.
— Então tá bom. — A garotinha se deu por vencida.
A gata ficou no chão quando Rachel foi para o quarto da filha enquanto a segurava nos braços e as seguiu rapidamente, subindo na cama e esticando as patas traseiras.
No banheiro, a judia dava banho em Audrey com a facilidade que já havia adquirido. Passava o sabonete líquido suavemente na pele pálida, colocava o shampoo delicadamente nos cabelos longos e lavava-os com paciência. Era estranho a lacuna que tinha na sua cabeça. Antes de ir embora, dava banho em um bebê de um ano. Agora, fazia isso com a sua filha de quase quatro. A ideia de ter uma criança dependendo dos seus cuidados parecia tão assustadora no ensino médio. Contudo, naquele instante, Rachel não poderia estar mais feliz ao sentir o amor que emanava do seu peito e no quanto adorava cuidar de Audrey. Amava o aroma suave que ficava quando o banho acabava, amava pentear os cabelos dela, amava quando ela tateava o seu rosto. Amava a filha em uma proporção que nunca seria explicada.
A atriz passou a secar os fios escuros lentamente após vestir a garotinha com o pijama azul-celeste estampado de girafas.
— Você quer a meia de ursinhos ou de gatinhos? — Rachel perguntou, terminando de secar as madeixas e indo até o armário.
— Gatinhos. — Audrey respondeu rapidamente. — Eles parece com a Alice, mama Reichel?
— Parecem, meu amor. — A judia a corrigiu de forma doce. — Eles se parecem sim com a Alice. Agora, eu vou colocar essas meias nesses pezinhos. — Voltou até a cama, segurando delicadamente os pés de Audrey. — Esse pezinho tem cinco dedinhos, e eu queria mordê-los um por um, porque estão tão cheirosos. — Aproximou o nariz da sola do pé pequeno, aspirando o aroma pós-banho e logo depois mordendo levemente a lateral, causando risos na filha. — E depois, eu queria fazer cócegas nesse corpinho pequeno. — Subiu as mordidas para a perna coberta pelo pijama, sorrindo ao ver Audrey se remexer sobre o colchão.
— Para, mama, para! — A pequenina pedia, gargalhando efusivamente quando Rachel atacou a sua barriga com cócegas.
— Quer mesmo que eu pare? — Rachel continuava o que fazia.
— Eu... quero! — Audrey ria cada vez mais, fazendo os seus olhos encolherem e suas bochechas ruborizarem pelo esforço. Ela apoiou as mãos nos antebraços de Rachel, e a mãe cessou o ato.
— Então você não prefere cócegas? Quer que eu continue mordendo esse pezinho lindo, então? — Rachel brincou, voltando a morder com uma força nula. Queria ouvi-la rindo outra vez. Era um dos seus sons favoritos.
— Não! — Audrey quase gritou, rindo outra vez por também sentir cócegas naquele local. — Eu quero... — Pensou por alguns segundos. — Quero um beijinho, mama. — Ergueu os braços.
Aquilo foi o suficiente para fazer o coração da judia acelerar e distribuir toda a sensação extasiante no seu interior. Era amor. Muito amor. Um amor indescritível. Sabia que deveria estar acostumada a senti-lo, mas não estava. Cada vez que Audrey a chamava ou a tocava, era um novo pulo que seu âmago sofria. Estava redescobrindo como ser mãe no decorrer dos dias. Havia trocado a fralda da filha inúmeras vezes anos atrás, assim como também a alimentou, mas agora ela já era maior. Falava e expressava as suas emoções.
— Eu vou dar quantos beijinhos você quiser, meu coração. — Rachel a puxou para o seu colo, beijando primeiro as mãos pequenas e logo depois enchendo o rosto dela de afeto.
Audrey sorriu largamente, mostrando todos os seus dentes de leite. Rachel sabia que quando começassem a cair, ela choraria pelo incômodo, principalmente porque não conseguiria vê-los, mas estaria pronta para mimá-la com Quinn e contar a história da Fada do Dente.
A atriz sorriu ao sentir a cabeça da filha no seu ombro.
— Mama Reichel... — Audrey chamou.
— Sim?
— Meus olhos são verdes?
Rachel abriu a boca, surpresa pela indagação da garotinha.
— Sim, eles são. Como você sabe disso?
— A tia Rêdein disse isso na aula ontem. — Audrey explicou. — Ela disse que vou aprender sobre as cores. O brócolis, aquela coisa que a mamãe faz eu comer, é verde também. E a grama do jardim da escola também é verde. — Segurou uma pequena quantidade do cabelo da mãe, brincando com a ponta dos fios. — Eu não sei como é a cor verde, mas a tia Rêdein disse que é bonita.
— Ela é bonita. — Rachel afirmou, sentindo os olhos marejarem diante da elucidação tão singela de Audrey. Sua filha estava começando a saber sobre as cores, e embora não gostasse de Hayden, sabia que ela era, de fato, uma professora empenhada.
Audrey continuou.
— A tia Rêdein disse que a mamãe também tem olhos verdes. E que são bonitos.
O ciúme foi tão inevitável quanto o revirar desconfortável no estômago com a sentença proferida pela garotinha. Rachel trincou a mandíbula. A raiva crescendo e tentando ser contida. Não podia expressá-la na frente da mais nova.
— O que mais ela falou? — A judia respirou fundo e afagou o rosto da filha, tentando fazer a sensação ruim passar.
— Ela disse que tudo o que a gente sente pode ser cores também. Eu amo a mamãe, então é vermelho, porque vermelho é a cor do amor. O morango também é vermelho, e eu adoro morango. — Audrey falava tudo em um tom baixo. — E ela falou que quando a gente gosta muito, a gente sente o rosto arder e ficar vermelho. É verdade?
— É verdade sim. Eu já senti muito isso. — Rachel sorriu, lembrando com bastante nitidez quando Quinn a fitava por um tempo longo demais no ensino médio. Isso a fazia corar constantemente.
— Sabe o que mais, mama Reichel? — A pequenina trouxe-a de volta para o momento atual.
— O que, meu amor? — Rachel passeava o polegar pelas maçãs salientes do rosto da filha.
— A tia Rêdein me contou um segredo. — Audrey praticamente sussurrou.
— Um segredo? — A curiosidade pareceu gritar dentro da atriz. Era algo intrínseco na sua personalidade. — Qual é esse segredo?
Audrey gesticulou, pedindo para que a mãe chegasse mais perto, e fechou a mão em concha no ouvido dela antes de falar.
— Ela disse que sente vermelho pela mamãe.
O corpo de Rachel retesou completamente ao ouvir o segredo de Hayden, e o ciúme voltou. Mais forte e mais intenso, subindo dolorosamente até atingir o seu coração e fazendo-o apertar. Eram reações negativas. Tão negativas que ela teve de procurar ar para não dizer algo que não queria. Hayden sentia vermelho por Quinn. Ela confessou explicitamente o que sentia. Para a sua filha.
— Eu não gostei. Eu não quero dividir a mamãe. A mamãe é só minha. — Audrey franziu as sobrancelhas em uma expressão frustrada.
— Você não vai dividi-la. Não vamos deixar, certo?
— Promete?
— Prometo. — Rachel a beijou na testa demoradamente.
O motor de carro foi ouvido primeiro por Audrey para apenas depois Rachel perceber que Quinn havia chegado. Ainda estava imersa nos pensamentos sobre Hayden e a sua coragem de dizer para Audrey que sentia algo que não devia.
— A mamãe chegou! — A garotinha tentou pular da cama, mas Rachel foi rápida ao segurá-la.
— Devagar, meu bem. — A mãe advertiu. Não queria vê-la cair. — Vamos lá. — Ajustou-a no seu colo para que pudessem ir até a sala de estar.
Quinn já estava no cômodo quando ambas chegaram. A mochila na sua mão foi a primeira coisa percebida por Rachel.
— Mamãe! — Audrey chamou, e a loira sorriu. Um sorriso que transmitia uma saudade que sentia e um alivio por chegar na sua residência e encontrar o seu bem mais precioso.
— Oi, minha estrela. — Quinn caminhou até a esposa, pegando a filha e a abraçando. — Eu senti sua falta.
— Eu também senti. Você demorou, mamãe. — Audrey tateou o rosto da mais velha, redescobrindo os detalhes do rosto dela com a palma da mão.
— Me desculpe, meu amor. A mamãe estava tão ocupada. Eu prometo que amanhã vamos ficar juntinhas. — Quinn pincelou o nariz da pequenina com o seu.
— Promete?
— Prometo.
Audrey grudou os braços ao redor do pescoço da detetive.
— Eu quero te mostrar a Alice, mamãe.
— E eu vou vê-la, mas eu preciso tomar um banho agora, então você pode me esperar aqui com a Rachel? Sua mamãe está cheirando mal. — Quinn brincou.
Audrey riu.
— Você não tá cheirando mal, mamãe.
— Tem certeza? Eu juro que estou sentindo um aroma ruim no ar. Talvez seja a Rachel. — A loira migrou os seus olhos para a morena, que sorria vendo a interação de Quinn com a filha.
A judia pôs a mão sobre o peito, fingindo uma expressão ofendida ainda que a garotinha não pudesse enxergá-la, mas ainda assim Audrey gargalhou.
— Eu acho que a mama Reichel também precisa tomar banho.
— Eu estou cheirando muito bem. — Rachel se defendeu.
— Eu duvido um pouco disso. — Quinn falou divertida.
— Lucy Quinn, eu sempre fui cheirosa.
Quinn sabia disso. Sabia muito bem. Adorava aspirar o cheiro da pele ou dos cabelos da mais baixa sempre que estavam juntas. Era algo vicioso, e gostava do aroma de pêssego do seu óleo corporal. Era inebriante, tanto quanto ela.
As reminiscências foram afastadas quando a loira balançou a cabeça. Ela deixou a filha no sofá depois de beijá-la na testa e foi para o próprio quarto segurando a mochila que trouxera sem trocar outras palavras com Rachel.
Ela voltou momentos mais tarde trajando calça moletom e um suéter parcialmente grosso. Estavam quase adentrando novembro, e o outono substituindo o verão, portanto a temperatura começava a cair durante a noite. Agora, o aquecedor era usado com mais frequência.
Audrey ficou eufórica para mostrar Alice à mãe, e Quinn se contagiou pela animação da garotinha. Rachel colocava a mesa do jantar após também tomar banho e vestir uma calça de flanela e a camiseta grande da OSU que pegou de Quinn há quase quatro anos.
Alice era bela e carinhosa, a loira notou isso quando ela simplesmente se aconchegou sobre as suas coxas. Era um filhote de Bombaim. Seus pelos eram incrivelmente macios, e seus olhos quase beirando o dourado a fizeram se lembrar de Schatten. Era como a sua versão felina.
Entretanto, o seu modo afetuoso não contribuiu para privá-la da crise de espirros que sofreu logo depois, seguido do nariz congestionado. Rachel logo a entregou o remédio para alergia, responsável por diminuir os sintomas.
— Desculpa, mamãe. — Audrey pediu cabisbaixa, constatando na sua mente de três anos que Quinn estava doente por causa de Alice.
— O que houve, meu amor? — Quinn tirou a gata do seu colo para que Audrey ocupasse aquele lugar. Ela continuou com a cabeça abaixada.
— A senhora tá doente.
— Oh, meu amor. Eu não estou doente. Eu só tenho um pouco de alergia. — A detetive se sentiu mal por ver a filha triste.
— O que é alergia?
— É um probleminha que eu tenho quando chego perto de gatos. Eu espirro muito, como você acabou de ouvir, e fica um pouco difícil respirar pelo nariz, como quando estamos gripadas, mas é só tomar remédio que passa. — Quinn explicou, abraçando-a.
— Passa mesmo?
— Sim, passa mesmo.
Audrey voltou a ficar animada gradativamente e narrou tudo o que havia feito na casa de Hiram e Leroy durante o jantar, mencionando o piano várias vezes. Estava mesmo gostando do instrumento musical.
— Rachel, isso está incrível! Foi você quem fez? — Quinn perguntou, devorando com afinco o frango caseiro.
— Sim, eu fiz. — Rachel sorriu.
— Eu provei o molho, mamãe. — Audrey disse. Estava sentada no colo da loira e abria a boca esporadicamente para receber a comida.
— Então você foi uma ajudante espetacular. — Quinn beijou o topo da cabeça da filha. — Está muito bom. — Dessa vez, ela direcionou um sorriso sincero para a esposa, o que a fez sorrir automaticamente, fazendo todo o jantar valer a pena.
Audrey não ficou com ambas no sofá por muito tempo como sempre fazia recentemente, porque o sono a assolou quinze minutos depois.
Quinn ainda insistiu para que ela ficasse acordada um pouco mais para que a comida pudesse fazer a sua digestão, mas isso aconteceu por pouco tempo.
Ela foi levada para o quarto nos braços da detetive, com Rachel logo atrás, e Alice chegou por último, buscando conforto nos pés da cama.
Quando as mães se despediram corretamente da garotinha com beijos carinhosos, elas foram para a cozinha, e o silêncio se instalou enquanto lavavam e secavam as louças.
— Vermelho. — Rachel se pronunciou.
— O quê? — Quinn franziu o cenho.
— Você sabia que a Hayden sente vermelho por você? — A judia largou o pano em cima da pia.
— Sim, eu sabia. Audrey me contou ontem à noite. — Quinn respondeu com a calma que Rachel odiava quando estava com ciúme.
— E você não tem nada a dizer sobre isso?
— Eu estou em um caso onde o assassino está solto em qualquer lugar de Ohio. Isso é o que mais me preocupa no momento. Não quero saber sobre sentimentos agora.
— Então o que ela sente por você não importa?
— Importa no fato onde ela é a minha amiga e uma ótima pessoa. Mas no momento, não mais do que isso.
— No momento? O que você quer dizer com isso? — Rachel estava começando a se irritar. Ainda sentia ciúme.
— Quero dizer que ela vai me dizer o que sente em algum dia, e eu preciso ter uma resposta para ela. Até lá, eu estou concentrada em achar esse serial killer.
— E o que você pensa em responder?
— Eu não sei, Rachel. Tudo ainda é recente. Ainda dói. Ainda está vivo. — Quinn suspirou. — Os meus sentimentos estão em primeiro lugar. Eu preciso me colocar em primeiro lugar nessa situação.
Rachel aquiesceu. Quinn estava certa.
— Você gosta dela? — A judia temeu ouvir o que Quinn responderia, mas precisava ouvir, mesmo que isso pudesse quebrá-la completamente.
— Você acha que eu gosto dela? — A detetive devolveu a pergunta.
— Eu acho que você ainda se arrepia quando eu a toco e que ainda se sente agitada quando eu chego perto. — Rachel caminhou até a mais alta, apoiando a mão propositalmente na sua barriga. — Eu acho que ainda há uma Rachel no seu coração, assim como há uma Quinn no meu, vívida e me lembrando do amor que eu sinto.
Maldita seja Rachel e a sua capacidade de conhecê-la. Quinn sentiu a respiração engatar quando ela mexeu os dedos no seu abdômen. Eram reações explosivas. Reações que achava ter matado quando a judia foi embora, mas agora retornavam para seu lugar de origem.
O conselho de Brittany invadiu a cabeça da morena, e talvez aquele fosse o momento. Talvez devesse parar de hesitar e beijá-la como havia feito no quarto de Audrey semanas atrás. Talvez agora não fossem interrompidas. Tudo estava ao seu favor naquela casa silenciosa.
E Rachel fez.
Ela agarrou a nuca da esposa com uma mão e enroscou o outro braço ao redor da cintura dela, puxando-a para um beijo desesperado.
Quinn a correspondeu segundos depois.
Aquele beijo não pararia por ali, e elas sabiam disso.
Enquanto sentia o corpo entrar em combustão, Quinn se lembrou da frase escrita no quadro ao lado da porta do quarto de Dylan.
Era loucura estar indo para o seu quarto com Rachel, sabendo exatamente o que iriam fazer. No entanto, havia uma razão para isso.
A razão era a sua vontade de tê-la inteiramente depois de dois anos. E a razão movida pelo coração vinha sempre acompanhada de mais. Muito mais.
Algo que ela sabia o que era.
Só não pensaria nisso agora.
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