Almas Afins

8 Capítulo 8 - Abandonar não é uma opção...


Notas iniciais
Dia de capítulo! Eu gostaria de agradecer à Lia, vulgo Haydeé. Meu bem, eu já disse várias vezes que sua forma de transmitir esse carinho por mim me emociona. E não é mentira. Suas palavras são tocantes e me enchem de alegria. Obrigada pela recomendação. É tão importante para mim. ♥ Espero que gostem e desculpem-me qualquer erro. Boa leitura. =D

— O quê?! — David virou o rosto para encará-la, surpreso pela ordem que recebeu.

— Vamos segui-lo. — Quinn repetiu.

— Você ficou maluca? — Santana indagou, se inclinando para ficar entre os dois bancos da frente. — Vamos até o endereço que recebemos. As outras viaturas já saíram do nosso campo de visão. Ligue o carro, Dave.

— Nós vamos segui-lo! — Quinn falou um pouco mais alto. — Ele quer nos mostrar alguma coisa.

— Ele é um corvo, Q. Deve ter ficado curioso depois de quase ter sido atropelado. Vamos logo. — A latina rebateu.

— Dave. — A loira fitou o amigo. — Siga-o. Por favor.

O modo como Quinn o olhava fez com que ele pensasse por alguns segundos e por fim assentiu, resignado.

Santana bufou e cruzou os braços, afundando novamente o corpo no banco traseiro.

— Se nos demitirem, eu mato você, Fabray. Tenho uma filha pequena, e esse salário já não é alto o bastante.

Quinn não respondeu e apenas observou com atenção a ave escura, que sobrevoava na frente da viatura, vez ou outra dobrando em alguma esquina. Sua mente estava focada demais nas sensações desconfortáveis que atravessavam o seu corpo à medida em que o animal se movimentava para ponderar o quão fora da realidade aquilo estava sendo.

Quando o automóvel estacionou na frente de uma casa branca com janelas azuis, Quinn não perdeu tempo e saltou para fora a tempo de ver o corvo voar até o telhado e pousar sobre a chaminé. Ela não esperou os amigos e começou a andar, subindo os poucos degraus da varanda e batendo na porta de entrada. Nada. Ela cogitou tentar outra vez, mas soube que ninguém iria recebê-los no instante em que o cheiro fétido invadiu o seu olfato.

— Como os vizinhos não sentiram esse cheiro? — Ela ouviu a voz de Santana, virando a cabeça para fitá-la.

— Ele não está tão forte. Pelo menos não aqui fora.

Ambas se afastaram da porta, e Quinn a chutou, fazendo o trinco romper e ela se abrir bruscamente. O que se seguiu foi uma mistura de sensações. Surpresa, confusão e a ojeriza latente pelo odor que intensificou rapidamente.

A loira usou a camiseta sobre o nariz, tentando poupá-lo de respirar aquele ar podre por mais tempo. Todavia, ainda assim ele se manteve forte.

Isso não a impediu de entrar na casa.

Santana parou ao lado da amiga, mas sentiu o corpo congelar assim que seus olhos pousaram sobre o interior da sala de estar.

Havia um corpo. Um único corpo caído no carpete. O sangue estava espalhado por todos os lados, principalmente nas paredes e no sofá branco, criando um contraste tétrico. E como se isso não bastasse, o peito da vítima continha um vazio, exatamente onde deveria estar o coração.

Quinn ainda estava estática, e sua mente agora trabalhava incessantemente para processar toda aquela cena. Não é como se fosse uma detetive inexperiente que nunca houvesse visto casos horrendos. Ela os viu. Viu tantos que perdeu a conta, mas esse era diferente. Começando pelo corvo e chegando até aquele oco recheado de sangue seco no tórax do homem sem vida.

Sua atenção foi desviada até a parede, onde havia uma frase escrita em escarlate que com certeza não foi feita com tinta vermelha.

ABANDONAR NÃO É UMA OPÇÃO!

...

A voz melodiosa de Rachel ecoava na cozinha com direito ao coro de fundo protagonizado pelos casal Berry. Era a primeira vez que se sentia leve ao cantar desde a última música desempenhada enquanto ainda estava grávida de Audrey. Depois que o arrependimento se fez presente ao abandonar a família, não havia cantado sem sentir um peso enorme no peito. Mas ali, na casa dos pais, tudo era diferente.

A judia tinha chorado por quase quarenta minutos antes de Hiram e Leroy decidirem esquecer todo aquele sofrimento momentaneamente, iniciando assuntos mais suaves enquanto praticamente obrigavam-na a comer. Após isso, fizeram mais um dos seus passatempos favoritos, que consistia em cantar enquanto lavavam a louça juntos. Era algo simples, mas que rendia ótimas risadas entre eles.

Quando a performance acabou, Rachel fingiu uma reverência ao som das palmas dos pais e se virou para secar outro prato, mas a vertigem que sentiu a fez soltar o objeto, que se fragmentou em vários pedaços assim que atingiu o chão.

Não demorou muito para sentir os braços de Leroy ao seu redor, e o arrepio que cortou a sua espinha a fez se encolher contra o peito dele.

— Rach, o que está sentindo? Fale comigo.

— Eu só... — Ela respirou fundo enquanto tentava focar a visão. — Acho que a minha pressão está baixa, pai, só isso.

— Leve-a para o quarto, Roy. Ela precisa descansar. — Hiram disse.

O marido assentiu e passou o braço atrás das pernas da filha, segurando-a no colo.

— Não precisa. Eu estou bem. Foi apenas uma tontura. — Rachel tentou ir para o chão, mas Leroy a impediu.

— Isso significa que você precisa de um descanso. Vou colocá-la na cama e então poderá dormir um pouco. — Ele foi firme.

A atriz sabia que não havia como contestar, então apenas aquiesceu e apoiou a cabeça no ombro do pai, automaticamente se sentindo protegida o suficiente para desejar nunca mais sair daquele afeto.

Quando Leroy a acomodou delicadamente sobre o colchão macio e a cobriu com a grossa coberta depois de retirar os seus sapatos, Rachel se permitiu soltar um suspiro.

— Você pode trazer a minha bolsa? Eu deixei no andar inferior.

O pai assentiu e saiu do quarto, voltando minutos depois com a bolsa de ombro. Rachel procurou rapidamente o próprio celular dentro dela, buscando o nome de Quinn nos contatos. Não havia telefonado para ela durante dois anos, embora sentisse vontade a cada minuto em que esteve fora, e não sabia se o número tinha sido trocado. Ainda assim, a tentativa de iniciar a ligação foi efetuada. Estava preocupada e não sabia ao certo o porquê. A vertigem repentina poderia se dar ao fato de não ter ressonado tranquilamente à noite, mas não era isso. Ela sentia que não.

Um, dois, três, quatro toques até cair na caixa postal, ouvindo a voz de Quinn pedindo para deixar uma mensagem após o sinal. Isso fez o seu coração ricochetear dentro do peito, acompanhado de outro arrepio desconfortável. A judia tentou mais algumas vezes, porém sem sucesso. Estava começando a ficar nervosa.

— Está sentindo mais alguma coisa? — Leroy questionou após alguns minutos.

— Não. — Ela mentiu, olhando o celular como se ele pudesse tocar a qualquer momento. — Só estou com sono.

— Durma um pouco. Você precisa disso.

— Obrigada, pai.

Leroy plantou um beijo delicado na testa da filha antes de sair, e ela logo se virou na cama, fitando a mesa de cabeceira e não evitando sorrir. O porta-retratos exibia a fotografia do baile de formatura do terceiro ano. Quinn estava linda. Na verdade, não há um momento sequer onde ela não esteja bela, mas Rachel adorava vê-la em um vestido de baile. E aquele, em especial, era estonteante. O lilás com alças de pedrinhas brilhantes moldava o corpo esguio perfeitamente, contrastando com o da judia, em um tom mais claro, quase beirando o bege. Estavam felizes, com sorrisos iluminados no rosto e o abraço amoroso mostrava que era uma foto de casal.

A judia trouxe o objeto para perto, passeando a ponta dos dedos pelo rosto da loira na imagem. Queria voltar para aquele dia. O modo como dançaram, riram e festejaram com os amigos foi tão especial. A nostalgia durou tempo suficiente para que sentisse outra onda de arrepios, fechando os olhos com força.

— Eu amo muito você, Q.

...

Quinn ainda tentava assimilar a descoberta recente de que o chamado feito para a polícia era falso. Tinham falado com um dos policias e agora esperavam as viaturas chegarem.

O chamado falso, juntamente com o corvo, aquele olhar penetrante e sombrio e os arrepios no corpo formavam um conjunto estranho.

— Eles estarão aqui em breve. O endereço informado na denúncia era do outro lado da cidade. Uma distância considerável. Vão demorar um pouco. — David quebrou o silêncio. — Enquanto isso, acho melhor iniciarmos.

Santana fitava a loira intensamente. A sua própria cabeça tentava entender o que havia acontecido.

— Você está bem, Q? — Ela indagou preocupada.

— Eu não sei. — Quinn suspirou. — Isso foi estranho. Parecia que aquele corvo...

— Aquele corvo é bem bizarro. Ele realmente queria que nós o seguíssemos. — David interrompeu a amiga.

— Mas ele olhava diretamente para a Quinn. — Santana retrucou. — De qualquer forma, nós devemos agradecê-lo por ter nos guiado até essa casa. O corpo ainda está no começo da decomposição e até alguém sentir o cheiro ou decidir vir até aqui, alguns dias já teriam passado.

— Mas o que aconteceu hoje... — Quinn começou. — Vocês... vão contar....

— Não vamos contar. — A latina falou rapidamente. — Fica apenas entre nós três, tudo bem? — Fitou David.

— É claro. Nós jamais contaríamos isso, Q. — Ele sorriu gentilmente. — Eu vou buscar os equipamentos. — Saiu da casa.

— Obrigada. — Quinn agradeceu.

Santana apenas assentiu e caminhou até chegar um pouco mais perto do corpo.

— Isso é horrível. Levaram o coração dele.

— Tudo isso é uma mensagem. — Quinn também se aproximou. — A frase na parede e a falta do coração. Mas o que poderia ser?

A latina pensou por longos segundos, e David retornou para a residência com as maletas e a sua câmera. Ambas pegaram os seus materiais e enquanto colocavam as luvas, David começou a fotografar tudo.

Quinn ainda o orientava para capturar os melhores ângulos de qualquer possível pista e estava procurando resquícios de matéria orgânica quando Santana se agachou ao lado do corpo. A boca do homem estava entreaberta e aquilo despertou a sua curiosidade.

— David, registre isso. — Ela pediu.

O fotógrafo forense assim o fez, capturando a imagem do rosto da vítima em uma distância próxima.

A latina abriu lentamente a boca do cadáver depois disso, e usando a pinça, retirou delicadamente um pedaço de papel daquele lugar.

— Quinn, veja isso. — Ela se levantou.

Quinn, que analisava o peito do homem, parou o que fazia para se aproximar da amiga, acompanhada de David. Santana desdobrou o objeto com cuidado.

Era uma fotografia. Composta por quatro pessoas. A vítima foi a primeira a ser reconhecida ali, sorrindo ao lado de uma mulher, que também aparentava estar feliz. Havia dois garotinhos. Cada qual sendo segurado por um dos adultos.

Uma família.

Santana virou a foto. No verso, escrito em letras garrafais, estava a mesma frase da parede.

ABANDONAR NÃO É UMA OPÇÃO!

— Isso está ficando mais estranho a cada segundo. — David disse.

Antes que alguém pudesse responder, um estrondo foi ouvido no andar de cima.

Quinn ouviu o próprio instinto, que a fez correr após jogar o par de luvas que usava no chão e sacar a arma do coldre da sua cintura logo em seguida. O assassino poderia ter voltado até a casa.

Ela pôde ver apenas uma silhueta masculina passando pela janela ao adentrar o único quarto com a porta aberta e não hesitou em segui-lo, atravessando o lugar por onde ele saiu e observando-o descer pela árvore. Não foi difícil espelhar os seus movimentos, mas ao contrário dele, que caiu e rapidamente se levantou, ela atingiu o chão perfeitamente, passando a correr atrás do indivíduo que ocultava o rosto com o capuz do casaco.

Eles continuaram correndo por mais alguns minutos, até que o homem desconhecido virou à esquerda, entrando em um beco.

Quinn continuou seguindo-o, parando de correr quando o viu de costas para si e apontando a arma na direção dele.

— Mãos na cabeça. Agora. — Ela ordenou.

O homem se virou lentamente. A barba cheia e a cicatriz na lateral do rosto ajudavam-no a adotar uma aparência intimidadora.

— Acho que não, gatinha. — Ele sorriu em sarcasmo. — Você viu o meu rosto e não pode sair daqui. — Deu um passo à frente.

— Eu mandei colocar as mãos na cabeça! — Ela elevou o tom de voz. — Não me faça pará-lo.

O sorriso do sujeito vacilou, porém voltou, dessa vez mais largo. Ele não sorria mais para a loira e sim para outra pessoa.

Quinn só teve tempo de sentir a chave de braço no seu pescoço. O susto fez com que apertasse o gatilho e a arma disparasse, atingindo a barriga do homem na sua frente. Ele soltou um grunhido de dor e caiu no chão enquanto apertava o local que jorrava uma quantidade grande de sangue.

— Eu vou matar você, sua desgraçada! — O outro indivíduo cuspiu as palavras, aumentando a força com a qual segurava a detetive e pegando a sua arma.

Foi uma questão de segundos para que Quinn o atingisse com uma cotovelada, fazendo com que se curvasse e tivesse o seu rosto acertado em cheio contra o seu joelho. O sangue vertia do nariz do desconhecido, e ela aproveitou a oportunidade para tentar recuperar a sua arma, mas ele foi mais rápido e a jogou para o outro homem, que ainda tentava conter o fluxo de sangue da própria barriga.

O sujeito alto e robusto apertou o nariz, colocando-o de volta no lugar após cuspir um pouco de sangue no chão.

— Quer resolver as coisas assim? Eu não me importo em bater em mulheres, principalmente em detetives. Depois que eu deformar esse rostinho lindo, vou pegar aquela arma novamente e descarregá-la em você. — Ele sorriu.

— Pode vir então, seu pedaço de merda. — Ela ergueu as mãos em punhos.

O homem alargou o sorriso e avançou sobre Quinn.

A loira contra-atacou o soco desviado, acertando-o no estômago e o deixando com dificuldade para respirar. Ela não esperou um segundo sequer para chocar o seu punho no rosto largo incontáveis vezes.

Suas mãos doíam, e a face do homem estava ganhando uma coloração avermelhada, mas isso não o impediu de segurá-la pelo pescoço e jogá-la no asfalto sujo.

A loira grunhiu em dor ao sentir o primeiro chute na sua barriga, seguido de socos no seu rosto quando o indivíduo se curvou, fazendo com que uma trilha de sangue saísse de seu supercílio. Ele se levantou novamente, pronto para continuar com os chutes, mas ela acertou o osso logo abaixo do joelho dele, onde sabia que quebraria.

E não foi diferente. O homem gritou de dor e caiu no chão. Quinn se ergueu com dificuldade, mas logo o som de tiro foi ouvido. Ela sentiu o braço queimar, e o furo na sua jaqueta denunciou que havia sido baleada. O sujeito que segurava a arma tremia consideravelmente. A força se esvaindo do seu corpo.

— Quinn! — A voz de Santana ecoou no local, e ela logo estava ao lado de Quinn com vários policiais, que foram até os dois homens. — Eu vou chamar uma ambulância. — Fisgou o celular do bolso.

— Vocês demoraram. — Foi a única coisa que Quinn falou, retirando a jaqueta lentamente e vendo o sangue sujar a sua camiseta. — Foi só de raspão. Droga! Eu gostava dessa jaqueta. — Lamentou.

— Você está brincando comigo? Poderia ter acontecido algo mais grave! Eu só não acerto o seu rosto porque ele já está machucado. — Santana bronqueou.

Quinn suspirou. Sabia que deveria ter esperado a latina. Ela era a sua parceira. Entretanto, não podia arriscar perder qualquer informação que poderia obter sobre o assassinato recente. Seus olhos fitaram os dois homens sendo algemados e logo sentiu alguém se aproximar.

David encarava a amiga com a expressão contorcida em preocupação.

— Está tudo bem. Você já me viu em um estado pior. — Ela sorriu, mas gemeu de dor quando sentiu a boca latejar.

— Mas eu ainda me preocupo. — Ele rebateu, envolvendo-a em um abraço delicado.

Embora fosse uma situação de risco, a loira adorava a adrenalina que sentia na sua corrente sanguínea sempre que se aventurava daquela forma. Era exatamente assim que Russel descrevia os seus casos quando ainda era uma garotinha. No entanto, aquilo também a fazia pensar em Audrey. Se algo pior acontecesse, com quem ela ficaria? Ela não queria deixar a sua garotinha órfã, mas também não podia largar a sua profissão. Adorava solucionar crimes e ajudar qualquer pessoa.

Quinn suspirou, sentindo a emoção do momento deixar o seu corpo e fazendo-o esmorecer consideravelmente.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Um assassinato misterioso. Uma mensagem que precisa ser decifrada. O que acham que pode ser? Me deem o feedback, expondo suas opiniões. Bom final de semana. =D twitter.com/yasagron