Almas Afins
7 Capítulo 7 - O corvo...
Notas iniciais
O chá intocado já esfriava na mesa de centro, e o choro de Rachel, juntamente com a melodia da música da Barbra Streisand, ecoavam simultaneamente na sala de estar da casa dos Berry.
Bastou entrar na casa e ouvir aquele som nostálgico fazendo par com o aroma do chá de camomila para que ela pudesse desabar. Sentia falta daquela casa e, sobretudo, falta dos pais. Hiram foi o primeiro a notar a movimentação conhecida e quando chegou no local, se deparou com a filha chorando no sofá.
O pranto intensificou assim que ela sentiu os braços do pai envolvê-la e não disse uma palavra, mantendo apenas a cabeça contra o peito dele enquanto soluçava ininterruptamente. Leroy se juntou aos dois alguns minutos depois, e estavam na mesma posição por quase uma hora.
Hiram aspirou o cheiro da cabeça de Rachel e suspirou minimamente, tentando controlar os batimentos frenéticos do seu coração. Ela havia deixado uma saudade gigantesca, fazendo com que tentasse, ao lado do marido, suprir a saudade que sentia, embora fosse impossível. A amavam incondicionalmente.
Contudo, o que ela fizera ainda estava marcado na memória e no peito do casal Berry.
— Beba o chá, estrelinha. Vai fazer bem. — Leroy tentou outra vez. A voz doce e amorosa.
O lenço de tecido foi usado novamente para secar as lágrimas que ainda faziam o seu caminho até o queixo da judia, atingindo e manchando o suéter de Hiram.
Rachel se afastou um pouco para que pudesse se sentar, aceitando a xícara que Leroy oferecia em seguida.
O primeiro gole foi pequeno, diferente do segundo e do terceiro. O chá ainda continuava deliciosamente doce, ainda que não estivesse tão quente quanto antes. Ele conseguiu acalmá-la, tendo como ajuda os dois pais preocupados, que se mantinham solícitos como se a qualquer momento Rachel pudesse desabar novamente.
Quando a xícara esvaziou, Hiram a tomou das mãos da filha e a pôs na mesa de centro. Agora, somente o som da voz da Barbra Streisand podia ser ouvido, e a morena fechou os olhos, tentando não chorar outra vez. A canção de letras dolorosas a fez se lembrar de Quinn e de quando tudo estava bem. De quando passavam horas conversando sobre o futuro e sobre o que fariam juntas. As viagens, as realizações, os aniversários de casamento. Tudo foi discutido por ambas, acompanhado da promessa de que estariam uma ao lado da outra para sempre. A melodia penetrava tão forte no seu peito que foi impossível não sentir a água salgada escorrer rapidamente dos seus olhos. Aquele passado encantador não voltaria. Ele ficaria no mesmo lugar, apenas como uma parte importante da sua vida, mas que não podia ser trazido de volta.
— Rachel? — A voz de Leroy a trouxe novamente para o momento atual, e ela piscou algumas vezes enquanto o fitava.
— Sim? — Inquiriu, ainda um pouco aérea. A voz estava baixa e rouca.
— Você quer que nós paremos a música? — Dessa vez foi Hiram quem perguntou, secando novamente a face da filha.
— Não, não precisa. — Ela maneou a cabeça em negação. — Eu adoro esse álbum. É o meu favorito.
— Tudo bem. — O Berry mais alto sorriu ternamente. — Você quer conversar agora?
— Vocês... — A judia fungou. — Vocês acreditam que eu estou arrependida, não é?
— Nós acreditamos, Rach. — Leroy respondeu. — Conhecemos você para saber que todo esse choro carregado de dor é a consequência do arrependimento, mas você sabe que não somos nós quem precisamos ser convencidos disso.
— Eu sei. — Ela assentiu lentamente. — Mas eu não sei o que fazer, pai. Eu não sei qual caminho tomar agora. A Quinn mal olha para mim, a Audrey, minha Audrey, ela... ela perdeu a visão, e eu não pude estar aqui. Eu me sinto tão enojada. Eu sinto como se não fizesse mais parte da minha própria família.
— E você não faz, Rachel. — Hiram respondeu de imediato. — Quando você decidiu partir, automaticamente abriu mão da sua maternidade e do seu matrimônio. Você abriu mão de qualquer coisa que construiu aqui para moldar a sua carreira em Nova York, mas as coisas em Lima não pararam. Bom... Quinn parou por um tempo. Ela mal saía da cama e só reagiu quando Audrey apresentou os sintomas do retinoblastoma. Depois disso, tudo começou a andar novamente. Ela aprendeu a ser mãe solteira, porque a sua esposa não estava mais lá. Você não estava mais lá. Eu perdi a conta de quantas vezes eu tive de impedir o seu pai de ir até Nova York para brigar com você. Não se deixa uma família da forma como você deixou, Rachel. E eu quase permiti que ele fosse, mas não seria certo, porque da mesma forma que você tomou a decisão de ir, você deveria tomar a decisão de voltar por conta própria. Vamos sempre estar aqui, mas você não é mais uma garotinha e precisa arcar com as consequências da sua irresponsabilidade de cabeça erguida.
Lá estava Hiram, sendo o homem complacente, versado, sincero e ao mesmo tempo firme que precisava ser. Ele sempre tinha as melhores palavras e as melhores decisões. Leroy não ficava atrás, mas sempre deixava o marido falar primeiro. O Berry mais baixo sabia que o marido diria exatamente o que ambos pensavam mutuamente.
Rachel apenas assentiu. Os olhos estavam fixos no chão e as lágrimas aparecendo outra vez, formando pequenos círculos molhados no seu vestido quando molhavam o tecido. Ela sabia que o pai estava certo, mas era tão difícil manter a cabeça erguida quando o que ela mais desejava era subir para o seu antigo quarto e permanecer sob as grossas cobertas enquanto passava horas expelindo toda a sua dor através do choro. Ela nunca foi tão forte a ponto de conseguir engolir prantos sôfregos demais e por isso admirava tanto a força de Quinn desde o ensino médio. A forma como ela encarou a gravidez, os olhares e o ato de entregar a sua filha para Shelby. Toda aquela situação faria Rachel desabar, mas Quinn Fabray não fraquejou. Ela andou pelos corredores exibindo a sua barriga saliente e retornou ao seu posto de capitã das Cheerios como se não houvesse dado à luz no ano anterior. E todas as vezes em que Rachel se pegou observando-a durante essa transição, Quinn permaneceu de cabeça erguida, fitando qualquer pessoa que ousasse encará-la com um olhar gélido e cortante.
Rachel não era assim. Ela se abalava facilmente, chorava e deixava transparecer as suas fraquezas. Exatamente como um cristal. E até gostava daquilo, porque ajudava nas suas performances. O sentimento latente que conseguia mostrar profundamente fazia qualquer pessoa se emocionar ao vê-la cantar. No entanto, ela também odiava, porque desde o seu retorno para Lima, tudo o que fizera foi chorar na maioria das vezes. Talvez o único momento em que não havia fraquejado tenha sido pela manhã, porém estava desabando agora, longe do olhar de Quinn.
Leroy tomou a palavra.
— Nós amamos tanto você, Rachel, e foi tão doloroso quando Russel e Judy vieram aqui e nos informaram sobre o que houve. Eu senti raiva, porque não foi assim que criamos você. Essa não é a atitude da nossa garotinha. Nós passamos meses tentando nos convencer de que tudo aquilo era apenas uma síncope dramática e que você voltaria dias depois, mas quando os meses passaram... — Ele fez uma pausa. — Hiram permaneceu acreditando na sua volta enquanto eu já tinha desistido, e no momento em que você ligou para dizer que não voltaria até se tornar uma diva da Broadway, nós nos culpamos muito. Nós a incentivamos desde o seu nascimento a almejar os palcos de lá, mas não sabíamos que a ambição faria isso com a sua família.
Rachel ouvia tudo enquanto ainda fitava um ponto aleatório da sala de estar. Ela tentava controlar as lágrimas, mas quanto mais fazia força para prendê-las, mais elas saíam. Era doloroso para os pais vê-la nesse estado. O que mais queriam era dizer que tudo ficaria bem, mas era impossível. Nenhum deles colocariam a mão na cabeça de Rachel. O que ela tinha feito não era um erro que poderia ser consertado com um pedido sincero de perdão, tal como quando mandou aquela garota das Filipinas, Sunshine Corazon, para uma casa de crack ativa ou quando forjou as eleições do grêmio estudantil para ajudar Kurt. Esse erro não poderia ser esquecido facilmente, porque uma mágoa não se apaga assim, e ambos sabiam o quanto Quinn sofreu e o quanto ainda sofria com o abandono.
— Eu não me senti feliz quando pisei nos palcos da Broadway. — Rachel disse, tentando manter a voz audível. — Eu não me senti completa nem quando Barbra me abraçou e disse que estava orgulhosa por terem escolhido uma Fanny Brice perfeita. Eu chorei naquela noite assim como chorei em todas as outras, porque eu estava sozinha. Quinn não estava lá, Audrey não estava lá, vocês não estavam lá. Eu realmente tento entender todos os dias como pude ter ido embora, mas não consigo. Eu quis voltar. Eu juro, eu... eu quis voltar, mas eu não podia quebrar o contrato. Eles me fariam pagar uma multa enorme e eu tenho certeza de que tirariam tudo o que estivesse no meu nome, incluindo a conta bancária que eu divido com a Quinn e a nossa casa. Eles não pensam em nada quando alguém descumpre um compromisso daquele tamanho e talvez aquilo tenha sido a primeira parte do meu castigo. — Ela enxugou o rosto avermelhado com o lenço que Hiram segurava há poucos minutos. — Eu queria voltar, mas estava presa a um pedaço de papel. É como se a vida estivesse me dando o que eu aparentemente sempre quis e quando eu passei a não querer mais, eu não podia me desfazer daquilo. Mas se eu pudesse voltar no tempo, jamais teria saído de casa. Eu me sinto tão sufocada com esse erro e sinto como se nunca pudesse me perdoar. — Ela respirou profundamente, tentando não explodir em lágrimas. — Se fosse o contrário, eu nem sequer deixaria a Quinn entrar em casa como ela deixou ontem. E é por isso que eu a amo tanto. E a Audrey. Ela está tão linda. Ela... — O final da frase não conseguiu sair, porque o choro voltou com força.
O corpo da judia tremia, e Hiram não segurou as próprias lágrimas, puxando a filha para os seus braços.
Rachel agarrou firmemente o suéter do pai, tentado sentir o conforto dele o máximo possível. Ela queria falar tudo o que sentia e exteriorizar a sua dor como podia, mas talvez chorar fosse a melhor opção no momento.
— Pode chorar, estrelinha. — Hiram afagava as madeixas escuras. — Chore tudo o que tiver para chorar. Deixe toda a dor sair nas lágrimas. Eu estou aqui.
— Eu quero ser uma mãe para Audrey. — Ela disse. A voz abafada em razão do seu rosto estar sendo pressionado contra o ombro de Hiram. — Eu quero tanto, papai.
— Eu sei, meu amor. Eu sei que quer. — Ele segurou o rosto da filha entre as mãos, mantendo um contato visual. — Algumas tempestades parecem impossíveis de enfrentar, mas há sempre uma forma de vencê-las. Há sempre uma forma de fazer com que elas parem e que o sol se abra novamente. Procure essa forma. Não desista. Seja a nossa garotinha outra vez.
Rachel aquiesceu várias vezes, se jogando nos braços de Hiram outra vez enquanto Leroy passava a mão nas suas calmamente, exatamente como fazia quando ela era apenas uma criança e adolescente.
A música que ecoava na sala de estar já havia mudado novamente, e Rachel focou na letra da canção, deixando a sua mente voar novamente até Quinn. O amor podia realmente sobreviver quando não havia restado mais nada por parte da detetive?
Rachel só tinha certeza de que a amaria. A amaria pelo resto da sua vida. Amaria Quinn mesmo se não pudesse mais receber o seu amor de volta.
...
— Eu não acredito que você está defendendo a ManHands! — Santana cruzou os braços enfurecida.
— ManHands de novo? Seu estoque está ficando limitado. — David brincou enquanto observava toda a situação.
— Eu posso falar mil palavras em espanhol agora se você não calar a boca! — Ela apontou para o grandão, que sorriu. Ele adorava deixar a latina irritadiça.
— Eu não estou defendendo ninguém aqui, Santana. — Quinn disse. — Mas violência não resolve nada.
— Tem certeza? Então por que eu me senti tão bem em bater naquela fracassada? Acho que resolveu algumas coisas que eu esperei anos para resolver.
— Por mais que passemos a maior parte do nosso dia resolvendo casos violentos, eu não gosto disso, Santana, e tornar a minha casa um local de brigas está fora de cogitação.
— Então tire-a de lá. Isso vai eliminar o risco de acidentalmente a minha mão se chocar contra ela outra vez.
— Ela não quer sair. — Quinn retrucou.
— E desde quando isso é um problema, Q? — A latina arqueou as sobrancelhas. — Eu posso ir com você e juntas obrigamos ela a sair de lá. — Disse em um tom óbvio. — A não ser que você a queira morando na sua casa.
— Eu não a quero morando lá. — A loira sentou na sua cadeira giratória. — Eu não a odeio de verdade, acreditam? Eu posso ter odiado por alguns meses e quando ela voltou ontem à noite, mas agora eu sinto um incômodo sempre que chego perto dela. Um incômodo porque talvez eu ainda a ame. E eu sim me odeio por isso. Eu revivo todos os momentos que passamos juntas. — Ela engoliu o nó na garganta. — Nós nos casamos e tivemos uma filha linda. Eu achei que fôssemos ficar juntas para sempre. Mas... o que eu fiz de errado?
Quando Quinn apoiou os braços nos joelhos e escondeu o rosto entre as mãos, Santana sabia que ela estava chorando. Aquilo a fez sentir o próprio coração pesar.
— Você não fez nada, Q. — A latina respondeu com a voz suave, se aproximando e se agachando perto da amiga. — Você é uma pessoa linda de todas as formas, e a Berry tinha tanta sorte de ter você. — Segurou o rosto da loira, expondo a face vermelha com os olhos molhados. — Ela não merece nada de você, porque o seu coração é bondoso. Você vive para fazer o bem às pessoas. — Sorriu confortante.
Era aquele lado de Santana pelo qual Brittany se apaixonou, David pensou, enquanto se juntava à amiga e abraçava Quinn com força. A Pierce-Lopez se mostrava o oposto quando via alguém que amava aos pedaços e por mais que esses momentos fossem raros, era interessante admirar como ela podia ser doce.
A Fabray apoiou a cabeça no ombro de David, deixando todas as muralhas no chão e aproveitando o abraço afetuoso que recebia.
— Eu acho que tenho culpa nisso. — O tom de voz era quebrado.
— Culpa? — David quebrou o abraço, segurando os ombros de Quinn gentilmente. — Você não tem culpa de nada, Q. Nada. Ouviu bem?
— Eu deveria ter percebido que ela não estava feliz. Que aquela história de inseminação era algo apenas para suprir o vazio que ela sentia por não ter realizado o sonho de NYADA. — Ela fungou, limpando o rosto com a manga da jaqueta.
— Você não deveria perceber nada, Q. — Santana disse de forma segura. — Ela deveria ter conversado como qualquer ser humano faria. E mais do que isso, ela poderia ter esperado. Você falou incontáveis vezes que talvez pudessem se mudar para Nova York quando se formasse na universidade. Se ela fosse paciente, você se formaria e iria encontrar um bom emprego lá. Ela iria fazer o que quisesse naqueles palcos e ambas estariam juntas, mas você sabe que Rachel Berry sempre foi ambiciosa. Isso nunca vai mudar.
— Você acha que ela vai embora outra vez?
Santana suspirou e encarou David antes de voltar os seus olhos para os verdes tristes da ex-capitã das Cheerios.
— Eu espero sinceramente que não, Q.
Quinn ia responder, mas batidas na porta interromperam o momento, fazendo-a se recompor rapidamente enquanto ouvia o chamado de um policial sobre um novo caso de um possível assassinato em uma residência.
O que mais a surpreendeu não foi o fato de haver alguma morte, afinal esse era o seu trabalho, mas sim a situação fatídica ser naquela região. Normalmente, os chamados eram sempre em Akron ou Cincinnati. Por serem cidades maiores, era mais comum. Lima era pacata demais e raramente havia algum assassinato. Isso despertou não só a curiosidade de Quinn, como também a de Santana e David, que iria sempre com as amigas para fotografar e guardar todas as coletas de provas.
Algumas viaturas já saíam do estacionamento quando eles chegaram até a área externa da delegacia, então rapidamente entraram em um dos veículos. David tomou o volante, enquanto a loira estava acomodada no carona. Santana permaneceu na parte de trás sozinha.
Quinn recostou a cabeça no banco do veículo no mesmo instante em que sentiu um ar frio atingir o seu rosto, fazendo o seu corpo inteiro se arrepiar com a sensação incômoda que o assolou.
— Vocês sentiram isso? — Ela indagou. — Esse ar frio?
— Ar frio? — Santana franziu o cenho. — Eu estou derretendo com esse calor, Q. Ligue o ar-condicionado, Dave.
Quinn passou as mãos pelo rosto. O incômodo continuava e estava começando a irritá-la.
— Está tudo bem, Q? — David mantinha os olhos na estrada.
— Está. É só que... — A frase foi interrompida quando uma ave bateu contra o vidro da viatura.
— Droga! — O fotógrafo forense praguejou, antes de pisar fundo no freio.
O carro derrapou levemente antes de parar bruscamente, e Quinn sentiu o seu corpo ser arremessado para frente, sendo segurado pelo cinto de segurança.
— Puta merda! O que diabos foi isso? — Santana mantinha a respiração descompassada.
— Um... um corvo? — David abriu a boca surpreso.
Quinn não disse nada. A ave se mantinha parada no capô do carro. Aparentemente estava bem e olhava-a atentamente, como se pudesse ler a sua alma. Novamente o arrepio atravessou a sua espinha, e ela fechou os olhos com força, abrindo-os segundos depois apenas para observar o corvo se erguer do veículo, batendo as asas enquanto iniciava voo, mas mantendo uma altura que pudesse ser observado.
Quinn entendeu o que ele queria
— Vamos segui-lo.
Fale com o autor