Almas Afins
49 Capítulo 49 - Riscos...
Notas iniciais
Quinn assentiu lentamente, puxando uma cadeira para que pudesse se acomodar. Santana a imitou.
Warren respirou fundo. Ainda conseguia sentir a corda ao redor do pescoço. Como se estivesse invisível. A sensação era extremamente incômoda. Nunca tinha pensado em suicídio antes, mas o peso da culpa de ter feito uma série de erros durante a sua vida parecia sucumbi-lo cada vez mais, levando-o ao ponto em que mal conseguia se olhar no espelho. Tinha errado com Candice, com Kevin, com Joshua. Nunca foi um bom amigo, tampouco um bom pai. Na sua opinião, toda a sua trajetória até aquele atual momento era um erro, e sentia o fardo da própria existência. Sabia que o assassino o perseguiria se descobrisse que Kevin não abandonou Candice e não queria morrer através das mãos dele. Não daquela forma. Então arquitetou tudo.
Suas mãos tocaram a pele sensível do pescoço, e Warren podia afirmar que provavelmente estava avermelhada também. Não sabia se ficava feliz ou triste por estar vivo, mas sabia, sobretudo, que se estava tendo a oportunidade de olhar para as duas detetives na sua frente, deveria contar tudo o que sabia.
— Eu acho que uma parcela considerável da vida de Kevin foi apagada por minha causa. — Ele disse. A voz rouca e lenta.
— Por que você acha isso? — Quinn indagou.
— O gaslighting é um abuso psicológico muito sutil. Você pode vê-lo ser aplicado em situações pequenas, como quando uma das partes de um casal quer reverter toda a culpa de alguma discussão para a outra pessoa. Mas se não for detectado e parado, ele pode se tornar um vício e tomar proporções gigantescas. É mais comum acontecer com mulheres. Toda a autoestima e percepção sobre as coisas é colocada em dúvida até o ponto em que ela não tem mais noção do que é real e do que acredita ser real. — Warren respirou um pouco antes de continuar. — Mas não há um padrão de uso para esse abuso psicológico. Ele pode ser usado em qualquer pessoa, e eu usei em Kevin durante muito tempo.
— Por que você sentiu necessidade de usar esse abuso no Kevin? — Santana estava verdadeiramente curiosa.
— Eu nasci em Rhode Island, mas me mudei para a Dakota do Sul quando fui aceito na universidade estadual de lá. Eu gostava de morar naquele lugar. Conheci Candice Cooper no final da minha graduação. Namoramos por dois anos até ela descobrir que estava grávida e eu ser a pior pessoa do mundo afirmando que não queria estar presente na vida daquela criança. Eu nem mesmo cogitei a possibilidade de tentar ser um pai. Pedi transferência para uma outra delegacia e me mandaram para Ohio. Eu sempre enviei dinheiro para que Candice pudesse arcar com as despesas do bebê, mas ela nunca usou um centavo sequer. Eu sempre entendi o porquê. Fui terrível com ela. Três anos depois, conheci Vivien. Joshua nasceu algum tempo depois. Pela primeira, vez eu tentei ser pai, mas nunca fui bom o suficiente. Sempre pensei em Candice e no nosso filho, mas eu não podia voltar para Dakota do Sul, então permaneci em Lima. Vivien morreu pouco tempo após o nascimento de Joshua. Eu acho que foi um castigo por ter abandonado uma mulher grávida, mas eu não aprendi completamente com os meus erros e conheci Kevin quando Joshua estava prestes a fazer dez anos. Kevin era gentil, e todos gostavam dele. Ele também era o mais cotado para subir de cargo no departamento, e eu o invejava. Como pessoa e como policial. Mas me tornei o melhor amigo dele. A pessoa que sempre ouvia qualquer segredo, inclusive o segredo dos corvos, então eu o insultei terrivelmente com isso em uma discussão que tivemos, e ele começou a duvidar da própria sanidade. Eu podia ver nos olhos dele sempre que algum corvo se aproximava. — Warren suspirou. — Eu achava que Kevin iria abandonar o emprego, mas isso não aconteceu, então comecei a desestabiliza-lo ainda mais. Eu queria saber até que ponto podia fazê-lo duvidar de si mesmo. Comecei a embaralhar cada memória de conversas que tivemos, inventando novos diálogos. Quando ele dizia que não se lembrava de ter dito algo, eu rebatia e gerava uma confusão desastrosa. Toda a minha história com Candice virou a história de Kevin com Candice. Ele era tão suscetível a isso que o gaslighting se tornava fácil demais de ser aplicado. Porém, nem mesmo isso o fez sair do emprego. Quando o nosso superior o elogiou honrosamente, eu contei a todos sobre os corvos. Foi o fim da reputação de Kevin. Ele virou o louco dos corvos e não suportou os olhares, se fechando internamente e se mudando para aquele casarão velho. Eu não tive contato com ele desde então, e o resto vocês já sabem.
— Deus. — Quinn sentiu o estômago embrulhar. Warren sempre foi mais do que um chefe na sua vida. Era como um amigo. Desde que descobriu sobre os abusos que fez com Kevin, ela tinha tentado pensar como a mente dele poderia ser tão vil a ponto de esquematizar toda uma técnica abusiva para alguém que não merecia aquilo, mas a raiva e a repulsa atingiram um limite extremamente incômodo ao ouvir toda a história.
— Kevin não teve nada concreto desde que o conheceu. Ele morreu achando que tinha abandonado alguém. Ele morreu com culpa e com incertezas. Tinha tanta incerteza que nem mesmo achou estranho não ter o número e o endereço de Candice. Ele acreditou em tudo o que você disse e foi vítima do assassino. — Santana se levantou. Estava terrivelmente sufocada. Ela já tinha tido contato com assassinos antes, mas a violência psicológica era algo que a assombrava. Embora não tivesse machucado alguém fisicamente, Warren machucou e matou a mente de um inocente.
— Eu sei. Eu fui um ser humano horrível. Eu sinto a culpa se revirar dentro de mim e deveria ter tentado reverter todo o mal que causei, mas apenas ignorei tudo, como sempre fiz.
Quinn crispou os lábios, segurando algumas lágrimas que queriam verter dos seus olhos. Kevin foi tão gentil quanto Warren o descreveu na juventude. Queria ter tido a oportunidade de conversar com ele sem todo aquele caos, mas nunca conseguiria, assim como talvez não conseguisse solucionar o questionamento dos corvos. Poderia ser amiga dele. Ele poderia ter tido uma nova chance de viver sem o peso do abuso que sofreu, mas aquilo tudo foi arrancado bruscamente. E ele nem mesmo era uma vítima real do assassino.
— Você merecia estar lá no necrotério agora. — Quinn também se ergueu. — Você deveria estar naquela mesa fria. Não o Kevin. Ele nunca machucou ninguém.
— Acha que não sei disso? Acha que gosto de estar aqui contando tudo para vocês? Toda a minha ruína como pessoa?
— Essa ruína só aconteceu porque você é um merda! — Quinn aumentou o tom de voz. — Você é baixo, mau e nunca deveria ter se tornado policial. Só fez mal para todo mundo.
— Quinn, fale baixo. — Santana pediu. — Não podemos ser expulsas daqui. Eu também estou com raiva, mas se exaltar não vai adiantar agora.
Quinn assentiu enquanto respirava fundo. Sentia a raiva desmedida crescer como fogo dentro no seu interior.
Warren não ousou rebater o que Quinn dissera. No fim das contas, era tudo verdade. Nunca tinha feito realmente algo bom para alguém a não ser prender bandidos, mas sabia que ele mesmo deveria ser preso por ter usado um abuso psicológico perverso.
— E a Hayden? O que sabe dela? — Santana continuou a conversa.
— Hayden veio até mim quatro anos atrás alegando ser minha filha. Eu não precisei fazer um teste de DNA, porque ela era como Candice aos vinte e quatro anos. Era nítido. Ela não quis uma reaproximação. Somente conhecer o homem que fez a mãe dela sofrer. Não mantivemos contato.
— Ela se apresentou como Hayden Fairbanks?
— Sim.
— Isso é muito estranho. — Quinn murmurou, mergulhando em alguns pensamentos.
Warren podia ver na expressão delas o motivo pelo qual estavam confusas.
— Querem saber o porquê de ela não ter usado o sobrenome da mãe, certo? Acham que ela pode ser a responsável pelas mortes?
— Não acho que seja ela, mas precisamos solucionar a questão do sobrenome.
— Eu gostaria de ajudar, mas não posso elucidar isso. Eu contei tudo o que sei.
— O meu pai acobertou você sobre isso?
— Não. Russel nunca soube a história completa. Ele só soube que fiz Kevin duvidar da própria sanidade e encerrou a nossa amizade depois disso.
Quinn soltou um suspiro de alívio. Ela não gostaria de pensar que o pai estivera envolvido em algo tão sórdido. A traição que cometeu e o filho que pediu para Margo abortar já deixavam-na nauseada.
Ela não fez mais perguntas. Santana também não. Warren foi sincero, mas não era a peça principal disso tudo. Solucionaram somente parte do problema. O problema que envolvia Kevin. A confirmação de que ele nunca abandonou alguém não tinha serventia alguma agora que ele estava morto. No entanto, saber que o serial killer não sabia da verdadeira história talvez confirmasse que as informações que ele possuía não eram tão precisas quanto achava que era. Ele tinha errado, e se errou uma vez, poderia errar de novo.
Ambas saíram do Centro Médico Mercy Health St. Rita's perto das duas da tarde.
— Vamos para a escola Shawnee agora?
— Precisamos ir. Eu só espero que Hayden nos fale a verdade e que não esteja envolvida com essas mortes. — Quinn prendeu o cinto de segurança, dando partida logo em seguida.
O trajeto até a instituição foi rápido. O carro parou no estacionamento do local cerca de vinte minutos depois.
Hayden não parecia surpresa ao ver as duas detetives. Ela apenas sorriu suavemente quando as avistou paradas na porta da sala de aula, continuando a falar sobre texturas. Sua voz era calma e tranquilizante. As professoras assistentes se encarregavam de colocar uma série de objetos sobre o carpete no qual as crianças estavam sentadas.
Quinn abriu um sorriso involuntário ao ver Audrey tão compenetrada em tatear um pedaço de algodão. Sabia que aquela aula era importante. As crianças não podiam ver, mas deveriam sentir e identificar o que estavam tocando. Hayden era boa no que fazia.
Ela não se aproximou da filha. Naquele instante, o que mais precisava era falar com a mulher que talvez guardasse algum segredo importante.
Hayden chamou uma das professoras assistentes, deixando-a encarregada da sala de aula, e saiu logo depois.
— Vamos?
Quinn e Santana não responderam. Apenas a seguiram até a sala dos professores vazia. Todos os docentes estavam ocupados ministrando aulas.
A porta foi fechada.
— Aceitam um pouco de café? — Hayden perguntou educadamente.
— Não, obrigada. — Quinn respondeu. — Nós viemos aqui para falar sobre um assunto que pode ser importante, mas eu acho que você sabe disso.
— Vieram aqui para falar sobre o meu sobrenome, certo? — Hayden caminhou até a cafeteira. — A minha mãe me ligou há algumas horas e disse que duas detetives entraram em contato com ela. Queria saber se cometi algum erro.
— E você cometeu algum erro? — Santana arqueou as sobrancelhas.
— Algum erro como estar envolvida com esses assassinatos? — Hayden despejou uma colher de açúcar na xícara de café. — Acham que eu faria algo assim?
— Não podemos afirmar algo se não nos contar. Você faria algo assim? — Santana rebateu.
Hayden se virou e encarou as duas mulheres na sua frente. O sorriso ainda estava brincando no seu rosto. Os lábios perfeitamente pintados com um batom claro se abriram para que pudesse bebericar do café.
— Quando eu era criança, minha mãe nunca falava do meu pai. — Ela depositou a xícara ao lado da cafeteira. — Ela detestava quando eu perguntava algo sobre ele. Alegava que não era relevante. No entanto, eu sempre quis saber sobre o homem que a fazia ter uma aparência estilhaçada sempre que eu insistia nos questionamentos. O estopim aconteceu no momento em que, em um ato impensado, eu entrei no e-mail dela e li os textos de um tal de Warren Morton. Ele dizia que sentia muito sobre tudo o que fez e também falava sobre uma quantia de dinheiro mensal. Eu não aguentei guardar segredo sobre essa descoberta, e nós brigamos terrivelmente. Foi quando ela finalmente me contou tudo o que houve. Eu nunca senti tanta raiva e nojo em toda a minha vida, mas ainda tive vontade de conhecê-lo. Era uma ferida aberta. Então me mudei para Ohio depois de concluir a faculdade e consegui esse emprego. Eu não tinha um plano antecipado para me aproximar dele, mas adotei o sobrenome do meu padrasto, Henry Fairbanks. Eu achava que poderia conhecê-lo de alguma forma fortuita, mas eu simplesmente joguei para o alto e falei de quem era filha. Eu não consegui manter contato com ele. Eu não queria. Não conseguia, então depois disso nunca mais o vi ou falei com ele.
Quinn assentiu. A história fazia sentido. Ela observou Hayden apoiar o corpo no balcão. Poderia estar envolvida de algum modo com aqueles assassinatos? Era fácil demais criar uma história a respeito do próprio sobrenome. Talvez não quisesse ser suspeita quando as mortes começassem. Ser filha de alguém que foi abandonado tão cruelmente poderia fazê-la sentir uma mágoa tão profunda a ponto de querer se vingar daqueles que cometiam os mesmos erros?
Entretanto, não poderia afirmar algo sem provas, e Hayden parecia extremamente disposta a responder qualquer indagação. Estava fazendo mais do que deveria, já que não precisava se expor. Ela tinha o direito de permanecer em silêncio.
— Acham que mudei meu sobrenome para não ser uma suspeita? Acham que tenho uma ferida que não foi cicatrizada e agora sou a responsável por todas as mortes? Acham que tenho um porão na minha casa onde levo as minhas vítimas e tiro o coração delas? Ao mesmo tempo em que passo o dia inteiro nessa escola?
— Nós duvidamos de qualquer pessoa nesse momento, e a questão do seu sobrenome levantou suspeitas sobre ser cúmplice de tudo. — Foi Santana quem respondeu.
— Eu seria tola em dizer que vocês estão malucas, porque também iria ficar receosa, mas não sou a culpada. Vocês podem perder tempo tentando achar algo na minha história ou podem se direcionar para algo mais concreto.
E o que seria algo mais concreto? Quinn se perguntou, suspirando levemente. Não sabia ao certo para onde ir. Sabia que precisava proteger Natalie Goodhart e ainda tinha de organizar o jantar de comemoração do aniversário de Rachel. Sam precisava ir, e Elaine precisava invadir a casa dele para coletar alguma amostra biológica para fazerem o teste de DNA. E antes disso, precisavam falar com ela. Porém, tudo estava inconstante. Não sabia se o serial killer realmente mantinha olhos fixos em Natalie e quais direções os federais estavam tomando naquele instante. Estavam chegando em um ponto onde não podiam mais agir sem riscos. E Quinn odiava riscos.
— Eu espero que entenda que não podíamos evitar falar com você sobre isso. E sentimos muito. — Quinn apressou em dizer.
Hayden não parecia chateada ou magoada. Ela apenas sorriu. O sorriso lépido, sincero e conhecido.
— Apenas peguem esse assassino. Eu odeio ver como todos estão assustados com isso.
As detetives assentiram e se despediram, mas Quinn se virou antes de sair.
— Warren tentou se suicidar hoje de manhã. Talvez você devesse visitá-lo no hospital. Ele está no Mercy Health St. Rita's.
Hayden se assustou com a notícia. Ainda que não nutrisse sentimentos positivos sobre Warren, saber de uma tentativa de suicídio era algo extremamente frágil. Não sabia como ele deveria estar para chegar a esse ponto, mas a curiosidade de vê-lo e falar com ele a assolou.
Quinn não tinha o direito de falar sobre isso. Era pessoal demais, mas talvez pudesse fazer as coisas se encaixarem minimamente.
Ela saiu da sala dos professores com Santana depois disso. Estavam chegando no corredor que as direcionava para a saída da escola quando uma voz conhecida preencheu o ambiente quase vazio.
— Quinn? Santana?
Rachel caminhou até elas. Estava com a aparência cansada. Quinn entendia. Não conseguia dormir serenamente sem calmantes. Ainda estava se recuperando da cena grotesca que viu. Ela ainda achava ser uma má ideia voltar a trabalhar tão cedo, mas não iria contestar mais do que já fizera.
— Oi, Berry. — Santana a cumprimentou. — Eu vou esperar lá no carro. Podem conversar. — Se retirou.
— O que estavam fazendo aqui? — Rachel perguntou depois que Santana se afastou.
— Nós viemos falar com Hayden sobre um assunto específico.
— Eu posso saber qual o assunto? É sobre os assassinatos? Ela pode estar envolvida? Oh, meu Deus, Quinn! — Rachel abriu a boca levemente. Estava começando a pensar rápido demais, como sempre fazia.
— Não, Rachel, não. Ela não está envolvida com os assassinatos. É um assunto mais pessoal. Envolve Warren também. São coisas mais familiares. — Quinn se apressou em acalmá-la.
— Warren?
— Sim. Descobrimos que Warren é pai biológico de Hayden e ele tentou suicídio hoje de manhã.
— Ele... suicídio. — Rachel cobriu a boca com as mãos. Não conseguia evitar se sentir mal por pensar que alguém estava sentindo uma dor tão grande daquela forma. — Ele está se recuperando?
— Está. Talvez Hayden vá visitá-lo.
Rachel aquiesceu.
— E ela é filha dele.
— Ela é.
— Meu Deus. As coisas parecem se aninhar como um punhado de fios cada vez mais.
Quinn concordou. Tudo parecia um fio fazendo nós em outros fios. Queria contar para Rachel que esses fios estavam mais conectados do que ela pensava, mas não podia falar sobre Sam. Poderia colocar tudo a perder.
— Seu aniversário está chegando. — Ela mudou de assunto. — O que acha de fazermos um jantar esse final de semana na casa dos seus pais? Podemos chamar alguns dos nossos amigos.
— Você acha que existe clima para fazermos isso?
Não, Quinn não achava, mas precisava do jantar.
— Acho que podemos tentar.
— Tudo bem, então.
Elas conversaram um pouco sobre como estava sendo o dia de Rachel. Ensinar piano para as crianças a acalmava, e Quinn era grata por isso. Por fim, elas se despediram quando o sinal tocou, indicando o intervalo da tarde.
— Nos vemos à noite.
Rachel se adiantou em plantar um selinho demorado nos lábios finos da esposa. Sempre aproveitaria qualquer oportunidade de grudar a boca na dela, e sorriu quando a viu ficar momentaneamente constrangida.
Quinn saiu da escola, caminhando até o estacionamento e entrando no seu carro. Santana estava concentrada no celular.
— Você acreditou na história da Hayden? — Ela guardou o aparelho eletrônico.
— Precisamos acreditar. Não temos provas do contrário.
— E para onde vamos?
— Vamos nos arriscar.
— Do que está falando?
— Temos o endereço da Natalie. Precisamos ir até ela.
— Não podemos ir. Ele pode estar vigiando.
— E se não estiver? Se Sam for o serial killer e blefou sobre estar sempre de olho nela?
— E se Sam for o serial killer mas tiver cúmplices que realmente estejam de olho nela?
— Vamos mesmo parar para discutir agora?
— Você me chamou de irresponsável por ter tido aquele plano de proteger Kevin há algumas semanas, mas você está parecendo irresponsável agora. Não temos um local seguro para levar Natalie. Não podemos simplesmente aparecer lá, falar com ela e a deixarmos sozinha para ser capturada.
— E o que devemos fazer? Permanecer de braços cruzados enquanto o tempo passa?
Santana não respondeu. Não sabia o que responder. Não queria ficar parada, mas não podiam arriscar a vida de Natalie.
No final, elas decidiram somente dar uma volta ao redor do quarteirão onde ela morava para que pudessem averiguar se tudo estava aparentemente calmo.
...
Quando o carro virou à esquerda na rua Baxter e adentrou a rua Elm, elas puderam ver outro veículo estacionado próximo da casa que deveria pertencer à Natalie.
— Droga! — Quinn esbravejou. Natalie não poderia estar morta. Não poderiam ter chegado tarde demais.
Ela estacionou e logo saltou para fora ao lado de Santana, mas foram paradas ao tentarem se aproximar da porta da residência.
— Quem são vocês e o que querem?
A voz era grossa e dura, combinando perfeitamente com o homem alto com braços que poderiam ser comparados com pedaços de concreto tamanha rigidez. Vestia calça, camisa de botões e coturnos. Todos pretos.
— Somos detetives do Departamento de Polícia de Lima. Estamos aqui para falar com Natalie Goodhart. Onde ela está? — Quinn perguntou após mostrar o distintivo.
— Eu sou o agente especial Nick Adams. Sou do FBI. Natalie nos contatou hoje mais cedo para falar sobre o assassino, e estamos aqui para garantir que ele não vai pegá-la.
— Ela está bem? — Santana indagou.
— Está, mas está muito assustada.
— Podemos falar com ela?
O homem pensou por alguns segundos antes de abrir um sorriso que parecia forçado aos olhos de Quinn.
— É claro. — Ele se adiantou em abrir a porta para elas.
Natalie estava no sofá. As pernas balançavam fervorosamente, e as mãos apertavam as próprias coxas. Estava nitidamente nervosa. Havia uma mulher ao lado dela. As roupas eram escuras e semelhantes às do agente especial Nick.
— Natalie? — Quinn se aproximou com Santana.
Natalie a fitou. Os olhos eram claros, assim como os cabelos e pele. Era bastante parecida com Frannie.
— Detetives. — O tom da voz dela era uma mistura de aflição e contentamento.
— Você está bem? Por que contatou os federais?
— Estou, eu só... não consegui esperar uma resposta e fui diretamente no departamento. Eu soube que eram eles quem estavam cuidando de tudo, então pedi ajuda.
— E por que parece tão amedrontada? — Santana se pronunciou.
— Eu estou assim desde que tudo aconteceu. Não consigo dormir direito, mas agora sei que tudo vai ficar bem porque.... porque os agentes do FBI vão me ajudar. — Natalie abriu um sorriso pequeno.
O rosto dela estava levemente molhado pelo suor, e as pernas não paravam de balançar. A mulher até então desconhecida, que não se apresentou, estendeu uma mão para apoiá-la na coxa de Natalie.
Ela cessou o movimento instintivamente.
— Vamos colocar câmeras na casa, e alguns policiais irão ficar vigiando tudo.
— Tudo bem. — Quinn assentiu, mas não tirou os olhos de Natalie.
— Nós agradecemos a visita, mas vai tudo vai ficar bem. Natalie vai ficar bem. — Nick forçou o sorriso outra vez.
Elas entenderam aquilo como um pedido para que se retirassem e assim o fizeram. Sabiam como o FBI era. A maioria dos agentes sempre pareciam estar de péssimo humor. Não foi diferente dessa vez.
Ao retornarem para o carro, Quinn não deu partida.
— Você sentiu aquilo?
— Você quer dizer todo esse sentimento estranho a respeito deles? Sim, eu senti. — Santana respondeu. — Mas sempre sentimos isso quando falamos com os federais.
— Mas agora foi diferente. — Quinn manteve as orbes presas na casa de Natalie. — Há algo errado.
— O que pode estar errado? Acha que eles não são federais?
— Talvez devêssemos pedir para que apresentem os distintivos.
Antes que Santana pudesse responder, seus ouvidos foram preenchidos pelo crocitar que já conheciam.
Schatten pousou ao lado de Munin no capô do veículo, fitando as duas mulheres. Isso foi o suficiente para que Quinn o encarasse de volta.
Santana odiava olhá-los, mas fixou a atenção neles quando a amiga não pestanejou por longos segundos, mirando a atenção logo depois na residência. Os corvos fizeram o mesmo.
— O que foi isso?
— Nós precisamos voltar para a casa.
Como se soubessem o que Quinn respondeu, as duas aves bateram as asas, voando até o topo da casa de Natalie. Ali, eles crocitaram incontáveis vezes.
Isso pareceu atrair a atenção de Nick, que saiu da casa e olhou para cima. Após isso, ele fitou o carro onde as detetives estavam.
Nick acenou. O sorriso forçado surgiu novamente, mas ele logo entrou.
— Vamos entrar. — Quinn disse.
Elas precisavam se arriscar. Se eles fossem federais de verdade, descobririam. Não podiam simplesmente ir embora.
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