Almas Afins

42 Capítulo 42 - Presságio...


Notas iniciais
Olá, como vocês estão? Espero que gostem do capítulo e desculpem-me se houver algum erro. Boa leitura. =D

Quinn nunca achou que conseguiria fazer todo o trajeto da universidade em Columbus até o Hospital Kindred em menos de uma hora. O percurso consistia em, no mínimo, uma hora e meia, levando em consideração o trânsito e a probabilidade dos sinais estarem verdes.

E metade deles estavam.

Mas os semáforos não foram os responsáveis e sim a alta velocidade com a qual dirigia, cortando os outros carros e ouvindo buzinas e xingamentos enquanto apertava o volante e pisava fundo no acelerador. Não importava o fato de estar cursando direito no intuito de entrar para a polícia, tampouco que o seu ato infringia leis. O que importava era que Rachel estava em trabalho de parto, e Quinn precisava estar presente. Precisava ver a sua garotinha nascer.

Seu rosto estava vermelho, os cabelos dourados mal-ajambrados no rabo de cavalo e a testa úmida de suor, mas havia chegado ao hospital, se permitindo respirar fundo ao pisar no lobby.

— Eu preciso ver uma paciente! — Quinn infirmou à recepcionista. A voz ofegante. — Rachel. Rachel Barbra Berry-Fabray.

A outra mulher abriu a boca, mas Hiram foi rápido em se pronunciar quando saiu de um dos corredores.

— Quinn!

— Hiram! Onde ela está? — Quinn se virou para fitá-lo.

— Está na sala de parto. A hora chegou, Quinn.

Quinn sorriu. Um misto de assombro com felicidade. Já havia passado por isso. Naquele mesmo hospital. A grávida era ela, sentada na cadeira de rodas com sua mãe, sua irmã, seu pai e seus colegas do clube Glee ao seu lado no nascimento de Beth. No entanto, nunca estivera do outro lado da moeda, aguardando para ver o rosto da sua filha com Rachel. Da sua segunda filha.

E agora o pânico parecia ser consideravelmente maior.

Poucos minutos se passaram até Quinn estar devidamente vestida e pronta para entrar na sala indicada pela enfermeira. Suas mãos tremiam levemente, mas a porta foi aberta, e a imagem de Rachel aqueceu o seu coração.

Estava linda, como sempre. Os cabelos espalhados pelo travesseiro na cama inclinada e as pernas posicionadas com a médica entre elas. Ela falava algo para Leroy enquanto apertava a mão dele, mas parou assim que Quinn se aproximou.

— Quinn! Oh, meu Deus, Quinn! Você chegou e eu... — A frase interrompida pela expressão de dor que a invadiu e o grito estridente fizeram o coração de Quinn saltar, mas ela sabia que doía. A dor era insuportável e passava a sensação de que nunca iria embora, acompanhada do incômodo de sentir o bebê como se ele não quisesse sair, não importa a força aplicada

Quinn se adiantou em correr para o outro lado da cama, segurando a outra mão de Rachel e passando a segurança que tinha. A mesma segurança que Judy e Frannie passaram seis anos atrás. Estava ali por Rachel e pela sua garotinha. Amava as duas e faria qualquer coisa por elas.

— Você está indo bem, Rachel. Continue assim. — A doutora Jenkins instigava, mantendo os olhos atentos.

E Rachel continuou, assim como continuou gritando, deixando a sua dor ser evidenciada e apertando a mão de Quinn e de Leroy como se quisesse partir os ossos deles um por um. E talvez quisesse, porque se sentia frustrada e inquieta, tanto pelo suor desmedido que escorria pelas maçãs do seu rosto quanto por não conseguir expulsar o bebê da sua barriga.

— Eu não vou conseguir. — Rachel deixou que a sua cabeça caísse para trás. Estava exausta. Seu peito subia e descia pela respiração irregular. — Isso é pior do que competir para os solos no clube Glee.

— Você está comparando o nascimento da nossa filha com solos para o Glee?

— Eram difíceis e... — Rachel se interrompeu novamente, e Quinn percebeu pela décima vez como os gritos dela eram sempre afinados, o que a surpreendeu.

Ela também ficou surpresa no décimo primeiro e no décimo segundo, porque eles não perdiam a força e a intensidade, mas o décimo terceiro não veio, porque o choro agudo cortou o ambiente.

A doutora Jenkins finalmente desviou o olhar para Quinn quando segurou o pequeno bebê nos braços, se levantando e passando-o para a enfermeira, que já segurava uma manta azul tradicional do hospital.

Ela não o limpou completamente. O vérnix presente na pele do recém-nascido o protege como uma camada isoladora da temperatura do mundo externo, diferente do útero em que viveu por nove meses, então o bebê foi entregue para Rachel cuidadosamente ainda coberto pela secreção.

Isso não importou para Rachel. Ela chorou ao ver a sua garotinha pela primeira vez, beijando-a na testa e segurando a mão minúscula e frágil. Era tão linda. A pele rosada e os lábios grossos. Era sua filha com Quinn.

— É a nossa filha, Quinn. — Rachel chorava e sorria ao mesmo tempo.

Quinn também deixou o pranto sair, se curvando para plantar um beijo em Rachel e no bebê que agora se mantinha em silêncio, sorrindo e se sentindo tão feliz quanto podia estar. Seu sonho tinha se realizado.

Ainda que estivesse igualmente emocionado, Hiram aproveitou o momento para fotografar o momento, se aproximando logo depois para olhar a sua neta. Ele sabia que tudo ficaria movimentado quando todos pudessem visitar Rachel.

— Eu amo vocês. — Quinn sussurrou, beijando a esposa novamente.

— Eu também amo você. — Rachel grudou as bocas em um selinho e logo encarou a filha novamente. — E amo a Audrey.

— Audrey. Audrey Satine Berry-Fabray.

— Audrey Satine Berry-Fabray.

— Quinn?

A voz de Santana a assustou, fazendo com que o álbum de fotos que segurava caísse no chão. Ela suspirou, pondo a mão sobre o peito ao passo em que a amiga subia os degraus da escada telescópica que levava ao sótão.

— O que está fazendo aqui? — Quinn perguntou depois de pegar o objeto, se sentando em uma das caixas fechadas na lateral do ambiente.

— Eu usei a minha cópia de segurança porque precisava falar com você. — Santana afundou as mãos nos bolsos do cardigã.

— Isso é uma emergência?

— Talvez. — A latina se acomodou em outra caixa, de frente para Quinn. — Acha que é uma boa ideia essa festa na casa dos seus pais? Eu sei que é o aniversário da Aud, mas há um assassino em Lima.

Quinn respirou fundo. A primeira coisa que recebeu após deixar a casa de Margo dias atrás foi o telefonema de Judy com a ideia eufórica de celebrar o aniversário de Audrey na mansão Fabray. Ela tentou contestar, mas a mãe estava decidida, e não seria, de fato, uma má ideia. Desde que o Homem Sem Coração surgiu, ela mal teve tempo de pensar sobre o aniversário da filha minuciosamente e se sentia culpada por isso. Contudo, Judy estava ali, oferecendo uma comemoração que Audrey com certeza adoraria. Não poderia negar.

Rachel não ficou satisfeita ao saber da ideia, porque Judy iria querer ordenar tudo, o que se concretizou quando a visitou com Quinn. Felizmente, ela não se opôs quando a judia quis participar da decoração. Era nítido o desconforto de ambas, mas não houve desentendimentos. Não queriam estragar um momento importante para Audrey.

Quinn era grata por isso.

Ela aproveitou para saber dos detalhes, mas sua cabeça não conseguia submergir completamente nos preparativos porque ainda elucubrava sobre Margo e a declaração dela sobre o bebê nascido morto. Se Sam for esse filho, então o bebê não morreu, mas como ele poderia não ter morrido quando ela garantiu ter visto o corpo pequeno sem vida e enterrado-o dias depois? Quinn já tinha visto notícias sobre funcionários de hospitais que trocaram recém-nascidos. Seria possível alguma enfermeira ter trocado um bebê vivo por um bebê morto? E de quem seria o bebê morto? Eram tantas indagações sem respostas, e ela temia enlouquecer tamanha velocidade com a qual o seu cérebro criava suposições. Primeiro, precisava investigar os funcionários presentes no dia do nascimento do filho de Margo Howard.

Mas por enquanto, naquele final de semana, Quinn queria focar na sua filha. Sentia falta de estar com ela e queria que o aniversário dela fosse o melhor possível. Audrey merecia.

— Eu não sei se é uma boa ideia, mas eu não vou impedir que a minha filha tenha uma comemoração feliz. Eu não posso cancelar tudo, deixá-la triste e não explicar o motivo, porque não se diz à uma criança de quatro anos que há um assassino livre. Ela está esperando isso e adora fazer aniversário. Blanca também está esperando. Elas vão se divertir.

Santana assentiu, abrindo um sorriso complacente. Ela não contabilizou as menções feitas por Blanca sobre o aniversário de Audrey, mas foram muitas. No café da manhã, no fim da tarde ao ir buscá-la na escola e no jantar. Estava contando os dias desde que escolheu o presente da melhor amiga.

— Tudo bem, eu entendo. — Ela assentiu lentamente. — Vamos estar lá. David já sabe de tudo e também está alarmado. Se Sam aparecer na festa, saberemos lidar com ele.

— Ele vai aparecer. — Quinn afirmou. — Vai aparecer porque Audrey, Blanca e Thomas o adoram. Ele é o homem mais engraçado e gentil que eu já conheci, e as crianças são loucas por ele. Eu sei que vou querer abraçá-lo, mas também vou querer socá-lo até que me prometa não ser um assassino.

— Mas ele pode ser o assassino, Q.

— Eu sei. Essa é a pior parte.

Santana não retornou ao assunto depois disso. Ela moveu os olhos para o álbum que a amiga ainda segurava.

— Eu lembro dessa foto. — Ela disse. — Ficava na moldura da lareira ao lado dos porta-retratos dos primeiros passos da Aud.

— Sim, ela ficava. Quando Rachel foi embora, eu pensei em recortá-la de todas as fotos, mas eu não consegui. — Quinn sorriu melancólica. — E também não há como tirá-la dessa fotografia em especial. Foi o dia mais feliz da minha vida. Eu acho que ela não pensou em NYADA ou nos sonhos frustrados quando segurou a Aud pela primeira vez.

— Mas depois tudo isso voltou à tona na cabeça dela.

— E ela não conseguiu segurar o peso de se sentir estagnada. A Aud não foi o suficiente para suprir o que ela não conseguiu ter.

— Eu sinto muito, Q. — Santana a direcionou um olhar condescendente. — Eu sempre vou sentir muito por tudo o que aconteceu. Eu nunca fui tão amiga da Hobbit, mas eu gostava de ver como ela olhava para você. Era mágico. — Foi sincera. — E agora, esse olhar ainda está ali. Eu ainda consigo enxergá-lo.

— E será que ele é o suficiente, Santana?

— Bom... vocês estão tecnicamente juntas.

— Eu estou com medo de perdê-la. Eu estou com medo de que o assassino faça algo com ela. Pensar nisso me apavora e me tira de órbita, mas e quando o pegarmos? Quando não existir mais perigo? O que vai sobrar? — Os questionamentos de Quinn saíram aflitos e esmorecidos.

— Vai sobrar duas certezas, Q. — Santana respondeu. — A certeza de que vocês são almas afins e estão predestinadas e ficarem juntas, ou a certeza de que você vai seguir um caminho oposto, mesmo que ainda a ame, porque eu sei que ama. — Se levantou. — Eu preciso voltar para casa. Blanca vai acordar em breve, e eu tenho de fazer o café da manhã antes que ela corra para cá.

Santana se foi, e Quinn permaneceu sentada, pensando sobre as palavras dela. No ensino médio, ela nunca foi alguém capaz de fazê-la refletir, mas isso vinha acontecendo com frequência atualmente. A ideia de seguir um caminho oposto ao de Rachel não a agradava nem um pouco, tampouco ponderar que teriam outro desencontro futuro. Era algo dissonante nos seus pensamentos.

Mas se recusar a acreditar nisso levava Quinn ao questionamento de talvez conseguir ter a sua vida de volta com a esposa. Isso seria possível? Ela odiava perguntas sem respostas, mas era isso o que surgia constantemente no seu caminho ultimamente.

Ela levou o álbum para fora do sótão, se deparando com Rachel na entrada do seu quarto no andar superior. Ainda vestia a camisola curta de alças finas que conhecia tão bem. Quinn até conseguia sentir o tecido contra a ponta dos seus dedos.

A judia bocejou, pondo a mão sobre a boca e olhando a esposa de forma curiosa. Quinn teve de admitir internamente que a achou adorável quando a cabeça dela pendeu para o lado e os olhos se estreitaram.

— O que estava fazendo no sótão?

— Bom dia para você também. — A detetive puxou a escada telescópica, encolhendo-a até ser capaz de segurá-la e deixá-la no flanco do corredor. — Eu estava me certificando de que os enfeites natalinos estão em boas condições. Estamos em novembro.

Os olhos de Rachel duplicaram de tamanho com a sentença ouvida. O aniversário de Audrey preencheu a sua cabeça durante toda aquela semana, e ela esqueceu do mês em que estavam. Em pouco tempo, todo o clima natalino seria instalado pelo país.

— Você esqueceu disso? — Quinn perguntou em um tom divertido.

— Eu não esqueci do aniversário da Aud, mas não me dei conta do real significado de novembro. O ano está acabando.

— Sim, ele está. Então eu estava lá em cima e achei isso. Achei que gostaria de ver. — A loira entregou o álbum para a mais baixa.

Rachel o pegou com delicadeza. Ela tinha realmente procurado alguma lembrança no armário de Quinn, mas não se recordou de que talvez tudo pudesse estar no sótão.

Seus olhos brilharam ao ver a capa preta com o título que evidenciava todo o período da sua gravidez. Elas fotografaram semana após semana o perfil corporal de Rachel. Desde quando a barriga ainda estava retilínea até quando ela mal conseguia andar sem sentir dor nos pés. Foi o melhor momento que poderia viver, sabendo que uma vida crescia no seu interior, imaginando todos os dias como a sua filha seria e como ela agiria. Se seria uma criança agitada ou mais quieta do que o normal, se gostaria de bacon ou se iria preferir brócolis, se daria os primeiros passos entre os nove e doze meses como era o esperado. Rachel criava universos na sua mente sobre os aspectos da sua filha, mas não conseguiu ver muitos deles por algo que ela mesma escolheu.

O arrependimento a assolou ao mesmo tempo em que lágrimas nasciam nos seus olhos escuros, gotejando na capa do álbum. Era difícil e exaustivo conviver com a sensação do desconforto exorbitante que pairava como uma névoa ao seu redor quando se lembrava do erro grotesco que cometeu. No entanto, sabia que deveria suportá-la, porque era o que aconteceria ao deixar a sua casa há três anos. Estava consciente disso quando decidiu partir e estava consciente disso agora. Tudo o que poderia fazer era aguentar, como sempre aguentou as slushies, os apelidos maldosos e os olhares tortos, esperando veemente que Quinn aceitasse restabelecer a conexão que perderam.

Seus dedos acariciaram a primeira foto ao abrir o objeto, como se pudesse tocar nela mesma e como se pudesse tocar na própria barriga. Estava ciente do olhar de Quinn na sua direção, que a encarava tácita e flexível. Ela não a culpava mais. Não diretamente. Rachel sabia que existia a fase da explosão, quando tudo o que você sente é raiva e o desejo fiel de machucar a outra pessoa. Depois que ela se vai, sobra apenas a tristeza fria e dolorosa, que machuca mais do que qualquer outra coisa. A tristeza que vivia acorrentada ao seu lado, como um algoz cruel. Tão cruel quanto a sua decisão de deixar para trás a esposa e a filha. Rachel jamais esqueceria disso, não importava quanto tempo passasse.

— Eu... posso ficar com isso? — Ela perguntou com a voz baixa e rouca.

— Claro que pode. Há mais desses no sótão. — Quinn respondeu suavemente. Ela não entregou o álbum no intuito de fazer a judia se sentir culpada ao ver as fotos antigas e sim para que pudesse se lembrar das reminiscências e ver os registros de quando não estivera presente. Não sabia ao certo o porquê de querer aquilo, mas talvez Rachel precisasse disso, ainda que ver todas as imagens fosse como receber facadas ininterruptas.

A morena assentiu, fitando-a agradecida e voltando para o quarto para deixar o álbum sobre a cama. Queria vê-lo, mas sabia que passaria horas naquele processo, então faria isso no final do dia quando retornasse da mansão Fabray.

Ao pisar no corredor outra vez depois de tomar banho e se trocar, ela não viu Quinn, mas a encontrou na cozinha.

A detetive preparava algumas panquecas de forma habilidosa.

— Você pode tirar para mim? — Ela pediu quando o ruído do forno ecoou pelo cômodo.

— Claro.

Rachel pôs as luvas, caminhando até agachar ao lado da esposa e retirar a travessa retangular com cookies.

Ela a colocou sobre o balcão.

— Cookies?

— São os preferidos da Aud. Eu geralmente não faço com frequência, mas hoje é uma exceção. Comemorações são exceções.

Rachel assistiu a loira picar alguns morangos, depositando-os ao redor dos cookies em outro prato. Tudo parecia incrivelmente delicioso e com poucos nutrientes para uma garotinha, principalmente quando Quinn preparou outro recipiente com cereal.

— Ela tem um pouco de fixação por morangos.

— Talvez seja a única comida com nutrientes aí dentro — Rachel pontuou.

— Eu sei que tudo parece uma grande festa de açúcar, mas ela não come isso há muito tempo. — Quinn argumentou enquanto terminava de preparar tudo. — Sua filha faz quatro anos hoje. Não seja controladora, Rachel.

Quinn não reparou como a frase saiu espontânea e livre dos seus lábios, mas franziu o cenho quando a morena não retrucou e ergueu a cabeça para encará-la.

Rachel poderia ser comparada com uma estátua de cera pela forma como não se mexia, tampouco pestanejava. Gradativamente, um sorriso surgiu no canto da sua boca, se transformando em algo capaz de iluminar qualquer lugar.

— O que foi?

— Você disse "sua filha".

— Eu disse?

— Disse.

Quinn sentiu o próprio rosto esquentar à medida em que os segundos passavam. Tudo saiu de maneira automática, e agora se sentia constrangida. Não deveria ter falado. Talvez fosse cedo demais para isso.

— Eu... vou levar isso para o quarto da Aud. — Ela se afastou, segurando a bandeja e iniciando o trajeto até o quarto da filha.

— Quinn, espera! — Rachel andou até a esposa enquanto segurava um copo de suco. — É o favorito dela, não é?

Quinn não conteve o sorriso ao ver o copo recheado de suco de maçã. Audrey o adorava, e se sentia feliz por Rachel saber daquele fato.

Por fim, ela assentiu.

— É sim.

Rachel deixou o objeto na bandeja e seguiu a detetive até o quarto predestinado. Audrey ainda dormia encolhida sob as cobertas, e Alice permanecia no final da cama, parecendo tão imersa no mundo de Morfeu quanto a sua dona.

Quinn colocou a bandeja sobre a mesa de cabeceira e se sentou na ponta do colchão. Rachel espelhou a ação no lado oposto, descendo a coberta até o rosto sereno e bonito da filha aparecer. Era tão linda. Linda como uma obra de arte rara e preciosa, tal como ela era. Rachel nunca se cansaria de passear os olhos nos traços finos e delicados de Audrey e ainda não acreditava que um dia teve coragem de ficar longe dela.

— Bom dia, luz da minha vida. — Quinn sussurrou e beijou a testa da garotinha. — Feliz aniversário. Será que você pode acordar para que eu possa abraçá-la?

Ela continuou com os beijos e os afagos, sendo observada por uma Rachel de olhar amoroso até Audrey começar a acordar.

— Mamãe?

— Sou eu.

— E a mama também. — Rachel se pronunciou, não tardando em distribuir amor para Audrey. — Feliz aniversário para você, minha pequena esperança. — Espalhou beijos pela bochecha da mais nova, ouvindo-a rir.

— Quantos anos? — Quinn indagou, ajudando Audrey a se sentar e pegando-a quando ela levantou os braços.

— Quatro! — Audrey quase gritou e sorriu animada.

— Meu Deus! Você já é quase uma adulta. Ouviu isso, Rachel?

— Isso significa que não vai poder comer os cookies, Quinn.

— Não, mamãe! Eu quero os cookies! Eu gosto deles! — Audrey continuava falando alto, espalmando as mãos pequenas no rosto da detetive como se não houvesse acordado recentemente.

— Você não é adulta? — Quinn perguntou e recebeu um aceno negativo como resposta. — Então ainda é a minha garotinha?

— Sou, mamãe.

— Você pode dizer que me ama?

— Eu te amo. — Audrey beijou o nariz de Quinn. — E amo a mama Reichel.

O coração de Rachel nunca bateu tão forte quanto naquele momento. Ela estivera presente no aniversário de um ano da filha, mas Audrey já estava com quatro anos. Tinha perdido duas comemorações. Nunca permitiria que esse número aumentasse. Ter Audrey ali, dizendo que a amava sem saber do que fizera, era a prova mais pura de que o amor pode ser materializado em alguém. Sua filha era amor. O seu amor. O amor de Quinn. Audrey era tão especial quanto podia ser, e isso a orgulhava e a transbordava.

— E eu amo você, meu amor. — Rachel arrastou o corpo no colchão para se juntar às duas, afagando o rosto da garotinha. — Eu amo muito você.

Quinn percebia o esforço que a esposa fazia para não chorar e não sabia o que dizer. Não havia nada que pudesse diminuir a enxurrada de sensações que ela deveria estar sentindo.

Foi Audrey quem mudou de assunto.

— Eu posso comer os cookies agora?

As duas adultas riram e deixaram ela devorar todo o café da manhã tranquilamente. Depois, elas conversaram sobre assuntos aleatórios por quase uma hora. Audrey estava satisfeita em estar no colo de Quinn, com Rachel ao lado e Alice passeando entre elas, o que causava espirros na loira. O outono cobria o céu frequentemente com nuvens e um ar gélido típico de novembro, mas as três estavam aquecidas no quarto de Audrey, graças ao aquecedor e graças ao sentimento que as rodeava.

Como sempre, a garotinha contestou ao ter de ir tomar banho, pedindo para que suas mães estivessem presentes, o que resultou nas suas mãos esguichando água propositalmente em ambas.

Quinn sentia os próprios pulmões reclamarem pela intensidade com a qual ria ao ver o rosto de Rachel molhado, mas cessou as risadas quando ela jogou água na sua direção. O que se seguiu foi uma guerra acirrada dentro do banheiro, resultando em roupas encharcadas e o piso escorregadio.

A judia mal teve tempo de tentar se equilibrar quando se levantou para buscar a toalha de Audrey e sentiu o seu pé deslizar no chão, caindo de modo desajustado sobre Quinn.

Tudo parecia confortável demais naquele instante, mas ela se preocupou ao ouvir o grunhido que escapou por entre os lábios da esposa.

— Você está bem?

— Estou, mas a sua mão... — Quinn interrompeu a si mesma.

Rachel não entendeu, mas se sentiu envergonhada quando finalmente olhou para a própria mão, que estava sobre o seio esquerdo da detetive. Ela hesitou para tirá-la dali.

— Não vai tirar? — A loira sussurrou.

— Eu deveria? — Rachel devolveu a pergunta no mesmo tom

Quinn segurou o peso do olhar da mais baixa, mas se afastou quando Audrey a chamou.

Rachel secou a filha e a vestiu. O macacão jeans era confortável o suficiente para garantir que pudesse brincar à vontade na mansão Fabray.

Quinn tinha acabado de se trocar e estava descendo a escada com Audrey quando ouviu a porta de entrada da casa abrir e passos apressados ecoarem até a figura de Blanca surgir na sala de estar. Santana estava logo atrás.

— Eu usei a chave de emergência de novo porque a Blanca não parava de pular, e isso era uma emergência. — Ela justificou, sorrindo quando as duas garotinhas se abraçaram. — Vocês vão para a mansão agora?

— Sim, nós vamos. A mamãe já está ligando. — Quinn respondeu, olhando o próprio celular. — Blanca vai conosco?

— Eu acho que ela vai ter uma síncope se não for. Britt e eu iremos depois de deixar o jantar pronto para mais tarde.

— Tudo bem.

— Oi, Santana. — Rachel a cumprimentou quando entrou no cômodo.

— Rachel. — Santana balançou a cabeça cordialmente.

Elas não trocaram mais palavras depois e focaram nas duas garotinhas, que pararam de conversar animadamente quando Blanca puxou uma caixinha pequena do bolso traseiro da sua calça e a abriu, explicando o significado das duas pulseiras de prata.

Os objetos continham o nome de ambas em braile, o que foi facilmente entendido por Audrey e facilmente emocionante para que Quinn sorrisse e Rachel sentisse os olhos marejarem.

Elas trocaram um abraço afetuoso, e Audrey tateou o seu presente, mostrando-o para as mães em seguida e esboçando um sorriso largo.

Todas seguiram caminho para fora da casa após Santana parabenizar a afilhada com abraços apertados e beijos carinhosos, prometendo que daria o seu presente depois da festa porque, de acordo com ela, ele era incrível.

Quinn revirou os olhos, mas não disse nada, e prendeu Blanca e Audrey nas cadeirinhas do carro enquanto Rachel se acomodava no banco do carona.

— Nos vemos depois, então. E você, hija, se comporte. — Santana ordenou, se curvando para se despedir da filha.

Ela fechou a porta e se virou para trocar algumas palavras com Quinn, mas tudo o que queria dizer morreu na sua garganta ao ouvir o crocitar conhecido.

Quinn deu meia-volta para fitar Schatten e Munin parados no telhado da sua casa. Estavam lado a lado. Era a primeira vez que os via sozinhos e unidos. Gostava deles, mas não gostava do que eles representavam e, sobretudo, não gostava do revirar que sentia no estômago quando pensava no que poderia acontecer.

— Eles estão aqui. — A voz de David ecoou atrás dela, fazendo-a girar nos calcanhares para vê-lo com Thomas, que praticamente correu até o carro para falar com as amigas. — Isso é...

— Uma coisa ruim. Muito ruim. — Santana complementou a afirmação dele. — Por que de repente tudo pareceu ficar extremamente desconfortável?

Quinn não respondeu. Ela sentia a sensação incômoda que aqueles corvos carregavam e encarou os olhos dourados de Schatten por longos segundos até desviar a atenção para a esposa, que a mirava através da janela do carro.

Elas não falaram nada devido à distância que estavam uma da outra, mas Quinn sentiu que Rachel percebeu o clima gris que se instalou de súbito.

Ela se negou a afirmar que algo de ruim poderia acontecer. Era o aniversário da sua filha. Nada poderia dar errado. Porém, quando os corvos crocitaram de novo em uníssono, seus olhos apertaram.

— Eles estão aqui como um presságio. — Quinn disse. As pálpebras firmemente fechadas. — E eu odeio admitir isso.

Não foi preciso perguntar nada. Santana e David entenderam. Schatten e Munin traziam sempre o presságio de algum acontecimento desastroso e trágico.

Talvez naquela manhã de outono isso não fosse diferente.

Notas finais
Será que algo ruim vai acontecer? Esperamos que não... Espero que tenham gostado. Me deem o feedback. Favoritem também. É sempre importante. Bom final de semana para todos vocês. =D twitter.com/yasagron