Almas Afins
21 Capítulo 21 - ''Por que eu?''
Notas iniciais
Rachel acordou sentindo alguém cutucar o seu braço incessantemente e abriu os olhos, piscando algumas vezes para focar a visão.
A primeira coisa que conseguiu reparar foi o fato de Quinn estar dormindo com a cabeça entre os seus seios, e ela não sabia dizer quando tinham mudado de posição, mas tudo parecia extremamente confortável naquele momento. No entanto, ao abaixar os olhos, a sua atenção caiu sobre a figura pequena que segurava o bastão na mão direita e trajava um pijama azul-claro de gatinhos.
— Mamãe. — Audrey chamou em um sussurro.
— Aud? — A judia devolveu no mesmo tom. A voz um pouco rouca pelo sono interrompido. — Como você entrou aqui? Não se machucou?
A garotinha maneou a cabeça em negação.
— A porta tava aberta. Mama Reichel? Onde a mamãe tá?
Foi inevitável para Rachel não sentir o coração disparar com a sua filha chamando-a de mãe. Aquilo tudo era novo, porque não havia estado presente para ouvir as primeiras palavras dela e agora era como se tudo fosse uma novidade. Uma novidade que a atingia diretamente no peito, causando uma onda de sentimentos, o que incluía o arrependimento. Isso era algo que a perseguia com afinco. Ele não ia embora e talvez nunca fosse.
— A sua mãe está dormindo, meu amor. — A judia explicou e ajustou o corpo de Quinn delicadamente sobre o colchão, só então reparando que ela ainda segurava o par de luvas pequenas.
O objeto foi guardado com os demais na caixa de madeira antes de Rachel se levantar e cobrir a esposa com a coberta grossa. Ela se remexeu mas não acordou. A morena decidiu deixá-la dormir mais um pouco e pegou Audrey nos braços após deixar a caixa sobre a mesa de cabeceira, e ambas saíram do quarto.
— Por que você tá no quarto da mamãe? — A garotinha perguntou enquanto dobrava o bastão.
— Porque... porque a sua mãe estava com dor de cabeça, então eu fiquei no quarto para garantir que ela pudesse melhorar. — A judia respondeu enquanto entrava no quarto da filha.
— Ela tá dodói? — Audrey projetou o lábio inferior para frente.
— Ela não está dodói. — Rachel se apressou em tranquilizá-la. — Ela só precisa dormir um pouco. Nós vamos tomar banho agora e depois você vai tomar café na casa da Blanca, o que acha?
Audrey assentiu freneticamente. Para ela, quanto mais tempo passasse com Blanca, melhor. Adorava conversar com a melhor amiga.
Rachel colocou a pequenina sentada na própria cama e passou a retirar o pijama do corpo pequeno.
— Você toma banho antes da sua mãe, certo? — Estava um pouco confusa.
— A mamãe toma banho comigo. Ela diz que é mais rápido.
A morena assentiu e foi para o banheiro com Audrey. Havia produtos de higiene da linha infantil e adulta no armário acima da pia, que evidenciavam o quanto Quinn pensava em tudo.
O banho foi rápido. Rachel encheu a banheira com água morna e lavou a filha cuidadosamente. Não tinha muita experiência naquilo, mas estava se saindo bem. Ela garantiu que a água não entrasse nas orelhas de Audrey e que o shampoo não fosse ingerido. Por fim, ela mesma tomou um banho rápido sob o chuveiro enquanto observava a garotinha distraída brincando com alguns patinhos de borracha dentro da banheira.
Estava se sentindo leve. Tanto pelo banho e quanto pelo fato de estar aprendendo a cuidar de Audrey sem dificuldades.
Elas voltaram para o quarto quando Rachel finalizou o próprio banho.
— Você gosta dos seus cabelos soltos ou presos? — A atriz perguntou. Estava sentada na cama com Audrey na sua frente. Os fios escuros sendo penteados.
— Presos.
Rachel assentiu diante daquela resposta e os prendeu em um rabo de cavalo após vesti-la com o uniforme da escola.
— Prontinho. Está linda. — A beijou na testa. — E cheirosa. — Colou o nariz no pescoço da mais nova, aspirando o aroma da loção infantil.
Audrey riu e tentou empurrar Rachel. Estava com cócegas.
— Mama Reichel, para!
Rachel também riu, acompanhando a animação da filha, e parou o que fazia.
— Só se eu ganhar um beijo.
Audrey cessou as risadas quando a mãe se afastou e espalmou as mãos pequenas no rosto dela, plantando um beijo longo na sua bochecha.
A judia sentiu a contração familiar no seu peito, que acontecia sempre que olhava ou até mesmo quando pensava na filha, e sentiu vontade de verbalizar que a amava, mas não podia, porque tudo ainda recente demais para a garotinha e não queria deixá-la confusa com aquela sentença.
Por fim, Rachel retribuiu o beijo e a pegou novamente nos braços, levando-a até o quarto de hóspedes no andar superior para que pudesse se trocar.
O processo não demorou e logo estavam na cozinha. Alguns ingredientes sobre o balcão.
Audrey estava sentada ao lado deles. As pernas balançando.
— O que você normalmente leva para a escola?
— A mamãe faz sanduíche de geleia de morango e sempre tira as cascas do pão. — A garotinha respondeu, brincando com o bastão que tinha em mãos.
Rachel sorriu com a resposta, porque Quinn odiava a casca do pão e sempre tirava antes de comer. Aparentemente, Audrey também odiava. Ainda que não fossem mãe e filha biologicamente, o hábito da loira foi repassado. Era como se a pequenina fosse uma mistura das mães. A curiosidade inerente, os diálogos longos, a falta de afeição por casca de pão.
O sanduíche foi feito em segundos e logo guardado na lancheira. A judia pegou uma maçã da geladeira, cortando-a em pedaços e colocando-os em um recipiente pequeno.
— Você gosta de maçã, certo?
— Eu gosto.
— Então eu espero que você coma tudo, porque ela faz muito bem para a saúde. — Rachel guardou o recipiente na lancheira também, ao lado do sanduíche e do suco de caixinha, e apertou o nariz da filha delicadamente.
Audrey assentiu sorrindo, e Rachel a segurou com um braço. O outro estava ocupado pela lancheira e pela mochila. A próxima parada foi a casa no final da rua. Ela tocou a campainha apenas uma vez, respirando fundo.
Brittany abriu a porta, sorrindo quando pôs os seus olhos na garotinha, mas o desfez um pouco quando focou em Rachel.
Antes que pudessem dizer algo, Blanca apareceu ao lado da mãe.
— Aud!
A judia colocou Audrey no chão, que teve a sua mão segurada pela pequena latina, e juntas entraram na casa.
— Oi, Rachel. Você quer entrar? — Brittany foi cordial.
— Na verdade, sim. Eu preciso falar com você... e com Santana.
A professora de dança aquiesceu e deu passagem para a judia. Ambas foram até a sala de estar.
— Sant! — Brittany chamou a esposa. — Você pode vir aqui?
— Claro. — A voz ecoou do que Rachel achou ser a cozinha. — Só um segundo.
— Você está bem, Rachel? — Brittany inquiriu. — Pode sentar, se quiser.
A atriz agradeceu e se acomodou no sofá de três lugares, sendo seguida pela mais alta.
— Estou, eu só... há algumas coisas acontecendo. Todo essa situação de Lima. As mortes recentes. Como Dave está?
— Está tentando se reconstruir. Não é fácil perder alguém que você amou muito. Jason foi embora mas David nunca desejou que ele morresse. É muito triste.
Rachel assentiu lentamente e umedeceu os lábios.
— Eu acho que posso ser a próxima.
— A próxima? — Brittany não entendeu.
— A próxima vítima. O assassino mata pessoas que abandonaram as suas famílias, não é?
— Como você sabe disso? — A professora se surpreendeu.
— A Quinn me contou.
— Então você sabe sobre o corvo?
— Eu sei e acredito nele.
Brittany suspirou e fitou a judia com complacência.
— Esse assassino deve ter algum tipo de trauma. É o clichê, não é? Mas nós não vamos deixar que algo aconteça com você. A morte é algo que vai além dos limites das consequências e não deveria ser decidida por um maluco. Então se tudo piorar, nós vamos estar unidas, porque você ainda é a mãe da Audrey e ainda é uma boa pessoa, mesmo com os seus erros.
Rachel sentiu os olhos marejarem com a resposta de Brittany, sentindo que ela estava sendo sincera e gentil. O coração dela sempre seria enorme, afinal de contas.
— Obrigada. — A judia impediu que as lágrimas caíssem. — Obrigada por me apoiar agora.
A mais alta assentiu com um sorriso suave e fitou a esposa adentrar o cômodo.
Rachel adotou uma postura defensiva quando Santana parou de andar.
— O que ela está fazendo aqui? — A tom de voz da latina foi ríspido.
— Ela veio conversar conosco. — Brittany respondeu.
— Conversar sobre o quê? Quer ir embora novamente? Pode ir. Seria um enorme favor.
— Santana! — A loira bronqueou, verdadeiramente irritada. — Você já mostrou toda a sua raiva no dia em que a Rachel voltou, então agora ouça o que ela tem para falar.
— Eu não quero ouvir. Ela nem deveria estar aqui.
— Essa é a minha casa também e eu permiti a entrada dela.
— Você não deveria, Britt. Ela não é confiável e só está esperando o momento certo abandonar a própria família outra vez.
Rachel respirou fundo. Santana a odiava e com razão, então só o que podia fazer era manter a calma para não explodir, porque se decidisse revidar algum insulto, tudo perderia o controle a atingiria qualquer pessoa, o que incluía as duas crianças presentes na casa. Aquilo não poderia acontecer.
— Santana... — A judia se levantou, encarando os olhos carregados de raiva da detetive. — Eu poderia ir embora no momento em que descobri que posso morrer nas mãos de um assassino que mata pessoas que abandonam as próprias famílias. Eu estou com medo, porque posso ser pega, mas o meu maior medo é morrer sem conseguir recuperar o que eu perdi, então vou ficar aqui e não vou mover um passo para fora de Lima sem a minha família ao meu lado.
A expressão recheada de ódio de Santana se misturou com o espanto no momento em que Rachel terminou de falar.
— Você sabe sobre o motivo das mortes.
— Sim. Eu também sei sobre o corvo. A Quinn me contou. Mas o porquê da minha visita também envolve outro assunto.
A latina se sentou no sofá e passou as mãos no rosto, prendendo os cabelos longos em um coque frouxo no alto da cabeça.
— Fala logo o que você quer, Berry.
— Beth procurou a Quinn ontem à noite. As duas conversaram um pouco.
— O quê? — Brittany abriu a boca atônita.
Santana pareceu perder toda a sua ira em segundos. Seu rosto ganhando um aspecto de incredulidade.
Rachel contou todos os acontecimentos de horas atrás, inclusive o noivado de Noah e Shelby e a decisão de ambos sobre Quinn não poder conviver com Beth.
Santana se ergueu. A feição mais raivosa do que quando viu Rachel há poucos minutos. Brittany não estava diferente. Ainda tentava processar tudo o que ouviu, mas já sentia repulsa.
— Eu só estou aqui dizendo tudo isso porque sei que a Quinn vai tentar omitir tudo e resolver sozinha, mas ela precisa de apoio.
— Eles não podem fazer isso. Ou podem? — Brittany fitou a esposa.
— Eles podem. Shelby tem todo o direito sobre Beth, e Noah terá em breve com o casamento. Ele vai ser o pai biológico com o nome na certidão dela. — Santana respondeu enquanto andava de um lado para o outro. Tentava sanar a raiva, ainda que fosse impossível. — Eu já sei o que vamos fazer. Vamos na casa dele e então eu posso quebrá-lo ao meio. Se ele revidar, posso prendê-lo por desacato com um sorriso enorme no rosto.
— Isso só vai piorar as coisas, além do fato de que a Quinn não vai gostar.
— Britt...
— Você quer mesmo deixar a Q zangada com toda essa situação acontecendo?
Santana pareceu pensar diante das palavras da esposa e acabou assentindo de forma condescendente, porém chateada.
— Vamos agir de forma racional.
Brittany sorriu e selou os seus lábios nos da latina antes de se virar para Rachel, vendo-a se levantar do seu lugar.
— Audrey pode tomar café da manhã aqui? Ela se atrasaria se eu começasse a preparar. Acordamos um pouco tarde.
— Claro. — Brittany respondeu. — Ela é da família. Você não quer se juntar à ela?
— Não, obrigada. Eu preciso ir e preparar tudo para a aula de hoje. — A judia caminhou até a porta, parando por um momento ao pensar em se despedir da filha, mas sabia que ela estaria em uma bolha com Blanca. De qualquer forma, a veria na escola, então apenas saiu da casa.
Santana a observou. Estava parada na porta com Brittany ao seu lado.
— Eu ainda odeio ela. — Comentou, recebendo como resposta um beijo amoroso na bochecha.
— Isso pode mudar.
— Eu duvido muito.
Brittany revirou os olhos e a puxou para entrarem. Não podia prever o futuro, mas toda mágoa e toda raiva se vai com o tempo.
Ele era o único que podia curar tudo.
...
Rachel parou de caminhar quando viu a ave sobre o teto do carro de Quinn e seus olhos se arregalaram. Diferente do que viu pela janela da cozinha dias atrás, aquele corvo era branco. Completamente branco. Já havia ouvido falar sobre corvos albinos, mas nunca viu um, principalmente em Ohio, porque eram raros.
O corvo voou até parar sobre o seu ombro, e ela sentiu um arrepio desconfortável com aquilo, mas não o mandou para longe.
No entanto, ele pareceu entender o seu incômodo e bateu as asas, voando em uma altura que pudesse ser visto dentro do carro. Ao lembrar do relato de Quinn, Rachel sabia o que ele queria.
— Mas por que eu?
A pergunta saiu de forma repentina e a resposta não veio, como era o esperado. Por que outro corvo? Por que ele a escolheu para segui-lo?
A judia hesitou por poucos minutos. Audrey estava segura na casa de Brittany e Santana, e Quinn estava dormindo no quarto, então não havia nada a perder.
Ela entrou na residência e buscou as chaves da esposa na mesa de centro, onde tinham sido deixadas na noite passada, e retornou até o carro, entrando rapidamente.
Poderia se arrepender. Talvez a sua decisão de segui-lo fosse completamente descabida, mas queria saber o que ele tinha para mostrar.
Com pouca certeza e recheada de dúvidas, Rachel colocou o cinto de segurança e deu partida no veículo.
Fale com o autor