All the Truth

1 Capítulo 1 - Henry's POV


Notas iniciais
Eu realmente não me dei com aquele final. E como não nos resta nada mais que a imaginação... aqui estou.

— Eu também encontrei isso... Esperava que pudesse me explicar.

Chegou o momento. Momento esse que eu procurei evitar desde o dia que nos vimos pela primeira vez. E mesmo tendo ensaiado esse momento em minha mente inúmeras vezes, é como se não soubesse de fato o que dizer.

Ela ainda me encarava com aquela foto na mão. Peguei-a de suas mãos e passei a encara-la, desviando o olhar para olhar a mulher na minha frente de segundo em segundo.

Meu momento mais feliz estava capturado naquela fotografia. Eu conseguia viver com minha condição naquela época, me sentindo verdadeiramente feliz, por causa dela, minha eterna esposa, uma das pessoas que mais amei nessa vida. Mas agora apareceu outra por quem me apaixonei, mas de nada ela sabia, e eu não sei se estava pronto pra passar por tudo aquilo de novo.

Abe pareceu ler meus pensamentos, segurou em meu ombro de maneira doce. Meu menino, é claro que ele sabia o que se passava em minha mente, ele me compreendia, sabia da minha condição. Então tomou a frente.

— conte a ela.

Ao ouvir isso eu olhei para Abe que acenou com a cabeça, me incentivando a faze-lo. Ele já estava me pressionando a conta-la a um tempo, mas eu ainda tinha receios de fazer isso, não por não confiar nela, mas por medo do que poderia acontecer. Continuei encarando a foto, ainda em silencio, estava apavorado.

— Pai? Conte.

Eu o olhei mais uma vez, e voltei meus olhos a Jo que me encarou confusa por um breve momento, como se não tivesse entendido o significado daquela pequena palavra dita por Abe. Então, mais uma vez, Abe tomou a frente, a convidou para entrar, nos levou ao porão.

Sim, aquele seria o lugar mais certo pra contar tudo a ela. Talvez lá a minha terrível história não fosse tão difícil de se acreditar.

Ele subiu as escadas, disse que buscaria um chá, e então nos deixou a sós.

Jo encarava a foto como se pedisse que ela explicasse o porquê, naquela foto, estar eu. Uma foto que ela obviamente sabia que era antiga. Eu me aproximei dela, precisava observá-la. Tão linda. A cada dia que passava conhecendo-a, me apaixonava cada vez mais.

Desde que ela entrou no necrotério a primeira vez, onde teoricamente nossa parceria começou, tudo foi muito... mágico. Nós entramos nessa amizade de uma forma tão rápida, pura e intensa. Somos duas pessoas parecidas, com a mesma carga emocional, e houve essa instantânea conexão.

Mesmo sendo imortal, eu continuava humano, sentia atrações, tinha sentimentos, encantos. Foi o que manteve Abigail todos esses anos na minha mente, foi o que me fez aproximar de Molly. Foi o que me fez apaixona pela mulher sentada na minha frente.

Desde o dia do acidente que a fiz causar pra salvar sua vida, que eu percebi os fortes sentimentos que nutria por ela. Que não era somente amizade, mas dessa vez não foi como nas outras vezes que isso ocorreu depois de Abigail... dessa vez eu não procurei fugir, simplesmente me aproximei.

Ao tocar as mãos dela, ela me encarou. Seus olhos estavam marejados, mas mais que isso, estavam confusos.

— Eu sabia que você tinha um grande mistério, Henry, mas isso não fez nenhum sentido pra mim.

Ela olhou pra minha mão em cima da dela e colocou a dela por cima da minha. Eu confiava dela minha eterna vida. Já era a hora dela saber da verdade.

— É uma longa história, e eu não sei como te explicar de uma maneira que faça sentido de uma forma rápida. Ou que não te assuste.

Com uma das minhas mãos, passei-a nervosamente no cabelo, enquanto a outra ainda estava entre as mãos de Jo. Não queria me desconectar dela. Não agora.

A foto estava entre nossas mãos. Ela tirou a mão que estava sobre a minha e passou no meu rosto de forma carinhosa.

— Tenta.

Ela me incentivou olhando em meus olhos. Fechei os olhos com o contato, dando um profundo suspiro. Encarei-a, pegando a foto logo em seguida.

— Bem... esta é... era... é... minha família. – Tentei começar de uma forma menos impactante. Mas estava nervoso, o que me fazia não saber usar as palavras. – Esta é Abigail – disse apontando – este, obviamente sou e este é....

— Sou eu – Abe disse de forma tranquila enquanto descia as escadas com uma bandeja nas mãos.

Jo parou por um instante e esboçou um sorriso, como se o que tivesse acabado de ouvir fosse uma grande pegadinha. Vi o seu sorriso desaparecer quando percebeu que nem eu, nem Abe riamos. Este era um assunto delicado para nós dois.

— Co... como isso...?

Ela não sabia o que dizer, como dizer, que pergunta fazer. Eu já esperava por isso. Decidi falar de uma vez. Dizem que a verdade deve ser dita como um curativo deve ser arrancado. Rápido.

— Eu sou imortal, Jo.

Ela buscou nos olhos, tanto nos meus, quanto nos de Abe, algum vestígio de brincadeira e não encontrou. E então contei tudo, desde a minha primeira morte até os dias de hoje. Tentei resumir, mas 200 anos de vida são muitas coisas. Inclusive contei tudo sobre Adam, que eu tinha acabado de neutralizar. Em alguns momentos ela sorria, lembrando de momentos nossos em que eu agia de maneira estranha. Dei um sorriso ao perceber que ao menos alguma coisa na cabeça dela fazia algum sentido.

As horas passaram, o dia passou, a noite chegou e eu finalmente acabei de contar. Ela encarava a foto e sua expressão era inerte. Era a palavra que poderia defini-la neste exato momento. Eu compreendo ela. Sempre foi assim, quando alguém conhecia minha verdadeira condição, o que foram poucas pessoas, minha real história de vida, essa era a expressão feita de imediato.

— Jo, você confia em mim?

Perguntei a ela, tirando-a de seus devaneios. Ela me encarou com aqueles lindos olhos castanhos. Não precisava dizer nada, eu sabia que ela confiava. Olhei pra Abe rapidamente, ele havia entendido o recado. Ele olhou rapidamente o relógio, só pra confirmar se seria seguro fazer isso neste momento, acenando pra mim logo em seguida.

Alisei as maçãs do seu rosto, olhando-a, passando toda a segurança do mundo pra ela.

— Te vejo em alguns minutos.

Fui me afastando dela rapidamente e em seguida peguei uma das minhas ferramentas de trabalho. Conseguia ouvir ela falando algo mas ignorei, caso contrário perderia minha coragem. E então,num rápido impulso cortei a garganta. Eu nunca tinha feito isso a mim mesmo antes, a agonia foi fora do normal. Depois de uns minutos, escuro.

*****

Emergi nas aguas do rio, sem roupa, claro. Um suicídio cortando a própria garganta com tamanha frieza sem dúvida não é uma das melhores maneiras de observar alguém morrendo, mas seria rápido o suficiente para uma demonstração.

Comecei a nadar até a borda do rio, em direção a dois corpos. Ainda estava escuro e aquele lugar não tinha nenhuma iluminação, mas eu sabia que eram eles. Abe me entregou as roupas que ele sempre traz quando isso acontece, enquanto Jo observava. Ela parecia atônita. Estava parada, como se não conseguisse se mover, como se tivesse visto um fantasma.

Me aproximei dela de forma calma, e pude observar, com a pouca iluminação que havia no local, que era produzida pelas lâmpadas da ponte acima de nós, seus olhos inchados e vermelhos. Eu esperava que isso poderia deixa-la um pouco traumatizada, eu queria mostra-la.

— Jo?

Eu parei na frente dela, e então ela me abraçou. Podia sentir suas lagrimas molhando minha camisa recém vestida. Ainda abraçada ela começou a me socar.

— PORQUE RAIOS VOCÊ FEZ ISSO? QUE MERDA HENRY!

Ela chorava, e ainda me batia, mas eu simplesmente continuei a abraça-la. Ela precisava disso. Não deve ter sido nada agradável a cena que ela presenciou. Abe, apesar de saber que não me perderia, ele nunca se acostumava a me ver morrendo, sempre me disse.

— EU VI VOCÊ MORRENDO HENRY, NA MINHA FRENTE! E depois seu corpo simplesmente desapareceu. QUE MERDA. NÃO PRECISAVA FAZER AQUILO!

Ela me encarou, ainda em meus braços. Seus olhos ainda mais vermelhos. Meu Deus, acho que nunca a vi tão linda como a via neste momento. Eu sentia uma vontade incontrolável de protege-la.

— Eu fiz isso pra lhe mostrar, Jo. Eu sei que não deve ter sido agradável de se ver, mas eu precisava lhe mostrar.

Ela ainda me encarava. Seus olhos tinham um brilho. Não consegui evitar de olhar e passar a mão pelo seu rosto, passando os dedos de forma suave por todo ele. Em um único e impensado ato, de puro impulso, eu simplesmente a beijei.

Abracei sua cintura com um dos braços, direcionando minha mão para suas costas, aproximando-a ainda mais, enquanto a outra mão estava depositada em sua nuca, aprofundando ainda mais o beijo, que foi imediatamente correspondido. Ela passou seus braços pelo meu pescoço, ficando na ponta dos pés, me dando total acesso, não só ao interior de sua boca, como também do seu corpo. Foi intenso, cheio de sentimento e desespero.

Mesmo quando a intensidade diminuiu, não nos separamos. Pequenos selinhos eram dados e eu pude sentir um gosto salgado. Ela ainda chorava. Foi então que nos separamos de fato, mas não os corpos, somente as bocas, foi então que pude perceber os soluços quando ela se aconchegou em meu pescoço.

— Eu pensei que...

Ela soluçava ainda com debruçada sobre mim. Eu a tinha beijado por impulso, na tentativa de demonstrar tudo que eu sentia. Era visível que tínhamos algo. Eu podia enxergar isso nos olhos dela desde o dia em que ela apareceu na minha porta quando deveria estar em Paris com Isaac. Mas não tivemos a oportunidade, nem naquele dia, nem nenhum outro depois dele.

— O que, Jo?

Eu incentivei ela a falar. Ela expor tudo que estava preso.

— Eu pensei... que tinha te perdido, antes que...

Mais uma vez ela interrompeu, desta vez engolindo o choro. Estava finalmente se acalmando, como se toda minha inacreditável e maluca história começasse a fazer sentido em sua cabeça.

— Antes que?

Incentivei, eu sabia o que ela queria dizer... seus olhos entregavam-na, mas eu queria ouvir dela, eu precisava ouvir, me fazendo perceber de fato que eu estava completamente perdido por estar me entregando mais uma vez a um amor.

— Antes que eu pudesse lhe dizer toda a verdade.

Ela disse por fim, sorrindo pra mim, se separando logo em seguida

— mesmo que a verdade que você escondia é relativamente maior do que a minha.

Esboçou um sorriso, me levando a sorrir com ela.

— Eu lhe contei isso pois sabia que era necessário dizer a verdade... diante de tudo que eu sinto.

Eu disse, então, por fim, abraçando-a mais uma vez, depositando um beijo em sua testa. As coisas não poderia fluir tão rapidamente, eu sei que ela ainda tem muito o que processar. E ela pareceu perceber que entendi esse lado dela, sorrindo pra mim, como se agradecesse por não ir tão rápido.

Fomos andando de volta até o carro em que ela veio com Abe, este que já estava lá nos esperando. Antes que chegássemos de fato lá ela segura minha mão me fazendo parar.

— Henry... queria te pedir algo.

Ela olhava pra baixo, como se tivesse um certo receio de fazer esse pedido, mas ao mesmo tempo, seu corpo demonstrava que queria aquilo desesperadamente.

— Diga, Jo. O que quiser.

Ainda segurando minha mão, me encarou.

— Não faça mais isso de se matar. Nunca mais. Não consigo te perder.

Eu sorri, e dei um singelo beijo em sua mão e sorri pra ela.

— Querida Jo. Eis algo que definitivamente não irá acontecer... mesmo se você um dia quisesse. Mas me esforçarei pra não morrer em sua frente. – Sorri.

Sei que é muito. Muita informação para um simples começo de “alguma coisa”. Eu já estou acostumado com isso, e já convivi com pessoas que não souberam lidar com isso, bem como pessoas que me amaram de tal forma que conseguia ser mais que feliz ao meu lado. Neste século talvez seja ela, Jo Martinez, essa pessoa que vai me fazer ter alegria de viver, enquanto me aprofundo ainda mais nos conhecimentos sobre a vida e a morte.

Notas finais
EEEEEE é isso pessoal.
Em alguns dias eu volto com a versão dessa história contada pela Jo.
Beijinhos e beijões