All My Lovin'
1 Um - Começando amizades.
Notas iniciais
Natsu P.O.V
Em uma segunda-feira de verão, acordei em um horário que poucas pessoas da minha idade haviam o previlégio em dias de semana, — duas da tarde -, mas talvez tivesse acordado em outro horário se não fosse o estrondo de um caminhão que passava pela rua onde eu morava.
Levantei da cama querendo voltar a deitar de imediato, mas já havia dormido demais. E certamente, logo Misa invadiria meu quarto e gritaria no meu ouvido, tão irritante! Misa é minha irmã mais nova, mas se preferir, você também pode chamá-la de pequeno demônio. Tinha quinze anos com altura de doze, cabelos rosados e olhos castanhos, assim como eu. Ambos éramos parecidos com nosso pai na questão de aparência.
Vivi junto com minha irmã e minha mãe, Yoko, cujo nome significa “sol, brilho e calor”. Combinava com ela. Uma mulher sempre gentil, simples e que gostava de ver a felicidade dos outros, às vezes, até esquecendo de si mesma. Seu sorriso era encantador e parecia até um anjo, com uma luz amarela em volta de si, algo que até hoje não consigo descrever muito bem. O sol dos dias mais chuvosos.
Todos os dias, eu e ela fazíamos uma faxina geral na casa que podia durar o dia todo. Quando não estava realizando serviços domésticos, trabalhava em uma loja do shopping de noite. Não ganhava muito, mas era o suficiente para que pudéssemos ter o que precisávamos. A pensão do meu pai e a ajuda de meus tios também ajudavam.
Antes de qualquer coisa, parei para admirar o bonito dia que fazia lá fora. O sol brilhava com força e o céu estava o puro azul, sem nenhuma nuvem. Mais um dia de calor intenso na minha pequena cidade, Magnolia. Em seguida, fui para o banheiro, escovei os dentes, tirei a bermuda de pijama, lavei meu rosto e passei a mão em meus cabelos uma ou duas vezes, já que tinha muita preguiça de penteá-los. Lembrei de quando meu pai, Igneel, insistia para que eu os deixasse alinhados, mas depois percebeu em como eu os odiava quando estavam certinhos.
Desci a escada e como sempre, encontrei Misa com o uniforme da escola, largada no sofá assistindo à qualquer programa de beleza na televisão e Yoko na cozinha. Ao me ver, ela interrompeu o que estava fazendo e lançou-me um largo sorriso.
— Boa tarde, preguiçoso. — disse, com as mãos nos quadris, brava de brincadeira. — Parece que aqui temos alguém que foi dormir ontem de madrugada. Tudo por causa do videogame.
— Desculpe, mãe. — disse, com um pouco de peso na consciência. Afinal, eu havia prometido no dia anterior que a ajudaria na preparação do almoço.
Minha mãe riu e prendeu os cabelos em um rabo- de-cavalo. Percebi que em cima da mesa havia uma pequena cesta de palha com tangerinas dentro, decorada com flores.
— Para quem é a cesta? — perguntei, aproximando-me. Fiz a suposição de que seria para alguém da vizinhança que estaria de aniversário naquele dia, pois Yoko gostava de presentear aniversariantes e tinha uma lista com todas as datas para não se esquecer de ninguém da vizinhança.
— Você não sabe da novidade, Natsu? — intrometeu-se Misa, pisando no chão da cozinha com os sapatos sujos.
— Querida, a mamãe já disse que você precisa tirar os sapatos antes de entrar em casa. — disse minha mãe, gentilmente. Era incrível como tinha paciência de falar a mesma coisa todos os dias, sem sentir um pingo de raiva sequer. A baixinha se desculpou e voltou só de meias.
— Que novidade? — agora eu estava realmente curioso. Não haviam muitas notícias novas naquela cidade minúscula, e quando tinham, geralmente não eram boas.
— Temos vizinhos novos! — exclamou Yoko, sorrindo novamente. — Os Heartfilia, se mudaram para a casa da frente. E parece que eles têm uma filha da idade da Misa.
— Estou realmente entusiasmada para conhecer minha nova amiga. — disse ela, ironicamente. As ironias de Misa eram tão irritantes e desnecessárias!
— Vocês dois poderiam levar a cesta juntos para dar as boas-vindas, que tal? — sugeriu mamãe, me entregando o objeto. Antes que abrisse a boca para concordar, minha irmã voltou a se esparramar na sala e fingiu estar muitíssimo cansada pelas aulas, já que havia dado o seu máximo para prestar atenção e fazer os exercícios de Matemática corretamente. Acabou que fui sozinho, mas de boa vontade pois era um pedido de minha mãe.
A casa que os tais Heartfilia haviam comprado dava bem de frente para a nossa. Um sobrado retangular de paredes brancas, dois grandes andares e um jardim simpático. Curiosamente, um pilar que podia ser facilmente escalado chegava até a grande janela de um dos quartos.
Subi a pequena escada que dava na porta de entrada e toquei a campainha.
— Um minuto! — disse uma voz de menina. Devia ser a filha da família que minha mãe havia mencionado. Não esperei muito tempo até que a porta se abriu.
— Boa tarde. — comecei. — Eu moro na casa da frente e queria entregar…
De repente, não consegui dizer nada. Fiquei paralisado, provavelmente com cara de idiota. Nunca fui de “travar” na hora de conversar com uma garota, mas o fato é que eu estava surpreso. Era diferente de tudo o que eu já tinha visto. Minha nova vizinha possuía um corpo um tanto desenvolvido para uma garota de catorze ou quinze anos, o que me deixou um pouco envergonhado. Seus cabelos loiros estavam presos em uma trança e ela usava um vestido cor-de-rosa curto. Seu sorriso era acolhedor, como o de minha mãe, e os olhos castanhos me traziam uma estranha tranquilidade.
— E-Entregar essa… essa cesta como presente de boas-vindas. — continuei depois do silêncio constrangedor, completamente bobo. — M-Minha mãe que mandou.
Estendi a cesta para a menina, que a pegou ainda sorrindo.
— Oh, muitíssimo obrigada. — disse ela, brincando com as pétalas de uma das margaridas que acompanhavam as frutas. Seu tom de voz era um pouco baixo, como se falasse mais consigo mesma. — Me chamo Lucy. Qual o teu nome?
— Natsu… N-Natsu Dragneel. — respondi, sentindo meu rosto esquentar. Eu a havia achado bonita demais.
— O senhor poderia dizer à tua mãe que Lucy e Layla Heartfilia são gratas pelo presente? — a tal Lucy falava de uma maneira engraçada, como se tivesse nascido no século passado. Não consegui conter o riso ao ouvir o “senhor”. Ela me olhou com expressão confusa. Talvez tivesse pensado que havia feito algo de errado.
— Senhor? — disse eu, ainda rindo um pouco. — Não sou tão velho assim.
— P-Perdão. — suas bochechas ficaram completamente vermelhas. — Desejas que eu o chame apenas pelo “Dragneel” então?
— Só Natsu já está bom.
— Certo… — murmurou Lucy, olhando para o chão por um momento.
— Filha, você pode me ajudar com essas caixas aqui?
— Um minuto, mãe. — respondeu ela, virando-se para dentro da casa. Em seguida, fez uma expressão de lamentação. — Eu realmente queria conversar um pouco mais contigo, porém…
— Tudo bem. — coloquei as mãos nos bolsos e acenei. — Até logo, Lucy.
— Foi um prazer conhecer-lhe! — disse Lucy, acenando de volta. Depois disso, fechou a porta.
(…)
— Estou de volta. — anunciei, tirando os sapatos antes de entrar em casa.
— Como são os vizinhos novos, filho? — perguntou minha mãe, passando o esfregão no chão da cozinha.
— Só conheci a filha deles. — disse eu, dando de ombros. — O nome dela é Lucy. E pediu para eu dizer que agradecem pelo presente.
— Ah, precisamos tomar chá todos juntos qualquer dia desses... — percebi que ela estava ofegante e parecia até um pouco abatida. — Querido, você pode subir? Vou precisar limpar o chão da sala agora…
— Deixa que eu faço isso. — fiz sinal para me passar o esfregão. — A senhora parece cansada.
— Claro que não! Eu estou bem. — ela riu em uma tentativa falhada de me despreocupar.
— Mãe, por favor. A senhora já se esforça demais.
Yoko hesitou um pouco, mas acabou cedendo pelo tamanho cansaço que deveria estar sentindo. Passou por mim e me beijou no rosto, dizendo que me amava.
— Eu também te amo, mãe. — respondi, sincero. Minha mãe era a pessoa que eu mais amava no mundo todo, a pessoa com a qual eu mais me preocupava. Nunca contei isso à ninguém, mas tinha medo de que, eventualmente, o esforço dela fosse tamanho que, de uma hora para outra, seu corpo não aguentasse. E assim, eu ficaria sozinho outra vez.
Resolvi afastar esses pensamentos ruins da cabeça e comecei a trabalhar. Teria terminado tudo mais cedo se Misa tivesse alguma consideração e viesse me ajudar. Mas esse era o preço por ficar jogando Resident Evil até sei lá que horas da madrugada, ter acordado tarde e consequentemente, não ajudar minha mãe a preparar o almoço como prometido. Odiava quebrar minhas promessas e ficava com um tremendo sentimento de culpa quando isso acontecia.
Lucy P.O.V
Terça-feira de manhã, acordei com o barulho do despertador e uma pequena bola de pêlos dormia sobre minha cabeça. Minha gatinha Naná, uma filhote de Ragdoll.
— Bom dia, Naná...— disse, espreguiçando-me na cama. Aquele seria o meu primeiro dia de aula, então podia-se dizer que eu estava um tanto animada e também nervosa, afinal, não conhecia ninguém da nova escola. Levantei e após realizar minha higiene matutina, desci as escadas e vi Layla Heartfilia, — minha mãe -, servindo suco em um copo para mim. Lhe dei bom dia e um beijinho no rosto, me juntando à ela na mesa.
Confesso que me sentia estranha. Pois bem, desde pequenina fui acostumada à viver em uma grande mansão, daquele tipo da qual você pode realmente ficar perdido! Cheia de luxuosos objetos e muitos empregados, trabalhando como loucos, sempre. Mas então, meus pais conversaram e concordaram que devíamos levar uma vida com mais simplicidade, em uma cidade tranquila. E eu também pensava isso, desde sempre! Estava tão feliz que finalmente me mudaria para uma casa de tamanho comum e teria uma vida mais normal, assim como os jovens da minha idade normalmente levam. Talvez fosse natural que eu me sentisse desconfortável, mas não liguei muito para isso. Era apenas questão de tempo até que me acostumasse.
— Hoje é seu primeiro dia de aula, querida. — disse mamãe, passando sua geléia de morango preferida no pão integral.— Está animada?
Respondi que sim, mas também expliquei meu nervosismo e também perguntei como eu poderia fazer amizades. Afinal, todos os meus amigos ficaram para trás junto com minha antiga cidade, e nos conhecíamos desde bebês. Então na verdade, nunca soube o que era realmente iniciar uma conversa de amigos.
— Eu também ficaria nervosa em seu lugar.— Layla colocou uma mecha de seu cabelo loiro, igualzinho ao meu, atrás da orelha.— Apenas seja você mesma e as pessoas vão querer se aproximar de você.
Sorri, mas um pensamento ruim acabara de voltar a me afligir, como uma fina agulha que me espetava de tempos em tempos. Eu tinha um certo problema em falar, mas não podia deixar aquilo me impedir de viver. Fechei os olhos por um momento e respirei fundo cinco vezes, imaginando uma paisagem agradável e esvaziando minha mente das coisas más. Algo que aprendi com uma pessoa especial quando ainda era uma garotinha que gostava de brincar com bonecas.
Depois de tomar meu café da manhã, retornei ao meu quarto e vesti o uniforme da Fairy Tail High, a escola onde eu com certeza estudaria os três anos do Ensino Médio. Escovei meus cabelos talvez mais do que trezentas vezes e tentei fazer mil e um penteados mirabolantes, mas nenhum parecia ficar bom e não combinavam comigo.
“Seja você mesma.” a voz de mamãe ecoou na minha cabeça. Mas estava mais do que certa. Por isso, usei o meu penteado favorito, que ficava logo depois de uma trança lateral: com uma fita azul, fazia um pequeno rabo-de-cavalo e prendia-o do lado direito da cabeça, deixando o resto do meu cabelo solto. Esse sim, combinava comigo.
Após escovar os dentes, me despedi de Naná e de mamãe. Mesmo que minha gatinha não pudesse falar, sabia que ela estava torcendo para que desse tudo certo no meu primeiro dia. Ao mesmo tempo em que saí de casa, uma garota saiu da casa em frente à minha, a casa de Natsu Dragneel. Fiquei impressionada em como era parecida com ele. A exótica cor de cabelo e os olhos escuros e puxadinhos. Apesar de ser um pouco baixa, concluí que deveria ter mais ou menos minha idade. Caminhei em direção à ela para puxar conversa.
— B-Bom dia! — cumprimentei, tentando sorrir ao máximo. — V-Voc… Tu és da mesma escola que eu, estou certa?
A menina soltou um riso abafado e por uma fração de segundo me senti arrependida de ter ido conversar com ela.
— Bom dia, Lucy Heartfilia. — respondeu com um tom de voz gentil, mas me provocou uma sensação estranha. Difícil explicar o que foi.
—Como sabes meu nome? — perguntei, um segundo depois reparando em como era uma pergunta estúpida! Natsu, meu… novo amigo, — se assim já posso dizer -, muito provavelmente havia dito meu nome para a irmã. Acho que o nervosismo estava me fazendo dizer coisas completamente idiotas. Mas devia manter a calma, meu dia estava apenas começando.
Conversei com ela por todo o trajeto até a escola e descobri que seu nome era Misa. Misa me contou algumas coisas sobre Natsu, os professores e comentários um tanto ofensivos sobre pessoas de sua classe, que logo eu saberia que seriam meus colegas também.
Quando chegamos, fiquei um pouco constrangida por parecer que estavam me olhando. Mantive o olhar baixo até entrar na sala de aula, sentindo meu rosto esquentar.
—Pessoal, atenção aqui! — disse Misa com uma voz fina, quase irreconhecível. Me perguntei o motivo de ter mudado seu tom daquela forma. — Essa é a novata, o nome dela é Lucy.
Dito isso, mal tive tempo de pensar e meus colegas se uniram ao meu redor, falando em cima de mim e fazendo incontáveis perguntas ao mesmo tempo! Pensei que fosse desmaiar ali mesmo, quando ouvi uma voz feminina e forte gritar “calem a boca, todos!”. E para minha surpresa, ninguém mais disse uma palavra sequer.
A pequena multidão abriu caminho e uma menina ruiva e séria caminhava em minha direção. Era bonita, mas possuía uma aura um pouco amedrontadora. Quando chegou perto de mim, estendeu-me a mão e depois de sorrir, não parecia tão assustadora.
— Eu sou Erza Scarlet, a representante da classe. — disse ela, muito gentil. — Espero que se sinta bem conosco e se tiver algum problema, você poderá falar comigo.
— Certo… — murmurei, apertando sua mão. — Obrigada, Erza Scarlet.
Erza fez todos pedirem desculpas à mim por terem me assustado e fiquei envergonhada por isso. Mas no fim, todos me trataram muitíssimo bem. Voltei para casa com Misa, que me convidou para almoçar com ela e sua família.
—Mas isto pode causar problemas para a tua mãe. — eu lhe disse, com medo de ser um incômodo. — Ela ficará sabendo muito em cima da hora…
—Ela não vai nem ligar. — respondeu a irmã de Natsu, enviando uma mensagem pelo celular. Pouco depois, o aparelho vibrou. Ela colocou tão próximo do meu rosto que não consegui ler nada. — Viu? Ela deixou.
—Tu és uma boa pessoa, Misa-san. — me senti grata por já receber um convite logo em meu primeiro dia de socialização e enviei uma mensagem para mamãe dizendo que estaria na casa dos vizinhos. Ouvi vindo dela uma risada assustadora, mas pensei que era apenas minha imaginação. Se ela fosse má, por que me convidaria para comer junto à sua família?
Chegamos lá, retiramos nossos sapatos e Misa anunciou que estava de volta. Vi Natsu colocando pratos na mesa grande da sala de jantar.
—Olá! — cumprimentei, usando um tom de voz um pouco mais alto do que de costume, e isso me deixou envergonhada também. Ele sorriu para mim e perguntou como eu estava. Oh, agora eu havia parado para perceber em como seu sorriso era bonito. Conheci a mãe deles, seu nome era Yoko. Não tinha cabelos rosados, muito menos olhos castanhos. Logo, pude concluir que seus dois filhos haviam puxado ao pai! Mesmo não sendo parecida com eles, era uma mulher muito bonita. Seu cabelo castanho-claro estava preso por um coque e seus olhos verdes eram como esmeraldas. Além disso, era muito gentil e também divertida.
Ah, como eu tinha boas expectativas para minha nova vida em uma cidade diferente! Tudo parecia dar certo cada vez mais. E eu me sentia, acima de tudo, feliz.
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