All I want for Christmas
1 Capítulo Único
Querido Papai Noel,
Esse ano eu fui uma boa menina. De verdade. Acho que nunca tinha merecido tanto um presente como neste ano. Obedeci e respeitei meus pais, tirei notas boas mesmo indo para uma escola nova onde eu não conhecia ninguém. Não reclamo mais quando meu pai se perde quando viajamos de carro, e sempre me ofereço para lavar os pratos do jantar. Mas admito que ainda não consigo comer carne de porco.Se o senhor observa mesmo todas as crianças o tempo todo, sabe o que aconteceu comigo no último verão. Eu era uma menina meio mimada, eu sei. Talvez até merecesse um pedaço de carvão naquela época. Mas eu mudei muito desde que precisei trabalhar na casa de banhos de Yubaba.Descobri o quanto a gente pode ser forte e corajoso quando alguém ama está em apuros, e eu dei um duro danado para trazer meus pais de volta.Eles não se lembram do que aconteceu por lá, mas eu sim. E acho que o senhor também.Foi muito difícil, principalmente quando apareceu aquele Deus do rio coberto de lama podre. Ainda tenho pesadelos com aquele cheiro horrível, mas até que ele era um cara legal. Outro cara legal, era o espírito Sem Rosto. Okay, ele devorou uma ou duas pessoas, e fez uma grande bagunça. Mas ele cuspiu elas depois, e com seus Ahs e Uhs parecia que ele estava arrependido de verdade, e eu acredito nele.Sabe, Papai Noel, eu era uma garotinha egoísta antes. Mas aprendi a dividir, nas longas noites em que Lin e eu nos esgueiramos na cozinha para conseguir um lanchinho para a gente e as outras meninas no quarto. Roubar é errado e feio, mas aquela comida ia ser jogada fora, pois "Yubaba jamais servia comida requentada para seus clientes". Ao menos, foi o que aquele Sapo tagarela me falou uma vez. Então, estou perdoada por isso? Espero que sim.Kamaji me disse uma vez de que se você for sempre sincero e puro de coração, não merece nenhum castigo, mesmo se tenha feito uma burrada muito grande.Acho que foi por isso que Zeniba perdôo o Haku quando ele roubou seu seloMas vamos ao que interessa, Papai Noel. Depois de tudo isso que escrevi, acho que concordamos que eu mereço receber o meu pedido.Sendo sincera, Papai Noel, nem é algo muito difícil, ou caro.Na verdade, o senhor não vai gastar nem um único tostão, e ainda vai me fazer a garota mais feliz de todo o mundo na noite de natal.Eu queria que o senhor com seu trenó super rápido, buscasse um velho amigo meu e trouxesse ele para cá.Lembrasse a ele, aquele esquecido, que ele me prometeu que nos veríamos de novo.E até agora, nada.E eu estou ficando preocupada, Papai Noel.Estou com medo que a Yubaba tenha feito alguma coisa, com ele, ou sei lá. Ele tenha se metido em alguma encrenca de novo...Também, eu estou com muita saudades...Ele me ajudou tanto quando eu mais precisei, me deu forças e me protegeu.Acho até que ele foi um menino ainda mais bonzinho que eu.Então, Papai Noel, o meu pedido para esse ano é que de alguma forma o senhor traga o Haku para mim.Não precisa amarrar ele num laço de fita, até porque ele é meio grandinho para entrar numa caixa de presentes. Nem temos uma chaminé para o senhor entrar, mas não tem problema, eu deixo a porta ou a janela destrancada.Só por favor, traga meu amigo para mim.Muito obrigada e aguardando ansiosamente perto da árvore.Chihiro Ogino.*********************A garotinha olhou para a cartinha recém terminada com receio. Batucava com a ponta do lápis na escrivaninha de madeira, nervosamente. As dezenas de bolhinhas de papel amassado espalhadas pelo pequeno quarto, indicavam o quanto ela tinha se esforçado para escrever algo decente, e finalmente ela parecia estar satisfeita com o resultado. Mas ela estava indecisa se enviaria ou não.Se a Chihiro de nove anos, pudesse assistir a si mesma com dez fazendo cartinhas para Papai Noel, teria morrido de rir. Mas depois de ver patos gigantes e cabeças sem corpo rolando no chão e pássaros de papel furiosos, acreditar num velhinho que roda o mundo num trenó mágico era moleza.Aliás, nos últimos meses ela tinha se tornado extremamente supersticiosa.Estrelas cadentes, ossinho de frango e mesmo velhinhas de aniversário.Durante quase um ano, ela tinha pedido, acreditado e esperado apenas por uma única coisa.Quando ia para o pátio da escola no recreio, quando passeava com os pais, ou mesmo quando novos vizinhos se mudaram para casa em frente, Chihiro sempre estava alerta, sempre à procura de um par de olhos esverdeados, apenas para se decepcionar.Os alunos das outras turmas eram os mesmos de todos os dias, não vi nenhum dragão branco cruzando os céus da janela do carro, e os novos vizinhos era apenas um casal simpático e nada familiar.Apesar de ter passado por tantos sustos que nem mesmo um adulto era acostumado a passar, Chihiro ainda era uma criança. E quando se tem dez anos, é difícil manter a paciência.
E com a irritação acumulada pela coleção de frustrações nos últimos meses, ela rasgou em milhares de pedacinhos."Onde estava com a cabeça. Papai Noel não existe!"- ela pensou triste, jogando pra cima os papéis picados.Como se zombassem de sua irritação, os pedacinhos caíram lentamente.Como numa chuva de confetes brancos, uma tempestade de neve artificial.Ela teria achado aquilo mágico, ou até mesmo meio familiar.Mas a garotinha não conseguia se concentrar em mais nada quando estava irritada, e nem mesmo reparou. Nem mesmo reparou na sombra longa e comprida no canto do quarto, ou sentiu a brisa gelada entrando pela fresta da janela.Olhava emburrada para um goblinho de neve que tinha ganhado no natal anterior.Apenas quando ouviu uma batida na porta, que a garota se virou.Seu pai estava com um suéter de tricô engraçado, com o desenho de que deveria ser uma rena de nariz vermelho, mas parecia uma árvore gorda e desfolhada.-Terminou sua cartinha para o Papai Noel? — o homem perguntou olhando a bagunça de papéis pelo quarto. Talvez ele ralharia se fosse qualquer outro dia do ano, mas era véspera de Natal.-Desisti...-Chihiro suspirou apoiando a cabeça nos braços.-Por que? -seu pai se aproximou colocando uma mão em seu ombro. Chihiro costumava deixar suas cartinhas prontas desde junho, e naquele ano ela só sabia suspirar desanimada e agradecer apenas por educação qualquer presente que recebia, mesmo os mais caros. — Esse ano você se comportou como uma princesinha. Tenho certeza que o Papai Noel vai trazer qualquer presente que você pedir.-Tem certeza, pai?-a garota levantou o rosto, um pouco mais esperançosa.-Absoluta.- uma luz o fez virar o rosto para janela.- Olha, uma estrela cadente!Ela se levantou subitamente animada, e saiu correndo até a janela.Um faixa de luz branca cruzava os céus, numa linha fina e cadente.Chihiro como sempre fazia, fechou os olhos e colocou as mãozinhas em cima do coração.Estava tão concentrada com seu pedido que mal ouviu seu pai comentando ao seu lado, que aquela era "a estrela cadente mais estranha que tinha visto na vida."-Então, o que você pediu?-ele perguntou depois que a menina voltou a abrir os olhos.-Se eu contar, não se realiza!- a garota respondeu com os braços na cintura.-Tudo bem, não está mais aqui quem perguntou!-o homem levantou os braços em defesa, rindo ao ver a filha novamente animada. — Mas posso pelo menos saber o que você vai pedir pra o Papai Noel?A garota pensou por alguns instantes. Quando ela formou sua teoria que contra a existência do bom velhinho, ela tinha certeza que era seu pai mesmo que comprava os presentes.Então ela resolveu fazer um teste final.-Vou pedir aquela Barbie nova...-Aquela com guitarra e cabelo roxo?-Sim, a mesma que vimos no shopping semana passada.O pai murmurou algo como "legal" e saiu visivelmente mais aliviado do quarto.Deixando Chihiro pensativa sobre sua mentira.Ela se virou para janela e justificou em voz alta.-Papai Noel, o senhor já sabe o que eu quero de verdade. Tô contando com você!A ansiedade tomou conta da menina, que mal conseguia disfarçar enquanto comia a ceia junto com seus pais e parentes. Tradicionalmente os presentes eram entregues pela manhã, e ela teria que esperar o dia amanhecer para ter certeza que seu desejo se realizaria.Entre piadas de pavês, e reclamações sobre uva passa, a noite parecia se arrastar.Chihiro quase saiu correndo da mesa quando sua mãe anunciou que era hora das crianças dormirem.Seus primos dividiriam seu quarto, e colchões tinha sido cuidadosamente arrumados para acomodar a todos confortavelmente.Devidamente vestidos com seus pijamas era hora da verdadeira festa.Enquanto os adultos riam alto na sala, as crianças se reuniam com planos para conseguir ficar acordados para ver o papai Noel chegar.Mas o passar das horas, depois de muitas guerras de travesseiro e pula-pula de colchões logo as quatro crianças dormiam um sono solto e despreocupado.Menos Chihiro.Encolhida em sua cama que dividia com sua espaçosa prima mais nova, a garota encarava o teto. Estava acostuma a dormir tarde desde a época que ficou presa no mundo dos espíritos. Trabalhava tão pesado, e ficava com o corpo tão dolorido que a agitação falava mais alto que o cansaço, e como naquela noite ela ficava brincando com os dedos esperando a hora passar.Uma hora seus olhinhos foram ficando pesados, consistentemente na mesma hora que uma estranha nuvem de poeira brilhante entrou pela janela entre aberta do seu quarto.A garota poderia jurar que ouviu uma risada alta de um bebê cortando o ar, mas logo ela estaria dormindo tranquilamente demais para se lembrar na manhã seguinte.*********-Acoda Chililo, acoda! — a garotinha de quatro anos de jogou em cima da menina adormecida- Papai Noel passou aqui!Chihiro segurou a prima que pulava alegremente na cama, antes mesmo de abrir os olhos sonolenta.Só quando viu a menininha abraçando o Ursinho de pelúcia novo que tinha ganhado, a garota se lembrou que era Natal, e saiu correndo para a sala, junto dos outros primos.Seus olhos não iam para árvore de natal como as outras crianças, e sim procurava entre as pessoas. Esperando que escondido entre uma cadeira e outra, ou de trás de algum tio Haku surgisse divertido, com o sorrisão no rosto que ela sentia tanta falta.Mas foi a mão do seu pai que ela sentiu em seu ombro.-Chihiro, olha o que o Papai Noel deixou na árvore para você ontem.- ele comentou entregando um pacote vermelho.Chihiro sorriu sem vontade, e ao sentir os olhares dos parentes voltados para ela, ela puxou o grande laço verde. Em suas mãos lá estava a boneca cara da vitrine.-Exatamente o que você queria, não é legal?- seu pai comentou, e a garota sentiu seus olhos encherem de lágrimas.Ela queria jogar a boneca na parede. Gritar que eles estavam errados. Contar para a sua priminha de quatro anos que Papai Noel nunca existiu.Mas Chihiro era uma boa menina.Ela agradeceu num fio de voz, e abraçou a boneca como seus pais achavam que ela faria.Então se sentou junto dos primos para tirar os brinquedos das caixas.Chihiro agia mecanicamente, louca para voltar para quarto e chorar.Mas era manhã de Natal, e como uma boa menina ela passaria a manhã com sua família.A campainha tocou, e a garota nem fez questão de se virar.Seus pais abriram a porta, e ela ouviu as vozes dos seus novos vizinhos desejando feliz natal para todos.Eles eram bem legais. A mulher era bem baixinha e já tinha muitas mechas de cabelo branco na cabeça. Ela sempre cumprimentavam a menina quando ela ia pra escola, e chamava Chihiro e sua mãe para comer bolos e biscoitos recém assados nas tardes mais fresquinhas.O homem era bem alto e magro, nunca falava nada, e estava sempre usando um chapéu que cobria quase todo o seu rosto. A maioria achava esse casal bem esquisito, mas Chihiro gosta deles. Na cabeça da menina, o estranho era sempre legal.E com esse carinho, que mesmo triste, ela se levantou para conversar com eles.A mulher foi a primeira a lhe abrir um sorriso enorme, quase do tamanho do seu rosto e abraçou-a fortemente.O homem segurando uma enorme travessa de biscoitos de gengibre, apenas balançou a cabeça, como costumava a fazer.Chihiro segurou as mãos da mulher para guiá-la até um lugar vago na mesa.Mas ela não se mexeu.-Não vai tomar café com a gente, Sra Asukai?- a garota perguntou confusa.-Claro que adoraria passar um tempo com você, minha querida.- Ela tocou delicadamente com sua longa unha vermelha na ponta do nariz da menina.- Mas iríamos precisar de mais do que dois lugares...O Sr. Asukai deu um passo para o lado no corredor revelando a porta ainda aberta e a menina agradeceu mentalmente pela senhora ainda estar com um dos braços em seu ombro. Pois a supresa que encontrou na porta aberta foi tão grande, que não sabia se desmaiam, chorava, ou saia correndo pelo corredor.Segurando um prato fundo com o famoso bolo da Sra. Asukai e quase irreconhecível com roupas normais de inverno, e um longo cachecol branco enrolado no pescoço, estava tudo que ela queria naquele natal.-Não lembro se comentei com vocês, mas meu filho estuda num colégio interno para meninos.- a mulher comentou com a mãe de Chihiro.- Ele veio passar o natal com a gente esse ano.
- Me chamo Kohaku Asukai, e é um prazer conhecer vocês. — o garoto falou para os Ogino como um todo, mas não desviou seus olhos verdes de Chihiro.Quando os adultos foram para mesa, e o foco deixou de ser os novos visitantes, a garota abraçou o menino.-Porque você demorou tanto, Haku?- a garota perguntou com os olhos cheios de lágrimas.-Me desculpe.- a garoto secou uma das lágrimas que caíam pelo rosto da menina-Tive que resolver algumas coisas antes de poder vir. Mas Zeniba me ajudou.-Zeniba?Haku apontou para o casal de vizinhos. Eles eram os únicos na mesa que encaravam as crianças com um sorriso. A mulher estalou os dedos e por um instante, a garota pode vê-la se transformar na velha e conhecida feiticeira. O homem de chapéu assumiu a familiar forma gosmenta do Sem Rosto. Mas ninguém percebeu isso. Como mágica, seus parentes pareciam estar congelados com garfos e copos erguidos no ar. E apenas quando eles reassumiram a forma dos pacatos vizinhos, que todos voltaram a se mexer.-Como eu não descobri isso antes?- a menina riu abertamente da própria inocência.-Isso não importa agora...Você ainda nem sabe da melhor parte.-Tem mais? -a garota piscou algumas vezes. Já tinha conseguido bem mais do que queria, nem conseguia pensar em algo ainda melhor.-Conseguimos uma "licença especial".Haku fez um sinal de aspas com os dedos, sem soltar as mãos da Chihiro.- E o resto do pessoal está te esperando para um almoço de Natal na casa da Zeniba.-Todo mundo?-a garota pulou de alegria- Kamaji, Lin, Boh?-Todo mundo.-Haku confirmou rindo da animação da menina- Estão só esperando para a Zeniba conseguir a autorização dos seus pais para sequestra-la por essa tarde.-Por mim, pode me sequestrar por um ano inteiro!- Chihiro respondeu com tanta sinceridade que arrancou uma gargalhada do menino dragão.Os dois passaram o resto da manhã grudados.Chihiro estava tão feliz de ter reencontrado Kohaku que simplesmente não soltava sua mão.Mesmo com a piadinha dos primos, cantando em coro "tá namorando, tá namorando", a deixando com o rosto mais vermelho do que o normal.Ela tinha medo que ele sumisse, ou que ela acordasse e descobrisse que estava sonhando.Mas lá estava o garoto, contando suas aventuras, dividindo chocolate quente e biscoitos.Apenas quando seu pai autorizou que a menina passasse a tarde na casa da vizinha, ela saiu de perto do garoto para dar uma abraço muito feliz no seu pai.-Isso tudo é porque eu te deixei almoçar lá? -ele comentou se recuperando o abraço de urso inesperado.-Não.- a garota respondeu sorrindo- É porque você tinha razão!E deixando o Sr. Ogino ainda mais confuso, a menina saiu pelo corredor sem dizer mais nada.Em sua mente, ela lembrava que tinha duvidado da existência do bom velhinho.Mas Papai Noel existia, e sempre daria presentes para as crianças boazinhas.E o que todos podiam concordar é que a pequena Chihiro sempre foi uma boa menina.
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