All I ever wanted
9 Deixar partir
Notas iniciais
Gustavo e Cecília permaneceram abraçados mesmo com o fim da música. Porém, não levou muito tempo para que a garçonete se afastasse do homem que amava. A atitude repentina despertou a atenção do empresário.
— Cecília, tudo bem? Quer ir lá fora? — questionou, visivelmente preocupado.
— Não. Preciso ir — respondeu, indo em direção à mesa para alcançar seus pertences.
Gustavo a acompanhou.
— Ei, calma. Eu te levo em casa — continuou ele gentilmente, tocando-lhe os ombros de forma protetora.
O toque fez com que Cecília se arrepiasse novamente.
— Não precisa — limitou-se a dizer.
Percebendo as intenções da ex-noviça, Gustavo foi direto.
— Cecília, o que houve? Fiz algo errado? — indagou o moreno, confuso.
— Nada. Me deixe, por favor — pediu a morena, indo em direção a saída.
Gustavo segurou-lhe o braço com mais firmeza, porém sem machucá-la.
— Mas o que aconteceu?
Sentindo que as lágrimas viriam, Cecília preferiu ser ríspida.
— O que aconteceu nunca mais irá se repetir. Foi um erro.
Com tal afirmação, aproveitando-se da falta de reação do empresário, Cecília conseguiu se desvencilhar. No entanto, o Rei do Café conseguiu alcançá-la alguns metros do pub, na entrada do estacionamento. Ficando mais uma vez frente a frente, o pai de Dulce Maria decidiu ser sincero.
— Não, não foi um erro — frisou ele docemente, colocando alguns fios bagunçados atrás da orelha dela — É consequência do que sentimos. Maior do que atração, desejo ou fascínio. Você sabe disso. Sempre foi mais do que isso.
Em completo êxtase ante ao toque macio de Gustavo sobre seu rosto, Cecília percebeu que se permanecesse naquele lugar por mais um único segundo, faria qualquer coisa que ele lhe pedisse. E sabia que isso não poderia acontecer.
Lembre-se da Verônica. Eles terão um filho.
— Não continue. Adeus, Gustavo.
Cecília adentrou no carro e saiu às pressas, deixando um Gustavo atônito. Ultrapassando todos os limites de velocidade, a garçonete ralhou quando percebeu que o sinal ainda estava funcionando e que havia grande circulação de veículos ainda naquele horário. No entanto, os segundos que a impediam de prosseguir foram o suficientes para que o carro de Gustavo aparecesse ainda que distante em seu retrovisor.
Pense rápido, Cecília.
Segundos depois, a ex-noviça pisou fundo no acelerador, pedindo a Deus que ninguém atravessasse em seu caminho. Ao constatar que Gustavo estava praticamente fazendo o mesmo, agradeceu quando uma viatura da Polícia apareceu, dando ordem de parada ao Rei do Café.
Espantada com as próprias reações, Cecília parou o carro em um local seguro e com distância segura de Gustavo. Seu coração batia freneticamente e a morena ainda estava longe do apartamento de Clarissa. Decidiu fazer uma rápida oração e seguiu para casa, embora perdurasse a dor lancinante em seu peito. Será melhor assim.
Uma hora depois, Gustavo adentra no quarto de hotel inconformado. Jamais imaginaria que aquela noite seria uma verdadeira montanha-russa de emoções. Quando finalmente sua vida parecia voltar aos eixos após a morte de Teresa, Cecília o surpreende da pior maneira. Completamente atordoado, o Rei do Café lembrou do modesto bar anexo ao hotel. Ao ver o barman, foi direto.
— Uísque duplo, sem gelo. E já prepare outra dose.
Enquanto isso, ao chegar em casa, a garçonete percebeu que Clarissa havia adormecido no sofá. Cuidadosamente, a morena desligou a televisão e retirou o balde de pipoca do colo da irmã e em seguida, ajeitou com zelo o travesseiro abaixo de sua cabeça, a fim de que não despertasse. Não queria contar a loira o céu e o inferno que vivera em uma única noite. Depois de uma ducha gelada, Cecília vestiu o pijama e deitou, pedindo a Deus que o sono viesse e que se possível, que as memórias daquela noite se apagassem de sua mente quando ela acordasse.
[...]
Era sábado e para alívio de Cecília, sua folga. Ao despertar depois das dez da manhã, encontrou Clarissa irritada na cozinha do apartamento.
— Que horas você chegou ontem, hein? Provavelmente tarde o suficiente pra que eu apagasse no sofá e você colocasse um travesseiro sem eu perceber.
Cecília a olhou espantada.
— Bom dia pra você também. Cheguei no horário de sempre, mãe. Você quem apagou cedo demais — respondeu, dando continência a mais velha.
Clarissa revirou os olhos.
— Estou com uma puta dor nas costas. Espero que tenha boas notícias, senão vai ter que me fazer massagens por um mês — cobrou a loira, ansiosa para saber detalhes do encontro.
As feições da morena se fecharam e Clarissa entendeu que a irmã estava abalada.
— O que o bonitão aprontou dessa vez? Juro que se ele te faltou com respeito, eu arrebento a cara dele! — disse Clarissa exaltada.
Quando Cecília ia abrir a boca para contar o que aconteceu, a campainha tocou.
— Está esperando alguém? — perguntou a sub-chefe, surpresa.
A garçonete negou com a cabeça.
Ao abrir a porta, Clarissa se deparou com um homem moreno, alto e forte, de olhos claros e nitidamente abatidos.
— Bom dia. A Cecília está em casa?
Ao reconhecer a voz, Cecília estremeceu e correu em direção ao quarto. Vendo a reação da irmã, Clarissa deduziu que o deus grego que estava em sua porta só poderia ser Gustavo Lários.
— Desculpe, mas eu não o conheço. Da onde você conhece a minha irmã? — rebateu a loira, surpresa com a visita.
— Me perdoe. Sou Gustavo Lários, pai de uma das ex-alunas da Cecília. Preciso falar com ela, por favor — implorou o empresário.
Clarissa estava confusa. Como ele sabia do endereço delas? O que havia acontecido na noite passada? E principalmente: o que a irmã mais nova tinha na cabeça para dispensar um homem como ele?
Antes que encerrasse o pequeno conflito mental, Cecília reapareceu vestida no cômodo, com uma expressão séria no rosto.
— Deixe-o entrar, Clarissa. Pode ir tranquila, meu assunto com o senhor Lários será breve.
Clarissa se aproximou da irmã e sussurrou:
— Mas que raios...
— Você está atrasada — A mais nova a interrompeu — Vai que eu me entendo com ele, depois eu explico .
Vencida pelos possíveis quinze minutos de atraso que teria caso não saísse de casa naquele momento, Clarissa pegou sua bolsa, lançou um olhar mortal para Gustavo e os deixou sozinhos.
Cecília o convidou para sentar por mera formalidade, porém Gustavo a ignorou. Eles se encararam por alguns segundos, algo torturante para ambos. Decidida a acabar com aquilo de uma vez por todas, iniciou a conversa, com a interrogação mais óbvia.
— Dá pra explicar como descobriu onde eu moro?
Gustavo deu um sorriso debochado.
— Simples. Acabo de vir de uma reunião com os gerentes dos meus empreendimentos em Catarina. E por mera coincidência, ao checar a lista de recém-contratados, você era a primeira da lista. Segundo o seu chefe, você é a melhor funcionária da Supreme — continuou ele, com certa ironia ao terminar a frase.
Boquiaberta com a peça que o destino lhe pregara, Cecília foi direta.
— Muito bem. O que você quer?
— Como você tem a coragem de me tratar com essa frieza depois do que aconteceu? — explodiu o homem.
— Eu já lhe disse, o que aconteceu foi um erro. Não vai mais se repetir — afirmou ela, irredutível.
O Rei do Café abrandou o tom de voz, porém continuou firme.
— Não estou para brincadeiras, muito menos de mal gosto como essa, Cecília. Será que pelo menos você consegue me explicar o porquê você está me tratando dessa maneira? Eu não consigo entender!
Sabendo que precisava ser incisiva, a jovem não pensou duas vezes:
— E você consegue me explicar como consegue vir atrás da ex-professora da sua filha, cheio de beijos e declarações, largando uma namorada em Doce Horizonte esperando um filho seu?
As palavras dela foram como um tapa em Gustavo. Devo estar de ressaca. Maldito uísque.
— Você ficou maluca? Namorada grávida?
— Não se faça de desentendido, Gustavo! Fui uma noviça, mas nunca fui cega. Sei muito bem que você e a Verônica tinham e tem um relacionamento! — rebateu a morena, demonstrando toda sua raiva reprimida.
Droga.
Gustavo suspirou. Quantos problemas por conta de uma aventura sem futuro. Mas gravidez já era algo fora de controle.
— Cecília, realmente eu me envolvi com a Verônica, mas...
A ex-noviça sentiu o sangue ferver nas veias, louca de ciúmes. Entretanto, a sorte deles já estava lançada.
— Você acha mesmo que eu vou acreditar nesse papo furado de "ficava com ela, mas eu gosto é de você"? Isso é uma afronta a minha inteligência! — ralhou a ex-professora, perdendo a paciência.
Gustavo se aproximou e a segurou pelos braços.
— Mas é verdade. Eu gosto de você. Não como a professora e cúmplice da minha filha. Não como uma amiga — Ele tocou o queixo dela para que o encarasse — Gosto de você como mulher.
Desta vez, a morena não conseguiu dizer uma única palavra.
— Sei que é errado o que vou dizer, mas me encantei por você desde o dia em que nos conhecemos. Você era religiosa e completamente inatingível para mim.
— Gustavo ...
— Agora você vai me deixar falar — O Rei do Café estava tão inflamado quanto ela — Eu pensava que era gratidão por você amar tanto a minha filha como se fosse nossa — A voz de Gustavo ficou embargada ao lembrar de Dulce Maria — Com o tempo, eu percebi que esse sentimento vinha tomando forma e eu não podia fazer nada. Não queira saber o inferno que eu vivi, tentando enganar a mim mesmo, apenas porque eu não conseguia aceitar que estava apaixonado por uma noviça!
— Pare — pediu Cecília nervosa e de costas para ele.
— E então me envolvi com a Verônica. Sim, foi uma atitude de um adolescente. Mas então você foi embora e o mundo ficou de pernas pro ar. Além de ver minha filha desesperada, eu me dei conta do grande erro que cometi.
— Mas já aconteceu, Gustavo — Cecília o interrompeu, chorosa. — Bem ou mal, seguimos nossas vidas. Não quero ouvir mais nenhuma palavra.
— Cecília, e o que aconteceu ontem? Não significou nada?
Preciso te machucar. É a única forma de você me esquecer.
— Nada. Deve ter sido a música, o ambiente, o reencontro. Talvez desejo. Nada mais — respondeu ela, friamente. Por dentro, sua alma queria gritar o contrário.
— Não acredito em você. Seu beijo e sua entrega não foram apenas desejo.
— Pense o que quiser. Vá embora, Gustavo. Volte pra sua família e para seus filhos — frisou Cecília, abrindo a porta do apartamento.
— Tenho apenas uma filha, Cecília — Suspirou ele — Uma filha que te ama como mãe. Mas, pelo visto, ela vai ter que aprender a viver sem você. Adeus.
Ao fechar a porta, Cecília desabou em lágrimas.
Me ajude a suportar tanta dor, meu Deus. Preciso esquecer você, Gustavo, mas como? Como não amar você e a nossa menina...
Gustavo desceu a escadaria do prédio e entrou rapidamente no carro. Seu único pensamento agora era voltar para Doce Horizonte e abraçar sua pequena. Apesar da nítida tristeza, perguntas sem resposta ecoavam na mente do empresário. Como Verônica poderia estar esperando um filho dele se a relação deles nunca foi íntima? Como provar para Cecília que a amava sinceramente e que ambos eram vítimas de um terrível mal entendido? E o principal: Quem havia dito tamanha mentira para fazê-los sofrer?
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