Notas iniciais
Chegamos ao último capítulo de uma história que deve tê-los feito rir, chorar, sonhar, suspirar, sentir raiva, ver o outro lado da situação, porém... o final não é exatamente aquilo que vocês sonhavam, nunca foi. O capítulo está dividido em duas partes e a segunda, que fecha a história, é narrada por Nice. Podem escolher qualquer música triste para ouvir, mas eu acho que Paciência, do Lenine, tem bem a pegada da Aline.

25 de junho de 2000.

O telefone soava estridente na sala do apartamento onde Nice estava sentada no sofá assistindo sozinha ao Fantástico. Apesar de gostar desses momentos em que podia ver televisão e relaxar, estava ansiosa pelo telefonema de Aline que pelas suas contas apesar do intenso tráfego normal nos feriados, ela e os padrinhos já deveriam estar em segurança. Era costume da garotinha logo que chegasse avisar que estava em casa e segura.

Liguei só para dizer que te amo, mãezinha. ― dizia Aline do outro lado da linha. O coração de mãe instantaneamente se desfazia da angústia para deitar-se em paz, mesmo sabendo que gostaria de cedo ou tarde acabar com essa distância que obrigava a família a continuar mantendo esse sacrifício.

Os patrões já haviam jantado e haviam saído para jogarem cartas na casa de um amigo, o que autorizava Nice a atender aos telefonemas, anotar os recados e repassá-los mais tarde.

No entanto, a voz que saudou Nice não era de Aline. O timbre engrossado e visivelmente ofegante também não remetia ao sotaque calmo e reconhecível de Alípio. Era o próprio Adir, seu patrão, esposo de Zuleica, sua patroa e também grande amiga.

― Tudo bem, Adir? ― Perguntou Nice.

― Nice, minha querida, ouça bem: quero que você prepare uma mochila e venha conosco. ― Recomendou o homem no tom mais impessoal que lhe coube.

― E Zuleica? E o trabalho?

― Nós iremos com você. ― Anunciou o homem avisando que já estava esperando-a com as bagagens na portaria.

― Para onde? Por quê?

Adir negou-se a dizer por telefone, por mais que fosse grande a insistência de Nice que muito apressada preparou uma muda de roupas, separou uma nécessaire com produtos de higiene pessoal e encontrou o carro dos patrões estacionado em frente ao edifício de luxo em que morava havia mais de um ano.

Seria demissão? Ora! Nice era mais do que uma simples empregadinha, era amiga dos patrões, sentava-se junto à mesa nas refeições, Aline era tratada como se fosse a própria filha daquele casal. Por mais difíceis que as coisas estivessem no país, Adir e Zuleica tinham boas condições financeiras e se porventura fossem demiti-la, o fariam com um bom tempo de antecedência para que a amiga pudesse procurar outro emprego ou já a recomendariam para uma nova família.

Zuleica, que sempre viajava sentada no banco do carona, abriu a porta do passageiro para acolher à amiga e embora estivesse tentando não denunciar o verdadeiro motivo daquela viagem, não conseguia. O semblante denunciava o estarrecimento, o profundo abatimento, o baque daquela informação que ainda lhe parecia surreal demais para que a ficha caísse.

― Zuleica, minha amiga, eu te conheço. Você pode me dizer o que aconteceu, por favor?

― A minha ficha ainda não está caindo, Nice. ― Lamentou Zuleica, que desatou em lágrimas e foi amparada pela amiga.

― Eu não sei do que se trata, mas sinto muito mesmo, de verdade. ― Consolou Nice.

― Eu é que sinto muito, Nice.

Nice abaixou a cabeça, refletindo por alguns instantes. Adir, calado, deu a partida no carro. Aquele caminho era familiar para todos eles. Dobrar as esquinas, seguir até a BR 376 para evitar a lentidão do tráfego na região de Matinhos e os perigos da BR 277. Não conseguiria transitar por lá sem pensar naquilo.

Adir não gostava de dirigir depois que escurecia, mas diante daquela circunstância não teria alternativa senão enfrentar o seu medo.

― Por quê?

― Porque eu não gostaria de estar no seu lugar. ― Admitiu Zuleica, consternada. Ela não tinha de ideia de que maneira reagiria à mesma situação se os papeis fossem invertidos. Pensar nisso já era suficientemente aterrorizante.

― Eu não entendi direito, Zuleica. A senhora poderia ser mais clara?

Zuleica cobriu o rosto com as mãos e chorou compulsivamente. Levando em consideração que a patroa não era uma mulher de choro fácil apesar da natureza sensível, tratava-se de uma desgraça consumada, irremediável.

― Eu não posso acreditar que isso aconteceu.

― Isso o quê? ― Insistiu Nice, impaciente.

― Eu não sei nem como te contar, Nice ― Zuleica tomou uma das mãos de Nice para segurar ―, pois não queria nunca precisar te contar uma notícia dessas. Ainda nem consigo crer que é verdade, a ficha não cai...

― Se você não falar logo o que é vai me matar dos nervos, Zuleica. ― Redarguiu Nice. ― Você não sabe como estou com o coração apertado. A Aline ainda não me ligou e com você chorando desse jeito, eu acabo pensando só o que não devo. Aline nunca é de não ligar, nem que seja só para dizer “estou bem”.

Os olhos de Adir estavam rasos de lágrimas e ele deixou escapar um soluço.

― Como é que eu vou ter que dizer uma coisa dessas? ― Zuleica perguntou a si mesma em voz alta.

― Não me diga que aconteceu alguma coisa com a Aline? ― Entendeu Nice sentindo o ar escapar de seus pulmões, o seu coração parar num estalo para se quebrar em mil pedaços tão pequenos que qualquer um duvidaria plenamente que fosse possível voltar a sorrir.

― Eu falo com todo o meu coração que não queria estar no seu lugar.

― Por favor, diga-me que não é o que eu estou pensando, é?

― Infelizmente é. ― confirmou Adir com o pranto embargado.

― Aline morreu?

― Houve um acidente na estrada de Alexandra... foi recente...

― Todo mundo que estava no carro morreu na hora. A batida foi muito violenta, mas diz-se que o motorista que vinha na pista contrária é que estava errado. ― Explicou Adir desejando abraçar Nice com toda a força que pudesse.

Nice, arrasada, custou a crer que pudesse ser verdade. Aproveitando que o trânsito estava lentíssimo e os carros demoravam a avançar, abriu a porta do carro e correu para o primeiro telefone público que encontrou. Lembrou-se que não portava um cartão. Não conseguia pensar em nada. Não estava em condições de raciocinar. O coração batia na altura da garganta, podia ouvir os pedaços sobreviventes relutando para não se entregarem à dor eterna. Os braços tremiam, os dedos não tinham força para discar, não acertavam os números. Como nunca antes, ela necessitava escutar a voz de Aline, sentir o alívio de um alarme falso.

Adir e Zuleica acompanharam Nice até o telefone público por desencargo de consciência, porque apesar de apenas a confirmar a dor, era um direito da empregada e ninguém poderia suprimi-lo.

Ninguém atendeu. Tocou, tocou, mas até o fim não deu linha.

― Podem ter se atrasado por causa do acidente ― suspirou Nice. ― Aline pode estar muito assustada com a violência da batida. Ela com certeza não vai dormir sem falar comigo. Ela nunca dormiria sem falar comigo.

― Aline faleceu, Nice. Aline infelizmente não conseguiu escapar.

― Pobre Aline! Aline deve estar muito apavorada, talvez machucada, eu não me importo! É só dizer-me o hospital em que ela está que eu vou correndo para lá.

De joelhos, Nice suplicou segurando as mãos dos patrões, um ato comovente por si só, a reação natural de uma mãe que perdia a sua filha mais velha quando a vida para a mesma estava apenas começando:

― Eu faço hora extra, juro que nem peço décimo-terceiro, não peço nada, não peço nada mesmo. Eu juro que trabalho sem folga para compensar os dias de falta, mas eu peço que vocês me falem a verdade, digam-me se a Aline está muito machucada. Eu não suportarei ficar longe da minha menina. Eu quero saber em que hospital ela está.

Alguns motoristas impacientes buzinavam, os mais atrevidos se arriscavam em ultrapassagens, o que levou Adir a estacionar o carro perto de uma lanchonete onde as pessoas ouvindo os gritos desesperados de Nice saíram para saber o que estava acontecendo.

― Nice, não há mais nada que possamos fazer. ― Obtemperou Adir. ― Aline faleceu.

― Aline não.

― Eu lamento também pelo seu irmão e a esposa. Eu lamento profundamente o que aconteceu.

― Eu não quero acreditar. ― Nice tampou os ouvidos. ― Eu não vou acreditar! Não vou acreditar! Em mentira eu não vou acreditar!

Zuleica deu uma palmada condescendente nos ombros estreitos da amiga, que inebriada pela negação, via as suas hipóteses desaparecerem. Era de fato a mais absoluta verdade encoberta por alguns eufemismos que não atenuavam o impacto e tampouco recontavam um capítulo que para todo efeito nunca deveria ter sido escrito. A perda foi uma folha arrancada que interrompeu a compreensão.

― Minha filha não! A minha filhinha não! ― Esganiçou Nice, perdendo os sentidos e caindo nos braços de Adir.

Os fregueses da lanchonete trouxeram Nice para dentro e a acomodaram em uma cadeira vermelha de plástico oferecendo água com açúcar, todos bastante impressionados com o drama da mãe que acabava de descobrir que perdeu a filha mais velha.

― Ninguém nunca está pronto para receber esse tipo de notícia. ― Comentou uma mulher de cabelos avermelhados que estava conversando com Adir e Zuleica.

― Nada nessa vida é mais triste que um pai ter que enterrar um filho. ― Concordou o esposo.

A chuva que havia castigado Guaratuba naquela tarde já estava mais fraca. Poderia desabar uma tempestade sobre a sua cabeça, não importava, nada mais importava. Leonice Pacheco nunca poderia se esquecer daquela noite de 25 de junho de 2000.

***

25 de junho de 2015

Tantos anos se passaram desde aquele chuvoso domingo e essa foi uma mancha que o tempo deixou em mim, uma tatuagem gravada com lágrimas de sangue. E nunca, nunca, nunca mesmo eu consegui fechar os olhos e dizer que superei isso, primeiramente porque é impossível esquecer alguém. Nunca se esquece. O que ocorre é que a vida nos obriga a seguir em frente porque mesmo não gostando disso, não há escolha.

Eu fiquei completamente sozinha no mundo, num mundo que girou e não se importou com o que sobrou de mim ― por mais partido que esteja o coração, ninguém se importa ―, porque analisando bem friamente, o meu mundo se esfacelou. O botão de rosa foi arrancado do jardim da vida antes do florescer, não viu a primavera chegar, não pode me telefonar pela última vez.

Em meus olhos está impressa a dor de uma mãe que teve o seu coração esmigalhado pela perda. Até acontecer comigo parecia uma realidade distante, então sou apresentada a uma mudança que me apanhou desprevenida e destelhou as minhas defesas. Hoje quando vejo outra mãe por aí chorar a morte do seu filho, eu sinto essa aflição irradiar-se em cada centímetro de mim. Eu choro o pranto delas. Sei o que é esperar alguém que nunca mais irá voltar, ouvir uma música e a presença ser tão real que é impossível não ser arrebatada pela saudade. Porque lutar contra ela é se assumir perdedora.

Em cada um desses dias eu quis que para nós houvesse uma história diferente. Eu te quis de volta em todos eles. Eu não morri de tristeza, mas não posso dizer que sou alegre, não me atrevo a dizer quem sou.

Parece que foi ontem que te segurei nos braços pela primeira vez. Que te ouvi falar “mamãe”. Que te vi engatinhando sempre com postura de rainha.

Eu tive a impressão de que não faz tanto tempo assim eu estava segurando na sua mãozinha para te entregar aos cuidados da Tia Márcia quando você abraçava as minhas pernas chorando de medo da escola.

― Você vai voltar, mãezinha? ― Você bem pequenininha com aqueles cachinhos de anjo me abraçava às pernas, chorando que dava dó, mas não demorou muito, eu me lembro de ter toda faceira brincando com os seus novos amiguinhos.

Eu guardei a primeira cartinha que você me mandou no Dia das Mães escrita com giz de cera. Para mim é uma relíquia que eu nunca vou me desfazer.

Eu me lembro da primeira prova em que você tirou dez e pregou na geladeira. Da sua primeira poesia no Dia dos Pais, dos seus desenhos engraçados, do seu sorriso alegre que era o melhor jeito de começar até os dias mais carrancudos.

Eu prometi estar sempre ao seu lado, Lilica, e peço perdão por ter de trabalhar tão longe para que nada faltasse a você e ao Rubinho. Muitas vezes eu me sacrifiquei para que um dia nós voltássemos a ter um cantinho só nosso, nosso de verdade, em que poderíamos ter o nosso cachorro, talvez não muito conforto, porém nada nos faltaria, teríamos uns aos outros e isso seria o melhor de tudo. Eu me sinto culpada por essa perda, por não ter te pedido para ficar, pois não sei se uns minutos a mais ou a menos teriam impedido que você fosse arrancada de mim.

Até parece que foi ontem que aquela notícia triste terminou de partir o meu coração. Seu irmãozinho perguntava de você e eu não tinha quaisquer forças para lhe contar a verdade. Dizer que você estava no céu foi tudo o que restou. Acreditar que você não sentiu dor e cumpriu sua missão de espalhar amor, boa vontade e mostrar que ainda é possível encontrar pessoas boas nessa caminhada.

Todavia, por mais que eu tente acreditar que um dia nós estaremos juntas de novo, já são quinze anos sem você. Desses tantos passados somados, já fazem parte de um tempo que não me reconheço mais porque você foi e sempre vai ser o meu presente.

Aquele abraço tão apertado na garagem do prédio da querida Zuleica (que também já se foi) não podia ser nosso último contato aqui na terra dos viventes. Se disso eu soubesse, teria pedido para você ficar comigo mais um pouco. Se isso ao meu alcance estivesse.

Já faz quinze anos que me pergunto tantas coisas e sei que a resposta não vai vir. Nem mesmo o argumento mais bonito apaga essa parte triste da minha história. Da nossa história. Nada pode ser capaz de te trazer de volta para continuar de onde parou.

São quinze anos que não apagaram os treze em que tive o brilho do seu olhar para me inspirar.

Desde aquela horrível noite não tem um dia em que eu não pergunte a Deus por que Ele te levou.

Eu já o odiei por isso. Já pedi perdão por odiá-lo. Quase fiquei maluca de tanta tristeza, mas outra mãe no meu lugar de dor iria morrer.

Eu morri por dentro. O mundo sabe. Deus, melhor do que ninguém. Todas as manhãs eu faço uma força muito grande para me levantar e continuar por aqui até meu coração parar de bater. Sentido eu tento encontrar. Partido o meu coração segue. E eu sigo a vida tentando fazer dela menos insuportável.

Em todos os seus aniversários eu ainda preparo seu bolo favorito e não deixo ninguém sentar onde seria o seu lugar.

Minha garotinha de aquário, meu pequeno anjo de cabelos cacheados, como eu te amo!

Todos os Natais eu coloco para tocar a sua música preferida e enfeito a árvore de Natal como se você estivesse prestes a voltar para celebrar a data com todos aqueles que te amavam. Mas então cai a ficha, é apenas mais um final de ano sem você.

Eu guardei com muito amor aquele seu caderninho misterioso e por muito tempo não quis lê-lo, mas foi bem ter conhecido uma parte de você que nem desconfiava. Se você sempre foi grata por ser minha filha, eu mais ainda por ter sido escolhida para ser sua mãe.

Eu não te vi bailar ao lado do seu príncipe de nome estrangeiro, mas soube que você foi à primeira menina que ele realmente amou. Hoje ele tem uma linda filhinha e o nome dela é Aline!

Você não chegou a escrever na lousa nem ter o seu diploma de inglês, nem soube que sua melhor amiga é hoje uma grande escritora, alguém que tem muito orgulho de ter feito parte da sua história.

Você fez a diferença na vida de muitas pessoas e sei que cumpriu sua missão por aqui, que não passou pelo mundo em vão. O problema é que você se foi cedo demais, não preparou ninguém. Esse adeus arrasa as estruturas de qualquer um!

Eu sei que tudo tem o seu propósito, mas é difícil acreditar que leio essa carta em voz alta para milhares de pessoas que não te conheceram quando você ainda iluminava os corações de todos aqueles que tiveram o privilégio de vê-la, pessoas que hoje te amam por saberem a grande filha e amiga que você sempre foi.

Queria ter escrito uma carta para ler quando você estivesse usando seu vestido de princesa na sua festinha de quinze anos, mas não tive tempo, o destino me pregou uma cilada e você me deixou aqui sozinha no auge dos treze, quando a vida estava desabrochando.

Sei que um dia estaremos juntas de novo. Enquanto isso eu tento dar um sentido ao que restou de mim.

A melhor parte ficou com você.

Com Amor,

Nice.

Notas finais
Sei que não é fácil ler as minhas histórias, pois "castigo" vocês com o sofrimento dos meus personagens e até a morte de alguns deles, o sofrimento de quem fica, dos casais que se separam, até dos bloqueios criativos que impedem muitas vezes que essa maluquete aqui produza. Gostaria de agradecer a Deus por na época ter me iluminado com inspiração para escrever, pois sem Ele eu não seria nada, à minha família, por me aturar e por acreditar em mim, a cada um dos meus leitores que encontrei nesses 10 anos de jornada (contabilizando desde o primeiro blog até o Inkspired já são 10 anos), pelo amor, pelo carinho, pelo apoio, por me permitirem muitas vezes ser uma amiga, por acreditarem em mim até mais do que eu mesma, por acolherem meus personagens, por serem gentis, por não desistirem de mim, nem de verem o final de Simplesmente Tita. Obrigada por terem chegado até aqui. Espero ver vocês logo, de preferência numa fic com um final feliz, afinal de contas, ninguém é de ferro. Amo vocês!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!