Aline por Aline

24 Capítulo 24 - Lilica outra vez


Yohann e eu ficamos algumas vezes ao longo dos meses de março e abril, mas eu não quis criar expectativas de nada, até porque não queria sofrer mais do que já estava sofrendo.

A ficada foi ficando séria, ele gostava de estar comigo, e eu de estar com ele.

Senti vontade de me abrir com a Tita, mas não era nada definitivo e eu também não queria que minhas novidades parecessem soberbas, como se eu estivesse sendo feliz logo quando tudo estava dando errado para ela.

Eu queria ter certeza de que Yohann queria mais do que ficar.

Ele voltou a me telefonar, não como antes, pois estava estudando de manhã e fazendo cursinho pré-vestibular na parte da tarde, ocupado com a academia noite sim noite não e com as aulas de revisão no fim de semana. Nós nos encontrávamos às vezes porque eu estava estudando na época da greve indo até à Biblioteca Pública — onde outras crianças se reuniram para não ficarem atrasadas. Yohann também adora ler e, sempre que pode, pega alguns livros para se distrair enquanto estuda um teorema e outro.

Em um domingo ocioso o qual eu pretendia assistir com os meus padrinhos aos filmes que alugamos, recebi uma visita muito especial após o almoço. Eu não estava esperando ninguém, pois mamãe estava trabalhando como sempre, Meire prefere que Tita seja amiga do diabo do que esteja comigo, Adolfo e eu não nos vimos desde aquela tenebrosa quarta-feira... Com isso, as possibilidades iam se reduzindo...

Era ele.

O meu Yohann.

De paletó, camisa xadrez (vermelha e azul), calça social e sapato e um ramo de margaridas numa das mãos.

― Para mim?

— Para a flor que ilumina meus dias com o seu frescor e a sua doçura.

― E como é que pode ser tão romântico assim?

— É difícil não ficar inspirado assim estando perto de você. ― Ele me beijou na testa e me entregou as flores.

— Deseja entrar?

― Se não for incomodar...

— Pensei que iria pedir uma xícara de café antes de oferecer o humilde presente.

― Só entro depois de você.

Fechei a porta e deixei que ele se sentisse à vontade, pois parecia tão ansioso. Tão logo meus padrinhos reconheceram a visita e cumprimentaram meu (ainda ficante) Yohann com muita hospitalidade, o que não me surpreende, já que Alípio e Marlene se comportam sempre assim.

Yohann fica muito bonito usando a farda da escola, mas mais bonito ainda sem ela.

Ele veio todo sem jeito pedir para conversar com o Tio Alípio e a Tia Marlene porque o assunto que tinha a tratar lhes interessava muito.

Sheila Suzana (parece até o nome do poodle toy que a D. Zuleica adotou agora que seu Yorkshire morreu) é carta fora da jogada. Eles não são mais namorados, não são mais nada. Ele disse um dia desses que nunca gostou de ninguém do jeito que gosta de mim e eu respondi com um sorridente “também”.

A mão dele estava suada quando segurou na minha. O coração cantava acelerado quando se encontrou com o meu.

Ele me pediu em namoro com o consentimento dos meus padrinhos, pois com a minha mãe com quem conversou sem que nem soubesse, já havia dado tudo certo, ou seja, ela deu a bênção.

— Se você e a Aline namorarem direitinho, confiarem em nós e não deixarem de estudar, a Marlene e eu não vamos impedir.

Meus padrinhos se olharam e sorriram. Um dia eles já tiveram a nossa idade e sabem que não podem impedir os jovens de se gostarem e tentarem ficar juntos. Eu acho importante que os pais (ou responsáveis) não sejam os últimos a saberem.

Queria que a Tita e o Adolfo tivessem um final menos triste, mas de certa maneira foi consequência...

O que começa do jeito errado termina em desgraça!

― Se vocês se gostam, é o que importa. Na ausência da Nice, nós somos inteiramente responsáveis pela Aline, então ela é como se fosse a nossa filha.

— Eu entendo a preocupação, Sr. Alípio. ― Assentiu o adolescente.

― Nós não queremos que ninguém magoe o coração da nossa preciosidade, ainda mais porque é nossa responsabilidade cuidar e proteger da Aline. — Refletiu Alípio.

— Eu não quero fazer isso. ― Insistiu Yohann.

― Se Aline estiver feliz, é o que mais importa para nós. — Concluiu Marlene.

Eu não estava exatamente preparada para ser pedida em namoro naquele domingo preguiçoso, pois nessa ocasião eu imaginava que estaria usando aquele vestido branco lindíssimo que a D. Zuleica me presenteou no aniversário cuja barra é de renda e toda rodada, um arraso!

Eu estava vestindo uma calça de moletom, um chinelo de pano e a minha blusa do pijama. Pedi licença para tomar um banho rápido e vestir uma roupa mais apresentável, enquanto minha madrinha preparou um bolo de micro-ondas para receber a visita.

— Esse ano eu vou tentar vestibular, Sr. Alípio.

― Para qual curso, Yohann? — Quis saber Marlene, curiosa.

― Pra Direito. — Respondeu Yohann.

― Direito é um ótimo curso — recordou Alípio. ― Pretende ser advogado ou tentar concurso público?

— Na verdade, eu estou lutando para ir para o Guatupê (Academia Militar), então preciso ter notas muito altas para ficar entre os oito que vão ser escolhidos pelo processo indireto. Se não der certo, eu vou estudar Direito. ― Obtemperou o Yohann, sentado no sofá com os meus padrinhos.

— A Aline pretende ser professora. ― Contou o meu padrinho me chamando para um abraço.

— A Aline tem jeitinho de professora. ― Concordou Yohann, todo orgulhoso porque eu me saí muito bem no último teste de conversação.

— Não faço mais do que a minha obrigação, Yohann.

— Por isso eu gosto tanto de você, Lilica. ― Yohann beijou os nós dos meus dedos, olhando-me com tanta ternura que o meu rosto deve ter corado e ele com toda a certeza não deixou passar despercebido esse detalhe.

Depois do Tadeu, Yohann era a primeira pessoa que me chamava de Lilica. Senti vontade de rir. Eu, que não fui muito acostumada a ter apelidos, sabia que se ele estava me chamando de um jeito carinhoso é porque gostava mesmo de mim.