Aline por Aline

18 Capítulo 18 - Praga de mãe sempre pega


Falaram tanto que o mundo iria acabar quando 2000 chegasse, mas virou o ano e eu não ouvi nem uma mísera trovoada indicando o fim dos tempos. Além do mais, ainda erraram feio, pois a virada do milênio vai acontecer em 01/01/2001, quando irei completar catorze, quando eu ingressar (se não reprovar) no último ano nessa escola idiota e escolher entre o CEFET, o CEP, ou qualquer um dos colégios militares, pois o Yohann diz que apesar de o ensino ser puxado, é muito bom.

É só uma pena que quando eu entrar no CM, talvez em 2002, ele já vai ter saído. Por uma boa causa, é verdade.

Passei as festas de Natal e Ano Novo em Curitiba com a minha mãe que ganhou algumas semanas de férias. Yohann passou esses dias todos em Guarapuava. Nós havíamos marcado de assistirmos ao filme do Pokémon que está nos cinemas, mas na última hora ele desmarcou porque tinha que levar a irmã pequena no dentista.

Juro por Deus que eu me contive para não dar um tapa na cara da Maria Clara. Eu não estou gostando nada de ter que aturá-la nos passeios, ainda mais agora que ela se viciou em Diário de Daniela e fica olhando de um jeito estranho para o Adolfo que agora não desgruda da Tita. Eles nem sequer lembram aquelas crianças tímidas do ano passado que só brigavam. Agora andam de mãos dadas no shopping, arriscam uns beijos de língua quando ninguém está vendo e tentam não dar muito na vista, pois agora pelo que a Tita me contou, a Clarinha vai morar com ela.

Meus padrinhos voltaram a trabalhar na primeira semana útil de janeiro e não viram qualquer problema que eu passasse o restante das férias de verão com a minha mãe. Eu implorei para que a Tita me acompanhasse para também retribuir o fato de ela ter realizado o meu sonho de conhecer o mar. Meire fingiu que retornava para dar uma resposta e pelo silêncio que se sucedeu durante a tarde eu sei que foi um “não”.

Desci a serra para curtir cada um daqueles dias com a minha querida mãe. Voltei a ter o seu colo, o seu cafuné, beber o seu café. Sendo as amigas que somos, não lhe escondi que o motivo do meu olhar perdido se chama Yohann.

― Ele estuda no Militar, filhinha? — Mamãe ao final do expediente sempre me leva para dar uma voltinha no centro, para curtirmos a bela vista.

― Sim... vai se formar esse ano... — Eu curtia cada mordida da casquinha de manga que mamãe comprou para mim.

― E você gosta muito dele?

― Sim... E eu acho que ele também gosta de mim.

— Eu queria conhecê-lo, minha filha. Se ele é um bom menino, de confiança...

— Yohann é, senão eu não iria me envolver com ele.

― Entendo que esteja na fase das paixonites, mas, por favor, minha filha, não se entregue.

― Yohann é legal, mãezinha. ― Sorri. ― Quando você o conhecer vai gostar dele.

― Se eu olhar nos olhos dele e perceber que as intenções não são honradas, eu não vou deixar você namorar esse garoto. ― Proferiu Nice, austera. E em poucas vezes na vida mamãe me dirigiu esse olhar.

— Se o Yohann fosse um fanfarrão que nem os meninos da minha sala eu entenderia a sua preocupação, mas o Yohann é aplicado, estudioso, não é desse tipo.

― Mas ainda assim, meninos são meninos. Menos é mais, Aline. Um passo de cada vez. Eu não quero magoá-la, meu amor, só a quero bem. Você é muito nova para sofrer por qualquer um.

— Mas o Yohann não é um menino qualquer. Infelizmente eu não dei certo com o Tadeu e o Guto, mas do Yohann eu gosto de verdade e eu acho que ele também gosta de mim.

― Ele já disse que gosta?

— Ainda não, mas...

― Fica esperta, Aline ― ralhou mamãe. — Fica esperta!

Minha mãe tinha a razão. Eu não podia mergulhar de cabeça se ele não faria a mesma coisa. Tem que ter coerência. O coração depois de machucado demora a se recuperar e nunca mais volta a ser aquilo que era.

Mas quem aos (praticamente) treze anos dá atenção aos sábios ensinamentos das mães?

Ouvimos sempre a parte que nos cabe, desejando secretamente que elas estejam enganadas e eu seria uma mentirosa se dissesse que não pensei a mesma coisa, que queria tanto ser pedida em namoro pelo Yohann.

Eu não sabia, porém, que a madrinha do Yohann é patroa da minha mãe. Ou seja, mesmo que eu não soubesse, iria revê-lo, pois ele é carne e unha com a D. Zuleica que é toda madame, anda com carro do ano, roupas novas de seda e sei que ela está por perto quando sinto o cheiro do seu perfume no corredor.

Minha mãe começou trabalhando como caseira nesse prédio, aí quando acumulou as funções de diarista da maioria dos apartamentos, os moradores contrataram outra pessoa para a portaria e mamãe trabalha de segunda a sábado, tendo folga aos domingos. Para termos mais tempo juntas, eu a ajudo no que posso...

Zuleica passa os verões com o marido e o afilhado numa das coberturas do referido prédio de pastilhas azuis que estão sendo trocadas aos pouquinhos. Os filhos já são todos crescidos e estão longe. Ela tem um cão Yorkshire e uma calopsita manhosa. Eu gosto de brincar com os dois e fico sem jeito quando ela me oferece petiscos.

— Gosta de ver televisão?

― Gosto.

Zuleica me chamou para se sentar com ela naquele sofá de contorno quase intocável e ligou a televisão zapeando os canais com o controle remoto.

— Gosta de desenhos animados? ― Perguntou ela.

— Adoro!

E eu mal sabia que na televisão tem canais que passam desenhos animados 24 horas por dia, meu Deus do céu!

― Não ligue se o meu afilhado não acordar cedo... Ele é bem dorminhoco...

— Tudo bem, eu só não quero atrapalhar.

― Atrapalha não, meu anjo. Fica à vontade que depois sua mãe vem ficar com você.

De todas as patroas, D. Zuleica é a mais gentil porque mesmo sendo rica, não trata a minha mãe como se fosse um ser inferior. Ela faz de mim a uma filha. Mamãe diz que mesmo assim devo me comportar e não me deixar subir à cabeça, pois ela conhece várias filhas de diarista que se deixam deslumbrar com os luxos das patroas e passam a ter vergonha da profissão da mãe.

Desenhos animados, como eu os amo!

Sem eles, as manhãs da minha infância não teriam sido o que são!

Escutei o barulho de uma porta se abrindo e os passos pesados ecoando do corredor. Fiquei sentada no sofá caladinha e até fingindo que prestava a atenção no Tom & Jerry.

Seria possível prestar atenção no meu gato preferido quando o meu gato de carne e osso ficava todo sem jeito por me reconhecer?

Acho que não...

— Aline, você por aqui? ― Indagou ele sem camisa, vestindo apenas uma bermuda que devia ser pijama, eu acho.

— Yohann?

O susto mútuo foi mais cômico ainda porque a D. Zuleica voltou da feira e fez graça da situação, surpresa por saber que eu já conhecia o seu querido afilhado.

Alguns minutos depois ele mudou de canal para ver Pokémon e não me deu atenção. Eu também me vinguei quando começou Chaves. Ficamos nessa de ver televisão e brincar de vaca amarela até o meio da tarde, quando os adultos praticamente nos mandaram à força para a praia dizendo que estávamos perdendo um lindo dia (e por sinal estava mesmo!). Foi a vez de brincar quem se enrolava mais para tomar banho. Eu era visita, mas ele levou bronca.

Nosso primeiro beijo aconteceu no final da tarde, pois nosso passeio durou mais do que prevíamos, já que um fez questão de contar ao outro detalhe por detalhe dos dias em que não tivemos contato. Ele ficou me olhando dentro dos olhos e esticou o braço bem devagar para tocar nos meus cachos. Deve ter sido jogo rápido, mas para mim soou eterno. Nossos rostos foram se aproximando e eu que nunca fui de me acovardar, fiquei pensando nas palavras da minha mãe, no quanto elas me machucaram. Abaixei a cabeça e ele usou as pontas dos dedos para colocar seus olhos a uma altura não pudéssemos fugir daquele desejo. Foi um beijo calmo, breve, bom. Eu fiquei com o gosto do chiclete de hortelã na boca por algum tempo.

Mamãe e eu estávamos brigando, coisa que não tinha costume de acontecer. Eu provocava tudo, admito. Ela apenas me advertia dizendo que quem dá um passo maior que a perna sempre tropeça...

E não é que praga de mãe sempre pega?