Aline por Aline

8 Capítulo 8 - Escola nova, os amigos de sempre...


Félix e Helena voltaram para Curitiba depois do Carnaval, quando também, de qualquer modo, acabavam as férias escolares da Tita (e as minhas também!).

Meus padrinhos me receberam com carinho e em cima da cama tinha mais material escolar. Tudo estava preparado. Minhas roupinhas estavam nas gavetas da cômoda, eu tinha permissão para falar com a minha mãe quando quisesse. A geladeira estava cheia de coisas gostosas para comer. Nada que fuja da tradição dos meus padrinhos porque desde que me entendo por gente, eles sempre fizeram tudo para me ver feliz.

Sou feliz por tê-los como parte da minha família.

Se eu sentiria ciúmes de um futuro primo?

Pelo contrário.

Eu oro muito a Deus para que ele realize esse sonho da Tia Marlene de ser mãe. Ela já tem 42 anos e meu tio, 46. Eles merecem saber quão bom é segurar um bebezinho no colo.

Para eles, eu sou o bebê.

Aquele bebê que eles viram crescer e pegaram no colo, batizaram e acompanharam meus primeiros passos, vendo-me com os meus dentes de leite e também sem eles — quando fiquei com aquela janelinha nos dentes da frente, ouvindo com tanto carinho quando eu contava alegremente que deixei meu dentinho debaixo do travesseiro para que a fada do dente pudesse vir e me deixar uma moeda.

Eu era uma menina grande, mas o eterno bebê.

Bebê esse que já tem 12 anos.

Mas é bom ter alguém que te conhece e não chega com aquele papo chato de virar mocinha ou de como você cresceu, algo tão óbvio. Muitos nem sabem o que dizer. É como quando nos perguntam se estamos bem. De fato, poucos — conto nos dedos da mão quantos ― querem saber se estamos bem. É uma pergunta de praxe, fundamental para as normas de etiqueta.

Sim, eu estou bem.

Mesmo quando por dentro estou chorando.

Para os meus padrinhos eu digo se não estou bem, mas às vezes falo que sim só para não preocupá-los.

Sinto saudades da minha mãe e espero que em breve ela possa se transferir para um emprego aqui em Curitiba para que eu possa abraçá-la todos os dias.

Nós dormíamos todos juntos: ela, o Rubinho e eu.

Eu disse que ficaria bem para não ser ingrata com os meus padrinhos.

Mas eu queria a minha mãe de volta.

Sem o meu pai, eu só tinha a ela.

Felizmente, eu ainda tenho aos meus padrinhos.

Eu tenho a eles. E eles têm a mim.

Mas mãe — esse carinho de mãe ― nem o afago mais sincero de uma madrinha substituem.

Ninguém substitui.

Por mais legal que seja não consegue.

Mãe é mãe.

Três palavras, uma tradução inabalável.

A mãe representa os dois olhos, a madrinha é os óculos.

A Tia Marlene fritou aqueles nuggets de frango com recheio de queijo e preparou macarrão com almôndegas (ai, não me lembra disso!). Ela, o padrinho e eu ficamos assistindo ao Sai de Baixo, depois eles foram dormir e eu fiquei acordada ouvindo música, escrevendo, e segunda-feira para a minha surpresa ainda não era o primeiro dia de aula, ficou para terça-feira por causa da chuva forte de domingo. Pelo menos já aprendi o trajeto e aproveitei para ver desenhos no programa da Eliana, tomar chocolate-quente porque esfriou um pouco e eu adoro o frio para dormir.

O problema é que eu durmo demais.

Acordei atrasada, às 06h50min. O despertador me sacaneou, ou melhor, eu o subestimei. Era para eu acordar às 05h50min para tomar banho e fazer o desjejum. Com uma hora de atraso, tudo pareceu conspirar contra mim!

Em primeiro lugar, saindo da cama bati o dedinho do pé na quina da penteadeira, depois sujei a camiseta da escola com achocolatado, tive que trocar. O secador decidiu pifar, ainda bem que a madrinha avisou. Estava chovendo forte, eu fiz o favor de pisar em falso numa poça de água, que dia!

Tive que voltar, trocar o tênis, a meia, e já passava das 07h30min, ora essa!

Chegar atrasada no primeiro eu não sabia se era um bom presságio. Quase certo que não!

Só consegui entrar no ônibus depois de TRÊS tentativas. Todos que passavam nem paravam no ponto porque já estavam lotados. Não que o terceiro estivesse às moscas, mas me espremendo na lata de sardinha era o que importava. Estar lá.

Chegando à escola levei um tempão até encontrar a minha sala, mas ainda bem que a professora foi gentil e me deixou entrar... Eu quase tomei um susto, ou melhor, tomei um susto dos bons quando vi Adolfo e Tita conversando!

Não, eu não sonhei, não vi miragem, não passei da hora...

Eu estudaria com Adolfo e Tita!

Adolfo reclamava tanto dessa turma nas férias, falava da tal de Cássia Reis que vive o amolando, falava também do Erick que o perseguia e batia. Reclamava da Prof. Naná. Adolfo tem só doze, mas quando dá para ser rabugento supera até o meu vô e mais casmurro que o pai do meu pai, só sendo.

A Cássia veio com gracinhas para cima do Adolfo. Por Deus, até ela já percebeu tudo.

Tudo que a Tita ainda não sacou.

Tipo, bancando a garota que fala gíria, não caiu a ficha...

Mas tem gente que mesmo que você explique o que a gíria significa, ainda quer saber por que a gíria é gíria.

Sou paciente, pelo menos dizem que sim. Tenho os meus limites e quando alguém os ultrapassa, já era.

Sei que terei problemas com a Cássia Reis.

Olhando-a de longe você acha que é legal porque ela vive rodeada de gente. Cássia fisicamente parece ter entre dezesseis e dezessete anos por ser bastante alta. Eu esperava, porém, que ela agisse feito uma garota madura. Enganei-me profundamente: Cássia Reis consegue ser mais infantil do que o meu irmão de seis anos, o Rubinho, de quem por sinal estou com muita saudade.

Nós cantamos o Hino Nacional todas às sextas-feiras depois do intervalo. Eu fui advertida pelo Adolfo a sempre estar preparada no caso de tentarem abaixar as minhas calças. Fizeram isso com a Tita, ela chorou de raiva.

Cássia Reis não sabe cantar um único verso do nosso hino, então mexe a boca para provocar ataque de riso nos seus asseclas, umas seis ou sete garotas que por medo de apanharem são suas subalternas. Se Cássia pintasse o rosto, seria uma legítima palhaça. É esse o problema: ela ri da desgraça. Faz barulho de pum com o braço quando os professores estão explicando a matéria ou quando alguém está apresentando um seminário, isso quando não decide inventar alguma voz “engraçada”, sem notar que já passou do limite entre ser espirituosa e ser ridícula. Abaixa as calças dos outros (ou manda alguém fazê-lo) durante o cântico do Hino. Estica as pernas enormes na escada para alguém cair. Já pensou se esse alguém sai rolando e bate a cabeça? Não quero nem pensar numa coisa dessas!

Em tão pouco tempo, Cássia já inventou apelidos para todo mundo. Eu sou o Esquilo Feliz, o Adolfo é o Presuntinho, a Tita é a Mulher do Presuntinho (e ela ODEIA esse apelido, aí é que a turma atiça e zoa mesmo!), a Prof.ª Filomena é a Ombreira de Naftalina brevemente reduzida para Naná que coincidentemente é a alcunha pela qual seus conhecidos a chamam.

A Tita infelizmente não pode ir morar com o Sr. Félix, deu tudo errado e ela ainda apanhou feio da Meire. Sou contrária à ideia dela de fugir de casa, mesmo sabendo que agora a vó dela está doente e tudo parece estar dando errado. O lado bom disso é que ela e o Adolfo não brigam tanto quanto antes, até parecem mais unidos... Só que unidos nessa conotação não é o bastante... Eles estão mais próximos um do outro... Não tão perto que não possam estar longe também...

Quando a Tita me conta sobre o inferno que a Maria Clara está fazendo com ela, mal posso acreditar que uma menina tão nova possa ser capaz de agir com tanta crueldade. Antes fosse grudar um chiclete na cadeira dela ou coisa do tipo. A tal da Clarinha está se saindo pior que a Cássia e tem a Meire a seu favor.

A Meire está pegando pesado.

Tita não pode ver TV, só a Clarinha pode.

Tita é tachada de maluca porque não vê a novela da tarde.

Grande coisa!

Maluca é a Clarinha que acha que tudo aquilo é real.

Ninguém é obrigado a ver um programa que não quer. Se o controle remoto já existe para isso, quem é a Meire na ordem do dia para falar de moral?

É muito fácil ser a dona da verdade calando a voz dos outros.

Como eu já disse, a Tita teme a mãe e assim a Meire consegue dominar a situação. Isso vai ser um problema daqui para a frente. A Tita está crescendo e vai se voltar contra a mãe.

Temo muito quando isso acontecer!

Tita teve que ceder sua cama para a Clarinha que mal tem consideração e ainda quer confiscar o rádio. Para isso, ela inventou absurdos para Meire quase quebrar o aparelho de som com os punhos.

Senti um calafrio horrível pensando nessa surra injusta que a Tita tomou por ser acusada de um roubo que não cometeu.

Por Deus, a Tita precisa desse pai!

Só o Sr. Félix pode salvá-la!

Onde ele está?