Aline por Aline
7 Capítulo 7 - Meus 12 anos
Os 12 anos de uma garota costumam ser uma idade muito importante. A cada passo sei que estou um pouco mais longe da infância, mas percebo no fim do horizonte que também não sou adulta.
Eu gosto de fazer aniversário, é um dia que apesar de dividir com outras pessoas do mundo, apesar disso, me sinto única.
Porque eu sou.
Aline é um nome tipicamente comum.
Sou Aline Gisele Pacheco.
Pode haver outra menina com esse mesmo nome, mas ela não será eu e nem eu serei ela. Apesar dessa semelhança nítida, ainda assim não somos iguais, mesmo que ela tenha nascido no mesmo dia e na mesma hora.
Nossos destinos não são os mesmos.
Ela pode gostar de pimenta, eu não gosto.
Ela pode desenhar muito bem, tocar flauta, gostar mais dos Backstreet Boys do que das Spice Girls, preferir matemática a português, ser a filha do meio ou a caçula, não sei dizer, nem descrever o rosto dela, só sei que ela não é eu.
03 de fevereiro.
Sim, eu sou de aquário.
Esse verão tão especial no litoral me fez pensar que a vida escreveu com palavras difíceis de traduzir. No início do ano passado eu namorava o Tadeu e meu pai até onde eu podia ver, parecia bem de saúde. Eu ainda morava em Prudentópolis, subia nas árvores para pegar frutas, às vezes ia pescar com meu vô e aos pouquinhos as coisas foram mudando... Meu pai foi se afastando de mim e eu sentindo cada vez a mais sua falta, como eu sinto todos os dias desde que ele foi para a capital se tratar porque quando voltou, foi como se tivesse sido partido ao meio, como se a alma estivesse lentamente se desgarrando do corpo...
Sei que a alma dele vive. Por aí. Em outra dimensão. No meu coração. Nos sorrisos clicados para o retrato. Na minha eternidade.
Já são 12 verões por aqui.
12 de não sei quantos.
Talvez 24, talvez menos ou até mais.
Diz meu coração que o pior já passou, que se Deus me deu uma cruz desse tamanho é porque meus ombros são capazes de suportar o peso, nem que eu precise parar por alguns quilômetros nessa caminhada até o infinito.
Félix e Helena convidaram alguns amiguinhos para lancharmos em comemoração ao meu aniversário. Eles compraram alguns presentes e um filme de 36 poses para nos fotografar. Foi muito divertido.
Minha mãe agora vai morar na praia. Eu queria ficar perto dela, mas não vou poder. De fato, vai ser estranho um bocado, porém sei que o Rubinho precisa mais dela por ser pequenininho e apesar de ele me encher bastante, sentirei a falta dele.
Vou morar com os meus padrinhos e ainda não sei como contar à Tita. Na verdade, tenho muito a agradecer ao Sr. Félix porque quando comentei que mamãe estava desempregada e sem horizontes, pensei que nem daria importância porque afinal não era da conta dele. No mesmo final de tarde (do dia em que cheguei a Guaratuba) mamãe me liga chorando, dizendo que conseguiu um emprego de caseira em um prédio residencial bem conhecido ganhando um salário bom.
Seu sacrifício será por uma boa causa e pelo menos fica combinado que eu poderei visitá-la sempre que quiser, nos feriados prolongados e nos finais de semana que não tiver provas nem muitos trabalhos para fazer, por isso terei que me dedicar bastante para passar por média e sair de férias o quanto antes.
Fiquei tão sem jeito quando o Sr. Félix me levou junto à papelaria porque sabia que o pai iria comprar todo o material escolar da filha, mas não imaginei que sem falar em nenhum momento de pagar, compraria o meu. Fiquei atônita quando ele me deixou escolher aqueles cadernos universitários (de capa dura) lindos como aqueles da Tita.
Eu iria comprar um caderninho desses simples, algumas canetas, lápis, borracha, apontador, essas coisas, tudo dentro do meu orçamento. Em vez disso, ganhei lápis de cor de 24 cores, canetinhas, esquadro, tudo. Félix me disse que o estudo é o caminho para quem quer progredir e, vendo por esse lado, ele não é diferente do meu pai, nem da minha mãe.
Tudo o que a Tita quer é ficar na escola, ter aula com a Dani e o Vando e eu não sei como contar a ela que infelizmente não vou estar presente porque a casa dos meus padrinhos fica longe e teria que pegar dois ônibus todos os dias, ou seja, quatro vales-transportes para cobrir os percursos de ida e volta.
Meu padrinho me matriculou em outro colégio que é razoavelmente mais próximo e no primeiro dia ele vai me levar para eu aprender o caminho e ir de ônibus, pois ele e a Tia Marlene saem muito cedo e eu não quero atrapalhá-los. Lá eu tenho um quarto só para mim igual à Tita vai ter se for mesmo morar com o Félix e a Helena. Ela se emociona só de pensar nisso e para não estragar a alegria dela, não menciono o restante da história, também porque isso dói em mim.
Sei que não será fácil.
Ontem à noite o Adolfo nos chamou para curtir aquela fita no carro dele. Em um tom nostálgico e soturno, comentou a respeito de sua partida e a Tita de repente saiu daquela calmaria atípica para um momento revoltada, estressada. Eles discutiram e ela foi embora alterada, batendo porta, entrando em casa feito um vulto. Eu a segui e me deu uma vontade louca de abrir o jogo, no entanto se eu agisse desse jeito só pioraria tudo porque corria o risco de ela ir até o carro e falar poucas e boas para a almôndega que ficaria muito chateada comigo por não ter guardado segredo.
Juro que tentei fazê-la entender.
Por Deus, eu tentei.
Ela é teimosa demais. O coração dela tem uma porta cuja fechadura não se encaixa na única chave que tenho para abri-lo.
Pensei em adentrar pelas frestas sem fazer muito barulho. Fui descoberta. Não fui muito feliz nos comentários e ela ficou mais chateada do que parecia.
Sei que ela está bastante balançada. Afinal, as despedidas são assim mesmo um tanto estranhas!
Ficar em dúvida entre um “até a próxima vez” ou um “adeus”.
Qual dos dois?
Pensar que haverá uma próxima vez gera uma esperança que pode ser ingrata. Adeus parece indefinido demais, um tchau mais dramático. Eu não pude dizer adeus ao meu pai. Guardei no meu peito um até logo que ficou perdido no ar, dentre a neblina da noite que os olhos dele se fecharam e a alma descansou sem mais chorar baixinho de dor.
Para Tadeu eu disse “até mais” e sempre uso aquele colar com pingente de peixinho para senti-lo por perto. Não sei, de fato, se haveremos de nos encontrarmos. Também tenho medo, mas ao contrário da Tita, eu não tenho receio de mim mesma nem do que sinto. Eu teria mais medo se tivesse deixado à oportunidade passar porque nada na vida se repete, ainda que refaçamos o mesmo trajeto todos os dias.
O orgulho é impenetrável. Não posso cobrar muita coisa dela, sei que forçar qualquer coisa nessa hora é pior. Ela precisa sentir tudo por conta própria. Talvez esse medo todo sejas fruto da educação da Meire que é uma mulher muito fria e distante. Mãe e filha não são amigas. Tita a teme, talvez insista em agradá-la em troca de amor, mas amor tem que ser incondicional, não uma barganha.
A D. Meire deve ter sofrido muito quando era mais nova e eu não sei de que maneira vivenciou os seus sentimentos, se não foi correspondida e, portanto, pensa que amar é uma desgraça e ninguém fala a verdade.
Tem várias pessoas nesse mundo que por trás da amargura escondem uma criança medrosa num calabouço dentro do peito. Eu espero com todas as minhas forças nunca deixar de acreditar.
Sem saber, a Tita está com medo (e nem sabe) de gostar de um menino, de aceitar que gosta, por achar que não vai dar certo ou que é errado gostar.
Quero tentar ver as coisas por esse lado porque sei que Tita não odeia o Adolfo. É claro que ela implica, mas entre implicar e odiar existe uma diferença bem grande.
Ela é uma lagarta sufocada dentro do casulo. Sente-se protegida no escuro, tem medo de ser o fim de tudo se levarem embora o escudo de proteção.
Tem um mundo lindo que ela ainda não conhece.
Ela ainda não sabe que tem asas lindas, que deveria pelo menos insistir numa tentativa.
Ela tem medo do frio na barriga.
Talvez ela nem saiba que tenha medo.
Ela tem medo de ter medo.
Parece confuso assim mesmo, porque é.
E é para todo mundo.
Tem gente que esfria o coração por medo!
Tem gente que esconde o amor para não se magoar.
Tem gente que nem tenta por pensar que é impossível.
Ela quer se defender da dor evitando correr riscos, mas não sabe exatamente o porquê dessa estratégia tão... tão... tão controversa.
O processo é inconsciente.
Ele se vai, ela sabe que o tempo corre contra ela.
E não age.
Sei que ela não dormiu, virou de um lado a outro e não descansou.
Mas eu sei, eu sei que ela vai ter o seu momento. O seu momento de descobrir que esse ódio todo não passa de um amor reprimido.
Pela almôndega.
Por aquele que a deixa de mau humor por simplesmente derrubar todas as peças daquele tabuleiro lilás superorganizado.
Sim, eles se amam.
Talvez essa história acabe por aqui, com um nó na garganta, sem aquele final feliz perfeito que costumam dar nas novelas inventando algum clichê para unir os mocinhos.
Nem sempre tudo termina bem.
É natural, estamos no mundo real.
Gosto de finais felizes, quem não gosta?
Minha mãe diz que devemos ser felizes com urgência porque o final é a morte.
Traduzo o “final” de um enredo para o começo de outro.
Alguém já disse isso por aí...
Mas se realmente tudo dá certo no final, o meio serve para a gente mergulhar fundo nos sentimentos, na gente mesmo, para que valha a pena respirar.
Tem sonhos que ficam na promessa.
Tem outros que não eram tão fortes assim.
Outros se transformam em realidade.
Ou em pesadelo.
Será que eu sei sonhar?
Em vão, nada é.
Nem o bailar da primeira folha de outono.
Nem aquela matéria de geometria que me deixou entediada.
Quanto mais os sonhos, inclusive aqueles que se tornaram inviáveis ou que precisam de mais algum tempo para amadurecer!
Até aquele ano esquisito e cheio de notícias ruins.
Até ele no meu caminho tem o seu valor.
As mudanças me levaram para onde nunca imaginei estar.
As mudanças mostram de mim tudo que eu nunca pensei ser.
O “final feliz” precisa de um motivo.
Esse motivo sou eu.
Acredito nele mesmo à distância.
Acredito que o amor vence o mal.
Sonhar acordada é algo que eu faço muito bem. É tudo o que eu tenho. Apanhar meu caderninho e escrever. Não sou poeta nem escritora, sou apenas uma garota.
Ninguém sabe que eu gosto de escrever quando fico completamente sozinha. A Tita nem imagina que eu faça isso.
Gosto do silêncio da noite, das luzes acesas nos postes contrastando com os tons arroxeados do céu, das nuvens cor de ferrugem, às vezes finas, às vezes unânimes, servindo de muralha para me separar das estrelas. Ao contrário, eu não tenho um pingo de receio de ficar totalmente sozinha.
Todo mundo precisa desse “espaço”.
Eu necessito.
Coloco o rádio em um volume bem baixinho e fico sentada com o caderno no colo olhando para o céu. Sei que não poderei voar tão alto a ponto de tocá-lo, nem por isso deixo de admirá-lo.
Tem músicas que eu gosto que nem sequer são do meu tempo.
Tem músicas que leem exatamente o meu coração.
Tem dias que eu quero dançar mesmo que não tenha par.
Eu gostaria de escrever uma música, só não sei muito bem como é que se constrói um refrão.
Fico na vontade.
Com os pés presos ao chão, eu estou viajando. Dentro de mim. Vou voltar em breve, não se preocupem. Eu sou tagarela e com papel e caneta na mão, sou ainda mais. Nessa hora pouco faz diferença se a minha letra não estiver tão bonita.
Esse tempo em que não converso com ninguém além da minha própria mente, só para me confortar, é quando consigo então pensar nas coisas de um jeito que nunca pensei, como se eu não fosse apenas uma criança idiota como muitos adultos acham, supondo que só falamos de Chiquititas e boy bands, de certa maneira desprezando o nosso desabrochar. Eu sei que a vida só faz sentido quando a encaramos e não digo encarar de frente porque é redundância, li por aí.
Eu comecei a ler com cinco aninhos, quando minha mãe parou de ler para mim antes de dormir e eu me forcei a aprender porque queria ler sozinha e lhe contar tudinho de manhã cedinho. A professora Márcia (minha professora querida) não teve muito trabalho comigo porque aprendi a escrever antes dos outros, embora nunca tenha gostado de matemática. Meu vô não me deixava sair para brincar enquanto eu não mostrasse o dever de casa pronto e todo dia ele tomava a tabuada do Um ao Dez sem me deixar “colar”. Se eu errava, tinha que voltar para o quarto e ficar decorando. Aí, de tanto errar, fui aprendendo, enquanto muita gente da minha sala não fazia isso. Não, eu não tenho uma inteligência extraordinária, não sei de cor a raiz de quadrada de 59 ou de 290. Tento fazer o possível para não pegar recuperação.
Enquanto penso em tudo o que aconteceu no dia e até no que deveria esquecer, imagino que para tudo há uma solução, como se fosse um quebra-cabeça a ser desbravado. A curiosidade é o combustível. Passada a primeira impressão, o que fica é a coragem.
Nenhum menino nunca beijou a Tita. Nem no rosto, nem na boca.
Nenhum menino (o Roni não conta) pediu para segurar na mão dela.
Nenhum menino (até então) chegou tão perto dela do jeito que o Adolfo conseguiu.
Ela nunca teve um amigo.
Ela ainda não sabe que as borboletas no estômago não são motivo de vergonha e recriminação.
Ela não imagina que se tudo parece tão estranho para ela, para ele não é tão diferente assim.
Ela ainda tem a mim...
E ele, a quem tem senão a si mesmo?
Ele também tenta esconder.
Ele está completamente consternado, apavorado.
Ele teme a rejeição dela. Parece estar preparado para uma alternativa possível, mas é só a fachada. Por dentro ele queria ter o controle, talvez rebobinar esse verão para não sentir o que já criou raízes.
Ele se foi para começar outro ano, retomar a vida, mas um pedaço dele ficou com ela.
Um pedacinho dela também se foi quando ele se despediu fazendo gracinhas porque não cairia bem baixar a guarda diante da tampinha, não?
Ela agiu naturalmente, como se não se importasse.
Talvez, não.
Ou sim.
Prefiro, por cautela, não me arriscar a fazer um palpite consistente, sigo pelas cogitações. Não estou dentro do coração dela, não sei das suas razões, gosto de pensar que tem um tiquinho (ou muito) orgulho ou apenas timidez.
Talvez, realmente, ela não esteja na mesma sintonia dele.
Minha amiguinha pode ficar ofendida se eu supor alguma inverdade. Nesse caso, não há muito que fazer a não ser deixar o tempo passar.
O tempo, só ele.
Só ele pode remediar ou pelo menos afastar o que cause dor.
Se falar nesse assunto faz Tita se magoar, não mais falarei.
Acima de qualquer coisa, respeito suas decisões.
Se um dia ela se sentir pronta para abrir o coração comigo, espero estar ao lado dela para ter alguma palavra de conforto e/ou ser uma boa ouvinte porque muitos querem e sabem falar, mas além de não ouvirem nada a não ser a si próprios, também não sabem ouvir os outros e quando ouvem, talvez captem o que mais lhes interessa, atrevo-me até a dizer que distorcem, mas aí é outra história...
Um dia Tita vai dar o seu primeiro beijo e desejo que seja da sua vontade, com alguém que a faça sentir-se bem para ser quem é.
Esse passo é ela quem tem de dar.
Ao seu ritmo.
Quando o seu coração bater mais forte que o medo.
Quando o desejo for maior que a vergonha.
Quando dois souberem ser um sem que se percam em ilusões.
Um dia isso vai acontecer independentemente de Tita saber disso agora ou não.
Ela vai amar.
E eu duvido, duvido com todas as forças, que ela vá deixar o amor passar.
Sei que não.
Porque dificilmente alguém deixa.
Medo por medo, todos nós temos. Mas ele não pode ser mais forte que a luta para ser feliz.
Não por não, todo mundo escuta.
O sim é divino, o não é humano.
Cair faz parte de estar aqui.
Cair nos braços de alguém que te segure, sem levar a sério por demais, sem se deixar perder.
Se há algo a se perder é a timidez.
Ela pode ajudar às vezes? Claro que pode. Mas também pode ser desfavorável.
Uma pessoa tímida pode sê-lo por várias razões. Eu gostaria de ajudar a Tita, mas se eu o fizer, posso vir a atrapalhar o desabrochar dela e eu não me sentiria bem se estragasse tudo.
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