Aline por Aline

6 Capítulo 6 - Segurando vela?


Notas iniciais
Eis a opinião de Aline sobre uma época memorável...

Aquele ano começou parecendo que ia ser chatinho, mas assim de repente eu realizei um sonho que para muitos pode ser coisinha simples e para mim era tudo.

Tudo que a minha mãe queria e não podia fazer por mim.

Ela conheceu o mar quando criancinha. Lembra pouco, me disse uma noite dessas. Eu perguntei como era e ouvi que podia ser mais bonito do que na televisão.

Ver o mar.

Eu tão pequeninha, ele tão grande.

As ondas balançando ao horizonte e as crianças brincando sob a vigia dos pais.

O cenário de um sonho romântico.

Não tem música tocando, mas tem o som do mar que fica dentro das conchas e hipnotiza.

Tem o eco de um desejo mentalizado.

Tem eu querendo que meus olhos não deixem de observar todos os detalhes para contar tudo à minha mãe na volta.

O Sr. Félix pai da Tita subiu a serra com ela e passou na minha casa, conversou um tempão com a minha mãe e me ajudou a colocar minha bagagem que não era tão pesada, era bem levinha, lá no porta-malas. Ele também me levou para lanchar enquanto levou o carro para lavar, encher o tanque e calibrar os pneus.

Eu também nunca tinha comido aqueles lanches que via nas propagandas. Até o brinquedinho eu pude escolher!

― A professora Daniela disse que as fotos do casamento ficam prontas até as aulas começarem.

— Casamento? Casamento dela? Quando? ― Tita estava terminando de devorar sua porção de batata-frita.

— O casamento da Dani e do Vando foi em dezembro. ― Acrescentei limpando minha boca no guardanapo.

— Mas eles não estavam só namorando?

― Eles estavam noivos!

— E ela não me contou? Como é que ela não me contou nada?

― Ela te procurou um tempão para você ser dama do casamento dela. Sua mãe não te falou?

— Falar do quê? ― Tita pressionou: — Ela não me falou nada!

― Todo mundo te ligou e sempre quem atendia era ela que dizia que você estava doente, não estava em casa.

— Mas eu estava em casa!

Os olhinhos de jabuticaba se encheram de lágrimas. Eu me senti péssima por machucar o coração da minha amiga

― O casamento já foi, Tita. Foi em dezembro.

— E por que ninguém me falou?

― Mais do que nós tentamos?

— Eu queria ter ido! ― Ela soluçou.

— Ah, eu sei disso, Tita. ― Confortei minha amiga segurando na mão dela, tendo em mente também que apenas falar não mudava o fato de que ela havia perdido um momento memorável que nunca mais se repetiria tal qual essa conversa que estávamos tendo.

— Se sabia, por que não falou?

― A sua mãe me tratava mal toda vez que eu ligava, poxa vida.

― Mas eu não sou a minha mãe. — Ela protestou como se eu não soubesse disso.

— E acha que eu não sei disso? Claro que eu sei, mas estava em cima da hora para achar outra pessoa, então à única solução que a Dani e o Vando concordaram era me deixar ser a única dama, mas a Dani queria a nós duas a acompanhando.

Foi triste ter que contar a ela. Deu a impressão de que não a convidamos de propósito, para excluí-la e sei o quanto ela sofreu por ser rejeitada na outra escola, então rejeição não é um assunto que agrade a minha melhor amiga.

― Não chora mais, Tita. Não fica assim! Se o seu pai chegar e te ver chorando, vai se zangar comigo pensando que eu te falei alguma bobagem. — Emprestei um guardanapo para Tita enxugar as lágrimas.

Eu acho que ela tem medo de perder as pessoas e se sente traída quando é a última a tomar conhecimento de alguma coisa. Eu não lhe tiro a razão, é deprimente ser esquecida ou descobrir que interceptaram alguma informação, alguma mensagem. A D. Meire às vezes pode ser muito rude.

Mas nem só de tristeza vivemos nós...

― O Roni foi para conselho de classe...

― E aí? Ele passou? — Quis saber ela, já mais calma.

― Não! — Olhei para Tita com certa malícia. — E a Mari Franco também não.

― A D. Neide deve ter batido muito nela. — Tita comentou com um olhar pesaroso, ainda com resquícios da choradeira de pouco antes.

― A D. Neide ficou uma fera com ela, deixou-a de castigo, mas já amoleceu, tanto é que a lesada foi para casa da Mari Oliveira lá em Floripa... quer dizer, a casa da tia dela... E.… bem... é bem certo que o Roni e a Mari Franco vão ficar na mesma turma esse ano... será que rola alguma coisa?

— Pensei que a Mari não gostasse do Roni.

― Tanto quanto não gosta de um babado quentinho. — Dei uma piscadela bem incisiva.

― Então ela gosta?

— Não seja boba, Tita! É claro! É super na cara que ela gosta dele...

― Mas ele gosta dela?

— Eu não posso dizer que sim e nem que não... Na verdade, o Roni gosta muito é de causar, se é que me entende... E esse ano tem carne nova no pedaço, muita gatinha... A Mari tem que ficar preparada...

― A Mari Franco vai se sentir sozinha, se a Rafa foi mesmo estudar mais perto da casa dela, a Kelly foi para o turno da manhã e a Mari Oliveira passou de ano... Vai ser meio esquisito.

— Igual ao ano passado não vai ser... Mas pode ser melhor!

Tita e eu nos sentamos nos bancos de trás e ficamos ouvindo rádio, aí quando chegou na altura da serra, coloquei uma fita minha e nem vimos a hora passar.

Meu coraçãozinho palpitava.

Aquele cheirinho de verde, aquele céu azul que até parece inspiração de um artista. Acho que Deus é o maior dos gênios, principalmente se eu pensar que ele desenhou tudo, tudo, e sem a ajuda de ninguém. Ele desenhou toda aquela vegetação que já foi mais plena e bonita ― o homem destruiu muita coisa, a ganância também vem fazendo seus estragos — pensou na função de cada animal, cada estação do ano, e caprichou no mar, talvez porque haja algum significado bem emblemático que eu nem sei qual é, mas que quando penso, sinto minha tristeza voar para os ares.

A cada placa eu via que estávamos chegando mais perto do litoral. Quando percebi que faltavam menos de 20 km para Matinhos, senti vontade de chorar... de alegria! E quando realmente o mar, ah, meu coração! Ele cantava de emoção! Eu queria descer do carro só para saber se não estava sonhando.

Mas não estava.

Tita tem uma madrasta, uma mulher que deve ter mais ou menos entre 28 e 32 anos, eu acho. Ela tem a estatura média, é um pouco mais cheinha e tem jeito de mãezona, tanto é que me recebeu muito bem, disse que preparou gelatina de uva e de framboesa porque não sabia de qual eu ia gostar mais. Ela parece gostar bastante da Tita.

Os contos de fadas sempre passam aquela imagem de que a madrasta é uma mulher perversa que surge na vida da princesa para roubar o pai dela e de certa maneira se posicionar como uma inimiga que disputa o amor de um homem, só que amor entre pai e filha e homem e mulher são coisas diferentes, são amores totalmente opostos que não dá para comparar.

A madrasta nunca substituirá a mãe, mas em alguns casos não quer dizer que não possa estreitar os laços.

Pensei, por algum tempo, que a Helena estivesse fazendo tipo na frente do marido para causar uma boa impressão, mas depois pedi perdão a Deus por ter pensado desse jeito, já que Félix sempre saía para trabalhar e ela ficava quase todo o tempo se dedicando a nós nos agradando com quitutes, vendo TV conosco, nos levando para passear na praia, no centro comercial, sempre paciente, sem reclamar dos nossos banhos, das nossas conversas, da bagunça.

Eu acredito muito em almas gêmeas, como eu acredito.

Meus pais eram almas gêmeas. Mamãe disse que meu pai foi seu primeiro, único e grande amor.

Helena e Félix são almas gêmeas.

Como eu sei?

Eles conseguem se comunicar sem gritar, sem brigar. Eles se entendem com olhares. Ele beija a testa dela, sempre se dirige a ela com atenção, devoção e respeito. Eles convivem bem — não estou exagerando só porque sou grata pela hospitalidade, pelo convite ― e a Tita não é um fardo ali, a Helena não se incomoda com as risadas da enteada, parece mais mãe dela do que a própria Meire.

A Tita não está acostumada a ser abraçada, a ter colo, carinho, cafuné, então quando a tratam bem, ela se sente estranha, como se não merecesse tudo aquilo que tem.

Eu a entendo.

Acredito que a ausência do pai na vida dela faz com que ela não saiba direito como se aproximar de garotos.

Por isso ela anda mais irritada do que costume...

Esse mau humor tem nome... E é nome de garoto.

Adolfo.

Adolfo Hass.

O vizinho.

A almôndega.

O chato.

Aquele que vive a azucriná-la dia após dia de férias.

Já são mais ou menos uns 25, eu acho.

Ela odeia ser chamada de Tampinha. E odeia mais ainda quando ele a chama.

É... tipo... um cabo de guerra...

Ele puxa de um lado, ela do outro.

Eles sempre caem.

Ele tira sarro da situação, ela revida.

Ela fala mal dele o tempo todo, raro é vê-los em estado de trégua.

Entre eles, tem um fator que acirra essa disputa...

Se vocês pensaram no orgulho, acertou!

Mas vocês acham que eles raciocinam com clareza no auge da fúria infantil?

Lógico que não!

Eles estão preocupados em manterem a honra.

Por quê?

Não me perguntem, não sei.

Adolfo é nosso vizinho de porta, praticamente. Ele tem uma meia-irmã da mesma idade que nós, a Miriam. Eles são filhos de um casal de militares. Ele é cabo, mas está licenciado por problemas de saúde (eu acho que ele é alcoólatra) e ela está trabalhando na Operação Verão desde dezembro.

Adolfo é gordinho, gosta de usar boné com a aba virada para trás e vive ouvindo música no rádio do carro, momento esse que ele viaja de fato para o mundo da lua. Ele gosta de ouvir uma fita e é sempre a mesma fita toda noite... Já decorei até a sequência.

1 – Too much – Spice Girls

2 – Resposta – Skank

3 – É preciso saber viver – Titãs

4 – Torn – Natalie Imbruglia

5 – Kiss from a rose – Seal

6 – You oughta know – Alanis Morissette

7 – Corazon partio – Alejandro Sanz

8 – All my life – KC & JoJo

9 – High – Lighthouse Family

10 – I'll be missing you – Puff Daddy

11 – Lovefool – The Cardigans

12 – Garota nacional – Skank

13 – You're still the one – Shania Twain

Aí acaba a fita, para o alívio do Sérgio que de hora em hora resmunga alguma coisa, falando sempre que escutar música faz gastar a bateria do carro. Mas se o Adolfo escuta música no som da sala ele também reclama.

Adolfo e Tita parecem a Pérola e o Tomás da novela Pérola Negra a qual a gente não perde um capítulo. Eles vivem brigando o tempo todo. Ele mal fala uma coisa, ela já fica com as bochechas vermelhas e o chama de almôndega, aí o guri que é não é bobo nem tem sangue de barata, retruca cutucando na ferida da baixinha, que é justamente a sua estatura.

Ele jura de pés juntos que não sabe é ruim ficar perto da Tita ou se voltar para a escola é pior. É lógico que ele chama a Tita de chata porque sabe que ela não está na dele, se é que me entendem...

Sim, queridos amigos, o Adolfo está afim da Tita...

Como eu descobri?

Tenho boca para quê? Se eu tenho dúvida, vou e pergunto.

Primeiramente ele fechou a cara e desconversou dizendo que não era menino desse tipo... mas... espera aí... se ele ficou todo nervoso de falar sobre isso é porque tem coisa... é claro que eu sabia que sim...

― Eu só vejo vocês dois brigando.

— Ela é que não gosta de mim. ― Acusou ele.

— E você se importa que ela não goste?

Ele responderia que não para manter o seu orgulho. E foi exatamente o que ele fez, para me despistar.

― Se ela é tão chata assim, por que você se importa com o que ela pensa de você?

― Ela é uma chata... — disse ele dando de ombros enquanto saía da sorveteria com uma casquinha enorme.

— A Tita não é chata.

― Claro que é. — ele tentou protestar.

― Você enxerga nela os seus próprios defeitos.

— Pois nem tente defender a sua amiguinha porque aquela tampinha é a minha pedra no sapato.

― E você não fale do que não sabe.

— Pois fique sabendo que eu sei que ela é uma chata. Muito chata.

― Ela é chata porque você pensa nela o tempo todo ou você pensa nela o tempo todo porque ela é chata?

Ele abaixou a cabeça, consternado.

— Eu não consigo parar de pensar nela. ― Reclamou a Almôndega teimosa ao quadrado. Eita menino dramático.

— Não?

― Isso é chato!

— Eu não estou tão certa assim se você vai gostar do que eu tenho a dizer.

― Anda, diz o que é...

— Você pensa nela o tempo todo, pensa em mil coisas para dizer, aí quando chega finalmente perto dela, não sabe o que dizer?

Ele assentiu com a cabeça sem falar mais nada.

― Eu acho que você gosta dela!

— Eu? Com aquela chata? Bem capaz! ― A voz de Adolfo saiu mais fina do que ele pretendia.

— Você gosta dela sim.

— Sai pra lá... ― ele deu as costas: — Pois saiba que eu não gosto dela...

― Vem cá: você já... sentiu isso por mais alguém?

Ele demorou a responder, o que eu interpretei como sendo um “não”.

— Nunca namorou ninguém? Nunca gostou? Nunca beijou?

― Beijo na boca? Eu não levo jeito pra isso.

— E quem diz que tem de levar jeito pra isso? Beijar se aprende beijando...

― Eu não acho que vá namorar, beijar, essas coisas...

— Você diz isso agora que está sentindo medo de chegar perto de uma garota, mas vai pensar diferente quando enfrentar o seu medo e perceber que dar um beijo não é um bicho cabeludo de sete cabeças.

― Eu sou gordo ― desabafou ele. — Fala sério, você acha que algum dia alguém vai me achar bonito?

— Se você não se achar o mínimo bonito, quem vai achar? Adolfo senta aqui... ― Nós dois nos sentamos na areia naquele início de manhã calmo, já que a Tita saiu com os pais e eu fiquei com vergonha de acompanhá-los.

— Eu não sei o que falar...

― Você sente tipo um friozinho na barriga quando está perto dela?

— Sinto. ― Respondeu ele, evitando fazer um contato visual mais profundo comigo.

Ele era tímido também. Nós meninas normalmente temos uma amiga de confiança para falar sobre paixão, temos o nosso diário, etc. Os meninos também passam por essa fase e o Adolfo não tem um melhor amigo como a Tita tem a mim, então ele guarda tudo e guardar nem sempre é bom, às vezes chorar para desabafar é bom.

— Você sente que fica diferente, o coração acelera, as mãos começam a suar, as pernas tremerem e tal?

― Sim... Como é que você sabe? Dá pra perceber? Ela já percebeu e por isso me odeia?

— Para começar, a Tita não te odeia.

― Ela me odeia, sim.

— A Tita é muito tímida. Existe uma diferença entre odiar alguém e ser tímida.

― A Tita não é tímida coisa nenhuma.

— É sim. E é muito tímida.

― Ela me detesta. Até parece que você não percebe.

— A Tita tem o jeito dela de tentar lidar com as coisas, tenta não julgar.

— Tímida, ela? Até parece. Ela é muito bonita, muito mesmo. Ela tem aqueles olhos lindos, aquele sorriso largo. Ela é bonita de todos os jeitos, até quando fica braba. Eu imagino que nessa escola onde ela estuda e tanto ama, essa escola que vocês tanto falam, deve ter um monte de menino atrás dela.

― Então você gosta dela!

— Mas de que adianta gostar se ela não gosta de mim?

― Adolfo, eu preciso que você entenda uma coisa... A Tita acha que você é quem não gosta dela. No começo, quando ela me contou de um vizinho chato na praia eu pensei que você era um chato que ficava pregando peça para aborrecê-la, mas te conhecendo melhor, eu percebi que você é muito legal, sabe conversar e queria que você soubesse que a Tita não tem muita convivência com meninos, ela só tem amigas. O universo dos meninos é totalmente novo pra ela.

— Ela já namorou alguém?

― Até onde é do meu conhecimento, nunca.

— Ela já gosta de alguém?

― Você gosta dela? Vai, fala!

― Não falo. — Redarguiu.

― Mas eu já sei que sim.

— Só que se você contar para ela, eu não falo mais com você até ir embora.

― E eu lá tenho cara de fofoqueira, é? Tenho? Vai, fala.

— Sei lá...

― Eu não vou contar nada. ― Sussurrei.

— Sei que vai.

— Você não pode acreditar em mim?

― Vocês são amigas, vivem grudadas. Eu não quero que ela fique tirando com a minha cara.

— A Tita não é o que você está pensando, Adolfo. Olha amigo... posso te chamar assim? Confia que eu vou guardar segredo... eu não ganharia nada te prejudicando... se você quiser, eu posso te ajudar para saber se pode rolar alguma coisa entre vocês...

― Eu nem quero sonhar com isso.

— Mas e se acontecesse de você ser correspondido?

― Não tem chance. — Adolfo abanou a cabeça, dando a entender que não queria jamais pensar nessa hipótese. Ele mesmo não aceitava o que sentia por ela.

― Supondo... apenas supondo que...

— Sei lá...

― Pelo amor de Deus, tanto medo de dar um beijo, de chegar até a gatinha... Que é isso?

— Eu não posso querer uma coisa que não vai acontecer.

― Mas e se acontecer?

— Não vai. Eu não quero beijar...

― É só um beijo.

— Eu não vou saber beijar.

― E você acha que ela sabe beijar?

— Deve saber.

Tita ainda passava longe de meninos, queria mesmo era brincar de boneca, jogar bola. Acho que nunca deu um mísero selinho e ele achando que ela era a conquistadora do colégio!

― Apenas suponha...

— Eu sempre vou parecer um idiota na frente dela... não vê como eu estrago tudo?

― Tá bom, eu não vou forçar nada... Mas, enfim, eu não vou contar, vai ser o nosso segredo, tudo bem?

— Você guarda segredo mesmo?

Para guardar segredo, ele me pagou outra casquinha enorme. No entanto, não foi pelo sorvete que eu me calei. Foi por respeito aos sentimentos dele que estava gostando de uma garota pela primeira vez na vida e essas sensações que são tão boas ainda lhe pareciam assustadoras e confusas.

Eu tinha um leve desconfiômetro de que ele era correspondido, porém se eu chegasse e falasse isso na cara da Tita, ela iria se ofender.

Que dilema, minha gente!