Aline por Aline
5 Capítulo 5 - Como são os amigos?
Notas iniciais
o aniversário de onze anos da Tita, um dia antes ela dormiu lá em casa e eu fingi que fui à venda comprar pipoca-doce para nós porque marquei com as Marianas e a Rafaela para comprarmos os ovos e os presentinhos que daríamos a ela que gostou de tudo, especialmente das pulseirinhas que a mãe da Rafa fez. Normalmente a Rafa cobrava pelas pulseiras, mas aquelas eram especiais.
A Mariana Franco gostava de comprar, mas não de pagar. Toda vida tinha uma desculpa... Ela ia embromando a Rafita até que a mesma se esquecesse dos calotes que recebia...
A mãe da Rafaela era separada do marido e trabalhava oito horas por dia numa creche. O irmão da Rafa estava na turma do João e a Kelly (amiga da Rafa) ficou com ele, mas o namoro não deu certo. A Rafa de manhã cuidava dos irmãos pequenos e passava os fins de semana na casa do pai, cuidando dos irmãos pequenos filhos do homem com a nova companheira. Apesar de ser toda cor de rosa e alegre, a Rafita não era diferente da Tita nem de mim com relação aos fardos.
Depois do aniversário que teve ovada, brincadeira, a gente deixou a Tita toda suja de ovo e no ônibus foi aquele fervo... Todo dia na hora da saída era aquele festerê...
No entanto, eu esperava que a Tita no outro dia fosse contar sobre sua festa e tudo o mais. Que nada. Ela nos cumprimentou e eu senti que algo não estava bem. Ela desconversou, ficou um pouco isolada, mas no intervalo ela desmoronou, chorou bastante, soluçou, mal conseguia falar. A Rafa lhe ofereceu um pouco de suco e a Kelly a ofereceu um lenço.
Tita sair da escola porque a D. Meire não gostava de lá... Ninguém de nós entendeu o porquê disso. Essa notícia, por mais que eu tenha disfarçado, me deixou muito triste. Eu disse à minha amiga que no fim das contas tudo daria certo, mas a verdade é que eu chorei por ela quando ninguém podia me ver além de Deus.
Nesse momento, eu pedi conselhos à minha mãe e ela me disse que a Meire ia acabar mudando de ideia, que talvez só estivesse um pouco confusa por ver a Tita crescendo e saber que a filha passaria mais tempo com os amigos do que com ela ainda a assustava...
Pedi ajuda ao meu padrinho para poder participar do amigo oculto que as meninas e eu promovemos. A Tita me pegou e me deu uma agenda tão linda que no começo senti até dó de abrir, de tão linda que era. Ah, aqueles adesivos, aquela letra linda toda redonda... Eu estava triste porque minha mãe não ia poder comprar uma agenda nova para mim, então ganhar aquela de presente foi surpreendente e mais legal ainda é que a Rafita trouxe a máquina fotográfica dela e tirou fotos nossas, todo mundo assinou a agenda...
Eu peguei a Mariana Franco e dei um cd que ela queria muito... Eu fui a casa dela antes do aniversário da Tita e li a agenda que a D. Neide não podia nem chegar perto que levava pito... Na tal viagem que ela disse ter se apaixonado, era pura mentira... Ela sempre foi apaixonada pelo Roni... Ah, qualquer um sabe que ela é louca pelo Roni desde que botou os olhos nele, mesmo depois de ele ter jurado céus e terra pra quase todas as meninas da quinta série, mesmo sabendo que ele ia reprovar...
Todas as músicas da Deborah Blando que ela escrevia na agenda eram para o Roni... E acho que a D. Neide nem precisaria abrir a agenda para ver os corações com o nome do Roni e a foto que ela roubou dele nem sei quando... Ela gostava dele mesmo depois de ele ter amarelado numa briga épica com o João que eu só não vi porque nem estudava ali ainda, mas a Tita me contou tudinho, foi engraçado...
O último dia de aula o qual teve a festa de encerramento do ano foi lindo, lindo de verdade, comovente, foi uma montanha-russa de emoções muito peculiares, primeiramente porque estava proibido usar o uniforme. Isso mesmo! Nada de uniforme. Era pra caprichar, colocar a roupa de domingo, pentear bem os cabelos e vir com pique pra brincar, comer, dançar, confraternizar. Naquele dia não éramos apenas alunos e professores, éramos todos amigos!
Eu peguei do guarda-roupa meu vestido xadrez com alcinhas, minha sandália de domingo (a única que ainda me servia), amarrei o cabelo e coloquei um pouquinho de maquiagem, na verdade, uma sombra clarinha e um batom rosa que quase nem aparecia.
A gente riu, chorou, dançou, aplaudiu a turma da oitava série que estava se formando e eu a essas alturas já estava às voltas pra ser dama do casamento do Vando com a Daniela. Eles estavam namorando desde abril, noivaram em agosto e iriam se casar em dezembro mesmo na igreja onde os pais dela se casaram, já que ela é a filha mais velha de uma família católica... A Dani escolheu a mim e a Tita para sermos suas damas, que honra!
Meus padrinhos me ajudaram com as vestimentas. A Professora Daniela, agora apenas Daniela, uma grande amiga, estava muito ansiosa para que a Tita fizesse a prova do vestidinho de dama, mas toda vez que nós telefonávamos, fosse eu, mamãe, a noiva, o Vando ou os meus padrinhos, a Meire atendia e muito ríspida dizia cada hora uma coisa, aí na última ligação faltando dois dias para o casamento, ela disse que a Tita estava com catapora, ou seja, bem na hora que a Dani ia contar à Tita sobre o casório na festa da escola, a D. Meire chegou e já foi logo bradando que a filha estava "muito atrasada" e tal, sempre nervosa, estressada, agora eu entendo por que minha melhor amiga é tão obcecada em tirar notas muito altas.
Com uma mãe dessas, até eu seria!
O casamento da Dani e do Vando foi melhor que o Natal, pois mamãe perdeu o emprego (de novo) e não teve décimo terceiro salário nem rescisão nem nada... E isso não aconteceu em pior hora... Ceamos, é claro, porque passamos a noite do dia 24 com Alípio e Marlene que ainda não têm filhos e me tratam como se eu fosse filha biológica deles, ou seja, se eu apronto também levo broncas...
O ano novo foi bem triste, o primeiro sem o meu pai, longe de Prudentópolis, do Tadeu, do Juquinha, dos meus avós... Era o primeiro ano novo sem as confraternizações promovidas pelo meu vô. Aquela família que antes era tão unida só existia no retrato, quebrou ao meio. Meus avós com o Juquinha e a Tia Dalva (mãe do Juquinha, viúva do marido que morreu de infarto), mamãe, Rubinho e eu passando necessidades num barraco na capital.
E tudo por causa do orgulho do meu avô que nunca gostou o suficiente da Nice. Por querer ter dinheiro mais do que ter pessoas por perto.
Logo ele, que eu sempre gostei tanto. Eu não posso dizer que ele "mudou". Assim sempre foi só que eu demorei pra enxergar porque quando a gente ama as pessoas quer acreditar que elas são perfeitas e jamais nos magoariam, mas a verdade é que eu amo meus avós mesmo que eles não me amem ou também sintam minha falta, porém não consigam dizer por não saberem se expressar, por terem medo ou porque olhar pra nós é como olhar pro meu pai e essa dor difícil de superar, trauma que poderia ser vivido em união pra ser lembrança boa, hoje é um fardo, um silêncio...
Teve o lado bom de vir para Curitiba: finalmente ter uma amiga!
Eu tinha amigo.
Tinha.
Quem tinha, não tem mais.
E, sim, eu tenho.
Ele está longe, mas ainda é.
O que é, só deixa de ser se o sentido perder.
Para mim, não perdeu.
Para ele, também não.
Esse também afaga minhas certezas doloridas.
Não deveria ter nenhuma.
Eis que tenho a convicção de que bons amigos nunca deixam de sê-lo.
A distância não arrasa.
O amor ampara.
Amigo é que amigo chora de cara lavada.
De mão dada.
Bons amigos, pois bem, conto nos dedos.
Amigo é diferente de colega.
Conhecidos eu tenho muitos. Eles não são colegas.
Mas meus colegas apesar da estima que por eles tenho, amigos ainda não são.
Amigos.
Meninos.
Rivalidade.
Diferença.
Encrenca.
Amizade.
Será?
Meninas brincam de boneca, meninos de carrinho.
Talvez bicicleta?
Talvez no futuro?
Quando elas deixarem de ser teimosas e eles de serem bobos?
Nunca?
Nunca é tempo por demais, indeterminado como o eterno, um lance incerto...
Eternidade lembra muito amizade.
E amigo não se escolhe nem se compra, se conquista.
Aos poucos, sim?
Do seu jeito, do meu, desde que tenha um empenho, uma vontade.
Um sorriso ajuda.
Mas um pacote de bala ajuda bem mais.
Ele não é tão bobo que não possa surpreender.
Ela não é tão teimosa que não possa entender.
Acredito que meninos e meninas podem ser amigos.
Podem, sim.
Ah, como eu sei!
Somos amigos, sempre seremos.
Mas às vezes somos além.
E vamos além.
O amor vai.
O amor que existe na amizade, que a faz durar.
Amor que faz da amizade o seu pilar.
Amor que não escolhe rosto nem idade.
Amor que de tudo no mundo só pede aos seus que saibam amar.
Amor que aproxima de Deus.
Pra falar a verdade, Deus nunca se afasta.
Amor de amigo que perdoa sem duas vezes pensar.
Deus é pai e um pai a seus filhos sempre perdoa.
E fica por aqui.
Perdoou com o coração puro, aprendeu.
E esperamos aprender.
Mil erros a minha espera para escolher.
Mas amar, amar nunca é um erro.
Esconder, sim.
Ah, isso sim!
Entre o não e o se, eu fico com o não, mesmo que ele me entristeça no começo.
Amor que ao meio não se corta nem quando o coração se parte.
Amor que com poesia se faz arte.
Amor de gente pequena que teimam em dizer que não sabem de nada.
Amor sim, ora essa? Por que não?
Quem é que no mundo tem a fórmula do amor?
Se formos todos mapas distintos a serem decifrados, por que insistem em querer falar de amor como se fossem proprietários dele?
Ninguém é.
E é por isso que fico por aqui, devendo maiores explicações, mas crente de que o que eu sei, simples palavras não descrevem.
E sei de tão pouco.
Tampouco sei o que reserva o amanhã.
Sei que hoje, apesar de não ser, é o meu dia.
Não o último.
Longe do primeiro.
Talvez apenas mais um dia.
Mais um dia longe daquele menino de cabelo encaracolado e olhos castanhos, chamado pelos pais de Tadeu, aquele que quando olhou nos meus olhos viu mais do que eu vi de mim. Ele me viu por dentro, mais do que qualquer lágrima já desbravou. Quando tocou meus lábios, foi o segredo que deixou de ser segredo.
Amigo assim não vai haver.
Sem mentira nem trapaça.
Sem interesse por dinheiro, pelas banalidades do mundo, sem crises de ciúmes nem comparações tolas.
Éramos ele e eu no nosso mundinho particular.
Éramos os melhores amigos de quantos mundos mais pudessem ser imaginados.
Já amiga de verdade, só a Tita...
Amiga, amiga mesmo, de chamar de melhor amiga eu não tinha não. Eu conversava com várias meninas, brincava com elas, mas amigo do peito eu tinha dois: Tadeu e Juquinha.
O Mauro, meu vizinho, gostava de mim e as nossas mães ficaram amigas justo quando eu contraí aquela virose. Eu gostava de conversar com ele, de ouvir as músicas que ele comentava que eram boas, mas, além disso, não existia mais nada. Se eu aos poucos ia tentando apagar as esperanças de rever o Tadeu, por outro lado não queria mais ninguém...
Quando eu estava na casa dos meus padrinhos e o telefone tocou, quem atendeu logo foi a mamãe e ela me disse sorridente que era a Tita me convidando para ir à praia. A princípio eu estranhei um pouco, mas Nice explicou que o Sr. Félix iria vir nos buscar e então fomos arrumar minha bagagem simples.
Eu não contei a ninguém jamais, nem a Tita sabe disso, mas chorei de alegria porque pela primeira vez na vida eu veria o mar.
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