Aline por Aline

4 Capítulo 4 - Agenda desaparecida


Eu já não chorava mais como nos primeiros dias que vim para Curitiba, já lidava melhor com a saudade do meu pai porque sempre que meu coração ficava muito apertado eu ia ouvir a minha fita com a música da Soraya (Suddenly), conversar com Deus e discorria até meu coração ficar completamente calmo, até a tristeza passar, até dormir... E... bem... eu ficava com a minha agenda, folheando as páginas, vendo as assinaturas, as fotos, os recortes, escrevendo no meu caderno brochura que sobrou da quarta série que era tipo o meu diário e a minha mãe nunca leu...

Só que um dia, de repente, a minha agenda sumiu...

Procurei a agenda quando voltei para casa, não encontrei, revistei minha mochila, todos os cantos, minha mãe não sabia onde estava... fiquei em estado de choque!

Essa agenda era o meu baú de tesouros... Não era pelo objeto em si (ou era?) e sim por tudo que tinha lá, as palavras dos meus amigos, as fotos das pessoas queridas, todas as minhas lembranças, as esperanças de um ano que começou de um jeito parecendo que ia ser calmo e estava me testando de todos os jeitos até onde eu podia aguentar... E eu acho que como estava não daria mais, eu não suportaria.

Tudo, menos a minha agenda.

Tudo, menos ela.

Menos ela.

Tudo, não.

Ou nada.

Mas nesse caso escolher entre o ruim e o “menos pior” era quase obrigação.

Minha agenda.

Minha amiga.

Minha amiga de papel.

Não ela.

Não ela que era a única prova de que eu fui o que fui algum dia.

E o que eu fui não importava a mais ninguém, mas era aquela certeza de que todas as partículas de felicidade estão por aí distribuídas para apreciarmos sem termos tudo de uma vez e também sem ignorá-la.

Era mais que uma simples agenda boba, era muito mais.

Boba nenhuma agenda é.

A agenda é o registro de uma personalidade.

Minha agenda era uma junção do que eu fui e do que havia me tornado.

Eu não podia perdê-la.

Não daquele jeito.

Não naquela época que eu tanto precisava dela.

Não sem nem sonhar em reencontrar.

Não queria outra em branco.

Não queria mais nenhuma, nenhuma.

A minha amiga de papel lia os meus segredos sem contar a ninguém.

Amigas de verdade podem vacilar às vezes. São humanas, por que não?

E aqueles segredos tão preciosos podem vazar.

A agenda fica ali em silêncio, sem entregar nada. Cada um interpreta como bem quiser.

Pensei em mil coisas... ficar sem sono tem disso também...

1) Algum menino, talvez, por curiosidade ou sacanagem mesmo, a surrupiou da minha bolsa. Ele iria aparecer, eu sei que sim. Ele iria me devolvê-la jurando de pés juntos que não leu uma linha sequer, o que eu veemente duvidaria.

Será, Aline? Será que ele não leria uma mísera linha?

Mas o que um garoto iria querer com aquela agenda? Se ainda fosse uma coleção de tazos do chiclete e do salgadinho, talvez. Mas apesar de gostar dos tazos, eles ficavam numa caixinha no meu quarto, não na agenda.

2) Pensei que esse mesmo garoto (ou outro) pegou a agenda para chantagear em troca de tazos.

Por que um garoto faria chantagem por tazos? Eu trocaria os meus numa boa, sem choro.

3) Ou talvez, na pressa, eu perdi a agenda no ônibus e não havia atualizado o número do telefone de casa, porque na verdade, ainda não tinham instalado e eu não coloquei nem o telefone dos meus padrinhos...

Quem pegou, certamente, não iria devolver. Ou pelo menos não como era.

Deus devia gostar muito de mim, pois se eu fosse mais revoltada, diria com todas as letras que aquilo era não menos que um inferno astral dos brabos... Mas espera aí... Meu aniversário é só em fevereiro, por que tudo aquilo?

Passei dias e dias vasculhando a escola, os achados e perdidos, investigando todo mundo... Bem, os meninos estavam ajudando, todo mundo estava... E de tanta tristeza eu fiquei doente, tive uma virose bem forte, fiquei vários dias com diarreia e vômito, não conseguia comer nada sem passar mal... Precisei ficar internada tomando soro porque emagreci muito e não tinha forças para ir à aula...

A verdade é que dessa escola eu gostava (não igual à Prudentópolis) a ponto de ficar triste nos fins de semana... Gostava de ver a Tita, pensava que talvez a tinha afugentado com aquela história de namorado... Ela era muito séria... Quer dizer, é...

Bem, ela é de escorpião... É naturalmente braba... Mas não braba do mal, ela é aquele tipo que gosta de fazer tudo certo, entregar os deveres de casa, que chora quando tira menos de sete, que se sai bem em (quase) todas as provas, que enquanto os outros estavam zoando na aula do Emival (Matemática), ela estava tirando dúvidas, tanto é que no terceiro bimestre enquanto a Mariana Franco estava apelando até pra reza para não pegar recuperação final nem conselho de classe, a Tita já estava matematicamente aprovada, com exceção de Educação Física que ela precisava de uns décimos, o que obviamente iria conseguir até se tirasse um ponto na média...

Eu voltei para casa, mas estava de atestado, então para saber como estavam as coisas na escola, encontrei o telefone da Tita no meu caderno e pedi para mamãe ligar para ela que veio até a minha casa e me emprestou todos os cadernos dela, disse que não se importava em emprestar, comentou que todo mundo sentia a minha falta e num dado momento confessou com os olhos cheios de lágrimas que roubou a minha agenda.

Pensei a princípio que ela estava tirando sarro de mim, todavia, tendo ela apanhado ou não, eu nem me importava porque minha agenda estava comigo de volta e eu deveria ter ficado com raiva, mas não fiquei, não consegui, admirei a Tita por ter admitido que tivesse curiosidade de me conhecer, sendo que eu tinha a mesma vontade, eu queria conhecê-la melhor porque de todas, foi com ela que eu me identifiquei mais.

Foi uma tarde tão bonita. Eu contei a ela toda a verdade e me senti leve, tirando dos meus ombros um peso, aquele peso de estar mentindo, de não ser eu mesma totalmente.

Sabiam que a visita da Tita me fez melhorar?

Ah, isso fez!

E ter a agenda de volta, também!

Eu saí da cama no outro dia que a Tita passou aqui comigo, nós preparamos o almoço, vimos desenhos animados, nos aprontamos pra ir à aula, foi muito divertido. A Mariana Franco ficou toda enciumada porque passei a andar mais com a Tita do que com ela. Sem contar também que eu preferia mil vezes brincar a... beijar garotos!

O único garoto que eu realmente beijei foi o Tadeu. E foi só dele que eu gostei.