Aline por Aline

25 Capítulo 25 - Eu amo o amor e ele é o meu caminho


Depois de muito tempo, parece que as coisas estão começando a dar certo para mim. Meus padrinhos estão juntando dinheiro para fazer a minha festa de debutante, compraram um carro novinho em folha, estou indo bem na escola — consegui fechar com média oito até em matemática, estou adorando o curso de Inglês, escrevendo bastantes poemas (alguns até em inglês) e finalmente estou sendo correspondida pelo menino que amo. Agora, para fechar, só falta a minha mãe vir trabalhar com a D. Zuleica aqui em Curitiba, pois Lady Zuzu e a mamãe são não apenas patroa e diarista são amigas. Talvez até julho eu tenha Nice e Rubinho de volta.

Não é ótimo?

Mas até o lado bom esconde a sua parcela de negatividade. Eu não podia dizer que não estava esperando o que ia acontecer porque era mais do que certo.

Estava tudo bem.

Não por completo.

Eu estava omitindo a verdade à Tita.

Omitir é diferente de mentir, assumo.

Mas omitir está longe de ter o mesmo significado de uma mentira doce para não magoar um ente querido. Tita tinha o direito de saber que Adolfo saiu da escola e não mais voltaria, só que a gravidade da situação era muito maior do que essa: ela queria revê-lo, ele não mais.

***

Só consegui entrar em contato com Adolfo (EM FINAL DE ABRIL) porque encontrei Miriam voltando do colégio no ônibus e soube que a família trocou o número de telefone, assim como a (louca da) Meire.

— A Sônia e o pai (Sérgio) estão vigiando Adolfo ao máximo. Proibiram meu irmão de ver TV, confiscaram o videogame e o pai está levando o Adolfo para a escola porque até o dinheiro do passe foi negado. Não sei, sinceramente, como Adolfo está suportando isso... ― Miriam relatou-me os detalhes da quarentena de Adolfo.

— Por que tanta opressão?

― É que você não tem ideia do teor do telefonema. — Miriam também dava sinais de estar bastante aborrecida com a situação a qual enfrentava o irmão porque ela ficava no meio, sendo aquela que amansava a ira de Sérgio e a passividade de Sônia.

― Que telefonema?

— A mãe da Tita que telefonou lá em casa e rolou o maior barraco... estavam até achando que a Tita estava grávida.

― Meu Deus, que perversidade!

Imagine só...

— Quem foi essa menina que telefonou? ― Pressionei Miriam porque sabia que ela não seria capaz de me esconder uma informação tão importante quanto essa.

— Algum nome com inha, Sandrinha, Clarinha, Claudinha, eu sei lá... só sei que essa diaba estuda na escola de vocês...

― Você quer dizer que a Meire ouviu a sobrinha e falou com seus pais? — Eu já não gostava nem um pouco de Maria Clara e sabia que ela estava infernizando a Tita, mas não imaginava que suas atitudes pudessem ser tão cruéis, pérfidas.

— Basicamente isso. Juro por Deus que foi o pior feriado das nossas vidas. ― Miriam lamentou, jurando que ainda tinha pesadelos com as surras que Adolfo tomou dos pais, a gritaria generalizada. Enfim, não foi nada diferente da casa da Tita, atrevo-me a dizer, até pior, pelo fato de ele ser garoto.

― Sem dúvida alguma — assenti com a cabeça, solidarizando-me com o drama da família Hass.

— Não por nada, mas quem telefonou, tenho quase certeza, foi àquela oferecida que ficava dando em cima do Adolfo, aquela babaca do dia do cinema. Por acaso é a mesma que faz a Tita apanhar da mãe dela?

― Sim, é a Clarinha — confirmei aborrecida, desejando não ver Maria Clara na frente para não lhe tirar satisfações.

― Ai, se eu pego essa guria na rua. Acabo com a raça dela. — Rosnou Miriam porque sendo apegada ao irmão como era, não suportava vê-lo sofrer, porque todos nós sabíamos que a tragédia ocorreu por conta das futricas de Maria Clara, que não custaram caro somente ao Adolfo, mas à Tita também.

― Sem fazer apologia à violência, eu também.

Não posso crer que Maria Clara teve coragem de destruir a vida dos meus amigos a troco de nada. O que ela ganhava com isso, afinal?

Até comigo Sônia e Sérgio proibiram Adolfo de conversar, então para poder matar a saudade do meu melhor amigo, fingi ser uma colega de Miriam.

― E a Tita, como está? Encrencou-se muito? — Adolfo estava ansioso para ter mais detalhes sobre a atual vida de Tita, ou melhor, a vida de gata borralheira injustiçada.

— A Meire está a cada dia pior, Adolfo. Temo muito pela Tita. Não sei o que Meire disse a seus pais, mas, por favor, não tenha raiva da Tita porque ela não sabia de nada.

― Sei disso. Sei que a Tita é um anjo, não faria isso. Imagino o que aquela vagabunda da Maria Clara anda fazendo com ela. — Disse ele, entristecido, até um pouco choroso. Esse telefonema aconteceu pouco antes do feriado do Dia do Trabalho.

Eu bem que elaborei mil planos para ajudar Tita e Adolfo a se reencontrarem, mas Yohann me pediu para ter calma, a princípio eu não entendi o porquê disso, então ele teve que ser franco...

Adolfo já estava ficando com outra pessoa!

― Yohann, isso é muito sério!

— É melhor que a tua amiga saiba disso. — Disparou Yohann.

― Mas é claro! Eu não posso esconder um detalhe tão sério da minha amiga. A Tita pode até se magoar, mas precisa saber da verdade.

― Você mesma não disse que se ela souber da verdade pode até fazer uma bobagem? — Recordou Yohann.

— Eu preciso prepará-la para isso! Você está certo.

Adolfo estava no maior affair com a Bárbara Bianca Lopes Coelho, irmã da Sheila Suzana (do último ano do colegial), e esse namoro tinha a aprovação da D. Sônia e do Sr. Sérgio em cuja casa eu me tornei persona non grata.

Rayanna, a melhor amiga da Miriam, saiu da escola sem perdoar a Babi que lá no CM era carinhosamente conhecida como a putinha fardada.

Desculpem-me por ter que usar esses termos desagradáveis, mas Babi era a ladra de namorados, a talarica, menina nenhuma gostava de ficar perto dela por causa disso. Bastava falar que estava afim de alguém para ela sair na frente como se tivesse que provar o tempo todo que por conta de ser loira dos olhos claros, seria unânime na opinião de todos.

Resumindo o enredo: Babi ficou com o Henrique Menezes, o menino que a Rayanna gostava desde pequenininha e o fez sabendo que a (ex) amiga amava o Rick. A melhor amiga de Miriam não perdoou porque foi um vacilo, ainda mais porque Bárbara não ficava por gostar da pessoa, só para contabilizar.

Passei duas semanas com Bárbara na praia a contragosto e ela só não ficou com o Yohann porque ele já estava de compromisso com a Sheila Suzana, senão não duvido nada que teria paquerado na cara dura. No sétimo ano do CM, a regra de ouro entre as meninas é não confiar na Bárbara quando o assunto é menino.

Grande droga que ela ganhou o concurso de Miss Verão Mirim. Sendo afilhada do produtor do evento, até a Rita ganhava. Felizmente minha colega de turma tirou aquele parafuso horrível da barriga e se mancou, mas em compensação tingiu os cabelos de vermelho acompanhando as outras meninas do grupo da Cássia e todas ficaram parecendo sabugos de milho agora que a tintura está desbotando.

Tita iria ficar muito arrasada quando soubesse que Adolfo já não gostava mais dela. A princípio eu torci (e como) para que Yohann tivesse se confundido, mas eu confirmei vendo o casalzinho de mãos dadas na fila do cinema.

Foram os meus olhos que se encheram de lágrimas.

Eu sei que ele me viu. Não só me viu como apressou o passo e fingiu não me conhecer. Ela ao lado estava rebolando, se sentindo mais ainda a última bolacha do pacote.

Tita não merecia aquele golpe baixo que Adolfo deu nela.

Foi quando perdi o sono supondo coisas que felizmente não aconteceram, mas e se tivessem acontecido?

E se a Tita não tivesse reagido a tempo?

E se ela tivesse feito “coisas a mais” do que beijos de língua?

Não seria nada mau se Erick e Tita se aproximassem, pelo menos para serem amigos. Se o fanfarrão é todo extrovertido entre amigos, quando se trata de assuntos do coração, é mais tímido do que a Tita.

Nossa escola retornou às aulas um pouco antes de a greve realmente acabar. Eu me sentia feliz porque apesar de ser o máximo acordar só para ver o programa da Eliana, queria de volta a rotina de ir ao colégio e tudo o mais, mesmo sabendo que não poderia esconder da Tita para sempre o paradeiro de Adolfo.

Erick e eu não conversamos logo de cara e também eu tive que reunir todas as minhas forças para contar toda a verdade à Tita. O fanfarrão entendeu que o assunto era sério e não se aproximou, mas acenou de longe para ela, o que já foi um avanço se levar em conta que eles mal se falavam.

Tita se chateou comigo, pensou que eu fiz de propósito, mas mal imagina que estou sofrendo tanto quanto ela nessa história. O que Clarinha fez não foi nada justo porque nem Adolfo nem Tita mereciam enfrentar tamanha humilhação em público, tampouco as recorrentes calúnias que estão sofrendo pelo simples fato de se gostarem. Sem contar que Clarinha é uma louca invejosa que não gosta de ver ninguém feliz. Eu tenho certeza de que um dia ela vai pagar pelo que está fazendo com a prima.

Como amiga, nesse momento eu gostaria de poder apoiá-la e dizer que isso vai passar, que devemos estudar ao máximo porque o único modo de sermos livres é estudando. Entendo que nesse momento as forças estejam nulas, porém a Tita é uma guerreira, já suportou tantas coisas nessa vida e vai erguer a cabeça porque o que Cássia (na escola) quer é derrotar minha amiga porque sabe que Tita tem potencial, é linda, honesta, meiga, querida e ainda que seu sorriso esteja triste, ainda sabe sorrir, com a calma, com verdade, a mesma que um dia aparecerá.

Sim, o bem sempre vence. Demora, mas a justiça se faz.

― A Tita está muito triste? — Erick, sentado ao meu lado no ônibus para o curso, assuntou.

― Ela está arrasada, acho que não vai me perdoar.

— Mas você não teve culpa do que aconteceu.

― Sim, eu sei, mas a Tita está passando por uma fase muito difícil e espero em Deus que do jeitinho dela consiga reagir e superar tudo.

— Então não vai ser legal se eu não me aproximar?

― Para namorar, não. A Tita ainda não sabe que o Adolfo está namorando outra menina, mas para a amizade, vai ser bom. Pede para os teus amigos não ficarem zoando, ela está muito triste e tudo de que menos precisa é de gente falando bobagem.

— Quanto a isso, fica sussa (sossegada) ― confirmou Erick.

― Em outras condições eu jamais te deixaria chegar perto da minha amiga, mas agora que eu estou te conhecendo melhor, estou vendo que errei em te julgar.

— Eu sou um idiota. — Confessou Erick, ficando de cabeça baixa, reconhecendo pela primeira que era imaturo. Mas eu também sou às vezes, a Tita também é. Ninguém aos treze anos está isento de cometer bobagens e se arrepender.

― Você é, mas por trás de todas as idiotices eu vejo um garoto legal. ― Falei aquilo com o coração aberto, sentindo até um pouquinho de vontade de chorar.

— Você me acha legal? — Ele me olhou desconfiado.

― Sim, eu acho ― meneei a cabeça. — E você não precisa forçar para ser legal. A Tita vai pensar a mesma coisa quando vocês começarem a conversar.

— Será?

― Nesse momento vai ser ótimo que ela faça um novo amigo, especialmente alguém que vai dar carinho a ela.

— Eu só consigo pensar nela o tempo todo... — Erick revelou o que já era meio óbvio para mim.

― Mas vai ter que ir com calma, meu amigo ― eu recomendei. — Colocar a carroça na frente dos bois nunca trouxe sucesso.

— Eu te disse que você é um anjinho? ― Erick brincou com o meu cabelo.

― Ah Erick, capaz...

— É sério... você é um anjo...

Ele me deu um abraço bem apertado e foi bom conversar com alguém que pudesse realmente me ajudar. É bom ter com quem contar!

Eu gostava muito do Adolfo, muito mesmo!

Eu o considerava o meu melhor amigo. Eu realmente acreditava que ele gostava da Tita. Compreendo que ele também passou por uma fase difícil e que se está gostando da Bárbara, quem sou eu na ordem do dia para impedi-lo de ficar com ela?

Por outro lado eu gosto demais da Tita porque a vejo como a irmã que Deus não me deu e sei que depois desse feriado de Corpus Christi vou ter que partir o coração dela lhe contando uma verdade dolorosa, mas que vai libertá-la.

― De uma amiga a gente não espera falsas ilusões, meu anjo. — Aconselhou mamãe fazendo a mesa da casa da D. Zuleica. São os últimos dias dela aqui na praia, pois ela vai mesmo voltar para Curitiba e morar junto comigo.

— Tenho medo que a Tita não queira mais ser minha amiga.

― Tita tem o direito de sentir a dor dela e nós temos que respeitar. Nessas horas não adianta dar lição de moral nem dizer o que fazer, ela tem o direito de chorar, de se sentir triste, de viver esse pequeno "luto", mas depois ela vai crescer com tudo isso e se apaixonar de novo. Isso vale para vocês duas. Vocês sofrem pelas paixonites, mas na idade de vocês, nada é para sempre. A Tita vai ficar triste agora porque depois, sim, vai encontrar alguém que a ame, mas para isso, ela precisa se amar por primeiro, senão vai atrair uma legião de trastes. Traste é o que mais tem por aí, louco para tirar casquinha de menina ingênua. Tem é que ficar com o olho bem aberto.

— Espero que a Tita me perdoe, mãezinha.

— Por você ser uma amiga verdadeira, que abre os olhos dela e diz o que é preciso ser dito?

— Porque dizer a verdade pode significar a perda da minha melhor amiga.

— A menos que ela não te mereça. Do contrário, tenho certeza de que um dia ela vai te agradecer por esse "puxão de orelha".

— Assim espero, mãezinha!

― Como uma amiga como você, Tita não precisa de mais nada.

― Espero que ela realmente ainda me considere amiga.

— Dê tempo ao tempo, Aline — recomendou Nice. ― A Tita está muito confusa, magoada, é a primeira grande decepção amorosa da vida dela. Você teve a sua com o Tadeu, você se lembra de quando pensou que nunca ia superar tudo e olha só? Até outro amor você já tem!

― Espero que a Tita também encontre alguém algum dia... Seja o Erick ou não...

— O fanfarrão está gamado na Tita? — Nice voltou-se para mim com certa incredulidade na fala.

― Ô se está... ― respondi com um sorriso que levava embora (por algum tempo) o aperto no peito.

― Que milagre foi esse? — Mamãe foi para o quartinho separar a muda de roupas para passar e eu acompanhei me oferecendo para passar aquelas peças mais leves e agilizar o trabalho, afinal, era noite de sábado e eu queria dar uma voltinha com ela no centro, já que estou quase indo embora e quero escolher algum presente para Tita.

— Ele gosta da Tita faz é tempo, só age feito idiota para ela não desconfiar...

― Cedo ou tarde eles vão acabar ficando, minha filha... Histórias assim sempre terminam no altar...

— Altar, mãe? Altar?

― E como não? Seu pai e eu éramos como a Tita e esse menino... é Erick o nome dele é?

— Sim, é Erick o nome dele... ― balancei a cabeça, sorrindo.

— Pois então, filha... seu pai também vivia me pregando peça, me irritando, me provocando, até que um dia foi até a minha casa e me pediu em namoro.

― Isso você nunca me contou.

— Você nunca me perguntou.

Mamãe e eu passamos uma noite muito divertida, passeamos pelo centro, vimos às ondas agitadas dançarem no mar furioso e bem pouco amigável para os banhistas, compramos algumas quinquilharias (adoro!) e comemos um sanduíche de atum numa lanchonete pertinho do prédio da D. Zuleica.

Eu não me imagino tendo outra mãe que não fosse Nice.

Eu não me imagino tendo outro nome que não seja Aline.

Eu gosto dos meus olhos, do meu cabelo, de mim do jeito que sou. Não tenho ódio do meu passado nem das pessoas me magoaram, não reescreveria nenhum trecho da minha história, nem mesmo aqueles em que eu nunca queria ter vivido.

Eu amo a beleza de cada uma das estações.

Eu gosto de ver o mar e mais ainda daquele friozinho gostoso que me proporciona comer pinhão e dançar quadrilha.

Eu amo a vida porque ela é um sonho só, não tem repetição.

Eu amo o amor e ele é o meu caminho.

Notas finais
Lenços em mãos? O último capítulo está chegando!