Aline por Aline

22 Capítulo 22 - 500 anos de vergonha


Depois de tirar miseráveis TRÊS pontos em uma prova de matemática COM CONSULTA em que até a Cássia tirou 8,5 serviu para Tita cair na real. Pasmem, o Erick e o Fefê que são os mais fanfarrões tiraram OITO.

Eu não fiquei com dó quando ela chorou se sentindo humilhada porque ela mesma provocou isso deixando de fazer as tarefas.

Ela procurou esse caminho cheio de espinhos e poças de lama. Não foi por falta de recomendações.

― Continue indo mal assim nas provas e vai acabar estudando na mesma sala que a Maria Clara. — Adverti ainda incrédula dos meus emocionantes 9,5: ― Quem é a chata agora, han? — Cruzei os braços em frente à carteira dela. ― Pode namorar, ninguém é contra, agora deixar a cabeça em casa são outros 500.

E falando em quinhentos, o relógio que fazia a contagem regressiva para os 500 anos do Brasil já anunciava que o dia 22 de abril estava muito perto de chegar. Desde o finalzinho da década passada a mídia já falava sobre isso e a partir de fevereiro, os professores também. A Naná nos incentivou com todos os argumentos que tinha para que participássemos ativamente dessa data histórica contribuindo com textos, poesias, colagens, maquetes e o que mais ditasse a criatividade.

Tita decidiu correr atrás do prejuízo e confessou que está muito triste porque a D. Meire descobriu a novela que ela estava escrevendo e rasgou todas as folhas de papel...

— Sua mãe invade a sua privacidade? — Os relatos da Tita me deixaram com os pelos do antebraço arrepiados. Meire estava se superando na crueldade.

― Ela me diz que se eu quiser privacidade, que vá embora de casa.

― Ela não pode chegar e destruir as suas coisas como se elas não tivessem valor.

— Mas ela faz isso, não tem nem conversa. Se a Clarinha disser que a escola é inútil, a mãe me tira da escola. Se a Clarinha disse, está dito e ninguém passa por cima.

― Isso está ficando sério, Tita.

— Nessas horas eu odeio mais ainda o meu pai por ter me enganado.

― Você sabe o que eu penso a respeito do seu pai, não sabe?

— Pois mesmo que ele viesse, eu também não iria com ele.

― Sentir raiva do seu pai também não ajuda em nada, Tita.

— O que ele fez comigo não tem perdão. ― Ela cruzou os braços e eu senti seus olhos se fecharem em função da raiva. Ela estava descontando nos doces o preço das palavras que tinha de engolir dia após dia convivendo sem trégua com a Maria Clara.

― Eu não sei o que aconteceu realmente, mas sentir ódio dele só faz mal a você, Tita. Se ele errou, vai levar esse remorso com ele para o resto da vida. Tenta perdoá-lo dentro de você, guardar mágoa só faz mal a quem a guarda, às vezes a outra pessoa nem sabe...

— Ele me prometeu que tudo daria certo. ― Tita abaixou a cabeça ainda pensando em quanto sua vida foi afetada pela promessa de Félix.

— Você nunca parou para pensar que pode ter acontecido alguma coisa com ele?

― Se ele tivesse morrido ou ficado doente, a mãe teria avisado... ela pode ser o que for, mas sua ruindade não chega a tanto.

— Independentemente de morte ou doença...

— Promessa é promessa! ― Reforçou ela abrindo mais um pacote de balas de goma comendo sem nem sequer sentir o sabor.

― Certo, amiga, vamos mudar de assunto... se você precisar, meus padrinhos podem falar com a sua mãe, ainda tem vagas sobrando no curso...

— Eu queria ter continuado, mas a Clarinha voltou para casa reclamando horrores que a professora bateu nela porque ela estava mascando chiclete, disse que a Yumi ia bater em quem não aprendesse a falar em japonês, falou tanta merda que a mãe nem me deixou falar sobre o curso, nem soube como era...

― Clarinha é maluca!

— Minha mãe disse que não ia gastar dinheiro com o que chamou de desperdício e para compensar a Clarinha comprou o CD da novela que agora fica tocando o dia inteirinho, além de aguentar o chororô da Clarinha porque aquela porcaria GRAÇAS A DEUS está acabando.

— E vai tarde! ― Levantei as mãos para o céu.

― Será que a Naná vai gostar do meu texto?

— Texto para os 500 anos do Brasil?

― É... Eu... eu escrevi um texto...

— Pode me mostrar?

― Está sem graça...

— Não me diga que...?

― Aham, a Clarinha debochou do projeto e a mãe disse que eu devia esquecer essa história de escrever porque não levo jeito.

— Ela por acaso leu ou está falando só para te magoar?

― Eu acho que ela tem razão.

— Ela não tem razão.

Tita relutou, mas mostrou o rascunho a lápis e eu gostei muito.

― Eu dou a maior força para você mostrar seu texto à Naná.

— Verdade? ― Os olhinhos de jabuticaba dela brilharam, e então eu percebi que todo aquele desespero de querer dar passos maiores do que as pernas era um jeito de tentar recalcar a tristeza, a incompreensão, trilhar caminhos errados para conquistar a liberdade.

Tita é uma menina muito inteligente e pode ser madura quando quer, então sei que ela vai juntar suas forças e vencer. Se o Adolfo for ou não o grande amor da sua vida, tem de ser uma consequência e não a razão de todo o resto.

— A Naná vai ficar feliz porque você vai aderir ao projeto. Quase ninguém está mostrando interesse. ― Abri meus braços para receber a minha irmã de consideração. Depois dessa briga eu percebi que não sinto raiva dela quando discutimos, logo tenho vontade de grudar minha carteira e ficar em paz. Eu não me sentiria amiga de verdade se tivesse incentivado Tita a fazer bobagens que poderiam ter irremediáveis consequências.

Tita se chateou com o tom que eu usei, no entanto foi necessário peitá-la num primeiro instante, ser até um pouco grosseira, agir como uma mãe agiria, logo eu que penso em algum dia ter filhos, mas não agora.

Sei que Tita também não quer ser mãe nem aos treze, nem aos quinze.

Ela é teimosa, eis que também sou.

Eu gosto dela do jeito que ela é.

Repetir frases de efeito me baseando somente nelas não seria uma estratégia muito sábia da minha parte. Apoiar as decisões dela também não, pois a terapia reversa seria ineficaz. Eu teria de deixá-la sentir o amargo de uma nota vermelha.

Foi o bastante.

Mas o texto foi plagiado pela Cássia sabe-se lá de que maneira. Tudo o que importa dizer é que minha amiga foi vencedora mesmo que não tenha usufruído dos méritos. Rolou o maior bate-boca na classe, Cássia e Tita quase saíram para a briga e só não lutaram de vez porque a Naná as apartou e anulou a redação.

Eu escrevi um poema que ficou exposto dentre várias manifestações dos alunos para a celebração dos 500 anos. Naná sabe que sou a autora da poesia, mas eu não quis que ninguém mais (nem a própria Tita) tomasse conhecimento disso. Muitos escritores também se apropriaram de pseudônimos no começo da carreira. Não que eu tenha a pretensão de publicar livros e autografa-los nem que seja para uma quantidade pequena de pessoas, apenas queria expressar a arte canalizando a minha energia ativa numa causa nobre, sentindo-me de algum jeito fazendo parte da história, de um evento que nunca mais se repetirá. Não com tanta exatidão.

Nos dias que antecederam o feriado da Páscoa que coincidiu também com o dia do descobrimento, nós alunos participamos da decoração para a grande festa da quarta-feira, último dia letivo antes do feriado santo. Trouxemos papel crepom das cores da nossa bandeira, fizemos bandeirinhas e nossa presença contabilizou automaticamente dois pontos em TODAS as disciplinas.

Tita e Maria Clara saíram na pancada naquela manhã de quarta-feira antes da aula. O CD da novela besta amanheceu riscado e o acerto de contas foi tão tenso que minha amiga estava ofegante e ansiosa.

Quando a Tita me relatou tudo sem omitir as partes em que me parece ter pegado um pouco pesado (não está errado, mas Maria Clara se analisar, é uma pobre coitada que nunca foi amada), tive um mau pressentimento. E nem precisei ser vidente para confirmá-lo assistindo a uma cena tão horrível que nem queria descrever.

Tita e Adolfo foram flagrados aos beijos pela D. Meire que, como era de se esperar, não reagiu nada bem e nem sequer deixou para dar o seu espetáculo em casa, espancou a Tita na escola mesmo, com toda a nossa turma vendo àquela barbárie, escutando aquelas palavras de baixo calão, uma verdadeira humilhação.

Adolfo e eu tentamos fazer tudo o que podíamos para acalmar a D. Meire, mas ela estava irredutível, negociando à base da porrada. Sobrou até para mim que fui chamada de coisas que me doem somente de lembrar. Eu fui acusada com o dedo a riste de ser o demônio mirim que desencaminhou Tita.

Fiquei parada, sem reação, porque quando ouvi os gritos estridentes da D. Meire pensei que fosse Cássia a pregar alguma peça em alguém como de praxe. Quando reconheci minha melhor amiga apanhando diante da escola inteirinha, meu coração quase parou, minhas pernas perderam a força, também precisei recuperar o fôlego para tomar alguma atitude.

Era demais para eu suportar!