Aline por Aline

20 Capítulo 20 - A pior sétima série da escola


Esse ano letivo será de tudo, menos insosso. A nossa turma, com exceção de alguns que reprovaram e se transferiram para outras escolas em outros turnos, é quase a mesma do ano passado. Seremos alunos da Naná (ou Catifunda para os fanfarrões), do Benjamin (História) e etc.

Cássia pintou os cabelos de vermelho e colocou um piercing no umbigo durante as férias. Alguns dias depois o restante do grupo deu um jeito de imitá-la. Rita teimou em colocar um piercing literalmente na barriga e ficou tudo, menos legal. Ela se sentia tipo a Sabrina Parlatore do Disk MTV, parecia mesmo que tinha apanhado um parafuso enorme e furado o local escolhido.

— E aí, Rita? Posso ver o teu piercing? ― Perguntou o Erick se debruçando sobre a carteira dela.

— Quer ver? ― Rita ficou toda empolgada em mostrar a barriga seca (só que não) adornada por um parafuso grosso.

— Fiquei sabendo que você também colocou um piercing. ― Comentou ele olhando para os amigos lá no fundo da sala.

— Ah sim, coloquei... quer ver?

A Rita é muito idiota. O Erick estava tirando a maior onda com a cara dela.

― Ah, a minha mãe disse que agora eu tô a cara da Tiazinha.

― Ela disse isso mesmo? — Erick e o amigo Fefê se contiveram para não soltar uma bela e sonora gargalhada.

— E não pareço?

― Nascendo umas vinte vezes, quem sabe!

Rita lançou um olhar furioso para cima dos meninos e ai de quem não dissesse que com o cabelo preto desbotado e aquele piercing sensual (só que não!) ela era uma sósia completa daquela moça que aparecia com trajes provocantes no horário nobre da televisão.

A diversão, entretanto, acabou por aí, pois infelizmente a notícia que a Tita me deu não é nada animadora: a Maria Clara vai estudar conosco. Não na mesma classe, pois ela está pelo menos dois anos atrasada em relação a nós, mas na mesma escola, no mesmo turno e no mesmo bloco. Pressinto que teremos muitos problemas ao longo desses quatro cansativos bimestres do ano mais decisivo do Ensino Fundamental.

Quando Clarinha começa a falar daquela novela esdrúxula que eu assisti por duas semanas e depois desencanei, finjo estar prestando atenção, mas viajo para outros ares.

A Tita tem razão! A Maria Clara está confundindo a ficção com a realidade, além de ser descarada com os olhares para cima de Adolfo. O único assunto é a novela, o que aconteceu, o que ela acha que deve acontecer, etc.

Chiquititas também já deu o que tinha que dar. Eu acho que tinha que ter acabado quando a Mili teve o seu final feliz, mas agora eu não estou nem um pouco ansiosa para a volta da novela em abril, nem para as novidades que tanto falam e percebo que a maioria das meninas já está em outra, não quer nem saber de orfanato, cantoria e par romântico.

Nesse caso, que se dane Chiquititas, Luz Clarita e todo o resto. Nenhuma dessas meninas nunca vai me representar de verdade e minha audiência não faz falta alguma. Tenho mais o que fazer do que aguentar dubladoras de voz enjoada e aquelas musiquinhas que grudam na cabeça. Isso é legal para quem tem a idade do Rubinho. Eu já estou crescendo e pensando num futuro verdadeiro, sólido, porque felizmente sei que ser atriz, modelo e cantora não são as únicas opções para nós.

Já pensou se todo mundo quiser ser cantora? Quem é que vai comprar os CDS?

Se todo mundo for atriz, quem é que vai assistir às novelas e os filmes?

Podemos ser professoras, artesãs, poetisas, jornalistas, advogadas, atletas, engenheiras, militares, quem sabe até astronautas.

Quando eu era mais criança, fiquei feliz da vida quando meu avô voltou da venda com uma lousa debaixo dos braços. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Brincar de escolinha e ser a professora. Foi muito legal encher o quadro de palavrinhas, de continhas, me sentir feliz por saber as respostas.

Ser professora é legal. Sempre precisaremos de professores para encaminhar as novas gerações e fazer de todas as outras profissões possíveis. Todas são nobres e têm a sua relevância. Espero, através do meu trabalho, cumprir a minha missão aqui na Terra. Para ser professora, disse a Naná, vou precisar fazer faculdade. Prestar o vestibular é duas vezes mais difícil que o exame do CEP e do CM que se Deus quiser vou fazer o ano que vem, mas sei que com muita fé e dedicação vou chegar lá.

Estou felicíssima porque nas férias eu conversei com a minha mãe e ela aprovou a minha ideia de fazer um curso de idiomas, já que a Naná vive dizendo em classe que só ter o Ensino Médio daqui a alguns anos vai dar no mesmo que ter apenas o primário, pois o mercado de trabalho exigirá mais dos concorrentes e será obrigatório ter domínio de um idioma além do nosso amado e tão maltratado português.

A D. Zuleica me disse que em Curitiba havia alguns cursos de idioma com o preço em conta, que eu poderia assistir a uma aula experimental e tudo o mais, aí se gostasse, continuava. Minha mãe concordou na hora, assobiando por me imaginar formada na faculdade. Ainda estou em dúvida se escolho Pedagogia ou Letras.

Meus padrinhos embarcaram nas ideias da madame e bateram perna até encontrarem um cursinho bom e barato. O curso tem a duração de três anos e eu ao término receberei um diploma de formanda em Língua Inglesa, o que pode (e vai) me ajudar muito no futuro. Além disso, a turma é bem pequena, tem no máximo oito pessoas, contando comigo e a professora, uma mulher de feições asiáticas de fala mansa e fina, sempre dedicada e atenciosa. O nome dela é Yumi e ela é baixinha e os cabelos negros, lisos e pesados estão sempre presos em um coque.

Convidei Tita para me acompanhar e a D. Meire concordou desde que a Maria Clara fosse, prometendo que se as meninas gostassem, iriam continuar o curso.

A Miss Yumi é uma pessoa paciente, mas a Maria Clara ficava mascando aquele chiclete nojento e perturbando, reclamando que queria ver a novela, que estava perdendo tempo ali. A professora deu uma indireta e a chata engoliu aquela goma horrorosa que com certeza já não tinha mais gosto de nada e só servia para fazer barulho e incomodar.

Começamos com o verbo “to be” e foi bom relembrar, pois aprendemos isso na quinta série e ele é muito importante por ser o gerador de muitos outros verbos e tempos verbais.

Tita ficou muito empolgada com o curso, mas não retornou mais.

Sabem o que realmente não consigo entender? É que a D. Meire que cobra tanto notas altíssimas e praticamente deixa a filha em cárcere privado, aí quando pinta uma oportunidade de a Tita começar a dar passos seguros para construir o futuro, essa mesma mãe opressora desconversa alegando que é “dinheiro jogado fora”.

Conhecimento nunca é “dinheiro jogado fora”.

Tita já vai completar treze anos em novembro e é importante que comece a pensar no futuro, no que vai fazer quando terminar a escola. Ela não vai poder ser dependente a vida toda, terá que enfrentar a autoridade da mãe, conquistar a própria autonomia, sonhar em ter o seu cantinho, não aguentar desaforo nem maus tratos, calúnias, proibições.

A questão do namorico é a cereja do bolo. Cedo ou tarde, do jeito que as coisas estão, a Meire vai tomar conhecimento. Se as notas da Tita despencarem, infelizmente vai ser como cutucar um castelo montado com cartas de baralho.

Se por um lado a Maria Clara vem ganhando terreno e confiança da tia, por outro, a Tita está prestes a se enforcar, vive com a cabeça no mundo da lua, até a Naná já lhe deu bronca por não entregar as atividades em classe, logo a CDF agora só pensa em proteger o seu namoro.

Isso não vai acabar nada bem.