Aline por Aline

2 Capítulo 2 - Adeus, Prudentópolis!


Em abril, papai voltou para casa. Nice e eu, juntas, tratamos de encerar os cômodos, tirar pó dos móveis, lavar os tapetes, as roupas de cama, as janelas, deixar tudo nos trinques, afinal, se a equipe médica lhe havia dado à alta hospitalar, restava apenas esperar pela cura. O afamado jogo de paciência. Sentar, aguardar, ser grata.

Rubens retornou a Prudentópolis no meio da tarde. Nice e vovó correram para a garagem a fim de receberem os homens da casa depois de tanto tempo de saudades. No entanto, eis o choque: Vovô tirou do banco do carona uma cadeira de rodas alugada, montando-a na calçada, gritando com vovó. Papai até conseguia se locomover, porém estava bastante debilitado e seu estado de saúde requeria descanso intenso, além de outros cuidados que os adultos dariam. Um médico amigo da família veio visitar a nossa casa na parte da noite e eu o conduzi até o portão, sentindo no olhar dele uma tristeza tão profunda que abafei um soluço.

― Mãe, existe alguma coisa que eu não possa saber? O papai ainda não está bem, não é mesmo?

― Ele ainda não se curou totalmente, Aline, mas temos que crer que é questão de tempo.

― Ele vai ficar bem?

― Temos que orar muito, Aline. Tudo o que o médico nos disse é para que oremos.

— O papai pode vir a morrer?

― Pode sim, Aline. — Nice confirmou: — Mas não podemos pensar nisso.

― Ele ainda não está bem de verdade, mãe. Ele pode morrer, não pode? — Não consegui perguntar aquilo sem romper em lágrimas e abraçar apertado a minha mãe.

— Ele não vai morrer, Aline. ― Mamãe insistiu falando com mais aspereza na voz, como se quisesse convencer a si mesma de que se os médicos não traziam a cura, os céus se encarregariam disso. A morte era o fim da esperança. Leonice Pacheco nunca abriria mão da sua fé, nunca se voltaria contra Deus.

Nice me pedia para não chorar na frente de Rubens a fim de não deixá-lo preocupado nem demonstrar susto ou terror porque a nossa dor tornaria a dele muito mais insuportável. Dizia ela que era apenas um teste de Deus à nossa fé, que ao final tudo ficaria bem.

Papai estava em casa, fisicamente, pelo menos. Se ele havia voltado é porque iria sobreviver, iria ficar bem, não nos deixaria sozinhos no mundo, nem a minha mãe, nem ao Rubinho, tampouco a mim. Orando, eu aguardava o milagre. Tadeu também estava cumprindo o seu propósito, todos nós dobrando os nossos joelhos na parte da noite, almejando intensamente contrariar aquele senhor de jaleco branco cujo diagnóstico nos desenganava também.

Eu nunca gostei muito de fígado, porém quando escutei vovó e mamãe conversando, um nó subiu e sufocou a minha garganta: Rubens queria comer e não podia. Eu tinha esse privilégio de me alimentar sem restrições e às vezes não queria por pura birra. Então, mesmo quando em vez de lasanha eu tinha de me contentar com fígado, eu procurava sentir o gosto como se pudesse me conectar mentalmente com o meu pai e fazer com que ele se sentisse alimentado. Lá do quarto dava para ouvir uns ruídos que pareciam choros. Sim, meu pai chorava. De dor, com certeza. Daquela dorzinha que nos mata por dentro. Às vezes eu chorava também, dando a desculpa de ir comer na varanda com vista para a estrebaria que de longe parecia tão pequenininha para que mamãe não me visse chorar.

Eu via as meninas falando das Chiquititas, dançando, comentando os namoricos da trama, comprando as revistas para recortar fotos do Leonardo Di Caprio e enquanto elas falavam e soltavam gritinhos histéricos, minha cabeça estava longe. Mamãe me implorava para tentar levar a vida do jeito que dava porque somente assim o meu pai ficaria bem, se nós estivéssemos fortes para tomarmos conta dele. Mas a verdade é que todo mundo sabia que eu não estava bem, algumas pessoas me olhavam com dó, como se eu estivesse muito doente.

Chegou maio. As folhas secas das árvores continuavam caindo nas ruas de paralelepípedos. Nenhuma melhora do estado de saúde de Rubens Pacheco, nenhuma esperança. Tudo, tudo igual. E aqueles dias frios e nublados também não contribuíam muito para atenuar a angústia.

No dia quinze eu fui acordada muito antes das 06h00min, muito antes. Era a minha vó sentada ao pé da minha cama. Estava frio ainda, o céu estava escuro, bem carrancudo. Ela não sabia como contar que eu teria que ser forte, ou seja, Deus não atendeu às minhas orações, meu pai se foi.

Depois que a minha avó saiu e foi esquentar o fogão a lenha para preparar um café, eu saí também, fui caminhando pelo terreno indo em direção à estrebaria, caminhando com a vista embaçada, chorando o mais alto que podia, esperando que Deus pudesse falar comigo e me explicar por que aquilo tinha acontecido, por que comigo, com a minha mãe?

Por quê?

Fui chorando, andando, vendo o céu clarear aos pouquinhos. Dava para ver a neblina cobrir o morro como se fosse um cachecol enrolando em volta do pescoço verde. Fiquei sentada a pensar se meu pai já sabia que morreu, para onde ele foi, se ele estava no céu, se um dia quando fosse a minha vez de ir embora se iria revê-lo, se lá do alto eu podia ver alguma porta, algum caminho. Não vi nenhum. E fiz o trajeto de volta, nem lembro a que horas, só sei que quando voltei, minha mãe me abraçou bem forte como se eu também fosse partir. Ela me disse que teríamos de ser fortes e ficarmos unidas porque uma precisava muito da outra.

Levei alguns dias para ir à escola de novo porque depois do enterro tive uma forte gripe e fiquei alguns dias acamada, muito fraca. Quando retornei, Tadeu entregou a minha agenda a qual eu nem me lembrava de que tinha esquecido. Abrindo a sacola, encontrei várias cartinhas e presentinhos dos meus amigos, todos lamentavam muito a perda do papai e assinaram a agenda. Tadeu me deu um pingente com um peixinho azul dizendo que assim ele estaria sempre comigo mesmo quando estivéssemos longe um do outro.

Na minha frente Nice não derrubou nenhuma lágrima, mas eu sabia que todas as noites quando meu irmão e eu íamos nos deitar, ela colocava algumas músicas para tocar no som da sala e chorava, eu a via abraçando as almofadas, chamando baixinho pelo seu amor, chorando até dormir. Aí, pouco antes do final daquele mesmo mês de maio, um dia voltei da escola e encontrei minha mãe dizendo alguma coisa à vovó que saiu furiosa do terreno.

Mamãe estava decidida a ir embora para Curitiba.

Essa notícia simplesmente partiu o meu coração!

Eu tinha uma vida inteirinha passada em Prudentópolis, todos os meus amigos moravam ali, o Tadeu, era o onde o meu pai estava descansando em paz... Em Curitiba nós tínhamos ao Tio Alípio, meu padrinho, e a Tia Marlene, mas além dele, ninguém mais...