Aline por Aline

13 Capítulo 13 - 0 X 0


No time da rua eu me arrisco a jogar uma bolinha de quando em vez, mas na escola eu só dou embaixadinha se essa valer nota. Aliás, eu só participo das aulas de Educação Física porque sou obrigada, porque fingir que estou com cólica é desculpa que a professora não engole de jeito algum, embora a Cássia sempre escape graças a sua malícia incontestável para lidar com situações sociais que pessoas como a Tita temem antes mesmo de acontecer.

Eu detesto Educação Física! Mil vezes odeio essa matéria.

Legal para alguém, não para mim que mil vezes detesto ouvir as risadinhas do Erick na fila para o atletismo. Eu queimo todos os meus saltos, nunca serviria para representar o país nos Jogos Olímpicos. Nunca traria uma medalha sequer, nem a de bronze, quanto mais o sonhado e cobiçado ouro. Nunca completaria uma Maratona de São Silvestre.

Educação Física é um calo no meu currículo estudantil.

Sim, eu acho Educação Física uma merda. Eu odeio falar palavrão, mas essa matéria me irrita a tal ponto que sou obrigada a falar!

Desculpem-me os professores dessa disciplina, já que eles têm que fazer faculdade para isso, mas eu não acho que saber dar um saque vai diferença no meu futuro. Eu não quero ser atleta, não quero chutar perfeitamente no gol ou acertar a cesta de três pontos, quero passar de ano e um dia não precisar mais encarar aquele bando de idiotas que se sentem grande coisa machucando os sentimentos e a honra dos outros.

Tita é baixinha, um pouquinho menor do que eu que tenho mais de 1.50 e um pouco menos de 1.60. Ela não tem muito jeito para corridas nem gosta disso. A professora implica muito com ela, que só não tirou nota vermelha porque felizmente um trabalho escrito compensou o fraco desempenho no atletismo.

Educação Física é a única matéria em que Cássia tira 10 sem colar. Quer dizer, que mentira! Ela aproveita o trabalho em grupo para colocar o nome na folha de alguém sem nem sequer fornecer uma contribuição.

Ou isso ou porrada.

Em Prudentópolis eu não tinha muitos problemas para apresentar seminários porque estudava com praticamente todos os meus amigos e me sentia em casa quando precisava falar com todos. Em Curitiba, entretanto, isso mudou. Desde que comecei a estudar nessa escola, sinto pavor de precisar me apresentar e mesmo que culpar uma pessoa não resolva o problema, nesse caso é óbvio que as chacotas da Cássia Reis e do seu grupinho tenham seu acréscimo ao medo.

Eu não entendo por que a Cássia ri de coisas que não têm um pingo de nexo. Não espero grande coisa de quem fica desenhando órgãos genitais masculinos nas folhas de trás do caderno. Ela faz o que quiser com o seu corpo, é verdade. Não tenho nada com isso. O problema é que sua imbecilidade é contagiosa.

Cássia tenta fazer com que eu me sinta um pedaço de nada. No começo eu quis acreditar que ela estivesse certa, agora lamento. Não por mim. Por essa descabeçada, em partes. Pessoas assim não parecem ter uma vida atrativa, apesar do movimento recorrente da popularidade. Uma ironia forte, ácida, para se acrescentar gelo e dar aquele gargarejo reconfortante que espanta todo e qualquer frio.

Cássia Reis é tudo que muitas (não digo todas porque não posso generalizar) meninas querem ser. Ela se encaixa quase que por totalidade no padrão de beleza que muitas jovens querem estar. Ela é alta, magra, tem olhos claros, a pele branca e lisinha, um cabelo claro... E só!

Pode ser que isso lhe abra algumas portas, mas sua imaturidade fecha outras.

Que droga, a Semana Recreativa chegou!

Semana Recreativa combina com diversão, uma semana inteirinha sem matemática e ciências, só brincadeiras manhã afora... pelo menos na teoria... Porque na prática, nessa escola, é tudo, menos alegria. Para Cássia e o exército dos analfabetos funcionais tem alegria, mas sustentada na sordidez de quem se deleita com a desgraça alheia...

O fanfarrão do Erick abaixou minhas calças... Queria saber, sinceramente, o que ele ganha fazendo isso comigo, com a Tita, com a Rita? Ele se acha tanto que chega a dar raiva.

Garoto babaca! Mil vezes otário. Com ó maiúsculo e nem assim ele aprende, nem depois daquele murro que o Adolfo desferiu naquele narizinho empinado.

Se eu não fosse levar tantas faltas não viria essa semana, mas então me lembro de que a Tita precisa de mim, que se eu não estiver ao seu lado é bem capaz que aconteça alguma coisa ruim.

O Adolfo fora da escola nem parece o menino reprimido de uniforme, ri o tempo todo, brinca, joga bola, faz tudo. Porém, dentro daquele portão, é apenas o elefante, o presuntinho, o balofo, o último a ser escolhido no time, último por obrigação, já que de verdade ninguém o queria ali e bobo ele não é, disso sabe muito bem e retruca na mesma moeda. Escalado a contragosto para o time de futebol do sexto ano, não gostou nada disso.

Diga-me: quem iria gostar de ser insultado sem chances de reagir? Até onde sei ninguém. Ou quase ninguém.

Tita e eu não conseguimos vagas em nenhuma outra atividade sem ser a dança. A líder Jéssica, do sétimo ano, escolheu É O Tchan para dançarmos. Eu até sei um passo ou outro porque aprendo de olhar a Jéssica dançar, mas a Tita por ser muito retraída tem mais dificuldade e por isso mesmo está sendo achincalhada pela Cássia que além de se achar a própria Loira do Tchan, ainda vem de gracinhas.

Eu já disse que ela é intragável?

Eu tentei gostar dela, mas essa arrogância está cada vez mais insustentável. A Jéssica já sinalizou que se a “girafa” continuar de nariz empinado vai tomar uma sova. Abusando da violência nada se resolve, porém se uma eventual surra servir para abaixar a crista dessa metidona, quem sabe lá o que se pode acontecer?

Cássia engrossa o caldo com a Tita porque a minha amiga é pequena, frágil, sensível, não tem forças físicas nem emocionais para enfrentá-la.

É aí que está!

Cássia conhece o ponto fraco da Tita. E tripudia.

Jéssica é uma concorrente a altura. É questão de hierarquia, de temeridade. Cássia é uma hiena que está prestes a cutucar uma onça enfurecida com uma vara curta, subestimando o sono leve da sua predadora. Digamos que é mais ou menos esse o quadro atual da nossa escola. Se Jéssica despertar de seu sono da beleza e Cássia não fugir em disparada, teremos um embate tão épico quanto deve ter sido Roni contra João, uma briga que como a própria Tita disse, teve mais arte do que pancadaria em si e bem dizendo, o tapa do João não deve ter doído nada, mas foi o suficiente para assegurar a vitória dele.

Já o duelo entre as valentonas do ginásio pode ser decisivo para ambas as reputações... Um fato lógico é que nenhuma das duas será unânime nem sairá ganhando com isso.

Uma vencedora haverá.

Mérito?

Tolerância?

Disputa de poder?

Alternância?

A quem defender?

O muro ficou um pouco estreito.

Faz-se necessário tomar um partido. Não que seja do meu agrado sair por aí torcendo para uma briga acontecer, mas não existe nada que eu possa fazer.

Jéssica é autoritária, temos que dançar a música que ela quer.

Cássia tem a mania de grandeza contando pontos contra ela. Se fosse a líder daquele grupo também faria suas imposições. Ela não está nem aí se estará de fato nos agradando, tudo o que quer é derrotar Jéssica para se fazer notar, respeitar.

Fico no 0x0 na expectativa de que não haja prorrogação.