Aline por Aline
12 Capítulo 12 - Entre amigas
Tita e Adolfo nunca mais brigaram por banalidades. Tornamo-nos um inseparável trio. Eu gostava de ficar na carteira do meio para dedicar atenção aos dois, sem distinção. Eu conversava com ele praticamente noite sim noite não. À medida que fomos adquirindo certa intimidade, ele se permitia rir comigo, de mim, e sabia que eu estava numa fossa amorosa.
No feriado de Corpus Christi eu fui para Prudentópolis visitar o túmulo do meu pai e descobri que o Tadeu estava muito bem com outra garota, a tal de Ângela, que entrou na escola justo quando havia terminado meu rolo com o Guto para não magoá-lo mais mandando cartas e alimentando esperanças.
O colar de peixinho ficou de lembrança e eu já nem sei dizer se é boa ou ruim, pois agora tenho as minhas dúvidas se ele realmente gostou de mim algum dia. Pode ser que sim, que quando eu estava lá, nós dois fazíamos sentido, agora eu estou longe e não posso impedir que ele siga a sua vida.
O amor não prende. Chantagem não enaltece. O jeito é deixar ir, mesmo que parte do meu coração também se vá.
A vida segue.
Nas férias de julho eu desci a serra com muito gosto para passar aquelas três semanas preciosas com mamãe, sem pensar em garotos nem problemas, nem em matérias para estudar, até porque equações, inequações, números negativos e análise sintática estavam preenchendo aquele tempo ferido pela tristeza, mas longe da escola eu queria pensar um pouquinho em mim, descansar o corpo e a alma.
Na volta das férias, entretanto, eu estava morrendo de saudades da Tita e a convidei para passar à tarde comigo. Ela vinha falando do Adolfo, encontrando alguma brecha para ouvir o nome dele ou mencionar ou saber o que eu achava daquilo tudo.
Eu já sabia, só queria ouvir seus lábios dizendo sem amarras... Ela está apaixonada pelo Adolfo. E ele por ela.
Isso não é demais?
Queria saber o que eles estão esperando para acabar com essa lengalenga, esse chove-não-molha que não dá em nada, que não os leva a lugar algum.
Se ela esperá-lo tomar a iniciativa, precisará de uma cadeira. Ele, eu nem preciso falar. Tímida como é, a Tita está envergonhada dos seus sentimentos, chorando, amedrontada de beijar na boca, com as borboletas no estômago, pelo fato de estar realmente gostando de um menino porque para ela essa situação é nova.
― Tita, quantas vezes eu vou precisar dizer que nem tudo o que está escrito nas revistas é verdade?
— Mas eu li que... ― Lá vinha a minha melhor amiga insegura ler aquele blá-blá-blá de revista.
— Esquece o que você leu. Esquece isso. Esquece tudo. Sei que posso até ser grossa, mas espremendo essas revistas, só dá porcaria, bem pouca coisa se acrescenta, tipo, as letras de músicas e talvez uma coisa ou outra, mas levar tudo o que é dito ao pé da letra, francamente, amiga, é uma burrice...
― Mas...
— Tita, quem garante que essas histórias são de verdade? Alguém pode muito bem ter inventado aquilo.
― Se eu tomar a iniciativa, ele vai me achar oferecida.
— Amiga, se você ficar nesse enrola-enrola, vai continuar nessa angústia!
Simplifiquei a situação porque estando entre os envolvidos, possuía conhecimento pleno dos dois lados da encrenca, e com isso, compreendia que o silêncio profundo que se enrolava entre eles seria altamente prejudicial. O orgulho pode ser uma armadilha letal para a paixão.
― De um jeito ou de outro, você vai ter que resolver essa situação, encarar isso. Juro que com o Tadeu também não foi tudo perfeito e fácil, mas enquanto eu ficava naquela de esconder, de ficar com medo, o tempo só ia passando e eu ali fingindo para mim mesma que um dia ia reagir... eu tive que falar, fui eu que tomei a iniciativa...
— Não posso fazer isso!
— Só uma coisa, Tita: você me acha uma puta?
― Não! Claro que não!
― Você acha que eu não tive medo? ― Insisti. — Se tivesse esperado que o Tadeu fosse fazer o mesmo, quem garante que ele teria feito se era tão tímido quanto eu?
― Ele não gosta de mim, é diferente do Tadeu.
— Diferente no quê? O Tadeu já tem outra pessoa.
― O Tadeu sempre gostou de você.
— Colocou muito bem. Ele gostava. Quem gostava, não gosta mais.
― E você sente raiva dele por isso?
— No começo eu me senti traída e magoada, mas depois entendi que se eu estou aqui e fiquei com o Guto, ele também pode ficar com a Ângela e ser feliz. Se duas pessoas não estiverem unidas pelo amor, que graça tem? E se o Tadeu não me vê do jeito que me via antes, eu não posso fazer mais nada, não posso obrigá-lo a ficar comigo se ele não quer, não seria justo nem legal.
― O Adolfo deve só me ver como amiga, não deve gostar de mim do mesmo jeito que o Tadeu gostava de você.
― Por que não gostaria? Ele já me confessou, eu sei faz tempo, ele não está nem aí para nenhuma outra menina, só pensa em você, só fala de você...
— Eu não vou saber beijar.
― Como eu te disse, ele também nunca beijou ninguém, também tem esse mesmo medo, mas às vezes para ser feliz a gente precisa engolir o choro e ir com medo mesmo...
Já que eu evito usar nomes “feios”, vocês devem entender que eu realmente me irrito com essas revistas, leio por ler. Esclareço minhas dúvidas com a minha mãe, a Tia Marlene e em último caso a Prof.ª Filomena que é muito inteligente, culta e uma boa conselheira. As revistas mostram uma realidade em que eu não me encaixo.
― Você conversa com a Naná? Ela é uma chata!
— Tita, a professora Naná não é chata ― adverti. — Ela é uma pessoa mais introvertida e séria, isso não quer dizer que ela seja má e perversa. Não vá na onda da Cássia, desse povinho idiota, não julgue a Naná pelas roupas que ela veste, julgue alguém pelo caráter, mas não julgue sem base, tente se colocar no lugar quando não souber o que fazer.
― Você é amiga da Naná?
— Sim, eu sou.
― Mas como é que eu nunca vi vocês duas conversando?
— Somos amigas fora da escola.
Posso dizer sem dúvida alguma que Naná e eu somos... amigas!
Filomena e o esposo frequentam a mesma sessão espírita que os meus tios. Às vezes ela chora nas reuniões, principalmente quando oram pelas crianças. A Tia Marlene me contou que a filhinha mais nova da Naná morreu afogada quando tinha oito aninhos. Se viva fosse, a menina Inês Dias teria uns 13 anos ou 14, se não estou enganada.
Filomena tenta levar a vida, mas uma parte dela se foi com a Inês. Ela vive porque é o que lhe resta, culpando-se em silêncio pelo que aconteceu, no entanto creio que tenha sido uma fatalidade, um acidente. Pensar que em outra dimensão mãe e filha irão se encontrar conforta o coração dessa senhora que leciona Língua Portuguesa por amor mesmo que os docentes não sejam valorizados, que o salário não faça justiça à responsabilidade, que poucos sejam os que realmente a escutam. Ainda assim, essa heroína sem distintivos e poderes especiais não desiste de lecionar.
Eu nunca disse a ninguém que quando crescer eu quero ser parecida com a Filomena. Eu quero ser como ela que dedica a sua vida a uma causa nobre, por amor — evitando a vaidade que deixa as pessoas egoístas e cegas pela adulação, intolerantes a críticas, sentindo-se mais importantes do que realmente são —, alguém que se sente satisfeita por trabalhar, que nunca deixa de aprender, nunca acha que sabe o bastante (mesmo sabendo tantas coisas). Ela é a minha “ídola”. Não preciso de um autógrafo, tenho algo mais precioso que uma assinatura num papel: o carinho dela.
Na escola a Naná é detestada por ser aquela professora linha dura que não dá moral para vagabundo, por isso a Cássia e a sua corja a odeiam. Eu acho que a minha amiga está certa. Os alunos têm que respeitar o professor, independente de gostarem dele ou não. Como essas pessoas vão viver em sociedade se não sabem respeitar nada nem a ninguém?
Eu sou chata. Não trocaria minha chatice para ser legal nos conceitos de algumas pessoas e espero que a Tita não faça isso por nada no mundo.
A Naná foi à única que leu meus poemas. E gostou muito. Disse que minhas palavras têm um entrosamento legal, que tenho criatividade para escrever. Ela me garantiu também que a poesia é uma obra de arte, que quando as pessoas lerem vão agregar o significado que quiserem. Ela me sugeriu fazer uma salada mista com as letras, brincar com as métricas, não ter medo do papel em branco.
Com certeza eu vou levar isso para o resto da vida.
Não ter medo. Da própria vida.
O medo pode proteger, mas há de tirar o chão, distorcer a visão, estragar uma tela rabiscada. Ele vai cegar. Afastar. Adoecer. Se não servir de incentivo para o enfrentamento, melhor não lhe dar ouvidos.
As palavras ardem na ponta da caneta.
O poeta incendeia a inspiração.
A combustão do amor afugentou o medo.
Não precisou falar muito mais,
Tudo o que precisava dizer já foi dito.
Eu só fiz do meu jeito, porque tinha de ser feito.
Não amo a matemática, ela também não me ama, mas nunca antes eu quis tanto que as férias de julho acabassem.
Vai ter o lado ruim. Cássia, Erick, o exército de analfabetas funcionais. Mas penso no lado bom: aulas da Filomena, Tita, Adolfo e quem sabe um primeiro beijo, não?
Nunca antes eu torci tanto para chegar a segunda-feira, mesmo que saiba que não vou poder ver o Sai de Baixo até o final, mesmo assim vai ser legal.
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